quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Crescer em grupo


Ultimamente tem-se falado muito de um acontecimento trágico que também me tem dado que pensar. Tem-me dado que pensar, em primeiro lugar, porque desde que sou mãe que me sinto muito mais impressionada por todos os relatos de pais que perdem os filhos e nem consigo imaginar o sofrimento porque estarão a passar os pais dos jovens que morreram tragicamente na praia do Meco há cerca de um mês atrás.
Mas tem-me dado que pensar também por causa do suposto contexto de praxes em que tudo parece ter ocorrido. E tem-me dado que pensar sobretudo porque acredito que se vivêssemos numa sociedade onde fossem mais divulgados os benefícios de uma parentalidade com apego e nos preocupássemos menos com a suposta independência das crianças os comportamentos que vemos em tantas praxes não aconteceriam. Pelo menos não tão facilmente.

O ser humano tem uma necessidade instintiva de pertencer a um grupo. As praxes que vemos nas universidades são fruto dessa necessidade numa sociedade em que é cada vez mais difícil sentirmos-nos verdadeiramente inseridos em grupos e vivemos cada vez mais solitários. Antigamente, nas sociedades mais tradicionais, nascíamos e estávamos naturalmente inseridos no grupo da família alargada que vivia mais ou menos próxima e no grupo da aldeia de que faziam naturalmente parte uma série de rituais que reforçavam esse sentimento de pertença. Hoje em dia tudo isso se perdeu, a família vive cada vez mais distante, os pais passam cada vez menos tempo com as crianças e, na maior parte dos casos, já não há rituais que nos façam sentir que pertencemos a grupo nenhum. Jonathan Haidt, um psicólogo e investigador na área da psicologia Moral, defende que o homem é parte macaco e parte abelha, ou seja, estamos de facto programados para viver em grupo e funcionamos muito melhor quando conseguimos fazê-lo. Não é por acaso que gostamos da sensação de estar num concerto, num jogo de futebol ou numa manifestação, por exemplo, sempre que temos oportunidade de nos sentir parte de um grupo de pessoas com os mesmos ideais ou os mesmos objectivos, o nosso lado abelha fica mais activo e podemos facilmente experimentar uma sensação de realização ou até de euforia, por vezes. Então o fenómeno das praxes passa por isso mesmo, por um grande desejo de pertença e de entrada num grupo.
Tudo isto é natural e, até certo ponto desejável, porque é justamente este nosso desejo de pertença e de sermos aceites que nos permite trabalhar bem em conjunto e pensar no bem comum e é também através da tomada de consciência de que temos este lado gregário, de abelha que podemos encontrar formas saudáveis de o preencher, tornando a nossa vida mais feliz e preenchida.
Mas, acontece que se passamos a infância dos nossos filhos a negar essa interdependência para a qual estamos programados e a querer torná-los independentes o mais cedo possível então estamos apenas a criar-lhes um vazio que, mais tarde ou mais cedo, terá que ser preenchido. E, quando estamos muito desesperados para preencher esse vazio, às vezes fazemos até coisas que nos podem por em perigo. Não estou a dizer que foi isto que aconteceu com os seis jovens do meco porque não conheço todos os factos para fazer tal afirmação mas estou a dizer que, o que aconteceu com eles, poderia ter acontecido com tantos outros jovens sedentos de aprovação e desse sentimento de pertença.
Também não estou a culpar os pais dos jovens que se envolvem neste tipo de comportamento. Mas, a verdade é que, como sociedade, todos nos devíamos sentir não culpados mas sim responsáveis pelo que aconteceu. Todos nos devíamos perguntar que tipo de jovens estamos a criar que precisam de se envolver  em comportamentos daqueles que vemos associados às praxes mais violentas para obterem algum sentimento de realização pessoal. Enquanto pais e cidadãos todos nos devíamos questionar sobre o que é precisa de ser mudado quando vemos jovens, ano após ano – porque este comportamento não é de agora – envolvidos em comportamentos que metem violência, humilhação e até riscos para integridade física dos seus colegas.
E, para mim, aquilo que precisa urgentemente de ser mudado é a forma como vivemos a infância dos nossos filhos. Porque, em primeiro lugar, os nossos filhos precisam de sentir que pertencem quando estão ao nosso colo, quando estão junto a nós. O primeiro grupo em que nascemos é a família e é fundamental que os nossos filhos saibam que pertencem à nossa família, é essencial que se sintam parte desse grupo antes de mais. Depois, podemos ensiná-los a encontrar outros grupos à medida que vão crescendo mas sempre com a segurança de saberem que a base, pelo menos, está formada. Com a segurança de saberem que, pelo menos, àquele grupo da família pertencem.
Precisamos também de lhes ensinar que os seus sentimentos, contam, são válidos, são importantes e preciosos. Um bebé que chora e que vê o seu choro respondido, ou uma criança que está zangada ou frustrada e sente que os pais acolhem esses sentimentos, cresce a saber identificar as suas emoções, a reconhecê-las e a dar-lhes valor. Um jovem que está habituado a valorizar as suas emoções é alguém que muito dificilmente se deixar levar por algum comportamento que as agrida. Um jovem que está habituado a estar em contacto com as emoções é alguém que, dificilmente, as ignorará ao ponto de por em risco a sua integridade física ou emocional apenas para preencher esse sentimento de pertença ou por outros motivos.
Para além disso uma criança que cresce com pais atentos às suas necessidades também é uma criança que tem muito mais probabilidades de ter um comportamento empático o que a impedirá de colocar outros em risco ou de retirar algum tipo de prazer do seu sofrimento ou humilhação. Uma criança que cresce com pais atentos às suas necessidades muito mais facilmente estará atenta às necessidades dos outros, porque vendo as suas necessidades atendidas e satisfeitas sobra-lhe muito mais disponibilidade para reparar nas dos outros. Ao contrário do que que muitas vezes pensamos aquilo a que chamamos crianças mimadas não são crianças que tiveram pais que respeitaram as suas necessidades, são justamente o oposto: são crianças com falta de mimos.
Porque tudo começa na infância, porque acredito que tudo começa na forma como tratamos os nossos filhos, também acredito que se queremos uma sociedade onde não sejam aceites comportamentos violentos, agressivos ou de humilhação, então temos que primeiro não o fazer com os nossos filhos. Ficamos chocados quando vemos jovens aos gritos uns com os outros, a dar ordens, a chamar nomes, a humilhar, então porque é que tantas vezes achamos que esta é a forma de educar os nossos filhos. É verdade que, no caso das praxes, não há nenhum ensinamento importante por trás e, com os filhos, muitas vezes achamos que gritamos porque precisamos de lhes ensinar qualquer coisa. Mas, a verdade é que, quando gritamos, batemos ou humilhamos a única coisa que estamos verdadeiramente a ensinar é que estes são modos válidos de tratar alguém. Então se queremos uma sociedade onde este tipo de coisa não aconteça, se queremos uma sociedade sem praxes violentas ou humilhantes, comecemos por não o fazer com os nossos filhos.
Isto não quer dizer que devemos sentir-nos culpados se por vezes gritamos ou damos ordens de forma um pouco mais agressiva - afinal todos fazemos o melhor que sabemos com as possibilidades que temos e todos os pais querem o melhor para os seus filhos - mas quer dizer que, sempre que o fizermos, devemos ter consciência de que o fizemos porque não soubemos fazer melhor. Quando gritarmos com os nossos filhos devemos ter noção de que o fazemos por nossa causa, porque não fomos capazes de encontrar outra estratégia para lidar com a situação, e não por causa deles. E, sempre que o fizermos, podemos e devemos mais tarde pedir desculpa, reparar a relação. É importante ter noção de que cada grito, cada castigo, cada humilhação os afasta mais um pouco de nós e lhe retira esse sentimento precioso de pertença. E se não fizermos nada para os aproximar de novo, se não formos capazes de fazer qualquer coisa para reparar a relação como dizer-lhes simplesmente que compreendemos a sua zanga, a sua frustração ou que não soubemos fazer melhor - ou não dizer nada mas apenas dar-lhes um beijo e um abraço - então vamos estar a afastá-los cada vez mais de nós. E com cada afastamento corremos o risco de que um dia a distância seja tão grande que eles já não saibam voltar. 
Acredito que todos os pais querem o melhor para os seus filhos mas também acredito que acontecimentos trágicos como este precisam de nos fazer pensar. E, para pensar, não adianta apenas encontrar consequências ou proibições para os envolvidos em comportamentos mais violentos mas é preciso encontrar as causas e perceber o que é que todos podemos fazer diferente para que não voltem a repetir-se. 
Porque mesmo que a morte trágica destes seis jovens tenha sido apenas um acidente e não esteja directamente relacionada com as praxes - não temos informação suficiente para saber o que realmente se passou - o que é certo é que veio despertar a atenção para comportamentos que, infelizmente, se tornaram comuns nas nossas universidades e que podem facilmente vir a acabar noutras tragédias parecidas. 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Separações com Apego


Os divórcios ou separações são sempre alturas complicadas e difíceis tanto para os pais como para as crianças e, por vezes, na tentativa de fazer aquilo que achamos que é justo esquecemos-nos que as crianças não vêem o mundo exactamente com os mesmos olhos que
nós e que têm necessidades muito diferente das nossas. Então, para manter a possibilidade de criança crescer numa relação segura, estável e de confiança com os dois progenitores há que ter em conta alguns aspectos que são fundamentais para o seu bom desenvolvimento. É do interesse de todas as crianças terem a melhor relação possível com ambos os pais mas para que essa relação se desenvolva da melhor forma é preciso termos noção da fase de desenvolvimento em que a criança se encontra e das necessidades específicas de cada fase. Neste texto falamos principalmente de crianças pequenas nos casos em que estas vivem com a mãe que são, quase sempre, a maioria. Mas, nos casos em que a mãe, por algum motivo não esteve presente desde o início de vida da criança, tendo esta estado sempre com o pai, pode perfeitamente ser este a relação de apego primária e orientadora da criança.
Apego – A base que define a nossa relação com o mundo (ver artigo mais completo sobre este tema) 
O conceito de Apego foi introduzido pelo pelo psiquiatra e psicanalista inglês Jonh Bowlby nos anos 50 que chamou a atenção para o facto de existir, em todos os bebés, uma necessidade inata de estabelecerem um vínculo com uma figura de referência. Esta necessidade, segundo Bowlby, estaria presente em todos os seres humanos cumprindo a função de manter o bebé próximo da mãe de forma a garantir a sua sobrevivência, uma vez que os seres humanos nascem num estado de total dependência.
Então como seres humanos nascemos programados para estabelecer relações das quais irá depender a nossa sobrevivência mas também a formação de aspectos essenciais da nossa forma de nos relacionarmos com o mundo. Esta primeira relação que estabelecemos geralmente com a mãe - ou com outra pessoa que tome o lugar desta e que cuide da criança durante a maior parte do tempo - é a base, ou o molde, através do qual iremos estabelecer todas as relações importantes da nossa vida futura.
É com a nossa mãe que aprendemos o que esperar do mundo, da vida e das relações. Resumidamente, uma mãe que responde às necessidades do filho com afecto e cuidado mostra-lhe que o mundo é um lugar agradável e ensina-lhe que os relacionamentos com os outros podem ser uma fonte de prazer e que as suas necessidades são importantes. Uma mãe que não responde às necessidades do filho está a ensinar-lhe que as suas necessidades não importam e que os outros não são uma fonte segura e estável de conforto ou segurança.
Existem hoje em dia vários estudos que demonstram que as crianças que têm oportunidade de estabelecer um apego seguro com os seus pais são crianças mais confiantes, mais autónomas, mais integradas, com menos problemas de comportamento e melhor aproveitamento escolar, mais capazes de estabelecer bons relacionamentos interpessoais e, há até estudos, que relacionam este vínculo seguro com uma melhor saúde na idade adulta.

Existem alguns pontos importantes para que a criança tenha possibilidade de estabelecer um vínculo seguro com a sua mãe.


  • Responder prontamente ás necessidades da criança – com os bebés, os pais que respondem ao choro dos filhos mostram-lhes que as suas necessidades são importantes e, ao mesmo tempo, que estes têm a capacidade ou o poder de interagir e de alterar as suas condições de vida. Respondendo ao choro das crianças, os pais ensinam-lhe que estão presentes quando é preciso e que podem contar com eles. Com crianças mais velhas é fundamental saber dar-lhes ouvidos e, quando não nos é possível atender aos seus pedidos, precisamos de lhes mostrar que compreendemos os seus sentimentos estabelecendo uma ligação empática em que a criança se sinta ouvida e aceite. 

  • Estar presente na vida da criança – para que se estabeleçam laços antes de mais é preciso tempo. As figuras de referência para a criança, sobretudo nos três primeiros anos de vida, têm de estar presentes durante uma boa parte do tempo. As crianças antes dos 3 anos não têm capacidade de interiorizar a figura da mãe, isto quer dizer que, para criança, se a mãe não está presente naquele momento em que precisa dela é porque nunca estará. Assim, as ausências demasiado longas, facilmente são sentidas como um abandono por parte da criança que ainda não percebe que a mãe gosta de si mesmo quando não está com ela. Com o tempo a criança aprende a interiorizar a imagem da mãe e a perceber que pode contar com ela mesmo que esta não esteja presente mas isto não acontece antes dos três anos. 

  • Não recorrer a uma rotatividade grande de cuidadores – Uma criança antes dos dois anos de idade não tem capacidade de estabelecer vínculos profundos com muitas pessoas ao mesmo tempo.  

  • Amamentar – dar de mamar é uma excelente forma de promover o vínculo, é uma forma de o bebé sentir o contacto com o corpo da mãe, de se acalmar e também uma forma da mãe se sentir capaz e confiante de que sabe tratar do seu filho. 

  • Promover o contacto físico - isto é fundamental sobretudo nos bebés em que o contacto físico com a mãe ajuda o bebé a auto-regular o seu sistema nervoso e respiratório. Mas é muito importante também nas crianças mais velhas em que o toque e contacto físico ajudam a libertar hormonas associadas a uma sensação de bem-estar e de tranquilidade. 

  • Respeito – é essencial tratarmos com respeito as necessidades das crianças para que elas se sintam ouvidas, compreendidas e aceites. Isto implica que sejamos capazes de as ouvir e de ver o mundo através dos seus olhos mesmo nas alturas mais exigentes.
Estabelecer relações seguras com o pai e com a mãe quando estes não vivem juntos
 Os primeiros estudos sobre o apego direccionavam-se sobretudo para importância da figura materna. Hoje em dia sabemos que, apesar da mãe ser a primeira figura de referência para a criança, é possível e desejável que esta estabeleça também uma relação segura com o pai. Na verdade, há estudos que demonstram que se a criança tiver uma relação segura com os dois pais terá ainda maiores probabilidades de se tornar um jovem confiante, autónomo, bem inserido e capaz de levar uma vida feliz e preenchedora. Sabemos que, durante o primeiro ano da sua vida a criança está mais direccionada para estabelecer um vínculo com a mãe. Se o pai estiver presente desde o ínicio e suficientemente envolvido com a vida e a rotina da criança desde o primeiro dia, criam-se as condições necessárias para que – geralmente mais a partir do segundo ano de vida – a criança comece também a ser capaz de estabelecer um vínculo seguro com este.

A partir do seu segundo ano de vida a criança começa também a ser capaz de estabelecer algum apego secundário a figuras que estejam com frequência e regularidade presentes na sua rotina, como os avós, por exemplo. Mas, a condição essencial para que estas ligações se estabeleçam de forma harmoniosa é que a ligação com mãe seja boa. A ligação com a mãe forma a base que dá à criança a capacidade de se aventurar no mundo e de descobrir novas relações. Se a criança se sentir segura e bem acolhida na relação que tem com a sua mãe, mais facilmente terá a disponibilidade necessária para estabelecer ligações significativas com o resto das pessoas da sua vida. Sobre essas relações sabemos que há um aspecto importante para que se desenvolvam da melhor forma: a presença constante e regular dessas pessoas na vida da criança. Sabemos também que, antes dos três anos de vida, a criança simplesmente não tem capacidade de estabelecer relações significativas com um número muito grande de pessoas. A sua capacidade de se relacionar com mais pessoas começa a aumentar um pouco a partir dos três anos, mas, ainda assim, esta capacidade será tanto maior quanto melhor for a relação que a criança tem com a mãe e quanto mais for capaz de a sentir como a sua base segura a quem pode sempre recorrer nas situações mais assustadoras para a ajudar a regular as suas emoções.

Quando os dois pais da criança não estão sob o mesmo tecto, há alguns aspectos que é essencial ter em conta para que o estabelecimento de um vínculo seguro não seja afectado e para que esta possa manter uma relação segura com ambos os pais.

Em primeiro lugar é muito importante distinguir os casos em que os pais viveram juntos quando a criança nasceu e aqueles em que os pais nunca chegaram sequer a viver juntos com o filho. No primeiro caso, se o pai esteve presente, com regularidade durante os primeiros meses ou anos de vida da criança, estão criadas as bases para que mais facilmente esta possa manter uma boa relação com ele.

No caso de crianças que nunca viveram com o pai é preciso ter noção de que, para que a criança possa estabelecer uma boa relação com este precisamos de, em primeiro lugar, dar-lhe a possibilidade de estabelecer uma relação segura com a mãe. Então isto quer dizer que, antes dos três anos, é muito importante que a criança não fique longe da mãe muitas horas para que não se sinta abandonada por esta. Uma criança desta idade não tem capacidade de perceber que a mãe gosta de si mesmo quando está ausente por isso todas as ausências prolongadas (mais de 24 horas) são sentidas como abandonos que podem ter consequências marcantes para a relação da criança com a mãe.

Se a criança nunca viveu com o pai e se este não esteve diariamente presente na sua vida desde o nascimento, então podemos afirmar que ainda não existe um vínculo com a figura paterna. Nestes casos, claro que será importante para vida da criança e para o seu bem-estar criar vínculo mas, para que isto funcione a seu favor devem ser observadas algumas regras básicas. Em primeiro lugar é preciso que a relação com a mãe seja vista como prioritária: é através de uma boa relação com a mãe que a criança poderá ter a segurança necessária para estabelecer uma boa relação com o pai. Então, no caso de a criança não ter ainda uma boa relação com o pai, o ideal é que as primeiras visitas ocorram na presença da mãe. Com a presença da mãe a criança sentir-se-á mais facilmente segura para inicar a relação com o pai. Depois de algumas visitas na presença da mãe, a criança poderá então começar a passar algumas horas com o pai mas, com encontros que não sejam muito prolongados. È importante que as primeiras saídas com o pai não se prolonguem demasiado (não mais de duas horas para crianças com menos de 2 anos e não mais de três para crianças com menos de 3) para que esta se sinta confiante e confortável e possa assim mais facilmente estar disponível para se relacionar com pai. Se durante a saída com o pai a criança chorar e pedir muito a presença da mãe também é muito importante que lhe seja permitido estar novamente com a mãe. Se a criança sentir que o pai respeita as suas necessidades e que está pronto para lhes responder – incluindo a sua necessidade de estar com a mãe – mais facilmente esta aprenderá a confiar nele o suficiente para se estabelecer uma ligação de confiança.

Então para crianças de idade inferior a três anos ou para crianças que nunca viveram com o pai e que ainda não têm um vínculo seguro com este, o ideal será que o pai tenha uma presença regular e frequente na vida da criança mas sem que isto implique que ela passe muito tempo seguido longe da mãe. Na prática isto pode traduzir-se por várias visitas ou saídas semanais do pai com a criança mas todas com uma duração relativamente curta. Por exemplo, em vez do pai passar todo o fim de semana com a criança sem que esta veja a mãe durante mais de 48 horas, o pai pode ir passear com a criança durante algumas horas no sábado à tarde, voltar a trazê-la a casa e ir buscá-la outra vez no domingo de manhã ou de tarde. Durante a semana o pai também poderá estar com a criança duas ou três vezes durante uma ou duas horas. Pode levá-la a jantar consigo, um dia por semana, por exemplo, e noutro dia ir com ela até ao parque. Isto será provavelmente menos prático e mais trabalhoso para os adultos mas dará muito mais segurança à criança e a possibilidade de estabelecer verdadeiramente um vínculo com ambos os pais de forma harmoniosa e com respeito pelas suas necessidades.

Há que ter em em conta que, nos primeiros três anos de vida o cérebro das crianças está em grande desenvolvimento, é uma fase em que são criadas e eliminadas milhares de ligações cerebrais, por isso é uma fase de grande receptividade e em que todas as experiências vão contribuindo para moldar o cérebro e a personalidade da criança e têm um efeito muito marcante em toda a sua vida futura. Por isso é de todo o interesse que neste período mais delicado da sua vida os adultos façam um esforço para que tudo se desenrole da forma mais harmoniosa possível. É também nesta altura que está a ser moldado o sistema de resposta ao stress da criança e sabe-se que as situações de stress demasiado prolongado ou intenso podem causar algumas alterações neste sistema que tornarão a criança, no futuro, muito mais vulnerável a situações de stress e muito menos capaz de lidar com os desafios. Para uma criança com menos de três anos uma ausência prolongada da mãe pode já ser sentida como uma situação de stress que se tornará ainda mais intensa se durante este tempo esta estiver com uma pessoa com quem ainda não tem uma relação segura e um vínculo bem estabelecido.(ver artigo mais completo sobre o efeito das ausências da figura materna) 

Com crianças de idade inferior a três anos – mesmo havendo já uma relação de confiança com o pai – pode ser ainda importante que a mãe esteja presente na hora da criança dormir e que lhe seja permitido dormir na casa em que vive. A hora de dormir é sempre uma hora de vulnerabilidade, em que a criança se sente mais frágil e em que a presença da mãe se torna ainda mais importante para que a criança se sinta segura. Com uma criança maior de três anos, em que a relação com o pai já esteja bem estabelecida, a criança pode começar por dormir apenas uma noite com o pai, mas sempre se esta estiver de acordo e se sentir confortável para o fazer. A partir dos três anos, se a criança se sentir já confortável e com uma boa relação com o pai, então as ausências da mãe poderão começar a ser um pouco mais prolongadas, mas sempre de uma forma gradual e com consentimento e conforto da criança. É fundamental que a criança se sinta confortável com o pai e que saiba que não é forçada a estar com ele contra a sua vontade. Quando a criança se sente forçada a estar com um adulto com o qual não se sente totalmente confortável aquilo que aprende é que os seus sentimentos não estão a ser valorizados que as pessoas que cuidam de si não os respeitam. Isto irá dificultar a construção de uma relação de confiança com a mãe – porque a criança não consegue perceber porque é que esta não é capaz de a ir buscar e de a impedir de estar com aquela pessoa – e com o pai – porque este não o leva de volta à mãe com quem a criança queria estar.

Os casos em que as crianças viveram algum tempo com o pai a relação com este já está bem estabelecida são um pouco mais simples porque a criança já se sente segura com o seu pai mas, mesmo assim, antes dos três anos a presença da mãe deve ser constante o suficiente para que a criança não se sinta abandonada por ela uma vez que, nesta idade, a criança ainda não consegue perceber as explicações que lhe possam ser dadas para esta ausência.

Regime de visitas quando a criança ainda mama
 Sabemos que ausências maiores de 24 horas podem prejudicar a amamentação, então, sobretudo nos casos de crianças menores de três anos, mas também nas mais velhas, devem ser feitos todos os esforços para que esse prejuízo não ocorra limitando o tempo de ausência da criança em relação à mãe. Hoje em dia existem já alguns estudos que mostram que a amamentação prolongada (para lá dos dois anos) tem benefícios de saúde para a criança e contribuiu para a proteger de doenças, fortalecendo o seu sistema imunitário que ainda se encontra num estado de imaturidade durante os primeiros anos de vida e que vai assim recebendo vários anticorpos através do leite materno. Mas, para além destes benefícios a amamentação também é uma importante fonte de conforto e de segurança que importa preservar enquanto a criança necessitar dela. Se a criança está habituada a mamar a meio da noite, ou se costuma dormir com a mãe, também se sabe que esse conforto pode ser uma importante fonte de segurança e de bem-estar que é importante respeitar para que a criança cresça de forma harmoniosa e saudável. Aqui também é importante salientar que não existe nenhum estudo que demonstre que a amamentação prolongada poderá ter algum impacto negativo na vida da criança: antes pelo contrário, tudo indica que esta poderá ser importante não só a nível de nutrientes e do funcionamento do sistema imunitário mas também poderá dar um importante contributo para que a criança se sinta segura e apoiada. De acordo com as investigações antropológicas, a idade natural do desmame para a espécie humana, andará algures entre os 2 e os 7 anos de idade.

O relacionamento com os avós
Acontece também muitas vezes, nos casos em que a criança não vive com o pai, que a criança não fica privada apenas da presença deste mas de toda a família paterna. Uma boa relação com os avós, de ambas as partes, também pode ser importante para o crescimento da criança até porque as famílias têm sempre visões e características diferentes e, por isso, pode ser também enriquecedor expor a criança a esses diferentes ambientes. Mas, nestes casos, os cuidados que existem com o pai, devem aplicar-se também de forma idêntica aos avós, sendo mais uma vez de distinguir os casos em que havia uma relação antes do divórcio e aqueles em que apenas se tenta estabelecê-la quando a criança já está um pouco mais crescida.
Em ambos os casos, com crianças pequenas, mais uma vez devemos ter noção de que a mãe continua a ser a referência principal da criança. E, tal como com o pai, a aproximação com os avós deve ser feita de forma gradual, primeiro na presença da mãe, de preferência. Com toda a importância que terá o estabelecimento da relação da criança com os avós, a prioridade deve ser sempre o estabelecimento da relação com o pai e só depois com estes.
Por último resta ainda lembrar que é fundamental que, tanto o pai como os avós, sejam capazes de respeitar as opções da mãe mesmo que não concordem com estas. Nestes casos é muito comum que haja desacordos em relação à forma de educar mas, tendo em conta que a criança vive com a mãe e que é com esta a sua relação prioritária – pelo menos nos seus primeiros anos de vida – não é de todo do seu interesse que os avós ou o pai contrariem as regras impostas pela mãe. Uma criança pequena começa a perceber como é que o mundo funciona e que existem algumas regras e limites importantes, se eles limites ou regras são radicalmente diferentes de uma casa para a outra, isso só contribuirá para gerar insegurança e confusão na cabeça da criança.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Workshop sobre Parentalidade Consciente

No próximo Sábado, dia 25, vou orientar no Espaço Vida, em Lisboa, um workshop sobre parentalidade consciente. Será um dia dedicado a explorar formas de criarmos ligações mais profundas com os nossos filhos, ajudando-os a crescer mais felizes e seguros mas também criando uma forma de podermos mais facilmente desfrutar de todos aspectos maravilhosos de se ser pai ou mãe de uma criança.
É dedicado a todos os pais, futuros pais ou simplesmente pessoas interessadas em educar de uma forma mais consciente, holística e intuitiva. E, claro que, sendo este um workshop dedicado à parentalidade com apego, para os pais que quiserem trazer os seus bebés, saibam que estes serão bem vindos.

 b                                                              Ver aqui o programa


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Mães que trabalham


Há tempos li numa revista uma entrevista a uma pessoa do governo em que esta falava um pouco da sua vida familiar, do pouco tempo que tinha ficado em casa depois da sua filha nascer mas de como tentava chegar sempre cedo, saindo do ministério pelo menos a tempo de jantar em casa com os seus 4 ou 5 filhos. Não quero fazer aqui julgamentos sobre o facto desta mulher ser má ou boa mãe, nem acredito que uma mãe se torne pior por investir na sua carreira. Mas, a verdade, é que como pessoa pública esta senhora, para mim, tornou-se um símbolo de algo que me incomoda bastante hoje em dia: da ideia de que é possível ser-se boa mãe e, ao mesmo tempo que se investe na carreira e se trabalha durante várias horas por dia mesmo com filhos pequeninos em casa. Não sou contra a ideia das mães trabalharem, antes pelo contrário, mas sou definitivamente contra a ideia das mães de crianças pequenas trabalharem várias horas por dia e verem os filhos apenas uma ou duas horinhas por dia no meio dos banhos, dos jantares e da hora de deitar.
Hoje em dia é muito veiculada a ideia de que é possível ser-se bom pai ou boa mãe desde que se dedique aos filhos uns minutos de qualidade todos os dias mas a verdade é que uma criança com menos de dois anos não consegue formar um vínculo seguro e estável com uma mãe que vê apenas poucas horas por dia. Se não aceitamos que alguém possa construir uma carreira importante trabalhando em part-time, como é que podemos acreditar que seremos boas mães se o formos apenas em part-time nos primeiros tempos de vida dos nossos filhos?
Ser mãe de uma criança pequena implica uma total disponibilidade para estar com essa criança, para a conhecer, para criar um vínculo com ela e para lhe dar o tempo e a segurança necessárias para que ela possa criar um vínculo connosco. E isto não pode fazer-se ao mesmo tempo que nos preocupamos com trabalhos exigentes e que nos tomam demasiado o tempo e a cabeça. Para que uma criança cresça saudável e possa tornar-se um adulto seguro, confiante e com todas as bases para se sentir feliz e realizado com a vida precisa de estabelecer um vínculo seguro com os seus pais. No primeiro ano de vida normalmente a criança estabelece mais facilmente esse vínculo com a mãe e, no segundo ano, se tudo correr bem e se este estiver disponível, passa a estar mais disponível para o estabelecer também com o pai. Mas, para que esse vínculo se estabeleça a mãe tem de estar presente, verdadeiramente presente, não basta a presença física mas é essencial que haja uma presença afectiva uma total disponibilidade emocional para estar com a criança, para a acolher, para responder às suas necessidades. Hoje em dia fala-se muito do Ambiente de Adaptabilidade Evolutiva: esta expressão tem origem nos trabalhos de John Bowlby que defendia que os seres humanos nascem programados para estabelecer um vínculo com as suas mães –ou com outra figura substituta que esteja presente durante a maior parte do tempo – e que apresentam um leque de comportamentos instintivos que têm como finalidade ajudar à formação desse vínculo que é essencial para o seu bom desenvolvimento e que formará a base de todas os relacionamentos futuros.(ver artigo) Então para Bowlby - que baseou os seus estudos na observação do comportamento animal, da interacção entre mães e filhos em diversas culturas e na observação de crianças institucionalizadas - a presença da mãe era uma parte integrante do ambiente de adaptação evolutiva da espécie humana. Isto quer dizer que o ser humano evoluiu num ambiente onde a mãe estaria presente durante a esmagadora maioria do tempo nos primeiros tempos de vida das crianças.
Nas sociedade mais tradicionais – tal como acontecia no ocidente algumas décadas atrás – a tendência é para que a mãe esteja presente durante a esmagadora maioria do tempo, pelo menos durante o primeiro ano de vida da criança, sendo que esta presença pode começar a diminuir gradualmente ao longo dos primeiros anos. Então isto quer dizer que este é o Ambiente de Adaptação Evolutiva óptimo para a espécie humana, é com este ambiente que estamos preparados para lidar e é para este ambiente que fomos programados: o bebé humano, quando nasce está preparado para esperar uma presença quase constante da mãe nos seus primeiros tempos de vida.
            Só muito recentemente, nas sociedades ocidentais, é que a mulher começou a passar mais tempo no local de trabalho do que em casa -  quer por questões de realização pessoal quer por questões financeiras - o que é certo é que isto é muito recente na história da humanidade e o que também é certo é que nunca conhecemos tantos casos de depressão, de ansiedade e de inúmeras outras perturbações psicológicas que não param de aumentar nos nossos dias. O número de crianças com perturbações mentais como autismo, hiperactividade, perturbações de ansiedade, depressão e outros problemas é maior do que alguma vez foi na nossa história. Estes números preocupantes mostram-nos que alguma coisa não está a correr bem.
Isto não quer dizer que as mulheres precisam de abdicar da carreira para ficarem em casa com os filhos. Não defendo a volta a um tempo em que as mulheres simplesmente não tinham escolha. Mas, enquanto sociedade, precisamos urgentemente de tomar consciência de que os bebés precisam das mães e as mães precisam dos bebés. Todas as mães sofrem quando têm que se separar várias horas por dia de um filho de meses porque o seu instinto também lhes diz que esse comportamento não é adequado. Algumas mães darão mais ouvidos a esse instinto outras tentam ignorá-lo e acreditar que essa ausência não causará danos mas, o que é certo, é que nenhuma mãe se sente feliz quando precisa de passar o dia inteiro longe de um bebé pequeno. Então precisamos urgentemente de criar condições para que as mães possam dar ouvidos ao seu instinto e ficar em casa algum tempo, que nunca deveria ser menos de um ano e idealmente seriam dois ou três, como acontece nos países nórdicos, para poderem estar disponíveis para os filhos. Mas criar condições também para que estas mães não tenham que abdicar definitivamente das suas carreiras. Se a sociedade vir como essencial esta presença da mãe durante os primeiros anos, mais facilmente criará as condições necessárias para que a mãe possa ficar em casa com os filhos e voltar ao trabalho quando quiser fazê-lo. Ou, em alguns, casos poderá ser possível trabalhar apenas poucas horas por dia, o importante é estabelecermos prioridades e sabermos que, quando os filhos são pequenos deverão ser eles a nossa prioridade. A vida é muito longa e teremos muito tempo para a carreira e trabalho depois dos filhos crescerem mas a infância deles nunca mais volta. Os primeiros dois anos de vida de uma criança são essenciais para moldar a sua personalidade, a sua forma de estar no mundo e durante esses anos a presença da mãe – pelo menos no primeiro ano, já que no segundo poderia ser o pai a estar mais presente – é essencial para que possa desenvolver-se com todas as condições necessárias para crescer de forma saudável e capaz de fazer uso de todo o seu potencial.
            De igual modo precisamos também de valorizar o papel das mães que podem e querem optar por ficar em casa com os seus filhos, precisamos de compreender a importância da decisão que tomaram e de não menosprezar as suas escolhas. Porque me parece que, muitas vezes, ainda valorizamos demais a imagem da mulher activa que se empenha na sua carreira e chega a casa todos os dias às oito o nove da noite, esquecendo-nos que, na casa dessa mulher provavelmente há um ou mais filhos que sofrem com a ausência da mãe e que crescem sem o mínimo de condições necessárias para uma infância feliz que lhes proporcione as bases para uma vida verdadeiramente preenchedora. Ouvi há alguns anos uma notícia sobre o primeiro país do mundo (não tenho a certeza se seria o Canadá) que dava uma reforma às donas de casa porque reconhecia que estas davam um contributo importantíssimo para o PIB do país ao cuidarem dos seus filhos para que se tornassem adultos produtivos e dos maridos para que pudessem trabalhar descansados e acredito que mais países deveriam seguir esse exemplo. Não defendo que uma mulher tem de ficar em casa quando não sente vocação para fazê-lo mas acredito que precisamos de valorizar quem faz essa escolha.
Hoje em dia está um pouco em voga o conceito de resiliência e queremos acreditar que as crianças são muito resilientes e conseguem crescer e adaptar-se a qualquer ambiente em que sejam criadas. È verdade que muitas crianças crescem em condições adversas e conseguem, apesar de tudo, construir uma vida feliz mas aquilo de que precisamos ter consciência é que de isso só é possível se essas crianças tiverem a sorte de ter, pelo menos um adulto nas suas vidas com quem possam estabelecer uma relação significativa, alguém que as faça sentir importantes e especiais. Esse alguém pode por vezes não ser a mãe ou o pai mas terá que existir e estar presente desde cedo e de uma forma permanente na vida da criança. Porque o que se sabe é que, quando as crianças não têm a possibilidade de estabelecer laços desde cedo (como aconteceu com algumas crianças institucionalizadas) muito dificilmente o conseguirão fazer em adultas. 
Um estudo com ratinhos, por exemplo, mostra que aqueles ratinhos que eram mais lambidos pelas suas mães depois de nascerem e durante as suas primeiras semanas de vida eram aqueles que tinham uma maior resistência ao stress e, quando cresciam, estes ratinhos, por sua vez, tinham também uma maior tendência para lamber mais as suas crias. Então, cuidarmos dos nossos filhos dá-lhes a base para serem mais capazes de lidar com os desafios mas também para serem eles próprios melhores pais e mais capazes de se sentirem realizados e felizes com as suas relações.
Uma das dificuldades que muitas mulheres sentem quando ficam em casa com os filhos é o isolamento. Antigamente, nas sociedades tradicionais, as pessoas viviam mais em conjunto, as jovens mães tinham sempre o apoio da família e de todos os membros da aldeia ou tribo que nunca estavam muito afastados. Hoje em dia, especialmente nas cidades, vivemos muito mais sozinhos e o trabalho é, muitas vezes, a única forma de nos sentirmos em contacto com alguém durante o dia. Então é preciso também tomarmos consciência de que há formas de combater isso, criandos grupos de apoio, por exemplo para mães que estão em casa. Aumentar o tempo que cada mãe pode ficar em casa também ajudaria a combater este isolamento porque, se todas ficássemos mais tempo em casa, seria sempre mais fácil conhecer alguém que estaria na mesma situação e com quem nos poderíamos encontrar regularmente.
Nessa mesma entrevista esta mãe também dizia que uma das filhas estava sempre a perguntar quando é que acabam as suas funções para poder voltar a ter a mãe mais disponível. A tendência de muitos adultos é a de desvalorizar isto e explicar que o que fazem, no seu trabalho, é muito importante e achar que os filhos compreenderão isto até porque, muitas vezes, também acreditam que trabalham justamente para lhes dar uma  vida melhor. Mas uma criança pequena não tem como perceber isto e tudo que sabe é que alguma coisa não está bem e aquilo que sente é que não é suficientemente importante na vida dos pais para que estes passem mais tempo consigo. Então também precisamos de deixar de desvalorizar estas frases dos nossos filhos, precisamos de dar mais ouvidos às crianças porque elas sabem exactamente do que precisam: precisam de um pai e de uma mãe, em casa, presentes e capazes de os fazer sentir que são realmente a coisa mais importante do mundo.

E quando não temos opção?

Se realmente precisamos de trabalhar por razões económicas que, infelizmente, são as mais frequentes, não quer dizer que estaremos a privar os nossos filhos de uma relação connosco mas, nestes casos, é importante sabermos que existem algumas formas de ajudarmos a restabelecer esse laço. Com os bebés, o contacto físico é muito importante para o estabelecimento do vínculo por isso, umas das coisas que podemos fazer é dormir com os nossos filhos ou usá-los num pano ou outro porta-bebés durante todo o tempo que estivermos em casa com eles. A amamentação também é uma excelente forma de restabelecer essa ligação. Com crianças um pouco maiores o contacto físico continua a ser muito importante mas precisamos também de encontrar outras formas de restabelecer o laço que se fragiliza um pouco  com as ausências diárias. Para isto o essencial é estarmos atentos aos seus sinais e necessidades para encontrarmos formas criativas de os fazer sentir que são de facto a parte mais importante das nossas vidas. Muitas vezes isto implica deixar de lado todas as outras tarefas para nos dedicarmos exclusivamente à criança quando estamos em casa. A disciplina positiva também é muito importante nestes casos porque nos lembra que, se uma criança se porta mal não é porque está a ser mal educada mas sim porque já não se sente tão incluída na nossa vida e precisa de ser lembrada que continua a ser a parte mais importante desta. Então, nestes casos mais do que castigar, educar bem é termos consciência de que o mau comportamento é sempre a expressão de uma necessidade da criança que não está a ser preenchida.
Gordon Neufeld lembra-nos de que é essencial restabelecer a ligação após cada separação. Isto quer dizer que a primeira coisa que devemos fazer ao chegar a casa é saudar os nossos filhos e passar algum tempo com eles, como que a reparar o vínculo. Por vezes queremos descansar um pouco, ou mudar de roupa ou preparar alguma coisa antes de estarmos com eles e as crianças ficam impacientes mas, se lhes dermos primeiro alguns minutos de atenção, poderemos mais facilmente fazer o que quer que precise de ser feito a seguir. Isto ajuda a criança a sentir que de facto é uma prioridade nas nossas vidas.
Sabermos que é muito importante encontrar formas de compensar os nossos filhos pelas nossas ausências diárias é fundamental e pode fazer toda diferença na possibilidade desse vínculo se estabelecer de forma segura, mesmo quando precisamos de trabalhar todos os dias o dia inteiro. 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Segundo Princípio: Alimentar com Amor e Respeito

Este vídeo fala da importância de alimentar um bebé ou criança respeitando os seus ritmos e necessidades, como forma de manter e favorecer o vínculo e a ligação entre pais e filhos. Fala também da amamentação como a forma mais natural e saudável de alimentar um bebé e como algo que facilita justamente a criação desse vínculo fundamental entre mãe e filho.