sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Separações com Apego


Os divórcios ou separações são sempre alturas complicadas e difíceis tanto para os pais como para as crianças e, por vezes, na tentativa de fazer aquilo que achamos que é justo esquecemos-nos que as crianças não vêem o mundo exactamente com os mesmos olhos que
nós e que têm necessidades muito diferente das nossas. Então, para manter a possibilidade de criança crescer numa relação segura, estável e de confiança com os dois progenitores há que ter em conta alguns aspectos que são fundamentais para o seu bom desenvolvimento. É do interesse de todas as crianças terem a melhor relação possível com ambos os pais mas para que essa relação se desenvolva da melhor forma é preciso termos noção da fase de desenvolvimento em que a criança se encontra e das necessidades específicas de cada fase. Neste texto falamos principalmente de crianças pequenas nos casos em que estas vivem com a mãe que são, quase sempre, a maioria. Mas, nos casos em que a mãe, por algum motivo não esteve presente desde o início de vida da criança, tendo esta estado sempre com o pai, pode perfeitamente ser este a relação de apego primária e orientadora da criança.
Apego – A base que define a nossa relação com o mundo (ver artigo mais completo sobre este tema) 
O conceito de Apego foi introduzido pelo pelo psiquiatra e psicanalista inglês Jonh Bowlby nos anos 50 que chamou a atenção para o facto de existir, em todos os bebés, uma necessidade inata de estabelecerem um vínculo com uma figura de referência. Esta necessidade, segundo Bowlby, estaria presente em todos os seres humanos cumprindo a função de manter o bebé próximo da mãe de forma a garantir a sua sobrevivência, uma vez que os seres humanos nascem num estado de total dependência.
Então como seres humanos nascemos programados para estabelecer relações das quais irá depender a nossa sobrevivência mas também a formação de aspectos essenciais da nossa forma de nos relacionarmos com o mundo. Esta primeira relação que estabelecemos geralmente com a mãe - ou com outra pessoa que tome o lugar desta e que cuide da criança durante a maior parte do tempo - é a base, ou o molde, através do qual iremos estabelecer todas as relações importantes da nossa vida futura.
É com a nossa mãe que aprendemos o que esperar do mundo, da vida e das relações. Resumidamente, uma mãe que responde às necessidades do filho com afecto e cuidado mostra-lhe que o mundo é um lugar agradável e ensina-lhe que os relacionamentos com os outros podem ser uma fonte de prazer e que as suas necessidades são importantes. Uma mãe que não responde às necessidades do filho está a ensinar-lhe que as suas necessidades não importam e que os outros não são uma fonte segura e estável de conforto ou segurança.
Existem hoje em dia vários estudos que demonstram que as crianças que têm oportunidade de estabelecer um apego seguro com os seus pais são crianças mais confiantes, mais autónomas, mais integradas, com menos problemas de comportamento e melhor aproveitamento escolar, mais capazes de estabelecer bons relacionamentos interpessoais e, há até estudos, que relacionam este vínculo seguro com uma melhor saúde na idade adulta.

Existem alguns pontos importantes para que a criança tenha possibilidade de estabelecer um vínculo seguro com a sua mãe.


  • Responder prontamente ás necessidades da criança – com os bebés, os pais que respondem ao choro dos filhos mostram-lhes que as suas necessidades são importantes e, ao mesmo tempo, que estes têm a capacidade ou o poder de interagir e de alterar as suas condições de vida. Respondendo ao choro das crianças, os pais ensinam-lhe que estão presentes quando é preciso e que podem contar com eles. Com crianças mais velhas é fundamental saber dar-lhes ouvidos e, quando não nos é possível atender aos seus pedidos, precisamos de lhes mostrar que compreendemos os seus sentimentos estabelecendo uma ligação empática em que a criança se sinta ouvida e aceite. 

  • Estar presente na vida da criança – para que se estabeleçam laços antes de mais é preciso tempo. As figuras de referência para a criança, sobretudo nos três primeiros anos de vida, têm de estar presentes durante uma boa parte do tempo. As crianças antes dos 3 anos não têm capacidade de interiorizar a figura da mãe, isto quer dizer que, para criança, se a mãe não está presente naquele momento em que precisa dela é porque nunca estará. Assim, as ausências demasiado longas, facilmente são sentidas como um abandono por parte da criança que ainda não percebe que a mãe gosta de si mesmo quando não está com ela. Com o tempo a criança aprende a interiorizar a imagem da mãe e a perceber que pode contar com ela mesmo que esta não esteja presente mas isto não acontece antes dos três anos. 

  • Não recorrer a uma rotatividade grande de cuidadores – Uma criança antes dos dois anos de idade não tem capacidade de estabelecer vínculos profundos com muitas pessoas ao mesmo tempo.  

  • Amamentar – dar de mamar é uma excelente forma de promover o vínculo, é uma forma de o bebé sentir o contacto com o corpo da mãe, de se acalmar e também uma forma da mãe se sentir capaz e confiante de que sabe tratar do seu filho. 

  • Promover o contacto físico - isto é fundamental sobretudo nos bebés em que o contacto físico com a mãe ajuda o bebé a auto-regular o seu sistema nervoso e respiratório. Mas é muito importante também nas crianças mais velhas em que o toque e contacto físico ajudam a libertar hormonas associadas a uma sensação de bem-estar e de tranquilidade. 

  • Respeito – é essencial tratarmos com respeito as necessidades das crianças para que elas se sintam ouvidas, compreendidas e aceites. Isto implica que sejamos capazes de as ouvir e de ver o mundo através dos seus olhos mesmo nas alturas mais exigentes.
Estabelecer relações seguras com o pai e com a mãe quando estes não vivem juntos
 Os primeiros estudos sobre o apego direccionavam-se sobretudo para importância da figura materna. Hoje em dia sabemos que, apesar da mãe ser a primeira figura de referência para a criança, é possível e desejável que esta estabeleça também uma relação segura com o pai. Na verdade, há estudos que demonstram que se a criança tiver uma relação segura com os dois pais terá ainda maiores probabilidades de se tornar um jovem confiante, autónomo, bem inserido e capaz de levar uma vida feliz e preenchedora. Sabemos que, durante o primeiro ano da sua vida a criança está mais direccionada para estabelecer um vínculo com a mãe. Se o pai estiver presente desde o ínicio e suficientemente envolvido com a vida e a rotina da criança desde o primeiro dia, criam-se as condições necessárias para que – geralmente mais a partir do segundo ano de vida – a criança comece também a ser capaz de estabelecer um vínculo seguro com este.

A partir do seu segundo ano de vida a criança começa também a ser capaz de estabelecer algum apego secundário a figuras que estejam com frequência e regularidade presentes na sua rotina, como os avós, por exemplo. Mas, a condição essencial para que estas ligações se estabeleçam de forma harmoniosa é que a ligação com mãe seja boa. A ligação com a mãe forma a base que dá à criança a capacidade de se aventurar no mundo e de descobrir novas relações. Se a criança se sentir segura e bem acolhida na relação que tem com a sua mãe, mais facilmente terá a disponibilidade necessária para estabelecer ligações significativas com o resto das pessoas da sua vida. Sobre essas relações sabemos que há um aspecto importante para que se desenvolvam da melhor forma: a presença constante e regular dessas pessoas na vida da criança. Sabemos também que, antes dos três anos de vida, a criança simplesmente não tem capacidade de estabelecer relações significativas com um número muito grande de pessoas. A sua capacidade de se relacionar com mais pessoas começa a aumentar um pouco a partir dos três anos, mas, ainda assim, esta capacidade será tanto maior quanto melhor for a relação que a criança tem com a mãe e quanto mais for capaz de a sentir como a sua base segura a quem pode sempre recorrer nas situações mais assustadoras para a ajudar a regular as suas emoções.

Quando os dois pais da criança não estão sob o mesmo tecto, há alguns aspectos que é essencial ter em conta para que o estabelecimento de um vínculo seguro não seja afectado e para que esta possa manter uma relação segura com ambos os pais.

Em primeiro lugar é muito importante distinguir os casos em que os pais viveram juntos quando a criança nasceu e aqueles em que os pais nunca chegaram sequer a viver juntos com o filho. No primeiro caso, se o pai esteve presente, com regularidade durante os primeiros meses ou anos de vida da criança, estão criadas as bases para que mais facilmente esta possa manter uma boa relação com ele.

No caso de crianças que nunca viveram com o pai é preciso ter noção de que, para que a criança possa estabelecer uma boa relação com este precisamos de, em primeiro lugar, dar-lhe a possibilidade de estabelecer uma relação segura com a mãe. Então isto quer dizer que, antes dos três anos, é muito importante que a criança não fique longe da mãe muitas horas para que não se sinta abandonada por esta. Uma criança desta idade não tem capacidade de perceber que a mãe gosta de si mesmo quando está ausente por isso todas as ausências prolongadas (mais de 24 horas) são sentidas como abandonos que podem ter consequências marcantes para a relação da criança com a mãe.

Se a criança nunca viveu com o pai e se este não esteve diariamente presente na sua vida desde o nascimento, então podemos afirmar que ainda não existe um vínculo com a figura paterna. Nestes casos, claro que será importante para vida da criança e para o seu bem-estar criar vínculo mas, para que isto funcione a seu favor devem ser observadas algumas regras básicas. Em primeiro lugar é preciso que a relação com a mãe seja vista como prioritária: é através de uma boa relação com a mãe que a criança poderá ter a segurança necessária para estabelecer uma boa relação com o pai. Então, no caso de a criança não ter ainda uma boa relação com o pai, o ideal é que as primeiras visitas ocorram na presença da mãe. Com a presença da mãe a criança sentir-se-á mais facilmente segura para inicar a relação com o pai. Depois de algumas visitas na presença da mãe, a criança poderá então começar a passar algumas horas com o pai mas, com encontros que não sejam muito prolongados. È importante que as primeiras saídas com o pai não se prolonguem demasiado (não mais de duas horas para crianças com menos de 2 anos e não mais de três para crianças com menos de 3) para que esta se sinta confiante e confortável e possa assim mais facilmente estar disponível para se relacionar com pai. Se durante a saída com o pai a criança chorar e pedir muito a presença da mãe também é muito importante que lhe seja permitido estar novamente com a mãe. Se a criança sentir que o pai respeita as suas necessidades e que está pronto para lhes responder – incluindo a sua necessidade de estar com a mãe – mais facilmente esta aprenderá a confiar nele o suficiente para se estabelecer uma ligação de confiança.

Então para crianças de idade inferior a três anos ou para crianças que nunca viveram com o pai e que ainda não têm um vínculo seguro com este, o ideal será que o pai tenha uma presença regular e frequente na vida da criança mas sem que isto implique que ela passe muito tempo seguido longe da mãe. Na prática isto pode traduzir-se por várias visitas ou saídas semanais do pai com a criança mas todas com uma duração relativamente curta. Por exemplo, em vez do pai passar todo o fim de semana com a criança sem que esta veja a mãe durante mais de 48 horas, o pai pode ir passear com a criança durante algumas horas no sábado à tarde, voltar a trazê-la a casa e ir buscá-la outra vez no domingo de manhã ou de tarde. Durante a semana o pai também poderá estar com a criança duas ou três vezes durante uma ou duas horas. Pode levá-la a jantar consigo, um dia por semana, por exemplo, e noutro dia ir com ela até ao parque. Isto será provavelmente menos prático e mais trabalhoso para os adultos mas dará muito mais segurança à criança e a possibilidade de estabelecer verdadeiramente um vínculo com ambos os pais de forma harmoniosa e com respeito pelas suas necessidades.

Há que ter em em conta que, nos primeiros três anos de vida o cérebro das crianças está em grande desenvolvimento, é uma fase em que são criadas e eliminadas milhares de ligações cerebrais, por isso é uma fase de grande receptividade e em que todas as experiências vão contribuindo para moldar o cérebro e a personalidade da criança e têm um efeito muito marcante em toda a sua vida futura. Por isso é de todo o interesse que neste período mais delicado da sua vida os adultos façam um esforço para que tudo se desenrole da forma mais harmoniosa possível. É também nesta altura que está a ser moldado o sistema de resposta ao stress da criança e sabe-se que as situações de stress demasiado prolongado ou intenso podem causar algumas alterações neste sistema que tornarão a criança, no futuro, muito mais vulnerável a situações de stress e muito menos capaz de lidar com os desafios. Para uma criança com menos de três anos uma ausência prolongada da mãe pode já ser sentida como uma situação de stress que se tornará ainda mais intensa se durante este tempo esta estiver com uma pessoa com quem ainda não tem uma relação segura e um vínculo bem estabelecido.(ver artigo mais completo sobre o efeito das ausências da figura materna) 

Com crianças de idade inferior a três anos – mesmo havendo já uma relação de confiança com o pai – pode ser ainda importante que a mãe esteja presente na hora da criança dormir e que lhe seja permitido dormir na casa em que vive. A hora de dormir é sempre uma hora de vulnerabilidade, em que a criança se sente mais frágil e em que a presença da mãe se torna ainda mais importante para que a criança se sinta segura. Com uma criança maior de três anos, em que a relação com o pai já esteja bem estabelecida, a criança pode começar por dormir apenas uma noite com o pai, mas sempre se esta estiver de acordo e se sentir confortável para o fazer. A partir dos três anos, se a criança se sentir já confortável e com uma boa relação com o pai, então as ausências da mãe poderão começar a ser um pouco mais prolongadas, mas sempre de uma forma gradual e com consentimento e conforto da criança. É fundamental que a criança se sinta confortável com o pai e que saiba que não é forçada a estar com ele contra a sua vontade. Quando a criança se sente forçada a estar com um adulto com o qual não se sente totalmente confortável aquilo que aprende é que os seus sentimentos não estão a ser valorizados que as pessoas que cuidam de si não os respeitam. Isto irá dificultar a construção de uma relação de confiança com a mãe – porque a criança não consegue perceber porque é que esta não é capaz de a ir buscar e de a impedir de estar com aquela pessoa – e com o pai – porque este não o leva de volta à mãe com quem a criança queria estar.

Os casos em que as crianças viveram algum tempo com o pai a relação com este já está bem estabelecida são um pouco mais simples porque a criança já se sente segura com o seu pai mas, mesmo assim, antes dos três anos a presença da mãe deve ser constante o suficiente para que a criança não se sinta abandonada por ela uma vez que, nesta idade, a criança ainda não consegue perceber as explicações que lhe possam ser dadas para esta ausência.

Regime de visitas quando a criança ainda mama
 Sabemos que ausências maiores de 24 horas podem prejudicar a amamentação, então, sobretudo nos casos de crianças menores de três anos, mas também nas mais velhas, devem ser feitos todos os esforços para que esse prejuízo não ocorra limitando o tempo de ausência da criança em relação à mãe. Hoje em dia existem já alguns estudos que mostram que a amamentação prolongada (para lá dos dois anos) tem benefícios de saúde para a criança e contribuiu para a proteger de doenças, fortalecendo o seu sistema imunitário que ainda se encontra num estado de imaturidade durante os primeiros anos de vida e que vai assim recebendo vários anticorpos através do leite materno. Mas, para além destes benefícios a amamentação também é uma importante fonte de conforto e de segurança que importa preservar enquanto a criança necessitar dela. Se a criança está habituada a mamar a meio da noite, ou se costuma dormir com a mãe, também se sabe que esse conforto pode ser uma importante fonte de segurança e de bem-estar que é importante respeitar para que a criança cresça de forma harmoniosa e saudável. Aqui também é importante salientar que não existe nenhum estudo que demonstre que a amamentação prolongada poderá ter algum impacto negativo na vida da criança: antes pelo contrário, tudo indica que esta poderá ser importante não só a nível de nutrientes e do funcionamento do sistema imunitário mas também poderá dar um importante contributo para que a criança se sinta segura e apoiada. De acordo com as investigações antropológicas, a idade natural do desmame para a espécie humana, andará algures entre os 2 e os 7 anos de idade.

O relacionamento com os avós
Acontece também muitas vezes, nos casos em que a criança não vive com o pai, que a criança não fica privada apenas da presença deste mas de toda a família paterna. Uma boa relação com os avós, de ambas as partes, também pode ser importante para o crescimento da criança até porque as famílias têm sempre visões e características diferentes e, por isso, pode ser também enriquecedor expor a criança a esses diferentes ambientes. Mas, nestes casos, os cuidados que existem com o pai, devem aplicar-se também de forma idêntica aos avós, sendo mais uma vez de distinguir os casos em que havia uma relação antes do divórcio e aqueles em que apenas se tenta estabelecê-la quando a criança já está um pouco mais crescida.
Em ambos os casos, com crianças pequenas, mais uma vez devemos ter noção de que a mãe continua a ser a referência principal da criança. E, tal como com o pai, a aproximação com os avós deve ser feita de forma gradual, primeiro na presença da mãe, de preferência. Com toda a importância que terá o estabelecimento da relação da criança com os avós, a prioridade deve ser sempre o estabelecimento da relação com o pai e só depois com estes.
Por último resta ainda lembrar que é fundamental que, tanto o pai como os avós, sejam capazes de respeitar as opções da mãe mesmo que não concordem com estas. Nestes casos é muito comum que haja desacordos em relação à forma de educar mas, tendo em conta que a criança vive com a mãe e que é com esta a sua relação prioritária – pelo menos nos seus primeiros anos de vida – não é de todo do seu interesse que os avós ou o pai contrariem as regras impostas pela mãe. Uma criança pequena começa a perceber como é que o mundo funciona e que existem algumas regras e limites importantes, se eles limites ou regras são radicalmente diferentes de uma casa para a outra, isso só contribuirá para gerar insegurança e confusão na cabeça da criança.

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