sábado, 28 de setembro de 2013

Lidar com a Zanga das crianças


            A Zanga nos adultos

            Uma das tarefas que costuma ser mais desafiadora para a maioria dos pais é a de lidar com a zanga dos seus filhos. Não é fácil aprendermos a lidar com esta emoção - que é tão saudável e imprescindível como qualquer outra – nos nossos filhos porque, a maioria das vezes, também não sabemos como lidar com ela em nós mesmos.
            A zanga é uma emoção que desperta muitas reacções fisiológicas. Quando nos zangamos despoletamos a chamada resposta de Luta ou Fuga, uma reacção fisiológica que prepara o organismo para lidar com uma potencial ameaça que pode ser real ou simplesmente imaginada. (Ler artigo para saber mais sobre esta resposta) Porque o nosso organismo não distingue entre as ameaças reais à nossa integridade física, e aquelas que são apenas imaginadas despoleta-se a mesma reacção em ambos os casos.
            A zanga pode despertar sensações muito fortes em nós e, porque nem sempre gostamos dessas sensações, acabamos por não querer lidar com esta emoção. Existem estudos que mostram que tanto a repressão da zanga como a sua expressão descontrolada podem ser igualmente prejudiciais à saúde e quando recorremos com frequência a estes mecanismo podemos acabar por ter uma maior tendência para desenvolver algumas doenças crónicas.
Durante algum tempo foram populares algumas correntes terapêuticas que defendiam que a forma mais saudável de expressar a zanga era deixá-la sair livremente. Nestas sessões os clientes eram mesmo incentivados a dar pontapés e murros em almofadas como forma de ventilarem a sua zanga porque se acreditava que esta emoção funcionava como uma espécie de panela de pressão que, quando não se destapava, criava uma pressão cada vez maior até explodir e, o facto dessa pressão se ir acumulando, prejudicava gravemente a saúde. Hoje em dia, há estudos que mostram que realmente reprimir a zanga pode ter consequências graves na saúde de quem o faz mas também se sabe que o facto de a expressarmos desta forma intensa e quase descontrolada tem exactamente os mesmos efeitos. Isto acontece porque uma expressão expressão violenta e intempestiva da zanga faz com que acabemos por nos sentir mais zangados. Na verdade, este tipo de comportamento explosivo, é também ele uma fuga das verdadeiras sensações que a zanga provoca porque enquanto a pessoa está a dar murros na mesa ou pontapés na porta ou a gritar com quem está á sua frente, não está voltada para si, para o seu corpo, para as sensações e emoções que ocorrem dentro de si. Então, tal como as pessoas que reprimem a zanga porque não são capazes de enfrentar as emoções e sensações que esta desperta as pessoas que explodem e que a expressam com gritos e murros também estão simplesmente a voltar toda a sua atenção para o exterior para não terem de entrar verdadeiramente em contacto com o seu corpo e com as suas emoções. Porque não são capazes de lidar com o que estas lhes transmitem sobre si mesmas.

            É muito importante sabermos reconhecer a nossa zanga porque ela dá-nos informações importantes acerca de nós e de como nos sentimos na vida. Um dos benefícios da zanga é a sensação de poder que ela nos pode dar, a sensação de que somos capazes de enfrentar os desafios e de que temos força para enfrentar as ameaças. Mas, para beneficiarmos deste poder é necessário que, em primeiro lugar, sejamos capazes de reconhecer a zanga e as sensações que esta desperta.
 Gabor Maté, um médico que escreveu o livro When the Body Says No, defende que muitas doenças crónicas têm a sua origem justamente no facto de não sermos capazes de identificar as nossas emoções, nomeadamente a zanga. Segundo este médico, Para além da sensação de poder a zanga também nos dá algumas informações importantes: mostra-nos, por exemplo, que determinada situação pode ser prejudicial para nós e, se não a escutarmos, acabaremos por não ser capazes de nos defender e de sair dessa situação; se isto se prolongar muito no tempo, o nosso organismo acabará por sofrer as consequências. Uma vez que todas as nossas emoções despertam determinadas reacções fisiológicas, Gabor Maté diz que, o nosso corpo nos vai dando pequenos sinais através das sensações que vão surgindo, nas várias situações porque passamos. Quando não escutamos os sinais que o corpo nos dá, então ele precisa de arranjar sinais cada vez maiores e mais difíceis de ignorar e assim surgem muitas vezes doenças crónicas e graves que nos obrigam finalmente a parar e a ouvir o corpo, se quisermos ser capazes de as ultrapassar.
            Marshal Rosenberg, psicólogo que desenvolveu e divulga a Comunicação Não Violenta, explica que a zanga é sempre uma expressão trágica de uma necessidade. Isto quer dizer que, sempre nos zangamos fazêmo-lo porque alguma necessidade nossa não está a ser preenchida. Então é essencial entrarmos em contacto com essa necessidade e percebermos de que forma poderemos honrá-la e respeitá-la. Mas isto implica um grau de abertura e de confiança no nosso corpo e na nossa experiência que nem sempre conseguimos ter justamente porque, a maior parte das vezes, não fomos ensinados a fazê-lo enquanto éramos crianças e estávamos a aprender a lidar com o mundo e com as emoções.

 
A Zanga nos nossos filhos                                                                                    

            Quando vemos uma criança zangada a maioria dos pais o que tenta fazer é simplesmente ignorar ou distrair a criança daquilo que ela está a sentir e, infelizmente, não são muito frequentes as vezes que vemos um pai ou mãe a valorizar a zanga do seu filho e dar-lhe espaço e tempo para a expressar da melhor forma possível.

Quando comecei este artigo pensava em escrever sobre as birras das  crianças de que tanto se fala e que tanto preocupam os pais. Depois percebi que não gosto da palavra birra mas ainda não tinha pensado porquê. Porque birra implica algo de negativo por parte de quem a faz, dizer que alguém faz uma birra é não lhe reconhecer o direito de estar zangado, ou frustrado ou triste. Quando dizemos que um adulto fez birra fazêmo-lo sempre com um sentido pejorativo referindo-nos a um comportamento que não nos pareceu adequado. Quando dizemos que um adulto fez uma birra está implícita a mensagem de que aquela pessoa não soube lidar com a situação e com as emoções que esta lhe provocou. Então porque é que dizemos que as crianças fazem birra quando estão apenas zangadas, cansadas, frustradas ou tristes? Nunca gostei de dizer que o meu filho fazia birras porque sempre senti que ao fazê-lo estava, de certo modo, a negar-lhe o direito de estar zangado, chateado, frustrado, etc. A verdade é que temos alguma dificuldade em reconhecer que as crianças podem ter estes sentimentos e acabamos por ter alguma necessidade de os desvalorizar dizendo simplesmente que fizeram uma birra, palavra que desvaloriza totalmente as emoções que estão por trás daquele comportamento espalhafatoso e explosivo que as crianças tantas vezes apresentam. E depois preocupamo-nos com estratégias para minimizar ao máximo a ocorrência desse comportamento. Queremos perceber qual é a melhor forma de o eliminar, de fazer com que nunca mais aconteça e qual é a melhor forma de fazer com dure o mínimo de tempo possível sempre que acontecer. Porque, mais do que prejudicar a criança, este tipo de comportamento prejudica a nossa imagem de adultos responsáveis, racionais, pais capazes e competentes que mantém tudo sobre controlo e que têm filhos que lhes obedecem na perfeição. E também porque, acima de tudo, ver este tipo de emoção nos nossos filhos desperta em nós muitas sensações difíceis e desconfortáveis com as quais não sabemos o que fazer e como lidar.

            Uma criança pequena ainda não tem grande capacidade de processar as suas emoções. Durante os primeiros dois anos de vida o hemisfério cerebral mais activo e desenvolvido é o direito, que está mais ligado ás emoções e às sensações corporais. Isto quer dizer que, pelo menos até aos dois anos, as crianças vivem as emoções em cru, ou seja, não têm a capacidade de as racionalizar, sentem-nas e vivem-nas no imediato e sem qualquer tipo de filtro que possa minimizar a sua intensidade. Só a partir dos três anos, com o desenvolvimento da linguagem, é que o hemisfério esquerdo passa a ter um maior papel na vida da criança, tornando-a capaz de começar a racionalizar as suas emoções. Com o tempo, se este hemisfério passar a ser predominante, é até bem possível que passe a existir um distanciamento tão grande das emoções e do corpo que se torna muito difícil voltarmos a entrar em contacto com ele. Mas, isto não não acontece de um dia para o outro e só é verdadeiramente possível na idade adulta ou no final da adolescência altura em que as nossas ligações neuronais se começam a tornar mais estáveis e difíceis de modificar.

            Os dois anos – o descobrir do mundo e das emoções

            Os ingleses usam muitas vezes a expressão terrible twos para se referirem à idade dos dois anos porque é muitas vezes nesta idade que começam os maiores desafios. Porque nesta idade a criança já tem mobilidade suficiente para mexer em tudo o que a rodeia, já se habituou a ter algum poder de acção sobre o seu meio ambiente, já percebeu que é capaz de fazer muitas coisas que antes não podia fazer e também já teve algum tempo para desenvolver algumas preferências sobre o que quer fazer, que nem sempre correspodem às preferências dos pais ou dos adultos que as rodeiam. E, porque nesta idade a criança ainda vive com as suas emoções muito à flor da pele e porque ainda não tem um domínio da linguagem que lhe permita expressar facilmente as suas necessidades e frustrações, acaba por ser uma idade em que é muito fácil que surjam episódios explosivos e comportamentos mais difíceis de controlar por parte dos pais.

        Formas de lidar com a Zanga das crianças 

            Então, quando os nossos filhos se zangam, é fundamental percebermos que necessidades é que, naquele momento, não estão a ser preenchidas. Aqui é importante sabermos distinguir necessidades de vontades. Por exemplo, o facto da criança se zangar porque naquele momento tinha vontade de ver mais uma hora de televisão e os pais não deixaram não significa que existe uma necessidade real da criança ver televisão. Então, neste caso também é importante distinguir se a criança apenas expressa a sua frustração - o que pode fazer chorando e protestando um pouco - ou se fica realmente zangada com uma expressão muito mais intensa e intempestiva que pode incluir espernear, gritar, chorar muito, atirar objectos ou bater (principalmente em crianças mais pequenas). Neste último caso, então precisamos de perceber que essa manifestação mais intensa por parte da criança provavelmente não tem nada a haver com a televisão. A criança pode estar simplesmente a expressar uma outra necessidade, a necessidade de se sentir respeitada e aceite nas suas preferências, por exemplo, a necessidade de se sentir compreendida de e de saber que os pais conhecem os seus gostos, a necessidade de saber que os pais gostam de si e que se preocupam com o seu bem-estar. Então, neste caso, os pais não precisam de responder a essa necessidade mantendo a televisão ligada, mas precisam de mostrar à criança que compreendem e aceitam a sua frustração para que esta se sinta escutada. Isto pode ser feito de várias formas consoante a criança e o comportamento que esta manifestar. Uma criança que ainda não domina bem a linguagem tem mais probabilidade de expressar a sua zanga de uma forma física: gritando, chorando, pontapeando, batendo, esbracejando, etc. Nestes casos pode ser muito importante ter algum contacto físico com a criança, através de um abraço ou pô-la no colo. Para isto é importante que o adulto se mantenha calmo e não veja aquela expressão como um ataque a si ou à sua autoridade. Por vezes a criança não está pronta para ser abraçada ou posta no colo durante os primeiros instantes em que a sua explosão dura, então podemos simplesmente esperar e ficar por perto, demonstrando claramente que estamos disponíveis para quando a criança quiser ser consolada. Nestes casos também não adianta muito tentarmos falar com a criança nos momentos em que ela está mais descontrolada. Podemos deixá-la expressar-se um pouco – desde que não haja perigo de se magoar a si ou a outros é claro – e depois então, quando estiver mais calma, depois de um primeiro contacto físico, podemos expressar o nosso reconhecimento da sua necessidade dizendo qualquer coisa como: eu sei que querias muito ver mais desenhos animados, ou eu compreendo que para ti neste momento era muito importante ficar a ver mais televisão, mas a mãe ou o pai acham que agora é mais importante ires brincar. Podemos também focar-nos no sentimento, eu sei que estás muito zangada, ou eu sei que ficaste muito chateada porque querias ver mais televisão mas a mãe acha que agora é importante fazeres outra coisa. O simples facto da criança sentir que os pais a compreendem e percebem é suficiente para que a necessidade de se sentir aceite e compreendida seja satisfeita e é, geralmente, também suficiente para acabar com a zanga.
            Depois do comportamento explosivo terminar e quando virmos que a criança está realmente calma esta estará numa fase mais receptiva, isto quer dizer que pode ser altura de falarmos da forma como se comportou e de lhe dizermos de que é que não gostámos, se nos parecer necessário. Com uma criança mais velha que disse algumas coisas que não gostámos de ouvir, ou com uma criança pequena que bateu e atirou com coisas, por exemplo, podemos dizer que, apesar de compreendermos a sua zanga e de sabermos que tem todo o direito a expressá-la não gostamos que o faça daquela forma.

            Isto é tão mais fácil de fazer quanto melhor seja a ligação do adulto com a criança. Se a criança sente que costuma ser respeitada e aceite irá muito mais rapidamente deixar-se consolar e aceitará muito mais facilmente as nossas críticas em relação ao seu comportamento e rapidamente estará pronta para começar a fazer outra coisa.
             Se for muito difícil consolar a criança, ou se a sua fúria demora muito tempo a passar, se a criança grita, chora, esperneia por um período muito longo e se sentimos que se torna muito difícil fazer com que a criança deixe aquele comportamento ou largue a sua zanga então é preciso percebermos que este é um sinal de que alguma coisa não está bem com a criança ou na sua relação com os pais. Por vezes acontece simplesmente que a criança está cansada ou tem alguma necessidade biológica que não foi satisfeita: sono, fome, sede. Algumas crianças ficam mais facilmente susceptíveis a estes episódios quando têm fome, outras é o sono que as torna mais facilmente explosivas. Para outras crianças basta uma mudança na rotina para se tornarem mais rabugentas e susceptíveis. É importante estarmos atentos a estes sinais e conhecermos os nossos filhos, principalmente com as crianças mais pequenas que ainda não são capazes de dizer que têm sono, fome ou frio, por exemplo.
            Mas, noutros casos o que pode estar em causa é mesmo o tipo de ligação que a criança tem com os pais. Uma criança que se sente amada, respeitada, escutada e acolhida em todas as suas facetas é muito mais facilmente capaz de lidar com as suas emoções e frustrações sem ficar num estado demasiado descontrolado. Uma criança que chora ou protesta por tudo e por nada durante demasiado tempo e que ninguém consegue consolar é uma criança que está a precisar desesperadamente se se sentir amada, protegida, segura. É uma criança que precisa de se sentir ligada aos seus pais, precisa de se sentir aceite e protegida.

            Muitas vezes defende-se que a melhor forma de lidar com as birras é ignorá-las porque se não o fizermos estaremos a reforçar esse comportamento. Mas uma criança que chora e protesta está a expressar-se da melhor forma que sabe. Se não gostamos da forma como está a fazê-lo é o nosso papel, enquanto pais, mostrar-lhe formas alternativas de lidar com as suas emoções mas nunca ignorá-las. Porque uma criança que faz aquilo a que chamamos birra é uma criança que sofre, é uma criança que está a demonstrar que algo não está bem consigo, que alguma coisa a incomodou, que alguma coisa a fez sentir-se mal e a única forma saudável de lidarmos com essa emoção é reconhecê-la, aceitá-la e dar espaço à criança para que a possa integrar. Não ignoramos os nossos maridos ou mulheres quando se zangam e, se o fizermos, sabemos que só iremos piorar as coisas, então como somos sequer capazes de pensar em fazê-lo com os nossos filhos? !
As crianças não têm capacidade de regular as suas próprias emoções e só vão aprender a fazê-lo através dos adultos: uma criança que chora, aflita com qualquer coisa e a quem os pais pegam ao colo e fazem sentir que está tudo bem, aprende que pode passar daquele estado de tristeza e de aflição para um estado de calma e de tranquilidade. Com muitas repetições deste género começam a cimentar-se no seu cérebro as ligações que lhe permitem ir passando de um estado a outro. Mas, se ninguém a ajudar lidar com as suas emoções, especialmente quando estas são demasiado intensas, a única saída que lhe resta é tentar ignorá-las. E assim, à medida que vai crescendo, vai acabando por se afastar cada vez mais do que sente, do seu corpo e de si mesma. E, quando esta criança crescer e se tornar pai ou mãe terá com certeza dificuldade em lidar com as emoções dos seus filhos que assim também não terão oportunidade de aprender como fazê-lo perpetuando este ciclo que alguém precisa de ter coragem de quebrar.
O outro extremo do comportamento é quando cedemos imediatamente ao que a criança quer para evitarmos a sua expressão de zanga mas esta é igualmente prejudicial porque, mais uma vez, não estamos a permitir-lhe lidar com as suas emoções, com a sua frustração. Estamos a transmitir-lhe a mensagem de que aqueles sentimentos são tão prejudiciais e perigosos que faremos qualquer coisa para não lidar com eles. E, desta forma, a criança vai aprender a ter medo do que sente e também nunca terá oportunidade para aprender a lidar de modo saudável com estas emoções.

Por isso para criarmos adultos saudáveis e equilibrados precisamos de – nós, enquanto pais – não termos medo de reconhecer e de aceitar as nossas próprias emoções. Precisamos de não ter medo de ser vistos como maus pais porque o nosso filho grita ou chora no meio da rua quando queremos que se venha embora do parque, precisamos de aceitar que não podemos controlar tudo, de não ter medo de deixar os nossos filhos expressarem as suas emoções. Mas, para isso, em primeiro lugar, precisamos de ter coragem de enfrentar os nossos medos, as nossas zangas e todas as emoções que sentimos com toda a intensidade que só um filho pode despertar nos seus pais. 

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Amamentação - Alimentar com Amor


Ultimamente tenho lido alguns textos de pessoas que dizem que não amamentaram por opção, ou que o fizeram muito pouco tempo por outros constrangimentos e que se sentem muito criticadas e incompreendidas na sua escolha.  Por um lado, é verdade que, enquanto sociedade, cada vez estamos mais conscientes dos benefícios da amamentação, por outro também tenho a certeza de que são as mães que dão de mamar por mais tempo (até os filhos terem, 2, 3, 4 ou 6 anos) que são as mais criticadas e não aquelas que apenas dão de mamar durante pouco tempo uma vez que estas ainda são a maioria, como as estatísticas mostram. Na verdade quando o meu filho tinha apenas 7 ou 8  meses já havia muitas pessoas espantadas por saberem que ainda mamava. Penso que, apesar de estarmos cada vez mais conscientes dos benefícios da amamentação nos bebés ainda precisamos de consciencializar muito mais as pessoas para a importância de manter este vínculo e esta forma de alimentação durante os primeiros anos de vida das crianças.

Nestes textos estas mães diziam que tinham o direito de escolher não amamentar (fosse por não quererem mesmo ou porque tinham tido uma má experiência nos primeiros tempos) e que a sociedade não lhes reconhecia esse direito. Na verdade, tal como o vejo, não se trata de uma questão de direitos. Se assim fosse o bebé também teria o direito de receber esse alimento único, essencial e insubstituível (por muito que as companhias de leite artificial nos queiram fazer pensar o contrário) pelo menos durante o seu primeiro ano de vida, se não durante os primeiros dois ou até decidir que não o quer mais. E, neste caso, de quem são os direitos mais importantes? Da mãe, adulta e racional que pode fazer as suas escolhas, ou do bebé, pequeno, indefeso e totalmente dependente dos adultos para tudo aquilo de que necessita para sobreviver. Para além da importância fundamental do leite materno para nutrir o bebé do ponto de vista físico e para a formação do seu sistema imunitário o bebé também tem o direito de ter o contacto íntimo, próximo e tão importante que a amamentação pode proporcionar. Os bebés alimentados a biberão não serão menos amados é verdade mas também não têm a experiência insubstituível de sentirem a sua pele contra a pele da mãe enquanto se alimentam, de sentir os batimentos do seu coração, de tocarem na sua pele de receberem um alimento fabricado especialmente para si com todo o amor e carinho que, juntamente com os nutrientes, transmite hormonas que são segregadas pela mãe e acabam por fluir no leite, mesmo que em quantidades mínimas mas suficientes para terem algum efeito na fisiologia do bebé. Porque o amor da mãe, ao sentir-se em contacto com o filho, provoca um aumento de oxitocina e de endorfinas que o bebé acaba por receber também através do leite - estas são hormonas responsáveis por uma sensação de bem-estar, de tranquilidade, se amor e de prazer. Será que os bebés que são alimentados a biberão não têm o direito de receber também o amor das suas mães desta forma? Será que os fabricantes de leite artificial conseguem sintetizar o amor nas suas fórmulas científícas?

            Mas, na verdade, esta não é mesmo uma questão de direitos: porque se o fosse os do bebé teriam, inquestionavelmente, de se sobrepor aos da mãe. Trata-se de nos perguntarmos porque é que um animal mamífero – que é o que somos – se negaria a fazer algo que faz parte do comportamento natural e instintivo para a sua espécie. Se tivéssemos uma gata ou cadela – animais que vivem connosco e que podemos observar de perto mais facilmente – que tivesse acabado de ter uma ninhada e se recusasse a dar-lhes de mamar não iríamos pensar que aquela mãe teria esse direito e estava a fazer uma escolha mas ficaríamos preocupados por não apresentar um comportamento tão esperado, natural e essencial para a sobrevivência das suas crias. Tentaríamos perceber o que é que poderia tê-la levado a ter esse comportamento e o que é que se passaria de errado na sua cabeça para não seguir o instinto.

Pois é isso que penso quando alguém me diz que não quis dar de mamar, ou que optou por deixar de o fazer muito cedo quando ainda tinha leite: o que se terá passado com aquela mãe, mulher, mamífera para não querer alimentar a sua cria da forma mais saudável, natural e instintiva? Penso que poderão existir vários motivos para que tal aconteça. No caso das mães que deram durante algum tempo e pararam por terem surgido complicações muitas vezes são a pressão social, a falta de apoio e de confiança no próprio corpo e no seu leite que as fazem parar. Porque na verdade ainda fazemos parte de uma geração em que muitas de nós não chegaram a ser amamentadas, porque houve um tempo em que o marketing das companhias de leite artificial foi tão forte e em que os médicos estavam tão deslumbrados com a ciência que julgavam que podia fabricar um alimento ainda mais perfeito que o natural que muitas mulheres foram encorajadas a alimentar os filhos com leite em pó à mais pequena contrariedade. E hoje em dia, ainda há muitas mães que são encorajadas a fazê-lo assim que amamentar se torna mais difícil: ou por causa de mamilos doridos e gretados ou por causa de mastites, ou porque os filhos choram muito. Tenho ouvido muitas mães dizerem que tiveram muita pena de terem que parar de amamentar ou porque pensavam que o leite delas já não chegava ou porque tiveram alguma complicação de saúde.

O mito do leite fraco é talvez dos mais nocivos e um dos que mais leva as pessoas a darem biberão. É um mito porque não existe tal coisa, o nosso corpo na sua sabedoria vai buscar todos os nutrientes para fazer o melhor alimento que o bebé pode receber. Mesmo no caso de mães doentes ou mal nutridas o seu corpo continua a ser capaz de produzir um leite de muito melhor qualidade do que qualquer fórmula artificial. Um dos efeitos importantes do leite materno que nenhum leite artificial consegue imitar é o reforço do sistema imunitário dos bebés que está em formação e muito incompleto durante os primeiros dois anos de vida: tem sido observado e comprovado que os bebés que mamam adoecem menos e recuperam muito mais depressa do que os que não o fazem porque recebem no leite os anticorpos produzidos pelo sistema imunitário das mães.

As complicações de saúde porque muitas mães passam também podem levá-las a desistir e a quererem acreditar que o leite artificial é tão bom como o seu. Conheço mães que deixaram de amamentar, aconselhadas pelos médicos, por terem tido mastites quando este é um problema que se resolve e que pode perfeitamente ser ultrapassado sendo que o facto do bebé mamar até pode ajudar a resolvê-lo, visto que o leite tem mesmo que ser esvaziado e o bebé consegue fazê-lo de forma mais eficiente que qualquer bomba do mercado.

Mas, se é triste o facto de muitas mães quererem amamentar e não serem capazes de o fazer por muito tempo devido à falta de apoios ou aos maus conselhos dos profissionais de saúde, parece-me ainda mais triste o facto de algumas mães dizerem que não amamentaram mais porque não quiseram, pura e simplesmente.

A amamentação não tem que ser um mar de rosas para toda a gente. Se muitas mães dizem que adoram amamentar e que este é um momento muito especial e belo para si, também há outras que o vêem apenas como algo que fazem porque querem o melhor para os seus filhos. E, tanto um como outro, são comportamentos naturais. O que não é natural é alguém não querer ter um comportamento que sempre foi essencial para a sobrevivência da espécie – sim, porque um bebé que não mamasse, até há algumas décadas atrás, era um bebé que teria muito menos probabilidades de sobreviver - e instintivo. A vida actual muitas vezes distancia-nos do nosso corpo. Vivemos muitas vezes num plano demasiado racional e esquecemos-nos de ouvir os instintos, de sentir o corpo. Amamentar um bebé traz-nos de volta ao corpo. Sentirmos o nosso bebé em contacto com o nosso corpo, a alimentar-se de uma forma tão íntima de um alimento que é produzido por nós, pode despertar emoções muito poderosas. E, a verdade é que essas emoções  - para alguém que vive desligado do seu corpo – podem ser assustadoras de tão intensas que se tornam. Porque as emoções são sempre vividas e sentidas no corpo, então a amamentação chama-nos à terra, ao corpo, às emoções e, por vezes, temos medo de o fazer. A gravidez e a maternidade, sobretudo nos primeiros tempos, são períodos muito emocionais em que nos lembramos que além de sermos pessoas também somos animais, em que sentimos a força da natureza em nós e amamentar lembra-nos disso.

Por estarmos mais em contacto com o corpo e com as emoções de uma forma mais pura e profunda também ficamos mais vulneráveis: esta é uma altura em que, por vezes, vêm ao de cima muitos medos antigos, muitas feridas mal curadas. É uma altura em que podem surgir até recordações de infância que nem sabíamos que tínhamos e, se houver feridas por sarar no nosso passado, esta é uma altura em que é mais provável que venham ao de cima. Fazemos parte de uma geração em que muitas de nós não foram amamentadas, por muito bem intencionadas que tenham sido as nossas mães ao fazê-lo e por muito boas mães que tenham sido é natural que isto tenha deixado em nós algumas feridas, alguns pontos dolorosos do nosso passado. E, mesmo que nos tenham dado de mamar e que tenhamos tido pais bem intencionados é muito possível e provável que haja algumas feridas que nunca foram curadas e que ficaram guardadas sem nos darmos conta. E é natural que não nos apeteça tocar nelas, sobretudo quando – através de um racionalismo excessivo – as conseguimos manter à distância toda a nossa vida.

Mas, a verdade é que seremos melhores mães quanto mais disponibilidade tivermos para olhar para essas feridas. Enquanto não formos capazes de as aceitar e de as integrar no nosso presente não poderemos resolver o passado e, enquanto não o fizermos não poderemos estar totalmente em contato com os nossos sentimentos. E, desta forma, não poderemos também estar plenamente em contato com os dos nossos filhos. Os bebés quando nascem só conseguem relacionar-se um ponto de vista emocional. Durante o primeiro ano de vida é sobretudo o lado direito do cérebro – ligado ao processmamento das emoções e ao comportamento não verbal – que está activo e em desenvolvimento. Isto significa que os bebés só sabem relacionar-se com o mundo através das emoções. E só podemos relacionar-nos com as emoções dos nossos filhos se aceitarmos as nossas. Amamentar é estar em contacto com o bebé, connosco e com todas as emoções que podem surgir boas ou más. Assim mais do que perder tempo com quem tem direito a quê o que é preciso perceber, reconhecer e aceitar é que, uma mãe que não quer amamentar é uma mulher que foi ferida e que não quer reconhecer e voltar a sentir essa ferida. Quando somos crianças não temos como nos defender de muitas coisas que magoam, por isso guardamos dentro de nós, bem escondido aquilo com que não somos capazes de lidar. Os nossos filhos podem ser uma forma fantástica de nos fazer voltar a entrar em contacto com essas feridas que foram guardadas e com as quais podemos mais facilmente aprender a lidar agora que somos adultas. E os nossos filhos merecem que, pelo menos, tentemos fazê-lo. Merecem que pelo menos estejamos dispostas a tentar e entrar em contacto com todas as partes de nós. Porque só se o fizermos é que podemos ter oportunidade de quebrar o ciclo e de não lhes deixar feridas que também eles terão de guardar em alguma parte de si.

Laura Sanches 

terça-feira, 30 de julho de 2013

Ausências - quando é que uma mãe pode deixar o filho?


Ultimamente, talvez por estarmos em período de férias, tenho-me confrontado muito com a questão das ausências: quando é que é a idade certa, se é que existe alguma, para que uma mãe se possa ausentar alguns dias sem os filhos?
Na verdade, não existe uma resposta simples a esta questão. É muito importante sabermos que os primeiros três anos de vida de uma criança são fundamentais para o estabelecimento de um vínculo forte, saudável e seguro com os pais. E, o estabelecimento desse vínculo requer uma presença quase constante destes na vida da criança. Sobretudo durante os primeiros dois anos de vida, a criança está quase exclusivamente focada no seu relacionamento com os pais e, principalmente, com a mãe. Durante os primeiros dois anos a mãe é a fonte mais imediata e segura de conforto e de segurança para a criança. Se o pai estiver, desde o início muito presente na vida da criança, é provável que este passe a estabelecer com ele também uma relação forte de apego mas, para isso, é preciso que essa presença se dê de forma constante e que haja um verdadeiro envolvimento do pai na vida da criança desde o seu primeiro dia de vida.

No primeiro ano de vida a criança ainda está a tentar perceber como é que funciona o
mundo e o que pode esperar dos adultos que a rodeiam. Nesta altura a sua capacidade de estabelecer vínculos é limitada e não é possível que este se estabeleçam com muitos adultos em simultâneo. No seu primeiro ano de vida a criança começa a reconhecer as pessoas que são significativas para si mas ainda não tem capacidade para armazenar memórias relativas a um número muito grande de pessoas. Assim, as pessoas com estará mais naturalmente vocacionada para estabelecer vínculos nesta altura serão a mãe e o pai ou outras pessoas que estejam mais presentes na vida da criança. Se esta for deixada várias horas com um adulto responsável e atento às suas necessidades é muito natural que se estabeleça também um vínculo forte com essa pessoa e é desejável que os pais permitam que isso aconteça. Para que se estabeleça um vinculo seguro entre uma criança e um adulto há algo fundamental: uma presença constante e uma disponibilidade grande para a criança. No primeiro ano de vida a criança não tem ainda uma memória que lhe permita assimilar muita informação acerca dos adultos que a rodeiam e não tem capacidade de se lembrar destes na sua ausência. E, porque uma criança desta idade não tem ainda uma noção do tempo, nem da sua continuidade, todas as ausências de pessoas significativas para si são, de certo modo, sentidas como perdas permanentes. Antes dos três anos de vida a criança não tem uma memória que lhe permita internalizar a figura da mãe e saber que, quando esta não está presente, ela não desapareceu e continua a existir na sua vida.  São precisas muitas repetições em que a mãe sai e volta a aparecer para que a criança comece a perceber que mãe acaba sempre por voltar mas, para que esta associação positiva se estabeleça é necessário que estas ausências não sejam tão grandes que a criança se sinta em perigo, despoletando o seu sistema de alarme que, aí activará um modo de protecção que dificultará muito o estabelecimento de vínculos. 
Entre os 12 meses e os dois anos a criança começa já a ser capaz de armazenar na sua memória alguma informação relativa a um maior número de adultos que tenham uma presença significativa na sua vida. Durante o segundo ano de vida a criança começa a ser capaz de estabelecer relações com os avós, tios ou primos que veja com regularidade e se mostrem disponíveis para ela. No entanto, durante o seu segundo ano de vida apesar da criança começar já a dar os primeiros passos para a sua socialização a mãe ainda é uma figura fundamental para a sua segurança e conforto. Isto é visível quando, por exemplo, a criança se magoa e a única pessoa que consegue confortá-la e fazer com que pare de chorar é a mãe por muito que haja outros adultos bem intencionados à sua volta a tentar. Isto, é claro, se a criança tiver estabelecido um apego seguro com a mãe. Porque uma criança desta idade ainda não consegue internalizar a imagem das suas figuras de apego e ainda não tem uma memória temporal que lhe permita perceber o conceito de tempo e saber que a mãe voltará dentro de algumas horas ou dias, as ausências mais prolongadas (mais do que 24 horas) ainda podem ser sentidas como um abandono permanente com consequências traumáticas para uma criança desta idade.
Até aos dois anos de vida o cérebro das crianças está em constante mutação e são criadas e eliminadas milhares de ligações neuronais. Isto quer dizer que esta é uma fase de grande receptividade e que todas as experiências desta fase têm um impacto muito grande e que deixará marcas que podem ser definitivas na vida dessa criança. Uma criança desta idade ainda está a tentar perceber o que esperar do mundo e o seu cérebro organiza-se em função do que vai encontrando. Se aquilo que encontra é a ausência dessa figura principal em quem confia para se sentir protegida e apoiada o cérebro irá preparar-se para lidar com essa perda que a criança não sabe que é temporária. E para o fazer começa por activar o seu sistema de resposta ao stress que pode passar a funcionar de forma permanentemente alterada se entrentanto não se fizer nada para o compensar. (ver artigo: A resposta de Stress nos bebés)
Entre os dois e os três anos o cérebro da criança está ainda em fase de grande crescimento mas, nesta altura, a criança começa já, por um lado a ser mais facilmente capaz de estabelecer relações significativas com outras pessoas e, por outro, a ter alguma noção da temporalidade que lhe permite perceber que a mãe se ausenta de vez em quando mas que acaba sempre por voltar. Isto não quer dizer que a criança nesta altura esteja já preparada para lidar com uma ausência de muitos dias até porque, como já dissemos, ainda não é capaz de internalizar a figura da mãe. Uma criança de 7 ou 8 anos que se magoa, por exemplo, é capaz de se lembrar da sua mãe, perceber que ela não pode estar presente naquele preciso momento mas que, quando se voltarem a encontrar, ela lhe poderá dar uma dose extra de carinho e, com esta idade a criança já pode sentir-se confortada com este pensamento e ser capaz de esperar até que volte a ver a mãe. Uma criança de dois ou três anos que se magoa ainda não consegue perceber porque é que mãe não está presente, não sabe muito bem quando voltará a estar –se alguém lhe disser que a mãe volta daqui a dois dias ou duas horas, para criança é igual porque não faz ideia do que isso significa – e não tem capacidade de imaginar os carinhos que a mãe lhe poderia fazer se estivesse presente. A única coisa que uma criança desta idade consegue sentir é que lhe falta alguém que a possa confortar e voltar a fazer sentir-se segura.
Alguns autores defendem que até aos 6 anos a criança está totalmente voltada para o estabelecimento dos vínculos e das relações significativas para si, que idealmente, acontecerão com os pais e irmãos. A partir dos três anos, apesar da criança precisar ainda muito da mãe, as diferenças são que esta passa a ter alguma noção de tempo, já percebe que  mãe não se vai embora para sempre, já é capaz de estabelecer mais facilmente relações de confiança e conforto com outros adultos com quem passe muito tempo e já começa a ser capaz de internalizar a imagem da mãe, usando-a para se confortar mesmo quando esta não está fisicamente presente. Não quer dizer que uma criança desta idade seja ainda capaz de tolerar, sem danos para si e para a relação, ausências muito prolongadas mas, pelo menos estas já não terão um efeito tão traumático ou marcante.

E quando não podemos escolher e somos mesmo obrigados a deixar os nossos filhos?


Por vezes, por questõs profissionais, as mães são mesmo obrigadas a deixar por alguns dias os filhos. Quando isto acontece é muito importante, em primeiro lugar, deixá-los com pessoas com quem exista uma boa relação de apego. Se o pai tiver sido sempre muito presente na vida da criança, este será a pessoa ideal. Se a criança passa o dia com alguma ama ou avó dedicada, esta poderá ser a figura substituta que mais se adequa. Depois, essa pessoa, terá de perceber que, para a criança, aquela poderá ser mesmo uma fase traumática e terá que estar preparada para algumas alterações de comportamento, como maiores períodos de choro que será mais difícil de acalmar, maior necessidade de contacto físico, maior necessidade de atenção. Se a criança não tiver uma relação de confiança com a pessoa com quem fica estas manifestações podem não se verificar porque a criança não as irá encarar como uma fonte de conforto. Por outro lado também é comum que estas alterações aconteçam mais quando a mãe volta a estar presente. Isto não quer dizer que a criança não sofreu com a ausência da mãe como tantas vezes se costuma pensar. Quer dizer apenas que a criança, quando não encontrou uma fonte adequada de protecção e conforto, deixou de a procurar e tentou continuar a sua vida como se não precisasse dela. Acontece algo parecido com os bebés que são deixados a chorar sozinhos e acabam por deixar de chorar mas os seus níveis de cortisol – uma hormona que se segrega em maior quantidade em situações de stress – continuam mais altos que o normal: um comportamento quase de apatia e conformismo não significa que a criança não esteja a passar um um perído traumático, antes pelo contrário até.

            Quando a mãe volta podem acontecer duas coisas: a criança pode parecer ter regredido um pouco no seu desenvolvimento, sobretudo em crianças um pouco mais velhas e, durante os primeiros dias, não consegue largar a mãe e fica muito aflita de esta se afasta um pouco. Isto quer dizer que a criança não percebeu porque a mãe desapareceu e está com medo que desapareça de novo. A boa notícia é que este comportamento revela que, apesar de a criança ter ficado mais insegura da presença da mãe, a relação de apego não foi muito afectada e esta continua a procurá-la com a sua fonte principal de conforto. Se, pelo contrário a criança parece desligada e até afastada da mãe quando esta volta, é sinal de que a relação foi afectada. Quando a criança deixou de poder contar com a presença da mãe como fonte de conforto, para mimimizar o sofrimento ligado a essa descoberta, acabou por desligar a parte de si que acreditava nessa relação e deixou de encarar a mãe como uma figura importante e como a sua fonte principal de conforto e segurança.
            Em ambos os casos o que é importante percebermos é que houve uma vivência traumática para a criança e o que é fundamental é que procuremos formas de minimizar esse trauma, de compensar a criança pelo sofrimento que viveu, dando-lhe possibilidade de voltar a confiar na presença da mãe e no seu relacionamento com ela. Isto pode ser feito através de uma presença mais constante nos dias seguintes à ausência, através de um maior contacto físico, com a ajuda do babywearing, da amamentação e da cama partilhada, por exemplo e sobretudo através de um maior disponibilidade para estar simplesmente com a criança. Mesmo nos casos em que esta pareça ter-se afastado é fundamental que a mãe volte a tentar uma aproximação. Como adultos, quando sentimos que alguém nos abandonou, também precisamos que essa pessoa nos volte a dar provas do seu amor para que possamos voltar a confiar nela.
           O mais importante é compreendermos que, depois de uma ausência prolongada, é fundamental que a relação seja reparada para que tudo possa continuar o mais harmoniosamente possível. 


Ler também: Ausências: efeitos da privação da figura materna
            

sexta-feira, 28 de junho de 2013

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Babywearing II - Questões práticas

Quando pensamos nas coisas que precisamos de comprar para um bebé que vai nascer uma das primeiras coisas de que nos lembramos é o carrinho e, por vezes, parece-nos que seria impensável não ter um objecto que parece tão útil e essencial como este. Mas, a verdade é que, este objecto não é de todo imprescindível e, na verdade, pode fazer mais mal do que bem se o usarmos demasiado (ver artigo http://parentalidadecomapego.blogspot.pt/search/label/Babywearing%20-%20use%20o%20seu%20beb%C3%A9). Existem formas bem mais agradáveis e saudáveis (tanto para os pais como para os filhos) de transportar o seu bebé. Antes do meu filho nascer nem me questionava acerca da inevitabilidade de arranjar um carrinho qualquer para o transportar já que é algo que, na nossa sociedade, está sempre tão associado aos bebés. Felizmente acabámos por nunca o fazer e, hoje com quase dois anos de babywearing, estamos felizes por termos poupado o dinheiro e o espaço que este iria ocupar mas, acima de tudo, estamos felizes pela descoberta do babywearing que facilitou tanto a nossa vida em todos os níveis.
No nosso caso experimentámos vários tipos de porta-bebés à medida que o nosso filho foi crescendo e que nós os fomos descobrindo, por isso resolvi deixar aqui a nossa opinião acerca de todos aqueles que já experimentámos. 

Sling de argolas – este foi o primeiro porta-bebé que usámos.

Vantagens: È muito prático de por e tirar e, porque tem argolas, adapta-se bem a qualquer pessoa - mesmo que as estaturas sejam muito diferentes - ao contrário do que acontece com os slings que não têm argolas que precisam de ser comprados em função do tamanho da pessoa que o irá usar. Tem uma espécie de aba, em tecido que também pode ser muito útil para proteger bebés pequenos do sol, ou do vento e, também pode ser usada para dar de mamar de uma forma mais discreta. É muito fácil de transportar quando não está a ser usado, quer se mantenha pendurado no ombro ou dentro de uma mala. Pode ser também muito útil quando o bebé começa a querer andar porque é muito fácil deixá-lo andar no chão um pouco e voltar a colocá-lo no sling novamente.
Em relação aos slings sem argolas julgo que também se torna mais confortável, não só por ser ajustável, mas também porque é possível espalhar o tecido no ombro em que o sling se apoia, de forma a distribuir bem o peso.
Desvantagens: com bebés mais pesados ou pessoas com a coluna mais frágil, pode não ser muito confortável para usos prolongados porque o peso fica mais concentrado num dos lados do tronco. 

Pano porta-bebé – Quando o meu filho começou a ficar um pouco mais pesado, preferimos começar a usar mais o pano porque permite uma melhor distribuição do peso.

Vantagens: Permite distribuir bem o peso pelo corpo de quem usa, o que significa que não prejudica a coluna vertebral e se torna mais confortável de usar por longos períodos do que o sling. Na verdade, se for bem colocado, até há quem diga que acaba por fortalecer os músculos das costas. No meu caso – que tenho uma hérnia discal e não me dou muito bem com pesos – nunca senti que me prejudicasse  a coluna ou que me fizesse dores de costas e sempre andei muito tempo a pé, diariamente, com o meu filho no pano. No inverno pode ser muito útil para proteger o bebé do vento e do frio, já que é possível tapar a cabeçinha com o pano mas manter o rosto destapado, de forma a que o bebé possa ver a rua. É fácil de transportar quando não está a ser usado, apesar de ser um pouco volumoso.
Desvantagens: pode demorar um pouco a por e a tirar, sobretudo quando ainda não se tem muita prática. Como o pano dá algumas voltas, no Verão, com o calor, pode tornar-se um pouco quente. 

Podeagi – é uma espécie de compromisso entre o pano e o sling no sentido em que é quase tão prático de por e tirar como o sling mas distribui tão bem o peso como o pano.
Vantagens: é mais prático de colocar do que o pano. Permite uma boa distribuição do peso, por isso torna-se confortável mesmo com uso prolongado e bebés pesados. Quando começam a andar mas ainda se cansam facilmente é mais prático de usar do que o pano, porque se põe e tira mais facilmente. Também é menos volumoso que o pano, para se transportar quando não está a ser usado. Como dá menos voltas que o pano também se torna mais fresco, sobretudo na zona das costas. 
Desvantagens: não se consegue apoiar tão bem a cabeça do bebé quando adormece como com o pano o que pode não ser tão confortável quando a criança adormece ou no caso de um bebé muito pequeno. No entanto, fizemos muitas caminhadas com o meu filho a dormir confortavelmente instalado no podeagi. 

Ergo-Baby – quando o meu filho ficou mais crescido e pesado, resolvemos experimentar um ergo-baby, que é o que usamos actualmente. Esta é uma marca de porta-bebés fisiológicos, o que significa que respeita a anatomia do bebé ( ao contrário daqueles porta-bebés rígidos em que o bebé fica pendurado pelas virilhas e com uma posição incorrecta para a coluna vertebral).
Vantagens: é mais prático de por do que o pano ou o podeagui e permite também uma boa distribuição do peso. Tem alças almofadadas que podem tornar um pouco mais confortável a pressão que faz o peso da criança nos ombros. É mais fácil de colocar às costas do que o pano ou podeagui. È muito prático com crianças que já andam porque podem subir e descer do porta-bebés à vontade com muita facilidade. Quando não está a ser usado também se torna muito prático deixá-lo preso à cintura, deixando-nos as mãos livres. Tem uma parte de tecido que se prende com molas e que permite apoiar a cabeça do bebé quando este adormece, tal como no pano. 
Desvantagens: o peso fica mais localizado nos ombros. Com o pano é possível espalhar o tecido pelos ombros e costas para que o peso fique mais distribuído, neste caso, como as alças são mais estreitas, não é possível fazê-lo. No entanto, como as alças são almofadadas e como o peso também se distribui pela cintura, não acho que se torne mais desconfortável. Não é tão fácil de por dentro de uma mala ou saco

como o pano ou podeagui. Nunca o experimentámos com um bebé pequenino mas parece-me, que neste caso, não seria tão confortável para o bebé como um pano, podeagui ou sling, porque – apesar de não ser rígido – não se molda tão bem ao seu corpo como os outros porta-bebés que são apenas uma faixa de tecido.

Tula Baby Carrier -

Recentemente, com o meu filho a crescer, cheguei à conclusão que o ergobaby já começava a tornar-se desconfortável para ambos. Por indicação de uma pessoa conhecida, descobri esta marca que faz porta-bebés específicos para crianças maiores e fiquei fã. Estes porta-bebés permitem um melhor apoio para as pernas de uma criança a partir dos 18 meses - porque têm uma largura maior de tecido além de um enchimento próprio na zona onde as pernas da criança se apoiam - o que o torna mais confortável para a criança e também permite aos pais uma melhor distribuição do peso, tornando-o muito mais confortável de usar.


Para saber mais sobre o Tula, pode ver o site: http://www.babytula.com/
Pode encontrar mais informações sobre o ergobaby também no site da marca: http://store.ergobaby.com/
Uma outra marca de porta-bebés que também são ergonómicos é a Manduka que, na verdade, tem uma largura até um pouco maior do que a do ergobaby o que pode permitir um transporte mais confortável, de uma criança maior. 

Para saber as várias formas de colocar o pano, sling ou podeagui, encontra informação bastante detalhada no site: http://www.psicolor.net

Uma pesquisa no YouTube com o tópico Babywearing também pode mostrar-lhe vários vídeos que ensinam como usar os vários tipos de pano.

            Bons passeios!




quarta-feira, 12 de junho de 2013

Metta - Meditação da Bondade Amorosa com os nossos filhos


Na tradição Budista há uma prática de meditação que se chama Metta Bhavana a que, em português, podemos chamar Meditação da Bondade Amorosa.
Bhavana, em pali – a língua em que foram registados os textos clássicos da tradição budista -  significa cultivar, desenvolver ou produzir. Metta costuma ser traduzido como bondade amorosa (lonving-kindness em inglês), benevolência, boa vontade ou amizade, é por vezes explicado como sendo uma forma de amor sem que exista apego. Podemos dizer que Metta é um sentimento de amor incondicional, ou seja, que não depende das circunstâncias para existir, muito semelhante ao amor dos pais pelos seus filhos. Esta prática consiste então em canalizar os sentimentos de Metta começando por dirigi-los para nós mesmos, depois para algumas pessoas com quem seja mais fácil fazê-lo e vamos prosseguindo para pessoas com quem já não será tão fácil despertar esses sentimentos até às pessoas com quem seria mais difícil sentirmos alguma boa vontade ou até áquelas por quem nunca nos passaria pela cabeça sentir nem sequer nada parecido.
Uma das vantagens desta prática é que nos faz entrar em contacto com sentimentos positivos que podem ter muitos benefícios para a nossa vida e até para a nossa saúde. Toda a gente sabe como é bom estarmos apaixonados e, quando tomamos consciência de que estamos apaixonados por alguém todo o mundo fica mais colorido, a vida mais agradável, tudo nos parece mais fácil, mais belo, mais divertido e  interessante. Isto acontece porque o estado de paixão desperta em nós sentimentos de metta, de boa-vontade. Quando estamos neste estado tornamos-nos mais felizes, mais tolerantes e passamos a apreciar muito mais a vida e tudo o que a preenche. Porque o corpo não está separado da mente, os bons sentimentos produzidos podem mesmo produzir efeitos sobre a nossa saúde como comprovou um estudo de Carson et e all, em 2005, com 43 pacientes que sofriam de dores lombares crónicas. Este estudo mostrou que um programa de oito semanas de treino da meditação da bondade-amorosa podia ser muito eficaz a reduzir a dor e os sentimentos de zanga nestas pessoas. O estudo concluiu que as pessoas que dedicavam mais tempo a esta prática tinham um nível de dor mais baixo no próprio dia e menos sentimentos de zanga no dia seguinte. Esta prática levou também a melhor ajustamento psicológico destes doentes de dor crónica. Robert Emmons, no seu livro Obrigado (2009), diz que as emoções positivas podem servir para corrigir os efeitos das emoções negativas porque têm a capacidade de restaurar o equilíbrio fisiológico e emocional que emoções como o stress e a ansiedade nos fazem perder. Este autor diz também que os estados emocionais positivos, como um estado de metta, podem de facto diminuir a experiência da dor, tal como este estudo mostra. Os estados desagradáveis, como o stress e ansiedade têm o efeito oposto e tornam-na mesmo mais intensa. Já há vários estudos que demonstram também que  o riso tem um efeito analgésico porque provoca a libertação de endorfinas, hormonas naturais que o nosso corpo produz em situações de prazer e que são da família dos opiáceos usados muitas vezes para diminuir ou controlar a dor.
Quem tem filhos e tenta fazer esta prática quase sempre percebe que estes são as pessoas com quem é mais fácil despertar estes tais sentimentos de metta. Principalmente quando os nossos filhos são pequenos é muito fácil tomarmos consciência destes sentimentos cada vez que olhamos para eles ou que eles, simplesmente, sorriem para nós. Mas, acontece que, por vezes, deixamos que a tarefa de educar se torne tão pesada que acabamos por nos esquecer que estes sentimentos estão presentes. E, quando isto acontece, cuidar dos nossos filhos pode facilmente tornar-se um peso, algo que nos cansa e desgasta. Muitas vezes vemos pais que acreditam que precisam de se afastar dos filhos para descansar. É claro que, enquanto pais, precisamos de encontrar um equílibrio entre cuidar de nós e fazer coisas que nos dão prazer e estar presentes para os nossos filhos. Acontece é que cada vez temos menos tempo para estas duas coisas no nosso dia-a-dia porque o trabalho ocupa a maior parte deste. Então, geram-se desequílibrios e, muitas vezes, para os corrigir, acreditamos que precisamos de nos afastar dos nossos filhos, precisamos de estar longe deles para descansar verdadeiramente. Mas, se é verdade que precisamos de encontrar algum tempo para estar só connosco nos nossos dias, também é verdade que o tempo que passamos com os nossos filhos pode ser um tempo de descanso, de relaxamento e até de crescimento pessoal e de muita satisfação. Se estivermos ligados a estes sentimentos de metta, brincar com os nossos filhos ou estarmos simplesmente presentes a partilhar alguns instantes com eles, sem outras distracções, pode ser um momento de profundo bem-estar. Se nos deixarmos entrar em contacto com esses sentimentos tão profundos podemos obter toda a satisfação que estes promovem, podemos deixar que eles nos transformem e podemos deixar que se tornem os nossos momentos de recarregar baterias, de saborear a vida, o presente, de encontrar tranquilidade, bem-estar e uma felicidade profunda que estes sentimentos de metta, ou de amor incondicional podem trazer consigo.
Quando estamos apaixonados nunca nos passa pela cabeça que, para descansar, precisamos de estar longe da pessoa por quem nos apaixonámos, antes pelo contrário: quando nos apaixonamos queremos partilhar tudo, fazer tudo com aquela pessoa especial. Então porque é que vemos tantos pais que acreditam que precisam de estar longe dos filhos para descansar ou para encontrarem alguma fonte de prazer nas suas vidas?
Muitas vezes na nossa sociedade cultiva-se esta ideia de que os pais precisam de estar longe dos filhos e de fazer coisas sem eles para se sentirem bem. É verdade que é muito importante que os pais se sintam bem para que possam cuidar verdadeiramente dos filhos e, também é verdade, que os pais não podem viver exclusivamente em função dos filhos. Mas acredito que existe também alguma confusão quando pensamos que precisamos de passar muito tempo longe dos filhos para o fazermos. Para encontrarmos  espaço para cuidar de nós enquanto adultos e seres humanos que têm um projecto de vida independentemente dos filhos não precisamos de passar assim tanto tempo longe deles. Precisamos sim de encontrar um espaço na nossa vida para cuidar de nós todos os dias, para nos nutrimos mas, precisamos também urgentemente de encontrar tempo e espaço para estar com os nossos filhos. Estar de verdade e estar em quantidade, não apenas com qualidade. Na verdade, quanto mais tempo passarmos longe dos nossos filhos, mais distante se torna o relacionamento e maiores serão as probabilidades de que este nos traga problemas e dissabores. Então se cultivarmos uma relação de proximidade com os nossos filhos é muito mais fácil que esta relação se torne uma fonte de prazer e de verdadeiro bem-estar.
Se aprendermos a focar-nos nos nossos sentimentos de metta quanto estamos com os nossos filhos podemos tornar estes momentos quase numa espécie de meditação e percebemos rapidamente que não precisamos de nos afastar deles para descansar. E uma das grandes vantagens de percebermos isto é que os nossos filhos também ganham muito com essa nova consciência: ganham a nossa presença verdadeira, ganham a consciência que é possível estar presente, saborear a vida e o momento, aprendem que não precisam de estar sempre a correr e, mais importante do que tudo o resto, aprendem que são importantes, que são especiais para nós, aprendem que podem também ser uma fonte de felicidade e bem-estar para os pais e esta será com certeza uma das aprendizagens mais valiosas que poderão fazer na vida.
E esta aprendizagem contribui também para que educar se torne uma tarefa muito mais fácil, muito menos cansativa. Com a presença genuína dos pais a criança torna-se muito mais receptiva, muito mais fácil de educar, de ensinar e isto também faz com que a tarefa dos pais, de impor limites e dar exemplos deixe de ser apenas uma luta de vontades para se tornar em algo mais harmonioso em que existe uma sintonia e uma verdadeira escuta daquilo que precisa de ser feito ou ensinado na relação.
            E, tal como nos adultos é possível demonstrar que a prática de Metta Bhavana pode ter muitos benefícios para a saúde, também as crianças podem colher vários benefícios do facto dos pais passarem a olhar para elas quase como pequenos guias espirituais.
Gabor Mate, um médico canadiano, explica que quando as crianças se sentem mais seguras e amadas pelos pais produzem naturalmente mais endorfinas que estão associadas aos sentimentos de bem-estar, de tranquilidade e de segurança. Isto significa que, entre outras coisas, estas crianças terão, por exemplo, uma maior resistência à dor. Este médico dá o exemplo daquelas crianças que choram muito sempre que se magoam um pouco, ou que se assustam facilmente, explicando que isto acontece porque, provavelmente, estas crianças terão uma quantidade menor de endorfinas na sua corrente sanguínea o que as torna menos tolerantes à dor ou ao desconforto. Isto quer dizer que, uma criança segura e confiante do amor dos pais também será, provavelmente, uma criança que chora menos o que, por sua vez, também contribui para que se torne mais fácil cuidar dessa criança, principalmente quando pensamos em bebés ou em crianças pequenas.
A prática de Metta Bhavana também faz com que nós próprios passemos a ser mais capazes de produzir endorfinas que nos podem trazer uma sensação de conforto, de tranquilidade e de bem-estar, melhorando a nossa saúde e a nossa satisfação com a vida.
Para fazermos esta prática de uma forma ortodoxa precisamos de estar sozinhos e concentrados nos sentimentos que vão surgindo com a repetição de algumas frases que traduzem essa boa vontade. Mas, para a fazermos de uma forma informal, basta que olhemos para os nossos filhos e tomemos consciência dos sentimentos que despertam em nós. Pode ser mais fácil fazer isto com filhos bebés, ou crianças pequenas mas, seja qual for a idade dos nossos filhos, esses sentimentos estarão com certeza presentes. E, seja qual for a idade dos nossos filhos eles merecem que sejamos capazes de entrar em contacto com esses sentimentos e de ficarmos simplesmente presentes perante essa dádiva de vida e de amor que cada filho representa para nós.