quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Mães que trabalham


Há tempos li numa revista uma entrevista a uma pessoa do governo em que esta falava um pouco da sua vida familiar, do pouco tempo que tinha ficado em casa depois da sua filha nascer mas de como tentava chegar sempre cedo, saindo do ministério pelo menos a tempo de jantar em casa com os seus 4 ou 5 filhos. Não quero fazer aqui julgamentos sobre o facto desta mulher ser má ou boa mãe, nem acredito que uma mãe se torne pior por investir na sua carreira. Mas, a verdade, é que como pessoa pública esta senhora, para mim, tornou-se um símbolo de algo que me incomoda bastante hoje em dia: da ideia de que é possível ser-se boa mãe e, ao mesmo tempo que se investe na carreira e se trabalha durante várias horas por dia mesmo com filhos pequeninos em casa. Não sou contra a ideia das mães trabalharem, antes pelo contrário, mas sou definitivamente contra a ideia das mães de crianças pequenas trabalharem várias horas por dia e verem os filhos apenas uma ou duas horinhas por dia no meio dos banhos, dos jantares e da hora de deitar.
Hoje em dia é muito veiculada a ideia de que é possível ser-se bom pai ou boa mãe desde que se dedique aos filhos uns minutos de qualidade todos os dias mas a verdade é que uma criança com menos de dois anos não consegue formar um vínculo seguro e estável com uma mãe que vê apenas poucas horas por dia. Se não aceitamos que alguém possa construir uma carreira importante trabalhando em part-time, como é que podemos acreditar que seremos boas mães se o formos apenas em part-time nos primeiros tempos de vida dos nossos filhos?
Ser mãe de uma criança pequena implica uma total disponibilidade para estar com essa criança, para a conhecer, para criar um vínculo com ela e para lhe dar o tempo e a segurança necessárias para que ela possa criar um vínculo connosco. E isto não pode fazer-se ao mesmo tempo que nos preocupamos com trabalhos exigentes e que nos tomam demasiado o tempo e a cabeça. Para que uma criança cresça saudável e possa tornar-se um adulto seguro, confiante e com todas as bases para se sentir feliz e realizado com a vida precisa de estabelecer um vínculo seguro com os seus pais. No primeiro ano de vida normalmente a criança estabelece mais facilmente esse vínculo com a mãe e, no segundo ano, se tudo correr bem e se este estiver disponível, passa a estar mais disponível para o estabelecer também com o pai. Mas, para que esse vínculo se estabeleça a mãe tem de estar presente, verdadeiramente presente, não basta a presença física mas é essencial que haja uma presença afectiva uma total disponibilidade emocional para estar com a criança, para a acolher, para responder às suas necessidades. Hoje em dia fala-se muito do Ambiente de Adaptabilidade Evolutiva: esta expressão tem origem nos trabalhos de John Bowlby que defendia que os seres humanos nascem programados para estabelecer um vínculo com as suas mães –ou com outra figura substituta que esteja presente durante a maior parte do tempo – e que apresentam um leque de comportamentos instintivos que têm como finalidade ajudar à formação desse vínculo que é essencial para o seu bom desenvolvimento e que formará a base de todas os relacionamentos futuros.(ver artigo) Então para Bowlby - que baseou os seus estudos na observação do comportamento animal, da interacção entre mães e filhos em diversas culturas e na observação de crianças institucionalizadas - a presença da mãe era uma parte integrante do ambiente de adaptação evolutiva da espécie humana. Isto quer dizer que o ser humano evoluiu num ambiente onde a mãe estaria presente durante a esmagadora maioria do tempo nos primeiros tempos de vida das crianças.
Nas sociedade mais tradicionais – tal como acontecia no ocidente algumas décadas atrás – a tendência é para que a mãe esteja presente durante a esmagadora maioria do tempo, pelo menos durante o primeiro ano de vida da criança, sendo que esta presença pode começar a diminuir gradualmente ao longo dos primeiros anos. Então isto quer dizer que este é o Ambiente de Adaptação Evolutiva óptimo para a espécie humana, é com este ambiente que estamos preparados para lidar e é para este ambiente que fomos programados: o bebé humano, quando nasce está preparado para esperar uma presença quase constante da mãe nos seus primeiros tempos de vida.
            Só muito recentemente, nas sociedades ocidentais, é que a mulher começou a passar mais tempo no local de trabalho do que em casa -  quer por questões de realização pessoal quer por questões financeiras - o que é certo é que isto é muito recente na história da humanidade e o que também é certo é que nunca conhecemos tantos casos de depressão, de ansiedade e de inúmeras outras perturbações psicológicas que não param de aumentar nos nossos dias. O número de crianças com perturbações mentais como autismo, hiperactividade, perturbações de ansiedade, depressão e outros problemas é maior do que alguma vez foi na nossa história. Estes números preocupantes mostram-nos que alguma coisa não está a correr bem.
Isto não quer dizer que as mulheres precisam de abdicar da carreira para ficarem em casa com os filhos. Não defendo a volta a um tempo em que as mulheres simplesmente não tinham escolha. Mas, enquanto sociedade, precisamos urgentemente de tomar consciência de que os bebés precisam das mães e as mães precisam dos bebés. Todas as mães sofrem quando têm que se separar várias horas por dia de um filho de meses porque o seu instinto também lhes diz que esse comportamento não é adequado. Algumas mães darão mais ouvidos a esse instinto outras tentam ignorá-lo e acreditar que essa ausência não causará danos mas, o que é certo, é que nenhuma mãe se sente feliz quando precisa de passar o dia inteiro longe de um bebé pequeno. Então precisamos urgentemente de criar condições para que as mães possam dar ouvidos ao seu instinto e ficar em casa algum tempo, que nunca deveria ser menos de um ano e idealmente seriam dois ou três, como acontece nos países nórdicos, para poderem estar disponíveis para os filhos. Mas criar condições também para que estas mães não tenham que abdicar definitivamente das suas carreiras. Se a sociedade vir como essencial esta presença da mãe durante os primeiros anos, mais facilmente criará as condições necessárias para que a mãe possa ficar em casa com os filhos e voltar ao trabalho quando quiser fazê-lo. Ou, em alguns, casos poderá ser possível trabalhar apenas poucas horas por dia, o importante é estabelecermos prioridades e sabermos que, quando os filhos são pequenos deverão ser eles a nossa prioridade. A vida é muito longa e teremos muito tempo para a carreira e trabalho depois dos filhos crescerem mas a infância deles nunca mais volta. Os primeiros dois anos de vida de uma criança são essenciais para moldar a sua personalidade, a sua forma de estar no mundo e durante esses anos a presença da mãe – pelo menos no primeiro ano, já que no segundo poderia ser o pai a estar mais presente – é essencial para que possa desenvolver-se com todas as condições necessárias para crescer de forma saudável e capaz de fazer uso de todo o seu potencial.
            De igual modo precisamos também de valorizar o papel das mães que podem e querem optar por ficar em casa com os seus filhos, precisamos de compreender a importância da decisão que tomaram e de não menosprezar as suas escolhas. Porque me parece que, muitas vezes, ainda valorizamos demais a imagem da mulher activa que se empenha na sua carreira e chega a casa todos os dias às oito o nove da noite, esquecendo-nos que, na casa dessa mulher provavelmente há um ou mais filhos que sofrem com a ausência da mãe e que crescem sem o mínimo de condições necessárias para uma infância feliz que lhes proporcione as bases para uma vida verdadeiramente preenchedora. Ouvi há alguns anos uma notícia sobre o primeiro país do mundo (não tenho a certeza se seria o Canadá) que dava uma reforma às donas de casa porque reconhecia que estas davam um contributo importantíssimo para o PIB do país ao cuidarem dos seus filhos para que se tornassem adultos produtivos e dos maridos para que pudessem trabalhar descansados e acredito que mais países deveriam seguir esse exemplo. Não defendo que uma mulher tem de ficar em casa quando não sente vocação para fazê-lo mas acredito que precisamos de valorizar quem faz essa escolha.
Hoje em dia está um pouco em voga o conceito de resiliência e queremos acreditar que as crianças são muito resilientes e conseguem crescer e adaptar-se a qualquer ambiente em que sejam criadas. È verdade que muitas crianças crescem em condições adversas e conseguem, apesar de tudo, construir uma vida feliz mas aquilo de que precisamos ter consciência é que de isso só é possível se essas crianças tiverem a sorte de ter, pelo menos um adulto nas suas vidas com quem possam estabelecer uma relação significativa, alguém que as faça sentir importantes e especiais. Esse alguém pode por vezes não ser a mãe ou o pai mas terá que existir e estar presente desde cedo e de uma forma permanente na vida da criança. Porque o que se sabe é que, quando as crianças não têm a possibilidade de estabelecer laços desde cedo (como aconteceu com algumas crianças institucionalizadas) muito dificilmente o conseguirão fazer em adultas. 
Um estudo com ratinhos, por exemplo, mostra que aqueles ratinhos que eram mais lambidos pelas suas mães depois de nascerem e durante as suas primeiras semanas de vida eram aqueles que tinham uma maior resistência ao stress e, quando cresciam, estes ratinhos, por sua vez, tinham também uma maior tendência para lamber mais as suas crias. Então, cuidarmos dos nossos filhos dá-lhes a base para serem mais capazes de lidar com os desafios mas também para serem eles próprios melhores pais e mais capazes de se sentirem realizados e felizes com as suas relações.
Uma das dificuldades que muitas mulheres sentem quando ficam em casa com os filhos é o isolamento. Antigamente, nas sociedades tradicionais, as pessoas viviam mais em conjunto, as jovens mães tinham sempre o apoio da família e de todos os membros da aldeia ou tribo que nunca estavam muito afastados. Hoje em dia, especialmente nas cidades, vivemos muito mais sozinhos e o trabalho é, muitas vezes, a única forma de nos sentirmos em contacto com alguém durante o dia. Então é preciso também tomarmos consciência de que há formas de combater isso, criandos grupos de apoio, por exemplo para mães que estão em casa. Aumentar o tempo que cada mãe pode ficar em casa também ajudaria a combater este isolamento porque, se todas ficássemos mais tempo em casa, seria sempre mais fácil conhecer alguém que estaria na mesma situação e com quem nos poderíamos encontrar regularmente.
Nessa mesma entrevista esta mãe também dizia que uma das filhas estava sempre a perguntar quando é que acabam as suas funções para poder voltar a ter a mãe mais disponível. A tendência de muitos adultos é a de desvalorizar isto e explicar que o que fazem, no seu trabalho, é muito importante e achar que os filhos compreenderão isto até porque, muitas vezes, também acreditam que trabalham justamente para lhes dar uma  vida melhor. Mas uma criança pequena não tem como perceber isto e tudo que sabe é que alguma coisa não está bem e aquilo que sente é que não é suficientemente importante na vida dos pais para que estes passem mais tempo consigo. Então também precisamos de deixar de desvalorizar estas frases dos nossos filhos, precisamos de dar mais ouvidos às crianças porque elas sabem exactamente do que precisam: precisam de um pai e de uma mãe, em casa, presentes e capazes de os fazer sentir que são realmente a coisa mais importante do mundo.

E quando não temos opção?

Se realmente precisamos de trabalhar por razões económicas que, infelizmente, são as mais frequentes, não quer dizer que estaremos a privar os nossos filhos de uma relação connosco mas, nestes casos, é importante sabermos que existem algumas formas de ajudarmos a restabelecer esse laço. Com os bebés, o contacto físico é muito importante para o estabelecimento do vínculo por isso, umas das coisas que podemos fazer é dormir com os nossos filhos ou usá-los num pano ou outro porta-bebés durante todo o tempo que estivermos em casa com eles. A amamentação também é uma excelente forma de restabelecer essa ligação. Com crianças um pouco maiores o contacto físico continua a ser muito importante mas precisamos também de encontrar outras formas de restabelecer o laço que se fragiliza um pouco  com as ausências diárias. Para isto o essencial é estarmos atentos aos seus sinais e necessidades para encontrarmos formas criativas de os fazer sentir que são de facto a parte mais importante das nossas vidas. Muitas vezes isto implica deixar de lado todas as outras tarefas para nos dedicarmos exclusivamente à criança quando estamos em casa. A disciplina positiva também é muito importante nestes casos porque nos lembra que, se uma criança se porta mal não é porque está a ser mal educada mas sim porque já não se sente tão incluída na nossa vida e precisa de ser lembrada que continua a ser a parte mais importante desta. Então, nestes casos mais do que castigar, educar bem é termos consciência de que o mau comportamento é sempre a expressão de uma necessidade da criança que não está a ser preenchida.
Gordon Neufeld lembra-nos de que é essencial restabelecer a ligação após cada separação. Isto quer dizer que a primeira coisa que devemos fazer ao chegar a casa é saudar os nossos filhos e passar algum tempo com eles, como que a reparar o vínculo. Por vezes queremos descansar um pouco, ou mudar de roupa ou preparar alguma coisa antes de estarmos com eles e as crianças ficam impacientes mas, se lhes dermos primeiro alguns minutos de atenção, poderemos mais facilmente fazer o que quer que precise de ser feito a seguir. Isto ajuda a criança a sentir que de facto é uma prioridade nas nossas vidas.
Sabermos que é muito importante encontrar formas de compensar os nossos filhos pelas nossas ausências diárias é fundamental e pode fazer toda diferença na possibilidade desse vínculo se estabelecer de forma segura, mesmo quando precisamos de trabalhar todos os dias o dia inteiro. 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Segundo Princípio: Alimentar com Amor e Respeito

Este vídeo fala da importância de alimentar um bebé ou criança respeitando os seus ritmos e necessidades, como forma de manter e favorecer o vínculo e a ligação entre pais e filhos. Fala também da amamentação como a forma mais natural e saudável de alimentar um bebé e como algo que facilita justamente a criação desse vínculo fundamental entre mãe e filho.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Primeiro princípio: a preparação para o parto, gravidez e parentalidade

Este é o segundo vídeo sobre os oito princípios da Parentalidade com Apego, tal como foram formulados pela organização Attachment Parenting International. Este fala do primeiro princípio que defende que deve haver sempre uma preparação para o parto, para a gravidez e para a parentalidade.


sábado, 14 de dezembro de 2013

Desculpas


Duas crianças, com cerca de dois anos e meio, brincam no parque infantil com alguns brinquedos espalhados no chão. Brincam lado a lado porque, nestas idades, as crianças ainda não têm a capacidade de interagir e cooperar de forma a que se possa dizer que estão verdadeiramente a brincar em conjunto. Estas crianças estão entretidas no seu mundo, brincando e comunicando ao seu modo até que uma delas decide bater com um carrinho de madeira na cabeça da outra que desata a correr para o pé da sua mãe a chorar.
Pode ter sido apenas para ver como reagiria o outro, para ver se o carrinho faria algum som a bater na cabeça do rapaz, para saber se se partiria ou porque estava realmente chateado com alguma coisa que se tivesse passado entretanto. O que é certo, é que as crianças, por vezes, fazem estas coisas e não o fazem  por maldade, porque, nesta idade ainda nem têm bem a capacidade de perceber o que isso é ou a capacidade de perceber bem o sofrimento do outro. Mas, neste caso, o pai do rapaz que bateu que apenas viu o outro menino sair a correr para o colo da mãe que lhe explicou que o seu filho lhe tinha batido com o carro na cabeça, pega no filho pelo braço e leva-o para o pé do outro que chorava dizendo com voz grave e autoritária: “pede desculpa ao Pedro, vá pede desculpa!” A criança não tinha vontade nenhuma de pedir desculpa, até porque nem percebia muito bem o porquê daquele alarido todo, mas o pai insiste: “Não vês o Pedro a chorar? Diz desculpa ao Pedro, vá! Estou à espera que peças desculpa!” Perante esta insistência, o coitado lá repete, esta palavra que o pai tanto quer que ele diga, em voz baixa, com um ar entre o assustado pela reacção do pai e pela confusão toda que se gerou de repente e o envergonhado pela atitude do pai e das restantes pessoas que olham para si como se, de repente, tivesse passado de coisa mais fofa ao diabo em figura de gente. Mas o pai ainda não ficou satisfeito com estas desculpas repetidas em voz baixa e pouco segura e continua ainda a insistir: “Isso assim não é nada, ninguém ouviu! Pede desculpa outra vez ao Pedro como deve ser, em voz alta!” A criança agressora lá repete a tal palavra ao agredido – agora num tom mais alto mas com um ar ainda mais humilhado - que não parece muito interessado em ouvi-lo, até porque já não lhe dói a cabeça e já está confortável no colo da sua mãe e, entretanto ficou também meio baralhado com aquela confusão toda. O pai, continuando a pegar na criança pelo braço e um pouco mais aliviado com o pedido de desculpas do filho, pede também desculpa à mãe do Pedro e leva-o para longe dali aproveitando o caminho para lhe dizer que não volte a fazer isso e que se bate em mais algum menino não volta a trazê-lo ao parque tão cedo.
Não assisti a esta cena mas já vi outras parecidas várias vezes. E fico sempre a pensar: o que é a criança aprende com este pedido de desculpas? Nada. Rigorosamente nada de útil ou positivo. O pai desta cena a única coisa que fez foi fazer com que a criança se sentisse envergonhada e humilhada sem sequer chegar a perceber bem porquê. Esta criança sentiu-se humilhada pela atitude do pai que lhe mostrou que fez algo de muito grave, de muito errado e que a colocou no centro de todas as atenções, ao mesmo tempo que a forçava a repetir uma palavra que ela nem percebia muito bem para que servia ou o que queria dizer. Porque desculpa é apenas uma palavra, não serve de nada para que a criança perceba as consequências dos seus actos. Depois desta espécie de humilhação pública em que todo o parque olhava para a criança à espera do tal pedido de desculpas a única coisa que o pai lhe disse é que não se podia bater e que, se o fizesse, deixaria de o trazer ao parque, transmitindo-lhe mais uma vez essa ideia ou sensação de que fizera algo de muito grave, de tão feio que o pai nem queria voltar a ser visto com ele em público novamente se esse comportamento fosse repetido. Esta atitude só traz à criança uma sensação de vergonha que é dos sentimentos mais nocivos que podem existir. Uma criança envergonhada, humilhada, é uma criança que sente que deixou de ser digna do amor dos pais e este é um sentimento muito corrosivo para uma criança pequena que precisa deste amor e que usa os seus pais como um espelho. As crianças aprendem quem são através daquilo que veêm reflecido nos pais. Uma criança que vê constantemente reflectido no olhar dos seus pais este sentimento de desaprovação de incompreensão é uma criança que se passa a ver de uma forma muito negativa. Se os pais veêm os seus comportamentos como um mal que precisa de ser controlado a criança passa a acreditar também que existe essa mal dentro de si e isso poderá ser muito prejudicial para o seu desenvolvimento, para a sua auto-estima e para a sua confiança em si mesma.
Então, nestes casos, qual seria a melhor forma de lidar com uma situação destas? Seria muito mais adequado se o pai tentasse mostrar à criança as consequências das suas acções sem a fazer sentir-se humilhada, sem a fazer sentir-se desajustada, sem a fazer sentir que existe algo de errado consigo. Porque na realidade, uma criança pequena que bate não o faz por maldade mas sim por incompreensão, incompreensão das consequências desse acto e do sofrimento que pode provocar nos outros. Então o pai poderia ter falado com ele, mostrado como o outro menino ficou triste e magoado, aproveitando para ajudar a criança a compreender as consequências dos seus actos. Poderia também explicar que não gosta de o ver bater nas outras crianças,  mas fazendo isto a partir de um lugar, dentro de si, que sabe que a criança não  o fez por mal, a partir desse lugar que ama o seu filho acima de tudo e que é capaz de o ver como um ser integralmente bom mas que, por vezes, faz coisas erradas.
Porque os nossos filhos aprendem a ver-se a si mesmos através do nosso olhar. A imagem que temos deles é exactamente a imagem que eles irão formar de si mesmos. Então é muito importante sermos capazes de lhes transmitir uma imagem positiva mesmo nas situações que gostaríamos de corrigir. É fundamental sermos capazes de transmitir aos nossos filhos este amor incondicional porque é através dele que eles aprenderão a amar-se a si próprios. Isto não quer dizer que precisamos de ter uma atitude passiva perante todos os comportamentos deles mas quer dizer que é muito importante sermos capazes de corrigir os comportamentos sem sentir que precisamos de castigar a criança. É muito importante olharmos para a criança como alguém que, por vezes, pode precisar de ser direccionado, pode precisar de alguém que lhe mostre alguns limites ou outros caminhos a seguir mas não podemos olhar para ela como alguém que tem uma natureza má e que precisa de ser controlada. Porque se for esta a imagem que temos deles será esta a imagem que eles construirão de si próprios. Então podemos aprender a corrigir ou a direccionar sem castigar, sem julgar. Precisamos de aprender a corrigir mantendo presente o amor que temos por eles. Porque os momentos em que erramos são justamente aqueles em que mais precisamos de nos sentir amados e aceites. Só assim estaremos verdadeiramente disponíveis para reflectir sobre esse erro e aceitar que errámos. 
Na verdade este pai, ao forçar o filho a pedir desculpas desta forma, provavelmente fê-lo porque se sentiu ele próprio envergonhado com o comportamento do filho, preocupado com o julgamento dos outros, com medo que os outros pais ou mães presentes pensassem que o seu filho era má pessoa ou que ele não o sabia educar. Então é preciso também estarmos sempre conscientes das escolhas que fazemos quando escolhemos educar os nossos filhos neste tipo de situações e é muito importante perguntarmo-nos sempre se agiriamos exactamente da mesma forma caso estivéssemos sozinhos e sem mais ninguém a ver.
Porque os nossos filhos precisam mesmo de saber que os amamos seja em que circustâncias for. E precisam de ver reflectido nos nossos olhos, através de nós e da forma como interagimos com eles que são seres humanos bons, capazes, competentes e dignos de ser amados mesmo quando cometem erros. 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Parentalidade com Apego - Oito princípios básicos

Uma descrição da importância da Parentalidade com Apego e dos oito princípios que estão na base desta abordagem, tal como foram formulados pela organização Attachment Parenting International, dedicada a defender e divulgar os benefícios desta forma de educar e de nos relacionarmos com os filhos. 




terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Ser Mãe com Consciência


Uma conversa este fim de semana, em que alguém criticava o facto de uma colega de trabalho na Alemanha ser obrigada a trabalhar em part-time porque não podia pagar o preço altissímo de uma creche a tempo inteiro para a filha pequena - e em que eu defendi que o ideal seria que todas as mães ou pais de filhos pequenos pudessem trabalhar apenas em part-time, enquanto a outra pessoa discordava - deixou-me a pensar num dos princípios básicos da parentalidade com apego: o  princípio que defende que deve existir sempre uma preparação para a gravidez, para o nascimento e para a parentalidade. Fiquei a pensar bastante nesta questão e decidi escrever sobre ela porque chego à conclusão que, uma coisa que parece tão simples, na verdade acaba por ser até bastante negligenciada.

            
Em relação à gravidez hoje em dia já existem muitas observações e investigações que comprovam que os estados emocionais da mãe afectam o bebé, bem como tudo aquilo que come ou que ingere. Isto
não quer dizer que precisamos de passar uma gravidez sem o mínimo de stress ou de ansiedade mas quer dizer que precisamos de ser capazes de criar um ambiente adequado para aquela criança que, durante nove meses, precisará do nosso corpo para crescer e, por outro lado, precisamos também de ser capazes de cuidar do nosso corpo que estará a ser submetido a um esforço extra e que, por isso mesmo, também precisará de um pouco mais de atenção. Então isto quer dizer que devemos esforçar-nos por nos alimentar o melhor possível, por fazer algum exercício adequado ao nosso estado e por tentar viver da forma mais harmoniosa possível o que, mais uma vez, não implica eliminarmos todo o stress da nossa vida mas sim sermos capazes de lidar da melhor forma com os desafios que vão surgindo e encontrarmos um tempo adequado para nos nutrirmos e restabelecermos sempre que sentirmos que passámos um pouco dos nossos limites.
            Em relação ao nascimento também é muito importante encontrarmos forma de fazer com que este seja o mais harmonioso possível tanto para a mãe como para o bebé. Isto quer dizer que devemos tentar encontrar as condições necessárias para que este momento tão importante possa ser vivido da melhor forma o que, na nossa sociedade nem sempre acontece. Infelizmente o parto ainda é visto, muitas vezes, como um acto médico em que a mulher tem de estar numa posição passiva e em que os médicos têm toda a responsabilidade e todo o poder de decidir como é que as coisas se irão passar. É importante que haja aqui uma mudança de mentalidades, que deixemos de ver mulher que vai dar à luz como alguém que tem de se sujeitar aos procedimentos médicos sejam eles quais forem para passarmos a ver essa mulher como alguém capaz, competente, que conhece o seu corpo melhor do que ninguém e que tem um instinto que faz parte da espécie e que pode guiar e facilitar todo o trabalho de parto desde que lhe seja dada oportunidade de o seguir e de entrar em contacto com ele. É essencial também reconhecermos o recém-nascido com alguém com direitos e necessidades e respeitar a sua necessidade de contacto imediato com a mãe bem como o seu direito de não ser submetido a intervenções desnecessárias. Acredito que mudar a forma violenta como tantas vezes os bebés são recebidos neste mundo é um primeiro passo para tratarmos de facto todas as crianças com mais respeito e com a empatia que merecem e de que precisam para poderem crescer de forma harmoniosa e saudável.
            Em relação à parentalidade precisamos também de nos preparar a sério e de forma cuidada para esse acontecimento único e que mudará de uma forma irrevogável a nossa vida. Esta preparação não tem nada a haver com os cursos de preparação para o parto ou com a leitura dos vários livros que se encontram no mercado, ou com a consulta dos vários blogs e sites disponíveis na internet que tantas vezes os futuros pais ou mães consultam avidamente. Estes podem dar algumas dicas e informações relevantes mas a maior preparação de todas, a mais importante e a talvez a única que precisamos realmente de fazer é a de olhar para dentro de nós: olhar para dentro e perguntar-nos se queremos mesmo ter um filho e porque quereremos mesmo ter um filho. Muitas vezes esta questão nunca é verdadeiramente feita. Por vezes tem-se um filho apenas porque o companheiro ou companheira querem muito, ou simplesmente porque é o que toda a gente faz. E ter um filho é a decisão mais importante da nossa vida, é aquela que mudará todo o nosso futuro e aquela com que nunca poderemos voltar atrás.
       Já ouvi algumas mães dizerem que estavam ansiosas por voltar ao trabalho depois dos filhos nascerem, outras dizem que mal podem esperar pela primeira noite com os avós para voltarem a sair à noite com os amigos ou a ir à discoteca. A verdade é que uma mãe para quem o trabalho é o mais importante ou uma mãe que não está preparada para deixar certos aspectos da sua vida quando um filho nasce não deveria ter filhos. Pelo menos não deveria ter filhos naquele momento da sua vida. Por vezes deixamos-nos levar pela ideia de que o relógio biológico não pára e de que não podemos esperar até tarde para ter filhos mas, a verdade, é que os nossos filhos irão agradecer se esperarmos até termos viajado tudo o que queríamos viajar, ou se esperarmos até á altura em que a nossa carreira já esteja mais segura para a podermos por de  de parte durante algum tempo, ou até à altura em que a conta bancária já nos permita trabalhar menos. Não vale a pena ter filhos se não estivermos preparados para abdicar de muitas coisas por eles. E abdicar de muitas coisas não significa que iremos deixar de ter uma vida. Significa que, durante alguns anos, teremos prioridades diferentes, o que não quer dizer que não devemos cultivar outros interesses e outras actividades: antes pelo contrário, é fundamental preservarmos a nossa identidade e mantermos algumas actividades de que gostamos mas, sabendo sempre, que a nossa prioridade durante os primeiros anos de vida dos nossos filhos deverá ser acompanhá-los, vê-los crescer, dar-lhes tempo a eles e a nós também para estabelecer um vínculo profundo e seguro que os acompanhará a vida toda. Se não estamos prontas para isso, se achamos que esta dedicação não nos trará nenhum tipo de satisfação e que a realização que tiraremos disso não se compara à que podemos obter no trabalho, então devermos questionar-nos se queremos realmente ser mães. Porque nem todas as mulheres têm de se sentir realizadas como mães mas todas as mães se deveriam sentir realizadas com os filhos.

Algumas mulheres que já são mães, podem ficar com medo de olhar para dentro e chegar à conclusão que afinal talvez não devessem ter tido um filho na altura da vida em que tiveram. E este pensamento pode ser assustador por várias razões: porque nos pode fazer sentir culpadas, egoístas, irresponsáveis e porque, na verdade, já não há nada que se possa fazer. Mas, na verdade, há muito que se pode e deve fazer, sim. Em primeiro lugar é preciso acolher esses sentimentos, arranjar espaço para deixá-los existir em vez de os negarmos e tentarmos esconder dentro de nós. Depois é preciso olhar bem para eles e termos alguma compaixão por nós mesmas. Perceber que não faz mal ter esses sentimentos, que eles não nos vão tornar piores pessoas ou piores mães. Pensar que fizemos o melhor que sabíamos com o conhecimento que tínhamos na altura. Porque o que nos pode tornar piores mães é não sermos capazes de lidar e de aceitar os nossos sentimentos. Há muitas mães que passam uma vida inteira a fugir destes sentimentos e acabam por culpar os filhos, de forma inconsciente, por tudo o que acham que perderam na vida quando decidiram tê-los. E esta culpa que se vai cultivando dia após dia, mesmo que muito subtilmente,   é o pior veneno que pode haver numa relação. E é também um dos piores sentimentos com que uma criança pode crescer: a sensação de que não devia estar ali naquela família, de que não pertence aquela mãe ou aqueles pais.

Então, se realmente chegarmos à conclusão que não decidimos ter um filho de forma tão consciente quanto gostaríamos o que podemos fazer é simplesmente aceitá-lo, reconhecê-lo. Essa aceitação pode permitir-nos olhar para a criança que gerámos, talvez pela primeira vez, com um olhar totalmente livre e disponível para a acolher. Porque só podemos acolher verdadeiramente os nossos filhos depois de nos acolhermos a nós. E então podemos perceber que esta relação, apesar de tudo, pode sempre ser reparada. Nunca é tarde demais para construirmos uma relação mais próxima com os nossos filhos. E é essa proximidade, uma proximidade verdadeira que pode ajudar-nos a curar as feridas que existiam e que levámos tanto tempo a reconhecer e aceitar. Através dessa proximidade podemos perceber que a relação com os nossos filhos pode ser uma das melhores formas de sararmos as nossas feridas. Podemos perceber que o amor que sentimos por eles e o prazer de os vermos crescer e de estarmos verdadeiramente presentes nessa relação é muito superior a tudo aquilo que pensamos que podemos ter perdido quando decidimos tê-los. Se o permitirmos, se dermos uma oportunidade a nós mesmas, podemos perceber que essa relação pode ser mesmo a maior fonte de gratificação e de realização que temos ao nosso dispor. Basta querermos. Basta estarmos prontas para olharmos para dentro de nós primeiro, para podermos encontrar os nossos filhos depois.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Ausências - efeitos da privação da figura materna


A este respeito os efeitos da separação da mãe podem ser comparados aos dos efeitos de fumar ou de radiações. Apesar dos efeitos das doses pequenas parecerem insignificantes, eles são cumulativos. A dose mais segura é uma dose zero.” John Bowlby (1973) – Attachment and Loss. Volume 2 – Separation: Anxiety and Anger.

          Esta frase, escrita por Bowlby, no seu livro que se tornou, há muito tempo, um clássico da

Psicologia, refere-se a um estudo* feito com macacos bebés que eram separados das suas mães por períodos que variavam entre os dois dias e as três semanas. Estes estudos, feitos por vários investigadores e com mais do que uma espécie de macacos, confirmaram a ideia de Bowlby de que a presença da mãe é de facto uma condição essencial para o bem-estar e para o bom desenvolvimento de qualquer primata. Estes macaquinhos, mesmo quando continuavam no seu meio ambiente, com os outros macacos e a única coisa que faltava era a mãe (que era retirada desse ambiente durante alguns dias ou semanas) mostravam claros sinais de que essa falta os tinha perturbado. Durante as primeiras horas da ausência da mãe estes macacos choravam e gritavam como se chamassem por ela, depois, acabavam por ficar aparentemente mais calmos mas mostravam um comportamento muito mais apático e deprimido. Quando a mãe voltava, durante os primeiros dias, estes mostravam-se muito mais necessitados da sua presença, passando quase a totalidade do seu dia a tentar manter o contacto físico e a proximidade com esta e mostrando-se muito mais alerta e vigilantes com todo o tipo de acontecimento que pudesse indiciar que a mãe iria desaparecer outra vez. Mas o dado mais importante talvez, e ao qual a frase citada se refere, é que, passados alguns dias ou até semanas, mesmo quando já parecia que tudo tinha voltado ao normal, estes macacos continuavam a ter um comportamento diferente daqueles macacos que nunca tinham sido separados das suas mães. Só que este comportamento só se via em situações de desafio ou de stress: quando eram colocados objectos estranhos na jaula, por exemplo, estes macacos mostravam-se muito mais receosos do que os outros e tinham muito menos iniciativa de explorar esses objectos. E, quando havia algo fora do normal nas suas rotinas, estes macacos mostravam-se muito mais receosos, inseguros, necessitados da presença da mãe e também com muito menos vontade de explorar ou de correr algum tipo de riscos, quando comparados com os outros que nunca tinham sofrido com a ausência das suas mães.

          Bowlby acreditava que estas observações eram válidas também para os humanos. Na verdade ele descreve também muitas observações que foram feitas em que crianças pequenas precisavam ser afastadas da mãe, geralmente porque esta estava doente ou ia para o hospital para ter outro filho (coisa que nos anos 50, 60, podia demorar vários dias) e as crianças ficavam numa instituição ou com famílias de acolhimento. Nos casos em que as crianças iam para instituições, a experiência era sempre mais traumática, principalmente se a criança fosse sozinha, sem nenhum irmão. Aquilo que se verificava era um comportamento em tudo idêntico ao dos macacos: as crianças começavam por chorar muito, depois apresentavam um comportamento apático e deprimido. Quando voltavam a estar com a mãe o comportamento podia oscilar entre uma preocupação intensa com manterem-se perto dela a todo o custo, e uma vigilância constante de tudo o que pudesse indicar que esta se iria voltar a ausentar, até um comportamento mais ambivalente em que a criança parecia já não procurar a mãe e não querer a sua presença. Na verdade, este comportamento mais ambivalente era mais provável quanto maior fosse o tempo desta ausência e se a criança tivesse entre um e três anos. Segundo Bowlby, a partir dos três anos, dava-se uma alteração grande no comportamento da criança que parecia já muito mais capaz de suportar separações curtas com menos sofrimento.
O que faltou nesta observação das crianças humanas foi uma observação mais detalhada de como esta ausência as afectou mesmo passadas algumas semanas de ter acontecido. Mas, de acordo com o que é possível saber hoje em dia, através da psicofisiologia, tudo indica que estas ausências possam ter o mesmo efeito nas crias humanas e nos macacos, tornando-as menos resistentes ao stress e menos resilientes.

O sistema de resposta ao stress

             Sue Gerhardt, psicoterapeuta, explica que quando um bebé é repetidamente exposto a situações de stress – e para Bowlby a ausência da figura materna era das situações mais stressantes para um bebé - sabe-se que o seu sistema de resposta ao stress começa a libertar grandes quantidades de cortisol. O que acontece é que este cortisol permanentemente a flutuar no sistema em grandes quantidades acaba por danificar o hipocampo, fazendo com que os receptores de cortisol se desliguem e com que este se torne menos sensível e capaz de informar o hipotálamo que já se produziu cortisol suficiente. Isto quer dizer que esta resposta de alarme acaba por ficar permanentenmente ligada o que significa que a criança passará a viver num estado de tensão quase constante em que será muito mais difícil lidar com qualquer desafio em que qualquer situação nova se tornará muito mais assustadora, tal como acontecia com os macaquinhos que se mostravam muito mais receosos e inseguros para explorar o ambiente em situações novas.

         O comportamento da mãe depois da reunião

            A única coisa que estes investigadores encontraram que fazia alguma diferença na intensidade das mudanças que aconteciam nos macacos era o comportamento da mãe após a reunião de ambos: se a mãe rejeitasse a cria e a sua necessidade constante de conforto e proximidade, esta cria mostrava-se muito mais receosa. Nos casos em que a mãe se mostrava tolerante e receptiva a manter o contacto com a cria, estas continuavam a ter algumas alterações na sua capacidade de lidar com os desafios mas eram menos intensas.
Então, a lição a retirar daqui é que de facto a presença constante da mãe é essencial para o bom desenvolvimento de um bebé mas, se por algum motivo, esta tiver mesmo que ser interrompida, é muito importante a mãe estar disponível para reparar esse dano e para dar ao seu filho toda a segurança que ele pode ter perdido através de muito contato físico e de uma compreensão e aceitação das alterações de comportamento que este pode apresentar.

             Hoje em dia, muitas vezes, as obrigações da vida moderna fazem com que precisemos de nos ausentar muitas vezes, por vezes, essas ausências repetem-se diariamente quando o bebé é deixado numa creche ou infantário. Então é muito importante que sejamos capazes de reparar as marcas que essas ausências vão deixando e a forma de o fazermos é simplesmente escutando os nossos filhos, olhando para eles e deixando que nos mostrem de que é precisam para seja possível reparar a ligação. O elo que une uma mãe ao seu filho é muito forte mas, apesar de ser inquebrável, pode ficar fragilizado por separações prolongadas ou muito repetidas. Então a forma de repararmos esse elo é procurarmos mostrar que estamos totalmente disponíveis quando voltamos a estar juntos. E, com bebés e crianças muito pequeninas, a melhor forma de o mostrar é através de muito contacto físico que é essencial para o seu bem-estar.
Por vezes os pais não percebem porque é que o filho parece estar tão bem na escola e em casa chora muito mais ou faz tem comportamentos que parecem regressivos. Mas é muito natural que isto aconteça porque a criança, quando percebe que não tem alternativa e que a mãe não vai aparecer tão cedo acaba por adoptar um comportamento que parece mais conformado mas que não quer dizer que esteja alegre ou feliz. Isto não quer dizer que a criança esteja muito bem na escola e mal quando chega a casa, quer simplesmente dizer que, na escola, a criança percebe que não vale a pena chorar ou protestar porque a mãe não vai voltar. E, quando a criança volta finalmente a estar com a mãe, por vezes, pode ser difícil processar todas essas emoções que a ausência gerou e então surgem comportamentos que os pais nem sempre conseguem compreender.
Outras vezes também pode acontecer que, depois de uma ausência mais prolongada a criança mostre um comportamento agressivo para com a mãe. Bowlby via esta como uma consequência natural dessa ausência: a zanga da criança era a sua forma instintiva de fazer com que a sua figura de apego não voltasse a repetir essa ausência como se, ao castigá-la com esse comportamento agressivo quisesse impedi-la de voltar a ausentar-se. 
O mais importante é termos noção de que não há nada de natural na forma como vivemos a vida hoje em dia, longe dos nossos filhos, deixando-os ao cuidado de estranhos tantas horas seguidas. E, por isso mesmo, não é de estranhar que, muitas vezes, eles tenham comportamentos que também não nos parecem naturais ou que vemos como estranhos. O que é preciso é sermos capazes de nos sintonizar com essas pequenas feridas e estarmos totalmente disponíveis para as sarar. E a única forma de o fazemos é oferecendo-lhes a nossa presença e o nosso coração, totalmente, sem reservas, sempre que eles precisarem e sempre que estivermos juntos.

*Fico sempre num dilema quando cito estudos feitos com animais: por um lado não gosto de os citar como se fossem algo normal e aceitável, porque não acho que tenhamos o direito de usar e criar animais em cativeiro, como neste caso, apenas para serem estudados e receio que ao citar este tipo de estudos esteja de alguma forma a contribuir para a sua normalização. Por outro lado, é verdade que já foram feitos e deram um contributo importante para a psicologia e para o desenvolvimento de algumas teorias.