terça-feira, 11 de maio de 2021

Já podemos libertar as crianças?

O meu filho mais novo tinha três e meio quando esta crise começou. Dei comigo a pensar que qualquer dia ele já não se lembrará de alguma vez ter andado de transportes públicos sem que  todos estivessem de máscara, já não se vai lembrar das velhotas simpáticas que falavam tantas vezes com ele no autocarro e com quem sempre gostava de falar quando era bebé. Podemos viver com isso, claro, apesar de ter pena de perder este aspecto característico do que era ser português. Um dia uma mãe espanhola disse-me que para os portugueses parecia que as crianças eram propriedade pública, com tudo o que isso tem bom e de mau, claro. Neste momento isso perdeu-se, porque temos cada vez mais medo de falar com as outras pessoas, estamos cada vez mais isolados nesta sensação colectiva de que todos podemos pôr todos em perigo. Além de que as máscaras dificultam muito as poucas tentativas de comunicar com alguém que não conhecemos nos transportes ou na rua. Mas, se podemos adaptar-nos a isto, ainda que não sem alguma tristeza, o que dizer de todas as crianças que dentro em breve já não se lembrarão de alguma vez terem abraçado os avós? De todas as crianças de um ano que nunca estiveram noutro colo para além do dos pais? De todas as crianças que nunca conheceram uma escola sem máscaras e sem regras rígidas? De todas as crianças que dentro em breve já não vão saber como tocar, como abraçar, como beijar os amigos de tanto terem interiorizado que isso era perigoso? De todos os adolescentes que já não saberão como mostrar a cara porque se habituaram a esconder o rosto atrás da máscara usada o dia inteiro nas escolas? De todos os adolescentes que deixaram de encontrar um propósito para a vida porque de repente não se conseguem sentir mais do que meras armas biológicas que podem pôr em perigo todos aqueles que amam pelo simples facto de seguirem o seu impulso de quererem aproximar-se dos amigos? Será que também podemos adaptar-nos a isto? Será que temos sequer o direito de o fazer? 
          

O tempo das crianças e dos adolescentes é diferente do tempo dos adultos. Vi em tempos um especialista em desenvolvimento afirmar que um ano na vida de uma criança podia ser equiparado a dez anos na vida de um adulto. Não sei se podemos ver as coisas deste modo tão linear mas a verdade é que tudo o que acontece na infância e na adolescência tem muito mais peso porque o cérebro está em transformação, porque está programado para aprender aquilo que pode esperar do mundo, dos outros e para aprender como deve lidar com isso. As crianças adaptam-se, ouvimos constantemente e é verdade. Justamente por serem fases de grande aprendizagem e transformação a infância e a adolescência também são fases de grande adaptação. Mas essa adaptação tem um preço. Um preço que está a ser pago agora e que continuará a ser pago no futuro. Um adulto voltará mais facilmente ao comportamento que tinha antes de tudo isto ter começado porque tem essas memórias, esses registos de como era viver de outra formas mas as nossas crianças e os nossos adolescentes estão a perdê-las, as crianças mais pequeninas nunca chegaram a tê-las. Queremos mesmo que as nossas crianças e jovens cresçam a acreditar que é perigoso abraçar? Que é perigoso beijar? Que uma cara destapada é uma arma biológica em potência? Com a vacinação dos idosos quase concluída, no Reino Unido, já se fala de abandonar as máscaras em todas as escolas a partir do meio de Maio. Cá até já vacinámos os professores, para além dos idosos, porque é que ainda não começámos a pensar em libertar as nossas crianças e jovens? Fomos dos países que mantiveram mais tempo as escolas fechadas e que forçaram as máscaras nas idades mais precoces. Os parques infantis em muitos sítios ainda continuam fechados. É verdade que os nossos parques, na sua maioria, são pobres e pouco desafiadores por isso nem sequer são o melhor lugar para as crianças brincarem, sobretudo as mais crescidas. Mas mantê-los fechados transmite uma ideia de medo, de insegurança que ainda persiste na cabeça de muitos pais. As nossas crianças já vivem muitas vezes uma vida de sobreprotecção, já não podem brincar na rua e passam o dia a ir de uma actividade para a outra sem o tempo necessário para a brincadeira livre que é tão essencial para o seu desenvolvimento e que se torna ainda mais importante nos momentos de tensão. A brincadeira livre ajuda a gerir a tensão e até a calibrar o sistema de alarme das crianças que é justamente o que lhes permite manter a resiliência necessária para lidar com a adversidade. Quando têm alguma possibilidade de arriscar, quando podem brincar livremente às lutas e às escondidas, quando lhes é permitido estarem livres num espaço aberto em que podem aprender a conhecer o corpo e o que as rodeia, as crianças estão a testar e a usar de forma controlada o seu sistema de alarme, é através destas experiências que ele se vai tornando mais eficaz a lidar com os perigos e que se torna mais capaz de enfrentar situações difíceis.

Culturalmente temos uma enorme aversão ao risco, que limita as crianças e que, neste momento está a impedi-las de viver e de se desenvolverem. Durante muito tempo dissemos que as crianças não podiam brincar livremente e os jovens não podiam conviver porque poderiam pôr em risco os avós. Agora que os avós estão praticamente todos vacinados qual é a desculpa para os mantermos ainda cativos deste medo que não nos larga?


As crianças precisam de brincar e os adolescentes precisam de conviver. Uma das tarefas essenciais da adolescência é o afastamento da família: os adolescentes precisam de descobrir o seu lugar no mundo e não podem fazê-lo se os impedirmos de sair, de conviver, de estar com os amigos. E não, isso não se faz através de um ecrã. O aumento do uso de ecrãs durante a adolescência está fortemente correlacionado com o aumento das tentativas de suicídio. Estamos programados para estar com as pessoas ao vivo e nada pode substituir isso, precisamos de toque. E os adolescentes precisam de descobrir o corpo e os outros através desse toque também.

Durante toda esta crise muitas pessoas afirmaram que precisávamos de usar as tecnologias para manter e fortalecer as ligações. Mas esta é uma visão superficial das coisas. Primeiro porque consoante a idade temos necessidades muito diferentes a este nível. Um bebé precisa muito mais de toque e da presença física do que uma criança mais velha. Mas uma criança ainda precisa mais da presença física do que um adulto. Por isso para as crianças os ecrãs simplesmente não servem de substituto, principalmente para as mais pequenas. Mas, mesmo os adolescentes, ainda têm mais necessidade dessa presença do que um adulto. E mesmo para um adulto, essa necessidade, varia com as circunstâncias e também com o seu grau de maturidade emocional, porque nem todos os adultos têm a mesma maturidade. Mesmo um adulto maduro, nos momentos difíceis e de crise pode precisar do toque para se sentir seguro com alguém. Além disso as relações não podem manter-se eternamente à distância, por muito que usemos a tecnologia para comunicar, chega sempre a uma altura em que nada substitui o toque e o corpo da outra pessoa à nossa frente. E negar isto é negar tudo aquilo que nos torna humanos.


Depois também é fundamental reconhecer que não precisamos só das relações profundas. Também precisamos daquelas mais superficiais que fazem parte do nosso dia-a-dia quando tudo funciona normalmente e podemos sair de casa para trabalhar, levar os filhos à escola, ir ao café, etc. Precisamos mesmo daquelas pessoas a quem só dizemos bom dia, boa tarde e com quem nunca faríamos uma videochamada. Precisamos destas relações para nos sentirmos parte do grupo, parte da tribo. Estas são fundamentais para o nosso bem-estar porque, enquanto humanos, evoluímos em comunidades e temos que nos sentir parte delas.

As pessoas mais extrovertidas precisarão destas interacções em maiores quantidades, mas isso não quer dizer que não façam falta às introvertidas. Vejo muitos adultos em teletrabalho que, no início, até abraçaram com prazer a ideia de trabalhar a partir de casa e, neste momento, estão completamente deprimidos por falta desses contactos, desse sentimento de pertença e dos pequenos intervalos e conversas que podiam ir tendo com os colegas de trabalho, por muito superficiais que fossem.

Então pergunto, quando podemos libertar as crianças, os jovens e já agora também os seus pais deste medo que nos domina há tanto tempo?

Enquanto se mantiverem as máscaras na rua e em todos os sítios que frequentamos, irá manter-se o medo. E enquanto não nos livrarmos dele, as crianças e os jovens irão continuar a ser impedidos de viver em condições realmente propícias ao seu bom desenvolvimento. O uso constante de máscaras por parte dos professores e educadores dos mais pequenos limita a possibilidade das crianças se sentirem verdadeiramente seguras com os adultos com quem estão uma boa parte do dia. Já há peritos que identificaram atrasos no desenvolvimento da linguagem das crianças que passam o dia inteiro sem ver a boca dos adultos que as rodeiam, algo que é essencial para esta aprendizagem. Neste momento temos crianças que nunca viram a cara completa dos seus professores sem ser através de um ecrã. Professores que nunca viram a cara dos seus alunos ao vivo. Existem muitos bebés de um ano que mal estiveram com outros adultos além da mãe e do pai e que nunca foram ao colo dos avós. Temos adolescentes proibidos de ver a cara dos colegas o dia inteiro e crianças de dez anos que passam os intervalos na sala a olhar para o telemóvel. Temos professores que não deixam as crianças usarem o seu giz, têm que levar um de casa se quiserem ir ao quadro, mesmo quando já se sabe que a transmissão através das superfícies é muito pouco provável. Temos miúdos a desinfectar as mãos várias vezes por dia com alcoól gel que tem um efeito destruidor para as bactérias da pele. Temos professores que chamam criminosos aos alunos que fazem apenas aquilo que o seu instinto manda e que é fundamental para o seu desenvolvimento: conviver com os amigos. Temos polícias que perseguem jovens que se juntam à noite. E temos cada vez mais pessoas vacinadas e imunes por terem tido o vírus. De que é que precisamos mais para libertarmos as crianças? E já agora os adolescentes e adultos também.

O risco zero é uma ilusão, não existe neste vírus e nunca existirá em nenhum outro. Saiu recentemente uma meta-análise (uma revisão de vários estudos, neste caso foram 44 e podem ler-se aqui) que conclui que as máscaras não só têm uma eficácia muito limitada na protecção contra vírus como têm também vários efeitos negativos para a saúde e consequências psicológicas bastante negativas que advêm do seu uso prolongado. É altura de ouvirmos realmente a ciência, que se faz com espaço para o contraditório. É altura de abandonarmos os modelos e de olharmos para a vida real e para tudo aquilo que já se sabe sobre o vírus e sobre as políticas que temos usado para o combater. É que a desculpa da novidade e do não saber está a tornar-se cada vez mais velha.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Direitos das crianças, conformismo e emoções

Nos últimos meses cada vez mais pessoas têm falado sobre as medidas rígidas a que estamos a sujeitar as crianças e sobre o impacto que estas poderão ter no seu desenvolvimento. Eu própria assinei com vários colegas um artigo no público sobre este tema (que pode ser lido aqui), participei em algumas entrevistas e reportagens (que podem ser lidas aqui) e colaborei com o grupo Assim não é escola em que foi criada uma petição que já recolheu mais de 7000 assinaturas e que está à espera de ser discutida na assembleia da república. Pode ser assinada aqui
                            
O artigo do público serviu também para uma carta aberta à Ordem dos Psicólogos que foi assinada por quase 200 colegas em três dias. A Ordem dos psicólogos também escreveu uma carta aberta à DGS recomendando que essas medidas fossem revistas. 
Recentemente saiu também um artigo no público em que os vários pediatras também defendem que as crianças não podem continuar a ser sujeitas a estas medidas. (pode ser lido aqui) Hoje mesmo participei numa conferência da CPCJ de Odivelas em que os especialistas presentes também alertaram para o impacto negativo destas medidas e que pode ser visto aqui

Também falei com alguns deputados, professores, diretores de escola e muitos pais, sendo que, mesmo que nem todos concordem com a forma como devemos lidar com esta pandemia é muito claro que todos reconhecem que as regras rígidas que existem nas escolas neste momento, com tudo o que sabe hoje sobre a forma como esta doença afeta as crianças - não são nem necessárias nem desejáveis e podem  vir a ter consequências muito nefastas. 

Então é importante que façamos uma reflexão sobre porque é que isto continua a acontecer. E quando penso nisso não posso deixar de me lembrar de uma experiência muito importante feita nos anos 60 e 70 por Stanley Migram. 

Este investigador pediu a várias pessoas de diferentes idades e estratos sociais que participassem numa experiência que lhes dizia ter como objectivo estudar a forma como as pessoas aprendiam. Esses participantes ficavam numa sala de onde podiam ver uma outra pessoa, através de um vidro, a quem eram feitas perguntas. Cada vez que essa pessoa errava uma pergunta os analisadores diziam aos voluntários para carregarem num botão que lhes permitia dar um choque eléctrico a essa pessoa. Os voluntários não sabiam que a outra pessoa também fazia parte do estudo e que apenas fingia que estava a receber um choque. Era dito aos voluntários que deviam aumentar a intensidade dos choques com cada erro que a pessoa fazia e, a certa altura, a pessoa do outro lado do vidro começa mesmo a gritar e contorcer-se com dores. Mesmo assim, cerca de 65% das pessoas, quando a ordem era dada pelo examinador, era capaz de dar choques eléctricos de 450 volts, uma descarga que seria suficiente para causar a morte da outra pessoa

Este estudo teve muito impacto pela conclusão chocante de que a maioria das pessoas não se inibia de causar dor, sofrimento e até potencialmente a morte de outro ser humano, desde que a responsabilidade não fosse sua. Porque, no final do estudo, quando se falava com essas pessoas, o que elas respondiam era que estavam apenas a cumprir ordens e que o faziam porque lhes tinham pedido, queriam desempenhar bem a sua função, achavam que seria importante para o estudo ou porque confiavam na pessoa que lhes estava a dar a ordem. 

Isto foi usado, inclusivamente, para ajudar a explicar a forma como os nazis levaram a cabo o holocausto com a ajuda, colaboração e passividade de tantas pessoas que estavam também apenas a cumprir ordens. 

Então quando sujeitamos as nossas crianças e jovens a regras que podem ter um efeito muito negativo para o seu desenvolvimento também nos sentimos capazes de o fazer porque estamos apenas a cumprir ordens? 


Desconhecimento sobre as necessidades das crianças 


Acredito que uma boa parte disto também se relaciona com o facto de não reconhecermos as necessidades reais das crianças. Antes de tudo isto, na verdade, elas já não eram muito valorizadas. Por vezes penso que vivemos numa sociedade um pouco esquizofrénica no sentido em que, por um lado, se valoriza excessivamente uma autonomia forçada mesmo em etapas do desenvolvimento em ela não faz sentido - forçamos as crianças a dormir sozinhas, a irem para a escola, a deixar de mamar ou deixar a chucha mesmo que elas ainda não estejam preparadas para isso - mas depois não as deixamos ser autónomas naquilo em que mais precisam de o ser: na liberdade de brincar, de se movimentarem no espaço, de correrem riscos adequados à sua idade, de usufruírem livremente dos espaços públicos sem necessidade da presença constante dos adultos, de terem oportunidade de conhecer o seu corpo, os seus limites e os dos outros. Isto é feito, sobretudo, através da brincadeira livre, algo que é fundamental e que, infelizmente, antes mesmo da pandemia já parecia estar em risco de extinção. 

A verdadeira autonomia só acontece se existir um espaço de liberdade para as crianças. Essa liberdade, claro, só faz sentido quando existe uma base segura a que as crianças sabem que podem voltar. Os primeiros anos de vida precisam de ser dedicados à construção dessa base segura mas, essa base segura, só é realmente segura se também der liberdade de forma adequada à criança. 

Todas as crias, na natureza, passam os seus primeiros anos de vida a brincar. Através da brincadeira elas aprendem a desenvolver habilidades, aptidões, aprendem a conhecer o seu corpo, os seus limites, aprendem a saber de que é que são capazes e aprendem a lidar com os outros, a relacionar-se. A brincadeira também é fundamental para o desenvolvimento da motivação, da capacidade de aprendizagem. As crianças quando brincam livremente exercitam a sua curiosidade natural e é esta que deve estar na base de todos os processos de aprendizagem.

Também aprendem a descobrir o corpo e descobrir o corpo é o caminho para descobrir as emoções. Descobrir as emoções é aprender a lidar com elas e com o mundo. Muitos adultos têm medo das suas próprias emoções porque têm medo das sensações que elas provocam no corpo. Então, descobrir o corpo através da brincadeira, também ajuda a criança a familiarizar-se com o que sente e por isso torna mais fácil o seu contacto com as emoções. Até porque, na brincadeira, as emoções podem ser sentidas de uma forma segura, de uma forma menos ameaçadora, durante a brincadeira as crianças podem experimentar o medo, a raiva, a frustração, a tristeza e todas as emoções mais difíceis de uma forma um pouco mais leve, menos intensa e por isso mais segura. Essa aprendizagem é importante e fundamental para o seu bom desenvolvimento. Fala-se muito em educação emocional mas educar para as emoções não passa necessariamente por construir programas em que se fala sobre elas nas escolas. Passa por criar espaço e tempo para que as crianças as possam sentir num contexto de segurança. Primeiro é fundamental que as crianças se sintam seguras nas suas ligações e depois que lhes seja dada essa liberdade de explorar através da brincadeira. E nenhum programa de educação emocional fará sentido se existirem estas duas lacunas. Porque não é a falar de emoções que se aprende a lidar com elas mas é vivendo-as, sobretudo na infância. 

Provavelmente faltou aos adultos que se limitam a cumprir ordens sem as questionar um espaço para entrarem realmente em contacto com as suas emoções, para aprenderem a ser capazes de as reconhecer, acolher e valorizar. A brincadeira livre é o primeiro lugar onde isso pode acontecer mas depois é essencial que também haja uma relação segura com um adulto disponível onde elas poderão ser faladas, abordadas e mais facilmente estruturadas. 

A brincadeira livre também ajuda a calibrar o sistema de alarme. Brincar às lutas ou correr riscos faz com que o sistema de alarme seja activado. E o sistema de alarme precisa de ser activado, desta forma moderada que só é possível em condições de segurança, para que possa funcionar mais eficazmente. Na verdade o nosso sistema de alarme é relativamente frágil e fica facilmente desregulado se for usado excessivamente em situações demasiado intensas ou demasiado constantes, naquilo a que se chama o stress tóxico ou crónico mas também fica desregulado mais facilmente se nunca for exercitado. E a brincadeira é o momento ideal para este ser exercitado e, de certo modo, como que tonificado.

A brincadeira é também a forma por excelência das crianças libertarem a tensão acumulada, como já disse aqui várias vezes. Brincar é uma forma de libertar vapor, de deixar fluir as emoções para que elas não comecem a ficar acumuladas e não se tornem tóxicas. Na verdade os adultos precisam desse espaço de brincadeira também, embora a forma de brincar possa ser diferente. A brincadeira ajuda a manter-nos no presente e isso também tem um importante efeito tranquilizador e anti-depressivo. 

Então as crianças precisam mais do que nunca de ter tempo e espaço para brincar e temos a responsabilidade de lhes providenciar isso. E de cada vez que impedimos uma criança de brincar livremente, mesmo que possamos pensar que isto é apenas temporário, aquilo que estamos a fazer é a possibilitar que se instale um padrão em que deixamos de reconhecer essa necessidade e em que a própria criança também já não as reconhece. Porque, apesar da brincadeira ser algo natural e instintivo, a verdade é que também depende do hábito e precisa de certas condições para acontecer (com um sentimento de segurança e ausência de ecrãs durante uma boa parte do dia, por exemplo) Quando essas condições não existem ou quando privamos a criança de brincar é relativamente fácil que esse hábito se perca como infelizmente já se perdeu em demasiados casos. E quando o hábito se perde, fica perdida também uma boa parte daquilo que permite amadurecer realmente. Por isso cada dia que privamos uma criança de brincar livremente, ao ar livre de preferência, é um dia em que contribuímos para que se perca esse hábito tão fundamental para o seu desenvolvimento e um dia em que não estamos a contribuir para o seu amadurecimento. E sabemos que a infância e adolescência são períodos sensíveis para o desenvolvimento de muitas capacidades: uma janela de oportunidade para desenvolver competências que, quando não acontecem nesta altura, será muito mais difícil que venham a acontecer. 

A necessidade de brincar livremente, ao ar livre, durante uma boa parte do seu dia sempre foi bastante negligenciada e desvalorizada. Daí até se encurtarem os intervalos, ou se criarem regras limitadoras da brincadeira livre ou a fecharem os parques infantis talvez não vá uma distância tão grande. 


As experiências do conformismo de Asch 


Outras experiências famosas que se relacionam com a anterior e que também são muito relevantes para o momento social que estamos a viver são as experiências do conformismo de Asch que foram feitas já nos anos 50. Nestas experiências havia um grupo de pessoas numa sala e era pedido a essas pessoas que avaliassem o tamanho de algumas linhas apresentadas num ecrã. Nesse grupo havia apenas um voluntário que pensava que todos os outros também eram e a certa altura todos os outros começavam a dar uma resposta claramente errada. A grande maioria das pessoas, durante um bocadinho ainda tentava dar a resposta certa mas, ao fim de algum tempo cedia à pressão do grupo e acabava também por dar a resposta errada, ainda que este erro fosse óbvio. E esta pressão era tão forte que, em muitos casos, as pessoas chegavam mesmo a convencer-se que a resposta do grupo era realmente certa, porque não eram capazes de aceitar que tivessem escolhido uma resposta errada apenas por causa dessa pressão grupal. 
Só quando aparecia um aliado a dar também a resposta certa é que uma boa parte das pessoas já passava a ter capacidade de manter a sua resposta também. 

Esta experiência mostra bem como a pertença ao grupo e a aceitação são tão importantes para nós que podem até mudar as nossas crenças e a nossa perceção das coisas. 
E acredito que é também algo deste género que está a acontecer quando queremos convencer-nos que o que estamos a fazer está certo, ou que não poderia ser de outra forma, mesmo quando temos tantos especialistas a dizer que é errado. Então aqui também é importante que sejamos capazes de nos conectar com as nossas necessidades, de saber que está certo, é natural e até desejável que queiramos ser aceites e pertencer ao grupo mas o preço a pagar por isso não pode ser o de deixarmos de ouvir a nossa verdade. E, se nos ligarmos à nossa verdade, neste caso, não precisamos de muitos estudos nem investigações para sabermos que o que estamos a fazer às nossas crianças e jovens é profundamente errado. É errado privar uma criança da sua liberdade ou condicionar com regras rígidas o seu desenvolvimento, é errado fazer uma criança sentir que pode pôr em perigo os pais ou avós. Conheço o caso de uma criança que esteve fechada no quarto durante quatro semanas - duas em isolamento profilático no final do qual foi pedido que fizesse um teste que veio positivo e por isso ficou mais duas semanas em casa - e esteve uma boa parte dessas duas semanas fechada no seu quarto, com as refeições entregues num tabuleiro: os pais batiam à porta, pousavam o tabuleiro no chão e ela tinha que esperar que se afastassem para ir buscar a comida que depois voltava a deixar no chão, à porta do quarto sendo que o tabuleiro era imediatamente desinfetado antes de ser recolhido. 

Não precisamos de estudos nem de investigações para sentir que isto é profundamente errado. Basta que sejamos capazes de ouvir a nossa verdade, basta que sejamos capazes de reconhecer as necessidades das crianças, para sabermos que estamos a causar-lhes sofrimento, basta que sejamos capazes de ter alguma empatia para perceber que não temos o direito de fazer com que as nossas crianças e jovens se sintam como portadores ambulantes de um vírus mortífero para a sua família, basta que sejamos capazes de entrar um pouco em contacto com as nossas emoções para perceber que tudo isto está a ter resultados muito mais desastrosos do que o vírus de que tanto nos queremos proteger. 


O cérebro esquerdo e o cérebro direito

Ian McGilchrist é um psiquiatra que escreveu um livro que também acredito que ajuda a compreender uma boa parte do que se tem passado. Neste livro ele defende a tese de que vivemos numa sociedade em que se valorizam demasiado as capacidades do hemisfério esquerdo: a racionalidade, a linguagem, a objetividade e a análise dos detalhes, por exemplo. Isto acontece em detrimento das capacidades do nosso hemisfério direito, mais relacionado com a consciência corporal, com as emoções e com um visão mais global ou holística das questões. Neste momento somos confrontados com uma situação angustiante de um vírus que provoca sofrimento e o nosso hemisfério esquerdo imediatamente tomou conta da situação e tentou resolver tudo criando regras e mais regras e analisando tudo ao pormenor mas esquecendo-se da visão global das coisas e do impacto que estas regras têm na nossas emoções. 

Não podemos resolver a morte com regras, não podemos travar um vírus desta natureza com regras. Muito menos quando essas regras nos pedem para deixar de parte todo o nosso instinto, as nossas emoções, para negar a nossa natureza gregária e a necessidade que temos de estar juntos, de nos tocar e aproximar, de nos sentirmos seguros na companhia uns dos outros. 

Então, talvez seja altura de reconhecermos que não podemos resolver este problema através da lógica e da racionalidade porque estas só nos têm trazido novos problemas. Talvez seja altura de começarmos a dar mais espaço ao nosso hemisfério direito, de entrarmos mais em contacto com as emoções e de sermos capazes de olhar mais para o global. Porque se não o fizermos corremos o risco de continuar a olhar apenas para os detalhes e a ignorar toda a destruição global que estamos a causar à nossa volta. 
É altura de pararmos de pensar só em nós próprios, sim, mas também é altura de sermos capazes de assumir a fragilidade que existe no facto de sermos humanos e de precisarmos uns dos outros. E de aceitarmos que o nosso cérebro esquerdo não tem nenhuma solução válida para este problema. Só com o equilíbrio dos dois hemisférios é que poderemos encontrar forma de lidar com isto sem continuar a causar ainda mais destruição.

Ontem na conferência o Professor Carlos Neto, cujo trabalho admiro, afirmou que os nossos políticos não brincaram o suficiente e por isso são tão totós. Se calhar muitos de nós não brincaram o suficiente, por isso não tiveram oportunidade de desenvolver muito o seu hemisfério direito. Então, se queremos realmente um mundo melhor vamos dar espaço às nossas crianças para brincar, vamos dar-lhes tempo e espaço para entrarem em contacto com o corpo e com as emoções e talvez assim não voltemos a encontrar-nos neste buraco global em que estamos agora metidos. 



sexta-feira, 17 de julho de 2020

Direitos das crianças em tempos de pandemia


As crianças têm sido a camada da população mais sacrificada com esta pandemia. Não por causa do vírus que já se sabe que é maioritariamente irrelevante neste grupo etário mas por causa das medidas sanitárias que têm sido tomadas, sem grande consideração pelo seu bem-estar.
Mesmo depois de já todos termos voltado ao trabalho há algum tempo, as crianças do primeiro ciclo continuaram sem escola presencial que terá, no total, uma interrupção de mais de seis meses e os parques infantis continuam fechados.
Sabemos que passar tempo ao ar livre é fundamental para a saúde física e mental de crianças e adultos e também sabemos que, nas cidades hoje em dia é mais difícil para os pais passarem algum tempo na rua com as crianças se não tiverem um parque infantil para elas brincarem e conviverem com outras crianças, algo que também é fundamental para o seu bom desenvolvimento. 

É na brincadeira livre que as crianças crescem, aprendem e se desenvolvem e esta brincadeira é ainda mais fundamental em tempos de stress porque é também uma das poucas formas naturais e adequadas que as crianças têm de se libertar do stress e tensão que este período inevitavelmente traz. Se brincar é sempre importante para o desenvolvimento das crianças, neste momento podemos dizer que é mesmo urgente e fundamental para que esta situação não lhes cause muitos danos. 
Uma investigação sobre o impacto da covid-19 em espanha concluiu precisamente que as crianças que não puderam sair diariamente de casa foram as mais afectadas pela pandemia, ao nível da saúde mental. 
Por isso, mesmo sabendo que as crianças podem e devem brincar mesmo fora dos parques infantis (que, infelizmente em portugal até são bastante pobres e um pouco desajustados das suas necessidades reais) consideramos que o facto dos parques continuarem fechados transmite aos pais, crianças e à população em geral a ideia de que ainda é perigoso brincar fora de casa, mesmo quando já sabemos que ao ar livre a probabilidade de haver contágio é sempre mais reduzida. 

As crianças foram sacrificadas também com a escola on-line tendo passado largas horas em frente ao ecrã quando todos os especialistas são unânimes a afirmar que isto é não é nada bom para o seu desenvolvimento, com prejuízos diversos ao nível da saúde mental e física: como obesidade, défice de atenção, hiperactividade e dificuldade de controlo dos impulsos entre os mais comuns. Sendo que estes estão também associados a uma série de problemas de comportamento e de relacionamento com os pares e com os adultos. 
E mesmo quando já existem tantos estudos que demonstram que ler em papel ou em formato digital tem efeitos muito diferentes: assimilamos pior o conteúdo quando lemos em formato digital, além de que a leitura digital nos traz uma visão muito mais superficial porque se torna muito mais difícil manter o foco, uma vez que a nossa atenção compete constantemente com outros estímulos. Também sabemos que esta incapacidade de manter o foco - que os ecrãs provocam e alimentam - está associada a sentimentos de agitação, ansiedade e depressão, para além de dificultar muito a aprendizagem.

Depois de tudo isto, em Setembro, as crianças poderão finalmente voltar à escola mas com novas regras impostas o que irá trazer outras dificuldades e consequências que já se fazem sentir para algumas e em que precisamos também de pensar.
Não podemos adoptar medidas sem pensar bem em todas as consequências e no custo que estas terão. Se algumas medidas terão um custo insignificante, existem muitas que podem ter um custo demasiado elevado para os benefícios que acarretam. Porque uma criança não é adulto em miniatura e tem necessidades muito específicas e bem diferentes que precisam de ser levadas em conta. 

Uma dessas medidas que já se faz sentir na vida de muitas crianças em creches e jardins-de-infância é a proibição da entrada dos pais.
Permitir a entrada dos pais na escola, quando vão deixar ou buscar os filhos não é um mero capricho. Como já expliquei aqui. Uma criança que entra num lugar novo fica sempre num certo estado de alerta, principalmente quando essa entrada implica a separação das suas figuras de apego, as suas referências. A única forma de desactivar esse estado de alerta é justamente através do contacto com as figuras de apego que geralmente são os pai. E enquanto ele não for desactivado, a criança simplesmente não está disponível para estabelecer novas relações seguras que, por sua vez, são essenciais para que o seu dia na escola seja vivido da melhor forma e até para que consiga aprender realmente. Isto é muito importante em todo o processo de adaptação dos mais novos, que pode durar dias, semanas ou até meses e que acontece sempre outra vez depois de um período de afastamento. Mas também dos mais velhos depois de tudo o que aconteceu este ano, com um período de afastamento tão prolongado e carregado de tensão por vários motivos. Permitir a entrada dos pais na escola é fundamental para que esta não se torne um mundo completamente estranho e separado da família em que a criança nunca se sentirá realmente segura.

É muito importante que os pais possam ver diariamente os professores e educadores e que sejam eles a entregar-lhes a criança porque é isso que lhes permite fazer a ponte. O instinto da criança diz-lhes que não devem ficar com estranhos, que devem procurar sempre as pessoas com quem se sentem seguras. Então para que os professores deixem de ser estranhos para elas é preciso que os pais façam essa ponte que lhes mostrar que podem construir uma ligação com aquela pessoa e isso faz-se de forma simples, falando com a pessoa, mostrando que ela é de confiança e que já temos uma relação com ela.

As máscaras usadas pelos adultos, sobretudo nos mais novos, também não facilitam este processo. Porque as expressões faciais são uma parte fundamental da comunicação não verbal e daquilo que nos faz ou não sentir segurança na presença da outra pessoa. Stephen Porges usa o termo neurocepção para falar de um mecanismo inconsciente que nos faz avaliar constantemente a segurança do ambiente externo e interno e essa avaliação passa em grande parte pela comunicação não verbal. Essa comunicação não é apenas facial, também passa pelos olhos, ao tom de voz e à prosódia do discurso, coisas que a máscara ainda nos permite perceber mas que podem ser insuficientes para uma criança pequena e que até dificultam um pouco a comunicação mesmo nas mais velhas e nos adultos. Sem ver totalmente a cara da pessoa com quem nos relacionamos é bem mais difícil recolher essas pistas de segurança e quando nem sequer conhecemos essa pessoa, como irá acontecer na adaptação à escola de muitas crianças, então isto fica mesmo impossível. Por isso mesmo nos países que recomendam o uso de máscara, em muitos já está a ser recomendado aos professores e educadores que retirem as máscaras sempre que puderem ficar a um metro e meio de distância das crianças, até porque a máscara também dificulta muitas vezes a compreensão daquilo que os professores dizem. 
As crianças mais pequenas ainda não têm um grande desenvolvimento do seu hemisfério esquerdo que começa apenas aos dois anos de idade, o que quer dizer que estão ainda mais dependentes da comunicação não verbal, que é interpretada pelo hemisfério direito, para se relacionarem e  sentirem seguras. Mas, mesmo nos mais velhos, começa hoje cada vez mais a saber-se que o hemisfério direito tem um papel fundamental no sentimento de bem-estar, equilíbrio e segurança que está, em grande parte associado à capacidade de estarmos em contacto com as mensagens do nosso próprio corpo. Quando nos focamos apenas na comunicação oral, algo que é forçado pelo uso continuo de máscaras, estamos a estimular o uso do hemisfério esquerdo em detrimento do direito, algo que sabemos estar bastante mais associado a sentimentos de agitação, ansiedade e até de depressão.
Sabendo que nas crianças, sobretudo as mais pequenas, o hemisfério direito ainda tem um papel dominante, então, deixá-las o dia inteiro, aos cuidados de um educador com máscara é dificultar muito o seu sentimento de segurança. 

As nossas creches e jardins de infância já têm demasiadas crianças para o número de adultos presente e isto já dificulta a ligação e esse sentimento de segurança que a criança precisa de ter com os adultos que cuidam de si. Quando juntamos a isto a grande dificuldade de ler o rosto que as máscaras provocam estamos a criar uma dificuldade enorme da criança se ligar ao adulto e, consequentemente, de se sentir segura com ele e na escola. Se a criança não se sente ligada a um adulto que cuida dela, irá passar todo o seu dia num estado de alerta que, poderá ter consequências muito graves para o seu desenvolvimento, para o seu comportamento e até para as capacidades cognitivas e de aprendizagem, bem como para a sua saúde.

Uma investigação bastante extensa que em que participaram cerca de 17000 sujeitos, sobre experiências adversas na infância mostra bem como o stress tóxico que estas provocam está ligado a uma série de complicações de saúde na vida adulta: como a obesidade, diabetes tipo II, desordens de ansiedade e depressão e até problemas cardiovasculares, a principal causa de morte na sociedade ocidental.

Se pensarmos que, apesar de terem tido mais tempo com os pais, este tempo de confinamento e ausência de escola pode ter sido vivido com muitas dificuldades em muitas casas em que os pais ficaram sem emprego ou viram o seu modo de vida afectado, em casais em que as dificuldades de relacionamento aumentaram pela convivência forçada, em situações em que os pais tinham de trabalhar com crianças pequenas em casa sem terem como prestar-lhes atenção ou tratar delas em condições. Tudo isto a juntar a uma crise económica e social sem precedentes diz-nos que, mais do que nunca teremos crianças provavelmente muito ansiosas na escola, crianças com várias dificuldades e problemas emocionais para gerir. O que quer dizer que, para estas crianças, será ainda mais importante que a escola se torne um lugar seguro. Para isso não podem existir regras demasiado rígidas que se sobreponham ao seu bem-estar.

A diminuição dos intervalos e as medidas de distanciamento entre crianças também são nefastas e sem sentido. Quando sabemos que ao ar livre a probabilidade de transmissão é muito menor e que a socialização com os pares é um aspecto importantíssimo da escola, não faz qualquer sentido dificultar o convívio e a proximidade entre as crianças. 

A desinfecção constante também transmite uma mensagem continua de perigo e cria mais tensão do que os benefícios que pode trazer que, na verdade, nem são muitos porque já se sabe que os desinfectantes à base de álcool matam também as bactérias boas que são essenciais para a nossa saúde e equilíbrio. E a sociedade de pediatria francesa, que aliás se tem mostrado também bastante preocupada com estas medidas, já emitiu um comunicado às escolas a afirmar que a lavagem mais frequente das mãos com água e sabão é suficiente como medida de segurança nas escolas. 

Não podemos deixar que as medidas sanitárias se sobreponham à necessidade de preservar a saúde mental das nossas crianças e jovens. Porque se o fizermos teremos com certeza em mãos uma outra pandemia no campo da saúde mental com resultados bem dramáticos e duradouros. 

A maior protecção que podemos dar a uma criança, como mostram todos os estudos sobre vinculação, é dar-lhe a possibilidade de construir uma relação segura com os adultos, isto é realmente o mais importante e a melhor prevenção que poderá existir para a sua saúde mental. Mas essa relação pode ficar ameaçada se os adultos na vida dessa criança insistem em tratá-la como um ameaçador agente infeccioso. Como um pequeno transportador de vírus que pode ser responsável pela morte dos avós ou de outras pessoas queridas e que por isso tem de ser travado e doutrinado para se manter longe dos colegas, para se desinfectar bem, para usar máscara a partir dos 10 anos, etc. Porque ao fazê-lo deixamos de ser nós os adultos como figuras de protecção, quando passamos a responsabilidade de se manter segura - e mais ainda de manter os outros seguros - para os ombros de uma criança estamos a dar-lhe um peso que ela não tem como carregar. E esse peso terá um custo, um custo que virá mais tarde sob a forma de dificuldades e até de patologias várias, como demonstrou tão bem o tal estudo das ACEs (adverse childhood experiences). E na verdade, Portugal, neste momento está entre os países do mundo que têm adoptado medidas mais rígidas com as crianças. 
Então temos que deixar que as crianças sejam crianças, não temos o direito de as pressionar com o nosso medo e de as impedir de serem apenas crianças. Não temos o direito de as impedir de brincar, de as prender em casa, de fechar parques infantis e escolas mas também não temos o direito de as mandar para a escola com uma série de regras absurdas e rígidas que só lhes colocam tensão e mais peso nos ombros e com uma série de adultos de rosto tapado cujas expressões nem sequer conseguem desvendar facilmente.
Se sentimos que precisamos de tomar medidas para travar esta pandemia e se precisamos de viver com elas durante bastante tempo para proteger alguns grupos de risco também precisamos de sentir que temos de proteger as crianças e que essa responsabilidade deve ser assumida única e exclusivamente pelos adultos, deixando que as crianças continuem a ser  apenas crianças se queremos realmente dar-lhes oportunidade de se desenvolverem saudáveis. Porque um ou dois anos na vida de uma criança não valem o mesmo que na vida de um adulto e podem bem mais facilmente deixar marcas permanentes que teremos muita dificuldade em apagar mais tarde. 


quinta-feira, 21 de maio de 2020

Saúde e relacionamentos

Aquilo que nos torna pessoas são as nossas relações. Aquilo que nos define enquanto espécie é a grande necessidade que temos de estabelecer ligações desde o primeiro momento de vida e a forma como precisamos delas para nos desenvolvermos. 

Estudos feitos com crianças que viveram em situações trágicas como os conhecidos orfanatos da Roménia mostraram bem como, sem a possibilidade de estabelecer ligações as crianças ficavam com problemas de desenvolvimento em todos os níveis: cognitivos, motores e emocionais e até uma estatura abaixo da média. E havia um grande número delas que, mesmo com alimento suficiente e boas condições materiais e de higiene nem sequer chegava a sobreviver. Faillure to thrive foi o nome dado pelos investigadores a esse fenómeno muito observado nessas instituições em que o organismo das crianças simplesmente não conseguia sobreviver ao stress de não ter alguém com quem pudesse construir uma ligação. No caso daquelas a quem era permitido contactar com outras crianças verificou-se que algumas chegaram a criar uma língua própria que só elas entendiam, preenchendo essa necessidade desesperada que tinham de se ligar alguém mesmo que fosse apenas outra criança. 

A conhecida experiência da cara parada ou Still face experiment no seu nome original e todas as investigações tão importantes do seu autor, Ed. Tronick, também demonstram muito bem como é fundamental responder aos bebés e crianças para o seu bom desenvolvimento e como eles o esperam e dependem disso desde os seus primeiros dias. 


Estudos com macaquinhos sacrificados nos anos 50 também mostraram bem a importância do toque e a forma como ele é prioritário até em relação ao próprio alimento. 


Uma investigação da Sue Jonhson, terapeuta de casal, também mostra como o simples facto de termos uma pessoa que amamos a segurar-nos a mão durante um procedimento doloroso diminui bastante o stress e até a própria sensação de dor. 

Ainda há dias comecei a ler um livro de um médico que na sua introdução diz que a solidão é uma causa de morte tão grande como a obesidade e os diabetes. E sabe-se que o sentimento de solidão aumenta em cerca de cinquenta por cento a probabilidade de se sofrer um ataque cardíaco, dando um significado mais literal à expressão de coração partido. Sabe-se também que depois de um episódio de enfarte um dos aspectos mais determinantes para a sobrevivência é a qualidade dos relacionamentos da pessoa. 

Também já foi demonstrado que o sentimento de rejeição activa no cérebro exactamente as mesmas zonas que a dor física, mostrando como este sentimento tem também um papel importante na nossa sobrevivência. Porque evoluímos enquanto espécie com base nessa mesma dependência. Foi o facto de sermos capazes de colaborar que nos permitiu dividir o cuidado com as crias, construir abrigos melhores, armazenar alimentos e tudo o resto que teve um papel fundamental para a nossa sobrevivência. 

Descrevo isto tudo apenas para que nos lembremos daquilo que nos torna pessoas e nos faz crescer e viver bem e com saúde: os relacionamentos. 

Então não podemos esquecer-nos disto nos momentos de crise como o que estamos a viver. É verdade que podemos manter boas relações com algum distanciamento das pessoas que não estão no nosso círculo mais íntimo, também é verdade que podemos usar os ecrãs de vez em quando para as alimentar e também é verdade que, enquanto adultos ou crianças mais crescidas conseguimos criar boas ligações mesmo com uma parte do rosto tapada pelas máscaras porque já conseguimos relacionar-nos mais com base nas palavras e outro tipo de gestos. 

Mas precisamos de nos lembrar que não podemos alimentar ligações apenas e sempre com ecrãs pelo meio, muito menos nas crianças. O ensino à distância não faz sentido para uma criança e faz muito pouco para um jovem. As crianças aprendem quando conseguem sentir-se ligadas aos adultos que ensinam e é muito mais difícil fazer isso através de um ecrã, além de que nem sequer é positivo para o seu desenvolvimento cerebral o uso excessivo de ecrãs, como já expliquei aqui

Mas, mesmo para os adultos a presença física de alguém é insubstituível. Quando estamos com alguém ao pé de nós, a conversar de forma mais íntima e presente, há uma sincronização dos ritmos e um mundo de micro-expressões faciais, que são muito mais difíceis de interpretar num ecrã e que dão ás duas pessoas um sentimento de segurança que , por sua vez, activa o seu circuito social, responsável pelo estado de equilíbrio e sensação de bem-estar e saúde. 

E quando falamos de crianças também é verdade que é possível estabelecer uma ligação com elas mesmo com máscara posta - com crianças mais crescidas não tanto com bebés - mas é muito mais difícil porque ainda não estão tão treinadas a ler as nossas expressões e os seus circuitos sociais são menos desenvolvidos. E se isto até pode funcionar com uma criança calma, equilibrada e com um adulto com quem já exista uma boa ligação, fica tudo muito mais difícil quando a criança está tensa o que acontece muito facilmente quando estão sem os pais.  

E esperar que uma criança fique tranquila sem contacto físico, sem toque, é simplesmente não perceber mesmo nada das suas necessidades, sobretudo para as mais pequenas mas também, ainda que em menor escala, para as mais velhas. 

Ao mesmo tempo também temos pessoas nos hospitais a serem submetidas a cirurgias difíceis e arriscadas e que estão completamente sozinhas. Compreendo que a entrada cada pessoa nova no hospital se torna um novo possível foco de infecção. Mas também sei que essa entrada poderá ter um papel fundamental na recuperação de doenças difíceis e de situações potencialmente traumáticas. Sei que também é arriscado deixarmos sozinhas pessoas que estão a ser tratadas por problemas de saúde graves e assustadores, porque esse sentimento de solidão irá activar no seu organismo uma carga de stress tóxico que poderá eventualmente ser tão letal como o vírus do qual estão a ser protegidas. 

Também me custa muito saber de recém-nascidos que estiveram separados quinze dias das suas mães: para serem protegidos de um vírus arriscam-se a uma vida inteira de traumas causados por essa separação que se sabe que pode ter efeitos destruidores no seu sistema de resposta ao stress, na amamentação e na criação de um vínculo do qual depende toda a organização e estrutura mental da criança. 

Todas estas medidas têm algo em comum: uma visão redutora e limitada do que é a saúde e o não reconhecimento da importância da saúde mental que é construída, em boa parte, através das ligações que criamos. 

Por isso gostava de ver estas questões importantes a entrarem também nas equações. Quando tentamos proteger-nos do vírus gostava que o fizéssemos com a noção de que é também importante para a nossa saúde proteger as relações e libertar-nos do medo que nos faz, neste momento, ver cada um dos outros como um potencial perigo para a nossa saúde. Nunca ouvi dizer tantas vezes que estamos todos juntos mas, a verdade, é que nunca estivemos tão separados. Separados pelo medo que os outros nos infectem, separados pelo medo que os outros não levem isto suficientemente a sério ou separados pelo medo que o levem demasiado a sério. 

Então precisamos de nos juntar naquilo que nos torna mais humanos: o reconhecimento de que todos precisamos uns dos outros para sobreviver, para estar bem e para ser felizes. 

E precisamos que isto comece a pesar tanto nas decisões como as estatísticas que mostram tão bem o lado racional da humanidade mas que falham redondamente naquilo que é mais importante: as emoções. Porque se este lado racional nos trouxe conquistas maravilhosas e fantásticas que melhoraram muito a nossa qualidade de vida a verdade é que também nos afastou daquilo que nos faz felizes: as emoções. 

Um livro muito bom do psiquiatra Ian Mcgilchrist - the master and his emissary - explica como o mundo ocidental valoriza excessivamente as funções do hemisfério esquerdo. E nunca como agora isso foi tão claro para mim. Quando achamos que não há problema em pedir a adultos e crianças que se distanciem e usem máscaras estamos a valorizar demasiado a racionalidade e a deixar completamente de lado todas as funções do hemisfério direito, que é justamente o que analisa a comunicação não verbal e está mais ligado às emoções. Acontece que esta valorização excessiva do hemisfério esquerdo, com todos os benefícios importantes que nos trouxe, como o conhecimento científico, também tem uma responsabilidade importante no crescente mal estar, ansiedade e depressão que se vêem hoje em dia. É através do hemisfério direito que nos ligamos ao corpo e às emoções. E é só através do contacto com estas que podemos ser felizes e ter vidas preenchidas.


O hemisfério esquerdo permite-nos fazer coisas muito importantes, como dar nomes ao que sentimos e perceber porque acontece. Mas sem o direito ficamos vazios, reduzidos apenas ao intelecto podemos conquistar muitas coisas mas sem amor a vida não faz sentido.



Precisamos de encontrar um equilíbrio que nos permita perceber que se queremos viver bem, não apenas sobreviver, controlar o vírus não pode ser a nossa única preocupação.



Precisamos de ter noção que uma boa parte da comunicação acontece de forma não verbal. E quando alguém usa máscara e se distancia aquilo que o nosso organismo lê é um sinal de perigo.

Não sou contra o uso da máscara em situações específicas, como transportes públicos por exemplo. Mas precisamos de não as normalizar demasiado sob pena de anularmos e desvalorizarmos completamente o nosso hemisfério direito, anulando também tudo o que nos torna humanos e nos permite ser felizes.



E se isto é válido para os adultos, é ainda mais importante para as crianças em que o cérebro ainda está a organizar-se de formas que se irão tornar permanentes.

E sobretudo não podemos distancia-nos um dos outros e continuar a encarar todos como potenciais transmissores de vírus perigosos sob pena de vermos gravemente afectada a nossa saúde mental. 

Não acredito que esta crise nos traga muitas coisas boas, porque durante uma crise tudo o que queremos é sobreviver. Mas gostava muito que, no futuro, começássemos a ser mais capazes de valorizar as emoções e as relações como o património mais importante da humanidade e aquele que precisa mais de ser protegido e valorizado e que percebêssemos que não se pode falar de saúde física sem pensar na mental e sem pensar nas emoções e nas relações porque elas fazem parte de um todo inseparável que não pode ser analisado separadamente. Mesmo que seja impossível pô-las no microscópio como já fazemos com os vírus.