quarta-feira, 21 de maio de 2014

Bebés Interactivos

Quando o meu filho nasceu, algumas pessoas bem intencionadas avisaram-me de que ele iria pegar em tudo o que eu fizesse para perceber aquilo que resultava para chamar a minha atenção e aprenderia rapidamente as estratégias que resultavam para me levar a fazer o que ele queria. Estes quereres geralmente eram encarados como vontades não essenciais que não deveriam ser imediatamente satisfeitas sob pena de se gerar uma espécie de tirano que ficaria a acreditar que tem direito a colo sempre que lhe apeteça ou que o direito de mamar sempre que tem vontade, mesmo que ainda não tenham passado três horas da última mamada, ou o direito de só querer adormecer no colo ou na cama dos pais. E a tudo isto essas pessoas - que, na melhor das intenções, queriam apenas dar-me conselhos que tornassem a minha vida mais fácil e que, ao mesmo tempo, também me ajudassem a educar o meu filho de uma forma supostamente sensata – chamam normalmente as manhas que os bebés aprendem. E, a estas pessoas eu respondi algumas vezes que os bebés não têm manhas simplesmente porque não têm capacidade de perceber que as suas acções influenciam os outros ao ponto de os manipularem conscientemente porque um bebé não tem realmente a capacidade perceber de uma forma concreta que, se exibir o comportamento X os pais terão a reacção Y.
É verdade, sim, que os bebés não têm manhas, têm apenas necessidades mas, também é verdade que, a necessidade de estabelecerem uma ligação é tão forte como a própria necessidade de comer ou dormir e que, por isso mesmo, os bebés usam todos os recursos e estratégias ao seu alcance para tentarem estabelecê-la. 

Então, na realidade, estas pessoas que dizem que um bebé que está habituado a ser pegado ao colo sempre que chora ou a mamar sempre, têm alguma razão quando dizem que este se pode tornar um bebé mais exigente. Esta exigência não tem nada a ver com manipulações nem com choros despropositados ou com faltas de educação. Esta exigência vem simplesmente do facto de que, um bebé que está habituado a ver as suas necessidades respeitadas e respondidas é um bebé que sabe que as suas acções contam, é um bebé que aprende que tem algum poder no mundo, é um bebé que ganha confiança não só naquilo que o seu corpo lhe diz – quando este lhe mostra que algo não está bem – mas também na sua capacidade de alterar aquilo que precisa de ser mudado. Então, se este bebé está habituado a que respondam quando se manifesta é natural que tenha alguma tendência para se manifestar mais vezes. Isto não quer dizer que se torna um bebé que chora com mais frequência. A tendência é para que aconteça justamente o contrário provavelmente por duas razões: primeiro porque a mãe que está habituada a responder mais ao bebé cria uma ligação com este que lhe permite estar mais atenta e consciente das suas necessidades mesmo antes dele chorar e, por outro lado, porque o próprio bebé, ao crescer num ambiente em que sente que as suas necessidades são preenchidas e respeitadas, acabar por se tornar um bebé mais tranquilo e mais capaz de lidar com algum stress que, de vez em quando, possa surgir. 
Os bebés nascem prontos para estabelecer ligações e precisam dessas ligações para se desenvolverem de forma saudável. O trabalho de Ed Tronick mostra como são importantes essas ligações para os bebés e a forma como estas podem alterar a sua percepção do mundo. Este autor e investigador criou uma experiência clássica que já foi aplicada a bebés e crianças um mês de idade até aos 4 anos. Nesta experiência a mãe interage normalmente com o bebé, frente a frente, durante alguns minutos, para depois ficar durante algum tempo com uma cara neutra, ou seja, deixa de responder ao bebé e de reagir aos seus estímulos ficando apenas a olhar para ele com uma expressão neutra. Em apenas dois minutos nestas experiências, as crianças de todas as idades começam por tentar usar todas as suas estratégias para fazer a mãe reagir e, quando não conseguem fazê-lo, entram num estado de desespero e de ansiedade claramente visíveis. (Ver aqui vídeo da experiência)
Ao fim destes dois minutos em que a mãe mantém a expressão neutra, os investigadores pedem-lhe que volte a interagir com o bebé normalmente e, o que se observa é que, os bebés levam ainda algum tempo a recuperarem totalmente do stress causado pela interacção e voltarem a interagir de forma tão livre como a que se podia observar na primeira parte da experiência.
Esta experiência mostra como o facto do bebé se sentir ignorado pela mãe, mesmo num curto espaço de tempo, provoca uma perturbação tão grande no seu comportamento e até alguns danos nas interacções posteriores. 

O Modelo de Regulação Mútua

Com base nestas e noutras investigações, este autor criou aquilo a que chamou o MRM (Mutual Regulation Model ou Modelo de Regulação Mútua) segundo o qual o bebé e a mãe formam uma consciência diádica em que cada um responde e reage aos estímulos do outro. Neste modelo os bebés não são encarados como seres totalmente passivos que estão apenas à mercê da forma como as mães interagem com eles, embora seja o comportamento da mãe que tem de facto o maior peso na interacção. Mas, neste modelo o bebé também tem um papel activo na procura deste estado de ligação com a mãe e usa todas as suas estratégias para o conseguir. Para Ed Tronick a ligação entre a mãe e o bebé é feita daquilo a que chama matches and mismatches – encaixes e desencaixes. Este autor vê a comunicação entre a mãe e o bebé como uma série de pequenos episódios em que ambos procuram estar em sintonia um com o outro mas em que nem sempre isso acontece. Nas observações de Tronick nas relações que eram classificadas como de apego seguro, a mãe e o bebé estavam em sintonia aproximadamente metade do tempo em que interagiam. Isto quer dizer que há sempre períodos de tempo em que a mãe não percebe exactamente aquilo de que o bebé comunica e em que surgem os tais mismatches mas, o que ele também observou, foi que, neste tipo de relação existe uma grande taxa de reparações.
Para que isto fique mais claro podemos pensar num exemplo: a mãe está a brincar com o bebé que está no colo de frente para ela. O bebé faz um som e a mãe imita-o respondendo, o bebé fica satisfeito e faz um sorriso, a mãe fica contente com esse sorriso e sorri também mas, a certa altura, o bebé fica cansado da interacção e volta a cara para o lado, a mãe não percebe que o filho quer parar de brincar durante algum tempo e insiste um pouco. Esta insistência cria o tal estado de mismatch, ou de desencaixe, em que a mãe não percebe exactamente a necessidade do bebé naquela altura e o bebé não se sente verdadeiramente escutado ou acolhido. Isto faz com que o bebé fique mais desconfortável e reaja fazendo uma expressão de desagrado, aqui a mãe percebe que o bebé já não quer brincar mais e deixa-o descansar um pouco, mudando de actividade, mudando-o de posição ou, simplesmente, esperando, que o bebé mostre novamente vontade de interagir. Então, o facto da mãe ter percebido que o bebé estava cansado foi uma reparação nesta interacção, o que quer dizer que, a mãe ensinou ao bebé que é possível passar de um estado em que não estamos sintonizados com as necessidades do outro a um estado de sintonia e, com isto o bebé também aprendeu que é possível passar de um estado de stress a um estado de equilíbrio ou de bem-estar. E nisto a mãe mostrou também ao bebé que está disposta a ouvi-lo e mostrou-lhe que consegue comunicar com sucesso as suas necessidades dando-lhe o conforto de se sentir um agente da sua própria mudança e a capacidade de aprender a regular os seus estados internos. Nas investigações citadas por Tronick, nos casos de apego seguro, na grande maioria dos casos, quando as interacções eram dividas em vários passos, a reparação acontecia no passo logo a seguir ao desencaixe. 


Neste modelo de Regulação Mútua, o bebé precisa da presença da mãe para aprender a regular os seus estados internos e, se tiver que aprender a fazê-lo sozinho, isto acontecerá apenas à custa de muitos prejuízos que podem incluir vários atrasos no desenvolvimento e, em casos mais graves, podem mesmo levar aquilo que em inglês se chama faillure to thrive, que podemos traduzir como falha em desenvolver-se e que era o mecanismo que estava na origem das taxas elevadas de mortalidade em muitos orfanatos, por exemplo. 
Tronick usa o exemplo da regulação da temperatura: por vezes os bebés precisam do contacto com o corpo da mãe ou do pai para regularem a sua temperatura interna. Sem esse contacto o organismo do bebé é obrigado a despender uma parte demasiado grande da sua energia para conseguir essa regulação o que, se ocorrer demasiadas vezes, acabará inevitavelmente por provocar outros danos. Então Tronick diz que um mecanismo muito semelhante existe com a regulação das emoções ou dos sistemas afectivos. Ele usa a teoria dos sistemas para explicar que o bebé é um sistema aberto que tem uma tendência para querer atingir sempre estados de maior complexidade mas que essa complexidade só pode ser atingida através do estabelecimento deste estado de consciência diádica com a mãe. Isto quer dizer que, para o bebé se poder desenvolver de forma óptima e com todas as suas capacidades, precisa que lhe seja possível formar esse estado de consciência com a mãe, através do qual aprende a regular o seu próprio sistema. Isto quer dizer que, se esta possibilidade não lhe for dada, ele terá que voltar todos os seus recursos para a auto-regulação o que, mais uma vez, acabará por levar a um gasto demasiado grande de energia que limita todos os investimentos que pode fazer noutras áreas e pode mesmo chegar a provocar danos graves.

Depressão Materna e interacção com o bebé

O trabalho deste autor passou muito também pela observação e compreensão da forma como as mães que sofrem de depressão interagem com os seus filhos e da forma como esta interacção influencia o seu desenvolvimento. E, uma das suas descobertas é que o facto da mãe estar deprimida, para além de levar ao aparecimento de algumas características típicas do comportamento depressivo no bebé, também pode fazer com que este apresente algumas limitações ao nível cognitivo, como a perturbação do défice de atenção, por exemplo. (Ver artigo sobre este tema)
Aquilo que Tronick observou nos seu estudos foi que os bebés que tinham mães deprimidas, para além de apresentarem também alguns sintomas depressivos, mostravam uma menor capacidade de observação de objectos, como se a sua atenção não conseguisse encontrar uma âncora que os fizesse sentir seguros e precisasse de estar constantemente a mudar de um estímulo para o outro.
Este autor explica esta observação com base no facto de que o bebé, ao ser privado do estabelecimento desse estado de consciência dual com a sua mãe, passa a precisar de direccionar todas as suas energias para actividades de auto-regulação que lhe permitam manter alguma estabilidade ao nível fisiológico e afectivo e que limitam a sua capacidade de interagir com o mundo. Por outro lado, este autor também defende que, ao ser privado deste estado de consciência com a mãe, o bebé não tem oportunidade de experimentar estados de consciência mais complexos e que, por isso mesmo, também se tornam mais capazes de absorver o mundo do ponto de vista cognitivo.
Este autor dividia as mães deprimidas entre dois grupos de mães que interagiam de duas formas distintas com os seus bebés: aquelas que tinham um comportamento intrusivo e aquelas que tinham um comportamento de abandono. As que tinham um comportamento intrusivo eram as mães que, no exemplo que demos acima, não respeitavam os sinais do bebé para parar de interagir. Uma mãe intrusiva continuaria a insistir até que o bebé ficasse tão desconfortável que começaria a chorar. Neste exemplo a mãe provavelmente não perceberia porque é que o bebé chorava e acabaria por ficar frustrada com a interacção o que, por sua vez, criaria um ciclo vicioso de mismatches na interacção que se torna difícil de quebrar. As mães intrusivas também tinham maior tendência para se zangarem e falarem de forma ríspida ou mesmo agressiva com o bebé. 
As mães com comportamento de abandono são mães que interagem muito pouco com o bebé, privando-os da oportunidade de estabelecerem qualquer tipo de interacção e de vinculação consigo.
Aquilo que o autor observou foi que estas mães geravam também dois tipos de comportamento diferente nos seus bebés: os bebés de mães com comportamento de abandono eram bebés que mostravam aquilo a que Seligman – pai da Psicologia Positiva – chama de desesperança aprendida (ver artigo sobre este tema), um comportamento em que o bebé entra num estado de apatia em que até pode ter muito poucas manifestações de desconforto mas tem ainda menos expressões de contentamento. No caso das mães intrusivas os bebés pareciam um pouco mais reactivos e apresentavam mais expressões negativas e de desconforto e menos expressões positivas quando comparados com bebés filhos de mães sem depressão.
Os casos de abandono levam à tal desesperança aprendida em que a criança cresce sentindo-se incapaz de confiar em si e com a sensação de que as suas acções não têm nenhum efeito no mundo e num certo estado de apatia e tristeza crónica. No caso da intrusão a criança cresce geralmente com uma sensação de zanga e com uma certa rigidez que se torna crónica e pode mesmo manifestar-se do ponto de visa físico.
Estas diferenças de comportamento já eram visíveis nos bebés com apenas seis meses, demonstrando que, nesta altura, já parece existir um padrão bem definido de comportamento.  
Para este autor o comportamento de abandono tinha um efeito ainda mais grave do que o de intrusão porque, os bebés filhos de mães intrusivas, pelo menos, tinham oportunidade de estabelecer uma ligação com estas mesmo que esta não fosse uma fonte de satisfação durante a maior parte do tempo. 
Então, estas investigações mostram claramente que a forma como as mães interagem com os filhos moldam a forma como estes passam a reagir e a comportar-se.
Este autor defende que o bebé não é apenas um sujeito passivo destas interacções no sentido em que o bebé procura estabelecer relações mas procura também manter o seu equilíbrio fisiológico e emocional e, para que isso aconteça, ele começa a usar as estratégias que estiverem ao seu alcance de acordo com a forma que a sua mãe interage com ele e, desde muito cedo, começam a formar-se então determinados padrões comportamentais que reflectem a forma como aquele bebé está a desenvolver a sua visão do mundo e de si mesmo e a sua capacidade de manter o seu equilíbrio interno, que é fundamental. Nestas investigações Tronick também verificou que havia algumas diferenças entre rapazes e raparigas: os rapazes pareciam ser um pouco mais intensos nas suas demonstrações emocionais e, ao mesmo tempo, tinham uma menor capacidade para se auto-regularem o que acabava por fazer com dependessem mais da presença e da disponibilidade da mãe para o fazerem. Talvez por isso, porque os sentiam mais necessitados, as mães apresentavam uma maior percentagem de tempo em sintonia com os rapazes do que com as raparigas.

Então realmente os bebés a quem nunca ninguém pega ao colo e cujas necessidades são constantemente negligenciadas, como acontece no caso das mães deprimidas, são bebés que, à primeira vista parecem dar menos trabalho. São bebés que até podem chorar muito pouco e que, aos seis meses, já desistiram de pedir colo ou de exigir a presença de um adulto para adormecer, por exemplo. Mas é muito importante termos noção do preço que pagam para isso. E o preço que pagam é a possibilidade de se tornarem adultos felizes, confiantes, preenchidos, seguros do seu lugar no mundo e capazes de lutar por aquilo em que acreditam. O preço que pagam é um crescerem sem nunca sentirem que são verdadeiramente importantes para alguém e, por isso mesmo, sem nunca saberem verdadeiramente onde pertencem neste mundo. E o preço que nós, pais, pagamos por isso, é o preço de ter um filho que nunca nos verá como uma verdadeira fonte de conforto, de prazer e bem-estar. E é o preço também de ter um filho que nunca olhará para nós como alguém em quem pode confiar, como alguém com quem pode descansar. E, é importante também termos noção de que o pouco trabalho que até podem dar estes bebés que não exigem a nossa presença será compensado com todo o trabalho extra que darão à medida que forem crescendo porque serão com toda a certeza crianças que, mais cedo ou mais tarde, apresentarão sempre algum tipo de problema no seu desenvolvimento. 

Referências

Ed Tronick (2007) - The Neurobehavioural and Social-Emotional Development of Infants and Children. Norton 

Gabor Maté (2000) - Scattered - How Attention Deficit Disorder originates and what you can do about it. Plume Books. 

terça-feira, 13 de maio de 2014

Pais culpados

No fim de semana passado fizeram-me um convite simpático para apresentar uma palestra num seminário organizado pela associação de pais da escola Gomes Freire de Andrade, em Oeiras. No final da apresentação, estava presente uma jornalista que deveria ter moderado uma mesa redonda entre os intervenientes mas, como houve alguns atrasos, esse debate acabou por ter de ser encurtado e fiquei sem possibilidades de responder a um tema que essa jornalista trouxe e acerca do qual gostaria de ter dito algumas coisas. Esta jornalista falou naquilo que considerou ser algo muito presente na maioria dos pais da nossa cultura e sociedade: a culpa. Culpa por não terem tempo para estar com os filhos ou por se sentirem responsáveis pelos problemas dos filhos ou por não serem os pais que gostariam de ser. E, de acordo com esta jornalista, esta culpa era responsável por um mal-estar grande e que, na verdade, se eu bem percebi, não teria grande razão nem necessidade de existir.
Para compreendermos melhor o que está aqui em jogo, é preciso primeiro distinguir dois tipos de culpa: a culpa que vem misturada com a vergonha, que nos faz sentir infelizes, indignos e incapazes e que tem um efeito paralisante porque nos faz sentir totalmente incompetentes e incapazes nas nossas funções e a culpa que é apenas um sinal da nossa consciência de que não estamos a agir de acordo com o nossos valores.
Então, no primeiro caso, esta é uma emoção que, realmente, traz mais prejuízos do que benefícios. Esta culpa paralisante que nos faz sentir vergonha de quem somos, a maior parte das vezes, tem a sua origem justamente na nossa infância. Quando os nossos pais nos fazem sentir totalmente desadequados no nosso comportamento surge uma resposta de vergonha, potenciada pela libertação de uma grande quantidade de hormonas, como o cortisol – associado à resposta de luta ou fuga – e que nos dá uma sensação de não sermos dignos de amor, de não sermos dignos de existir. Porque, quando não nos sentimos dignos do amor dos nossos pais a sensação é mesmo de que não somos dignos de existir. E, se isto se repetir muitas vezes na nossa infância, acabam por ficar gravadas estas sensações de não sermos capazes, de não sermos competentes, de não sermos dignos. E, muitas vezes, transferimos isto para os nossos relacionamentos mas também para o trabalho ou outro tipo de tarefas que temos de desempenhar. Então numa relação tão importante como a que temos com os nossos filhos, é natural que, nestes casos, possam também surgir esse tipo de sentimentos de incapacidade e incompetência. A única forma de lidarmos com estes sentimentos sem que eles se tornem verdadeiramente paralisantes é reconhecermos que têm provavelmente mais a ver com os nossos pais e com o que aprendemos com eles do que propriamente com os nossos filhos. E que estamos apenas a projectar ou a reavivar com eles essas aprendizagens da infância porque, quando não tomamos consciência destes padrões que fomos estabelecendo ao longo da vida, o mais provável é que continuem a influenciar a forma como nos relacionamos ao longo da vida e são grandes as probabilidades de que venhamos a reproduzi-los com os nossos filhos. 
No segundo tipo de culpa aquilo que está em causa é o facto de sentirmos que não estamos a viver de acordo com os nossos valores. E, infelizmente, isto é cada vez mais comum nos dias de hoje. Porque todos sentimos que é importante passarmos tempo com os nossos filhos e temos cada vez menos possibilidades de o fazer, porque todos sentimos que é importante cuidarmos da nossa relação com os nossos filhos e também temos cada vez menos possibilidades de o fazer. Uma mãe que tem um filho de meses e precisa de trabalhar o dia todo longe do filho sente-se naturalmente culpada. Mas esta culpa é apenas fruto da sua consciência que lhe diz que não está poder seguir o seu instinto de mãe. Uma mãe que quer pegar no filho ao colo sempre que chora ou dar-lhe mama, ou que quer pô-lo na cama consigo mas que resiste à ideia de o fazer por medo que se torne dependente ou por outros receios que lhe são incutidos muitas vezes pelos especialistas e sociedade em geral, é natural que se sinta culpada porque, em alguma parte de si, sabe que não está a seguir os seus instintos e a ser fiel aos seus valores. 
E, na minha opinião o problema é este: é que cada vez mais somos obrigados a passar por cima dos nossos instintos mais básicos e a separarmos-nos cada vez mais dos nossos filhos. E, nestes casos, a culpa não só é inevitável como até acredito que seja desejável porque é ela que nos pode lembrar de que podemos fazer mais pelos nossos filhos, porque é ela que nos pode fazer lembrar que ao esquecer os nossos filhos estamos a esquecer-nos também de nós e a deixar de lado os nossos valores, os nossos instintos, e a nossa consciência que sabe e que quer fazer melhor.
Então aqui o importante não é eliminar a culpa mas sim perceber de onde é que ela vem e tentar eliminar não o sentimento mas as circunstâncias que o provocam. Nem sempre podemos eliminar directamente essas circunstâncias mas podemos arranjar formas de as contornar para que se torne possível estarmos mais alinhados com os nossos valores. Por exemplo, se não podemos deixar de trabalhar para estar com os nossos filhos, podemos, pelo menos, tentar aproveitar ao máximo todo o tempo que temos com eles.
Por vezes também me sinto culpada quando não tenho toda a paciência que gostaria de ter sempre com o meu filho, ou quando me zango em situações em que acho que não me deveria zangar, ou quando lhe falo alto e sei que não o deveria fazer. Mas, cada vez que sinto esta culpa não acho que ela é que está errada ou que deveria desaparecer. Quando esta culpa aparece sei que ela está presente porque me comportei de uma forma que não condiz com os meus valores, que não está de acordo com os meus instintos nem com aquilo em que acredito. Então a solução não será eliminar esta culpa mas sim pensar que, da próxima vez, espero conseguir estar mais alinhada com esses valores. E, se sinto que fiz mesmo algo que não gostei de fazer, então posso tentar reparar aquilo que fiz, por exemplo, explicando ao meu filho que estava cansada, sem paciência mas que, por baixo de todo esse cansaço e falta de paciência continuava a estar presente todo o amor que tenho por ele. Que, mesmo que fale alto e faça cara feia em alguns momentos, continuo a gostar sempre dele. Porque, para mim, isso é o mais importante: que o meu filho saiba que, por muito pouca paciência que eu tenha ou por muito grande que seja a asneira que ele fez, o amor que sinto por ele não foi minimamente afectado. Porque é quando duvidamos desse amor dos nossos pais, especialmente nos momentos em que se zangam connosco, que surgem os tais sentimentos de vergonha e de incapacidade que podem levar também justamente a essa culpa paralisante e tão nociva quanto desagradável.
Poderia pensar simplesmente que não vale a pena sentir-me culpada porque as minhas acções não são assim tão importantes, porque zangar-me uma vez ou outra ou gritar de vez em quando não faz mal nenhum. Mas faz mal, sim. Faz mal, em primeiro lugar, porque não é quem gosto de ser e faz mal, em segundo lugar, porque não é isso que o meu filho merece. E se o nosso marido ou mulher nos tratassem mal de vez em quando e nos dissessem simplesmente que temos de aguentar porque a vida é assim mesmo e não estamos sempre bem-dispostos? É verdade que é natural perdermos a paciência uns com os outros de vez em quando, é verdade que uma zanga de vez em quando não prejudica assim tanto uma relação. Mas também é verdade que, depois dessa zanga, precisamos sempre de saber que há qualquer coisa que tem de se reparada na relação. Porque quando outro adulto se zanga connosco também precisamos de saber que ele ainda gosta de nós. Porque quando um adulto de quem gostamos se zanga connosco e nos trata mal, esperamos, no mínimo, uma atitude de quem está disposto a fazer alguma reparação para que as coisas possam voltar ao normal. Então é verdade que não é grave zangarmos-nos com os nossos filhos mas, também é verdade que, por uma questão de respeito e de consideração, é importante estarmos dispostos a reparar a relação depois dessa zanga. E a culpa é a forma da nossa consciência nos dizer que essa reparação é precisa, é necessária e importante. 
Outro aspecto desta culpa, segundo esta jornalista, seria o facto dos pais nem sempre terem culpa dos problemas dos filhos, ou seja, se um filho tem problemas, se se porta mal na escola, se escolhe uma vida de delinquência, por exemplo, a culpa nem sempre seria dos pais. Aqui é importante não falarmos em culpa mas sim em responsabilidade e, para mim, a responsabilidade é sempre dos pais, sim. Mas é diferente ser responsável ou ser culpado. Porque ser culpado, neste contexto, implicaria que não quiséssemos fazer melhor e, é claro que cada pai faz o melhor que sabe pelos seus filhos. É verdade que as crianças nascem com temperamentos diferentes e também é verdade que têm algum papel na forma como interagimos com elas mas também é verdade que somos os nós os adultos quem tem verdadeiramente escolha nessas interacções. Por isso, somos nós, verdadeiramente os responsáveis pela forma como elas correm. E somos nós também os responsáveis pelas primeiras experiências mais marcantes dos nossos filhos que ajudarão a moldar todas as outras experiências importantes das suas vidas. Então, somos nós, em grande parte, sim, os responsáveis por todo o seu futuro. Mas isto só é um peso se não sentirmos que fazemos o melhor que podemos. Se sentirmos que todos os dias estamos alinhados com os nossos valores e fazemos o melhor que podemos e sabemos pelos nossos filhos então essa responsabilidade não tem nada a ver com culpa e não se torna nada pesada porque, mesmo que alguma coisa corra mal pelo caminho, sabemos que demos o melhor de nós aos nossos filhos e sabemos que tudo o fizemos foi feito com a consciência de que lhes demos tudo o que podíamos ter dado. E quando damos tudo o que temos não há lugar para culpas paralisantes nem daquelas que nos pesam e incomodam porque, quando damos tudo o que temos, os nossos filhos podem crescer com a consciência de que podem cometer todos os erros do mundo que continuam a ser dignos do nosso amor e, só isso, por si só, acredito que é suficiente para criar um ser humano digno, com valores e respeito e uma relação feliz e harmoniosa com os nossos filhos para toda a vida. E, quando fazemos tudo o que podemos fazer alinhados com os nossos valores e com a nossa consciência, mais do que algo que precisa de ser eliminado, a culpa pode ser mesmo uma boa ajuda e algo que precisamos de ouvir para saber o que é que precisa de ser mudado. 


terça-feira, 15 de abril de 2014

Comportamentos de risco


We advocate a precautionary principle regarding caregiving practices. If we take to heart our evolved caregiving practices and the evidence we have thus far, then we must reframe some current childrearing practices as “risky”, such as formula feeding, sleeping in isolation, institutional daycare, “crying-it-out”, lack of skin-to-skin contact and parenting in isolation. 

Darcia Narvaez, Jaak Panksepp, Allan Schore, Tracy Gleason (2013) - Evolution, Early Experience and Human Development

Este parágrafo foi retirado das conclusões de um livro onde, vários autores com diferentes perspectivas, falam daquilo a que chamam o Ambiente de Adaptabilidade Evolutiva (AAE). Este ambiente é aquele em que a espécie humana evoluiu e se desenvolveu ao longo de milhares de anos, é o ambiente que encontramos ainda nas sociedades tradicionais e existem também algumas semelhanças deste ambiente com aquele que podemos observar nos mamíferos, principalmente os primatas, que vivem em liberdade. Este ambiente de adaptabilidade evolutiva é o ambiente para o qual estamos programados para viver, é o ambiente que esperamos encontrar quando nascemos e é o ambiente em que mais facilmente um bebé humano se adapta e onde encontra tudo aquilo de que necessita para viver e crescer de forma saudável e equilibrada. Os editores deste livro juntaram assim artigos de vários autores que, com base nos estudos mais recentes do desenvolvimento infantil, da neurociência e até da antropologia, demonstram que o ambiente em que hoje - nas sociedades ocidentais - criamos as nossas crianças é muito diferente deste ambiente de adaptabilidade evolutiva que seria desejável recriarmos. E, como demonstram cada vez mais estas investigações o facto de nos estarmos a afastar cada vez mais deste ambiente comporta riscos que podem ter consequências bastante negativas, como mostram também os números cada vez maiores de perturbações psicológicas que encontramos tanto nos adultos como nas crianças hoje em dia.
Uma das bases para o conteúdo deste livro e destas pesquisas é o facto de todas as crianças nascerem com uma necessidade fundamental de estabelecerem vínculos, de estabelecerem uma relação de apego com a(s) pessoa(s) que cuida(m) de si. Já explorámos aqui a importância deste vínculo. 

Estas são as principais diferenças que encontramos na sociedade de hoje em dia, quando comparada com as sociedades tradicionais em que estava presente o Ambiente de Adaptabilidade Evolutiva:

·    Contacto da criança com a mãe nos primeiros tempos de vida – o que se observa nas
sociedades tradicionais, tal como acontece nos primatas, é que – pelo menos durante o primeiro ano de vida – o contacto do bebé com a mãe é muito frequente. Nestas sociedades os bebés passam a esmagadora maioria do seu tempo na presença da mãe. Ao longo do segundo ano, em algumas sociedades, a mãe pode começar a afastar-se um pouco mais deixando a criança ao cuidado de outras pessoas mas ainda continua a ser a presença mais frequente e regular no dia da criança. A partir do terceiro ano de vida, muitas vezes, esse tempo em que a mãe não está tão perto pode começar a aumentar um pouco mas nunca de forma a que uma mãe passe dias inteiros sem ver os filhos, como frequentemente acontece nas nossas sociedades em que as mães passam facilmente 8, 9, 10 ou até mais horas do seu dia sem ver os filhos.
  • O contacto pele com pele logo após o nascimento - nestas sociedades, geralmente, a criança é posta em contacto com o peito da mãe imediatamente depois do nascimento. Este contacto pele com pele sabe-se que pode ser muito importante para promover a libertação de hormonas que têm um papel fundamental no estabelecimento do vínculo quer da parte da mãe quer da parte da criança e também um papel essencial para o estabelecimento da amamentação por parte de ambos. Muitas das dificuldades que acontecem hoje no campo da amamentação podem ter origem justamente no facto deste contacto ser tantas vezes interrompido por procedimentos desnecessários e que não teriam lugar no AAE. Estas interrupções podem fazer com que o instinto de procurar naturalmente a mama, que todos os bebés têm, seja mais dificilmente despoletado levando ao surgimento de dificuldades que podem persistir sobretudo durante os primeiros tempos da amamentação.  
·       Esta presença da mãe traduz-se num contacto físico quase constante durante o primeiro ano de vida, com recurso a porta-bebés tradicionais e à cama compartilhada. A partir do momento em que a criança começa a andar este contacto físico pode diminuir um pouco mas os porta-bebés continuam a ser usados com frequência sempre que a criança precisa de ser transportada e o sono continua, geralmente, a ser feito na mesma cama ou no mesmo espaço em que se encontram a mãe e o pai durante os primeiros anos de vida de cada criança.
  
·       A presença da mãe também se traduz em períodos de amamentação muito mais prolongados do que aqueles que estamos habituados a ver hoje em dia, nas sociedades ocidentais. As investigações mostram que, de acordo com a nossa fisiologia e, a partir do que se conhece
da observação de sociedades tradicionais e de outros primatas, a idade natural do desmame deveria ocorrer entre os dois e os sete anos de idade. Alguns autores sugerem um período um pouco mais limitado entre os dois e meio e os cinco anos de idade mas, a verdade é que, de acordo com vários aspectos, não há nenhuma evidência de que um desmame forçado antes dos dois anos de idade possa trazer algum tipo de vantagem do ponto de vista da adaptação fisiológica ou psicológica da criança. Na verdade tudo indica o contrário: que as crianças nascem biologicamente preparadas para mamar, pelo menos, até aos dois anos de idade e que, por isso mesmo, é um risco para a sua saúde física e mental que não lhes seja permitido fazê-lo. A amamentação continua ter muita importância na saúde da criança e a ser um importante veículo para toda uma série de nutrientes que são essenciais para o crescimento mas também permite à criança receber uma série de anti-corpos que são também muito importantes visto que o seu sistema imunitário ainda está em formação até cerca dos seis anos de idade. Do ponto de vista emocional a amamentação também tem um papel importante de fazer com que a criança se sinta ligada e próxima da mãe e, quando a privamos dessa ligação essencial, sem que ela esteja pronta para a deixar por si mesma, é muito provável que isso tenha implicações negativas do ponto de vista do vínculo entre a mãe e a criança. 
Por outro lado, a amamentação prolongada – ou natural - para além dos benefícios que traz à criança do ponto de vista da saúde física e emocional traz ainda um benefício acrescido que é o prolongamento natural do período de amenorreia na mãe, o que contribui para um maior espaçamento entre os filhos, garantindo assim que a mãe tem tempo e disponibilidade para tratar das necessidades de proximidade com um filho antes de vir o próximo.

·       A cama partilhada – nestas sociedades, bem como em todas as espécies de mamíferos, as crias dormem perto dos pais até terem maturidade suficiente para dormir sozinhas. Nas sociedades ocidentais - com os novos hábitos de consumo e um certo desafogo económico, bem como a diminuição do número de filhos - que nos permitem ter um quarto separado para as crianças, levaram a que nos habituássemos a ver bebés e crianças pequenas a dormirem em camas e quartos separados dos pais. Mas, ao contrário do que pensamos, isto não tem nada de natural e alguns autores já questionam se será de facto saudável, sendo que, já há algumas estatísticas que comprovam que o facto dos bebés dormirem sozinhos podem aumentar significativamente o risco de morte súbita. A partilha da cama com o bebé ou criança, para além de ser uma boa forma de preencher as suas necessidades de contacto físico, também contribui muito para o sucesso e facilitação da amamentação.
  
·    Presença de múltiplos cuidadores – apesar de a mãe ter um papel de destaque nas sociedades tradicionais e no AAE, a verdade é que esta não vivia de forma tão isolada como hoje acontece. Os seres humanos não estão programados para o tipo de isolamento que acontece hoje nas nossas sociedades e isso pode ter consequências graves para o estado de espirito das mães e para a sua capacidade de cuidar dos filhos. Uma mãe que passa o dia inteiro sozinha com o filho bebé em casa, tendo apenas a companhia do marido aos fins de semana e ao final do dia, não é um quadro natural e pode muito facilmente levar a sentimentos de isolamento, de tristeza, de incapacidade e de grande cansaço. Nas sociedades tradicionais as pessoas vivem de forma mais comunitária por isso há sempre uma irmã, uma mãe, uma tia, uma vizinha para cuidar da criança alguns minutos enquanto a mãe descansa ou faz qualquer outra coisa. Estes pequenos intervalos ao longo do dia que a mãe pode ir fazendo no seu papel de cuidadora principal são importantes para que possa descansar sem que, para isso, precise de passar muito tempo longe dos filhos. Por outro lado, para a criança, esta diversidade de cuidadores também lhe permite estar muito mais exposta a todo o tipo de estímulos e - visto que a mãe nunca está longe e funciona como uma base segura e estável de apoio - ela pode ir criando vínculos com várias pessoas diferentes o que também poderá ser muito enriquecedor para o seu crescimento.

·    Presença de várias crianças de idades diferentes – nestas sociedades é comum que as crianças brinquem juntas em grupos de crianças de várias idades diferentes o que também pode ter um papel importante no seu desenvolvimento. Nestes grupos, o facto de estarem presentes crianças mais velhas também permite que as brincadeiras decorram de forma mais livre e com menos intervenções dos adultos. 

·    Resposta rápida ao choro – neste tipo de contexto o choro das crianças é, geralmente, rapidamente atendido. Porque nestas sociedades este choro é valorizado, ao contrário do que muitas vezes é divulgado hoje em dia, nestas sociedades, sabe-se que, se a criança chora é porque algo não está bem. E, resolver esse algo -principalmente em sociedades onde a mortalidade infantil é muito mais elevada que na nossa- é importante e pode mesmo ser vital para a sobrevivência da criança, por isso nunca passaria pela cabeça de uma mulher tribal deixar o filho a chorar sem que tentasse fazer algo para perceber e resolver esse choro.

Então que lições devemos retirar daqui?

O mais importante disto é percebermos que, hoje em dia, proporcionamos aos nossos filhos um ambiente que não é muito natural e que isso pode ter consequências. De acordo com estes estudos e observações e também de acordo com tudo o que se vai cada vez mais descobrindo no campo das neurociências e da psicologia do desenvolvimento a verdade é que deixar crianças pequenas e bebés em escolas, aos cuidados de estranhos durante todo o dia, retirar-lhes a mama quando ainda são bebés, passeá-los em contentores de plástico e deixá-los a dormir sozinhos, em quartos separados dos pais e ignorar o seu choro, podem mesmo ser considerados, tal como diz a citação acima, comportamentos de risco. Isto quer dizer que podem ter consequências graves. Não significa que terão necessariamente consequências negativas mas que há uma grande probabilidade de isso acontecer. Significa também que quanto mais comportamentos destes adoptarmos maior será o risco que estamos a correr, logo, maiores serão as probabilidades de que as consequências negativas apareçam. E essas consequências podem ir desde a criação de uma criança mais insegura que dará origem a um adulto com uma maior propensão para estados de ansiedade e depressão e maior dificuldade em lidar com o stress até ao aparecimento de patologias mais graves. Ou pode simplesmente significar que, como adultos, teremos de nos esforçar mais para nos conseguirmos sentir bem e para sermos capazes de auto-regular as nossas emoções. Esta foi a conclusão de um estudo* inovador, publicado este ano, que acompanhou 54 sujeitos, desde os 18 meses até aos 22 anos de idade e que demonstrou que um apego inseguro pode ter consequências vísiveis ao nível neuronal fazendo com que os adultos que cresceram com uma relação de apego insegura com os seus pais, se tenham tornado em adultos com uma maior dificuldade em gerir e regular as suas emoções. Este estudo observou que, nos casos das crianças que cresceram com um apego inseguro com as suas mães, aos 22 anos, quanto tentavam auto-regular as suas emoções mostravam uma maior actividade em determinadas zonas do cérebro envolvidas no controlo cognitivo ao mesmo tempo que mostravam uma actividade reduzida noutras partes ligadas às emoções. Os autores concluem que, nestes casos, estas pessoas não tinham desenvolvido uma forma eficaz de regular as suas emoções o que significava que tinham de se esforçar significativamente mais do que aquelas que tinham um apego seguro para serem capazes de passar de um estado negativo para um positivo. Ao mesmo tempo, as pessoas que tinham crescido com esse apego inseguro, tinham também uma maior dificuldade em sentir afectos positivos e acabavam por se tornar adultos com maior dificuldade em se sentirem psicologicamente ajustados. Era como se estas pessoas nunca tivessem tido oportunidade de criar no seu cérebro uma forma eficaz de lidar com as emoções negativas, de as transformar e integrar e, ao mesmo tempo, como se também nunca tivessem aprendido a integrar verdadeiramente as positivas. Hoje sabe-se que a única forma que as crianças têm de aprender a regular as suas emoções é através do contacto próximo com a mãe e com o pai. Na verdade é como se o sistema nervoso da criança, enquanto é ainda muito imaturo, precisasse de aprender com o sistema nervoso dos pais quais os caminhos certos para lidar com as emoções. Mas esta aprendizagem só se dá se houver alguma proximidade da criança com os pais e um apego seguro entre eles. Se os pais deixarem a criança entregue a si mesma e às suas emoções então o seu sistema nervoso não tem possibilidade de encontrar o melhor caminho para fazer esta auto-regulação e, ao que tudo indica, os caminhos que acaba por encontrar não serão os melhores para fazer esse trabalho.

Qual é a relevância deste estudo relativamente a estas práticas?

             Todas estas alterações ao AAE põem justamente em risco a nossa capacidade de estabelecer um apego seguro com os nossos filhos. E, como demonstram já vários estudos, ao porem em risco essa capacidade de estabelecermos um vínculo seguro que represente uma base estável para o crescimento dos nossos filhos, acabamos por por em risco também as suas probabilidades de crescerem como adultos felizes, capazes de se sentirem bem e de lidarem da melhor forma com todos os desafios e dificuldades da vida.


* Christina Moutsiana, Pasco Fearon, Lynne Murray, Peter Cooper, Ian Goodyer,

Tom Johnstone, and Sarah Halligan (2014) - Making an effort to feel positive: insecure attachment in infancy predicts the neural underpinnings of emotion regulation in adulthood. The Journal of child Psychology and Psychiatry 

terça-feira, 8 de abril de 2014

Porque quero educar o meu filho como vegan


Quando o meu filho nasceu muitas pessoas nos perguntaram se íamos impor as nossas escolhas alimentares à criança, com uma certa entoação de crítica, como se estivéssemos a forçá-lo a entrar em alguma seita maluca, estranha e vagamente suspeita ainda que não saibam bem de quê. A essas pessoas respondi sempre que, todas elas sem excepção, impuseram as suas escolhas aos filhos, tal como os meus pais me impuseram a mim e tal como é suposto fazermos normalmente com todas as nossas opções e valores que, naturalmente, vamos procurando transmitir à descendência. Ao que estas pessoas me respondiam  que era uma situação muito diferente porque as nossas opções, como pais, estariam a condenar o meu filho – pobre criança inocente – a uma vida inteira de diferença e exclusão que dificultariam muito o
seu convívio com as demais crianças. Ao que poderia responder que, nesse caso, o erro estava do lado da sociedade ou de quem o rejeitasse e não em nós ou nele. Mas, a verdade, é que este é um dos receios que toma conta de muitos pais de crianças vegetarianas ou vegans, principalmente quando chega a altura de irem para a escola. Em relação a este receio que, devo confessar, também me surgiu algumas vezes, aquilo que tenho a descobrir com o meu filho é que não tem grande razão de ser. Porque, como em tantas outras coisas, o mais importante é a base de confiança que criamos com os nossos filhos e que eles criam connosco. E, quando essa confiança existe, as crianças sentem-se seguras de si e das suas escolhas, mesmo quando sabem que são diferentes das dos outros. Já em diversas ocasiões, como festas de aniversário, por exemplo, o meu filho me mostrou que sabe que o que nós comemos é diferente daquilo que a maioria das pessoas come e isto para ele é tão tranquilo como saber que algumas pessoas gostam mais azul e outras de cor de rosa. Porque ainda o achamos pequeno para explicar aquilo que está por trás destas escolhas, por enquanto, limitamos-nos a dizer que algumas coisas não são vegans e que só comemos as que são e isto para ele é tão pacífico como explicar que os adultos bebem vinho e café, por exemplo, e as crianças não. Quando as crianças confiam nos pais e se sentem seguras do amor destes não precisam tanto de se sentir iguais ás outras, porque a identificação mais importante que precisam de criar, nestes primeiros anos de vida, é com os pais mesmo e não com as outras crianças. E, na verdade, sermos vegans até ajuda a criar uma identidade distinta, uma atmosfera de pertença e contribui para construção dessa identidade de família que é importante e essencial na construção da identidade individual. Claro que chegará a altura em que essa identidade de família não será suficiente, chegará a altura em que haverá uma necessidade do meu filho, como acontece com todos os outros, criar a sua identidade própria mas, antes de o fazer, ao explorar novas possibilidades é natural que tenha alguma tendência para se afastar dessa identidade da família, principalmente na adolescência. E, nessa altura, não me surpreende nada que tenha necessidade de se aventurar noutros mundos e quem sabe até de experimentar comer coisas que nunca tinha comido. Quando essa altura chegar a única coisa que poderemos fazer é continuar a dar-lhe a nossa aceitação incondicional e perceber que, todos os adolescentes passam por fases em que é natural questionarem as escolhas da família. Mesmo assim, espero que sejamos capazes de lhe transmitir que, mais do que uma escolha alimentar, o veganismo é uma forma de encarar a vida que passa por um valor fundamental: o respeito por todas as formas de vida e a crença fundamental de que os animais têm de ser tratados com o mesmo respeito que tratamos as pessoas, nem mais nem memos, o mesmo respeito com que tratamos as pessoas, sim.

É por isto que quero que o meu filho cresça como vegan, porque quero que, para ele, esse respeito seja uma realidade e não apenas um conceito vago, confuso e contraditório como foi na minha cabeça durante tantos anos. Porque todos os pais ensinam os filhos a gostar dos animais, porque todos os pais gostam que os filhos tratem bem os animais, porque todos os pais têm dificuldade em explicar aos filhos que o que têm nos pratos já foi um animal, um ser com sentimentos, emoções e tão merecedor da vida como qualquer um de nós. Porque todas as crianças têm uma altura em que percebem essa contradição e a única forma de viverem com ela é fecharem uma parte de si, fecharem a parte de si que sabe que todos os seres são dignos de amor e respeito, fecharem a parte de si que sabe que não é certo causar dor e sofrimento apenas para a nossa conveniência. Porque qualquer criança sofre quando vê um animal a ser mal tratado, todos conhecemos histórias de crianças que se recusaram a comer um coelho ou uma galinha que viram ser morta por algúem. Porque as crianças nascem com essa capacidade de sentir empatia, com essa vontade de não causar sofrimento. Mas, com o tempo e com a nossa ajuda e os nossos argumentos vão percebendo que não podem dar-se ao luxo de manter essa empatia, porque senão não poderiam comer animais todos os dias. Vão começando a perceber que não podem ouvir essa parte de si, porque nós as convencemos que ela não está certa, que não é de fiar, que não podem dar-lhe ouvidos. Como alguém disse num vídeo que vi no youtube, todos gostamos de crianças que gostam dos animais e ficamos muito comovidos quando elas os defendem - como no vídeo do menimo brasileiro que não queria comer polvo, que correu o mundo, foi visto por mais de três milhões de pessoas e até acabou por ser entrevistado no programa da Helen Degeneres (ver aqui o vídeo) - mas achamos todos um bocado suspeito um adulto que tenha a mesma atitude. Porque, nós adultos, a maior parte das vezes, já silenciámos esse nosso lado sensível, preocupado, empático.
Então, eu não quero que o meu filho seja obrigado a perder esse lado criança, não quero que ele passe a encarar uma vaca como menos digna que um cão, ou um porco como menos sensível que um gato. Não quero que ele perca essa sua natureza fundamental, que é a de todos nós, de respeitar, admirar e proteger a vida, em todas as suas formas. Porque quando essas partes de nós se fecham não sabemos que mais é que seremos obrigados a fechar. Porque acredito que o respeito pela vida é o caminho para vivermos em paz com os animais mas também com os humanos, com a natureza, com o planeta. Porque uma criança que cresce a respeitar os animais também respeitará as pessoas. Porque uma criança que cresce sentindo valorizado o seu respeito pelos animais também se aprende a respeitar a si mesma.
E, sim tenho noção de que ser diferente nem sempre é fácil. Mas também tenho noção de que não sermos fieis a nós mesmos e à nossa natureza é ainda mais difícil. E também tenho noção de que a aceitação mais importante ele encontra primeiro em casa, com o pai e com a mãe e depois consigo mesmo, crescendo num ambiente de aceitação, de acolhimento e de respeito. Respeito que, muita gente nos pergunta, não implica deixá-lo comer carne um dia quando quiser? Implica deixá-lo comer o que quiser, sim, quando quiser. Mas apenas quando tiver maturidade suficiente para saber o que isso implica. Porque o nosso caminho não tem a ver com proibições ou imposições, como tanta gente julga, mas tem tudo a ver com consciência e respeito. E, para podermos respeitar as escolhas dos outros, temos que saber que, antes de mais nada, eles as fazem com consciência e não porque apenas decidiram fazer o que toda a gente faz. Não posso respeitar uma escolha que é fruto do conformismo e de queremos apenas fazer o que todos fazem porque essa não é uma verdadeira escolha. Uma verdadeira escolha implica ter noção das consequências dos nossos actos, consequências que uma criança de 2, 3 ou 4 anos ainda não tem noção para compreender. E não sei quando terá. Depende de cada criança e depende de cada pai ou mãe, só o tempo o dirá. Também não deixamos os nossos filhos beber alcoól antes de termos a certeza que compreendem o que isso implica, porque é que isto haverá de ser assim tão diferente? Só porque mexe com as tais partes de nós, que todos temos, que sabem que, no fundo a nossa escolha nunca existiu, limitámos- nos a fazer o que todos os outros faziam e a silenciar o nosso lado empático e capaz de ver o sofrimento que as nossas não escolhas provocam. 
Porque, como disse Paul McCartney, se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos seríamos vegetarianos.

E, para quem duvida desta frase fica um desafio: deixo aqui o link de um documentário que pode ajudar a mudar consciências, o Earthlings, veja-o até ao final. Só conhecendo tudo aquilo que está envolvido nas nossas escolhas e as suas consequências é que podemos afirmar que realmente escolhemos em liberdade. Ver aqui o filme

terça-feira, 25 de março de 2014

O mito dos dez minutos

       Ultimamente tenho ouvido algumas pessoas a falarem da importância dos pais passarem algum tempo de qualidade com as crianças. Pessoas que até compreendem a importância da vinculação e do desenvolvimento de um apego seguro e que depois afirmam que os pais devem, diariamente, dedicar pelo menos 10 minutos de disponibilidade total para os seus filhos. Não posso deixar de pensar que isto é uma contradição e fico preocupada quando alguém afirma que, para mudar uma relação que já não está muito bem, esses dez minutos podem fazer toda a diferença. É verdade que dez minutos é melhor do que zero e também é verdade que, em alguns casos, os pais nem dez minutos passam totalmente dedicados aos filhos porque há outras coisas importantes para fazer. Mas, a verdade é que, se as coisas não estiverem bem e se a criança não tiver um apego seguro com os seus pais, não é com esses dez minutos que o vai desenvolver. Sobretudo quando se trata de uma criança pequena.
       A grande tarefa dos primeiros 6 anos de vida das crianças é aprenderem a estabelecer relações. No primeiro ano a criança está mais preocupada com o estabelecimento de um apego seguro com os pais – ou com uma ou duas pessoas que passem mais tempo a cuidar dela. No segundo começa também a ser capaz de estabelecer relações com mais algumas pessoas que estejam presentes com muita frequência e disponibilidade na sua vida e, a partir do terceiro – sobretudo quando estas  relações já são seguras – começa a ficar mais disponível para estabelecer relações com avós, tios, primos ou outras pessoas que façam regularmente parte da sua vida de forma mais espaçada. E, a partir dos três anos, a criança começa também a estar mais disponível para se relacionar com os pares e os amigos da mesma idade que começam a tomar aqui alguma importância. Mas, é preciso não esquecer que, durante estes anos – sobretudo nos três primeiros – a relação com os pais continua a ser fundamental e é esta a base para que todas as outras possam surgir: é a partir de um relacionamento seguro com os pais que a criança percebe que as relações interpessoais podem ser uma fonte de prazer e de gratificação e ganha a confiança necessária para estabelecer outras relações. Por outro lado, uma relação segura com os pais também significa que a criança tem um porto seguro, uma base onde sabe que poderá sempre obter o conforto de que necessita quando algum aspecto do mundo lá fora se tornar mais assustador.

Mas para que esse relacionamento seguro com os pais possa formar-se a criança precisa de tempo, precisa de tempo de qualidade sim, mas precisa também de quantidade. Uma criança pequena precisa de estar com as suas figuras de apego com muita frequência, precisa de ter tempo para interiorizar o amor da mãe e do pai, precisa de saber que eles estão presentes quando ela cai, quando se magoa, ou simplesmente quando tem fome ou está cansada e precisa de um colo para se sentir segura. Uma criança com menos de dois anos não tem noção do tempo e não tem capacidade de perceber que o pai ou a mãe a amam mesmo quando não estão presentes. Durante o segundo ano de vida a criança começa a ganhar alguma noção de que a mãe e o pai existem mesmo quando não os vê mas é preciso tempo para que esta noção fique completamente estabelecida e, antes dos três anos de vida, a criança não tem simplesmente a capacidade de sentir que o pai ou a mãe a amam mesmo quando não estão consigo.


Então para criar esse vínculo precisamos de estar sempre com os nossos filhos?

Não precisamos de estar sempre mas precisamos de estar a maior parte do tempo, durante os seus primeiros anos. E, acima de tudo, o tempo que estivermos precisamos de estar totalmente disponíveis. Uma mãe de uma criança de um ano, que trabalha e que tem apenas algumas horas do seu tempo para estar com o seu filho de um ou dois anos, não pode dar-se ao luxo de pensar que em apenas dez minutos o compensará por um dia inteiro de ausência. Nestes casos é fundamental que, todo o tempo que a mãe está em casa, esteja disponível para a criança. Isso implica que todas as outras tarefas podem esperar se for necessário. Com uma criança pequena o uso de um porta-bebés pode ser muito útil e importante para restabelecer a ligação e permitir que a mãe faça o que precisa de ser feito. Com uma criança mais velha a solução pode passar por envolver a criança nas tarefas que precisam de ser feitas, por exemplo, pedir-lhe ajuda para fazer o jantar ou para por a mesa, mas sempre de forma a que a criança sinta que não tem de o fazer por obrigação mas que lhe estamos a pedir que o faça porque é uma forma de partilharmos algum tempo juntos.

Gordon Neufeld, um psicólogo canadiano, explica que, depois de cada separação é necessário restabelecer a ligação, ele fala do acto de recolher a criança que considera essencial sempre que há algum tipo de separação. E, quanto maior for a separação e menor a idade da criança mais tempo será necessário para se restabelecer essa ligação. Ele explica que o sono também é uma separação e dá o exemplo de quando a criança acorda de manhã. Se, em vez de lhe começarmos logo a dar ordens porque tem de se despachar para ir para a escola, planearmos tudo de forma a que a criança acorde ainda com tempo para simplesmente ficarmos um pouco juntos, restabelecendo a ligação tudo se torna mais fácil. Isto pode ser feito apenas ficando na cama com a criança alguns momentos, ou pegando-lho ao colo um bocadinho ou, com crianças mais activas, com pequenas brincadeiras ou falando um pouco com elas de como dormiram e do que irão fazer nesse dia, por exemplo.

 A verdade é que, se um apego seguro nunca foi estabelecido, não é em dez minutos diários que vamos consegui-lo. Mas, se este já existia, torna-se mais fácil reparar a ligação desde que estejamos atentos às mensagens da criança e desde que consigamos perceber de que é que ela necessita para que esta reparação aconteça. E isto poderá variar muito de dia para dia. Alguns dias a criança poderá precisar de muito mais tempo, de muito mais presença e disponibilidade, noutros dias poderá ser um pouco mais fácil. Nalguns dias a criança pode também precisar de mais contacto físico, existem porta-bebés que são indicados justamente para crianças entre os dois e os três anos e que, por vezes, podem ser uma óptima ajuda para restabelecer o contacto.

Também observo que essas mesmas pessoas que recomendam os tais dez ou quinze minutos de qualidade com os filhos, a maior parte das vezes, não hesitam em dizer que o casal precisa de tempo para namorar e estar junto e em recomendar que os pais passem tempo sozinhos um com o outro, saindo regularmente e até, muitas vezes, passando fins de semana inteiro juntos. Então, como é que podemos achar que, dois adultos que conseguem compreender que cada um tem as suas vidas e obrigações precisem de tanto tempo para manter uma boa relação e que, com uma criança, apenas dez minutos bastem?! Somos capazes de reconhecer que é preciso trabalhar para se manter uma relação saudável no casal e que ambos têm de fazer um esforço para se encontrarem, para conversarem e para estarem juntos mas, em relação às crianças, é um dado adquirido que essa relação existe naturalmente e, por isso, não precisamos de nos esforçar para a manter. Pois isto não é de todo verdade: precisamos de nos esforçar também com os nossos filhos, precisamos de estar presentes, sobretudo nos seus primeiros anos, mais até do que com um adulto. Precisamos de nos esforçar sim, não no sentido de trabalhar porque deve ser algo natural e prazeiroso – mas precisamos de nos esforçar para estar presentes e disponíveis. Tal como na relação de casal precisamos de saber que o outro gosta de estar connosco, que gosta de nos ouvir e de nos tocar, também as crianças precisam de saber isso em relação aos pais. E não é com um dia inteiro de separação e dez minutos de qualidade que vão ficar a senti-lo. Se o nosso marido ou mulher chegar a casa, falar dez minutos connosco e depois se for sentar a ver televisão, ou for tratar do jantar ou de algum assunto de trabalho enquanto nos ignora, não nos vamos sentir muito apreciados. Então, mais do que envolver as crianças na nossa rotina, é preciso que elas se sintam a parte mais importante dela.

Como podemos fortalecer o vínculo com os nossos filhos no meio das nossas rotinas diárias? 

Em primeiro lugar, há que estabelecer prioridades e perceber as necessidades dos nossos filhos. Então, se a nossa prioridade é manter uma vinculação segura com os nossos filhos, é preciso termos noção de que haverão muitas outras coisas que terão simplesmente que ficar para depois, como uma casa imaculadamente limpa ou arrumada com crianças pequenas, por exemplo. Por outro lado é preciso também sabermos que as crianças têm necessidades diferentes consoante a idade e que, uma criança com menos de dois anos precisa  mais de uma presença física e mais regular dos seus pais do que uma criança com quatro ou cinco anos.

Até aos 12 meses

No caso de uma criança pequena, o contacto físico é essencial para que essa ligação se dê de forma segura, por isso um pai ou mãe que estejam todo o dia longe do filho, devem esforçar-se por mantê-lo em contacto o máximo de tempo possível quando estiverem juntos, com porta-bebés e cama partilhada, por exemplo. No caso das mães, a amamentação também é uma óptima forma de restabelecer essa ligação.
Nestas idades os porta-bebés podem ser uma ajuda preciosa para permitirem aos pais o desempenhar das suas tarefas mantendo as crianças em contacto consigo.
Esta é uma idade em que é mesmo muito importante que as figuras de apego da criança estejam presentes durante a maior parte do dia, de forma consistente e regular.

Entre os 12 e os 24 meses

Esta altura pode ser uma das mais exigentes para os pais - no que diz respeito ao desempenho de outras tarefas- porque as crianças já andam, por isso, não querem estar presas num porta-bebés durante muito tempo mas, ao mesmo tempo, ainda precisam muito da presença física dos pais. Manter a cama partilhada e a amamentação são duas formas de manter essa ligação e de lhes dar essa segurança de sentirem o corpo dos pais. Nesta fase as crianças começam a querer descobrir o mundo mas ainda precisam muito de o fazer perto dos pais por isso é natural que ainda não sejam capazes de se entreter muito tempo sozinhas. Uma boa forma de estimular o vínculo nesta altura é mesmo fazer essa descoberta do mundo com elas mesmo que isso implique que, por vezes, certas tarefas tenham que ficar para depois.


Entre os 24 e os 36 meses

Nesta fase as crianças ainda precisam muito da presença dos pais embora já comecem a ser capazes de suportar mais facilmente as ausências um pouco mais prolongadas.
As crianças desta idade já começam a ser capazes de verbalizar um pouco mais, por isso começa a tornar-se possível manter a nossa ligação com elas se formos falando enquanto fazemos o jantar, por exemplo, explicando-lhes o que estamos a fazer.
Nesta altura as crianças também já começam a ser capazes de colaborar com coisas muito simples por isso, se temos que fazer o jantar, por exemplo, podemos deixá-las subir para um banco e deitar os legumes na panela, ou fazer outra coisa simples que as faça sentirem-se mais próximas de nós e, ao mesmo tempo, capazes de nos ajudar. 

A partir dos 3 anos

Aqui as crianças já têm uma melhor compreensão do tempo e também já desenvolveram a memória autobiográfica, que lhes dá um sentido de continuidade e ajuda a perceber a rotina e a compreenderem um pouco melhor que os pais voltam, mesmo quando se ausentam por mais tempo. Se a criança souber que, quando está com os pais, estes estão verdadeiramente disponíveis para si, torna-se muito mais fácil brincar e aprender na sua ausência de forma despreocupada e segura, ao mesmo tempo que fica mais disponível para estabelecer novas ligações. Nesta fase também já se torna mais fácil falar com a criança e, pode ser útil, por exemplo, dizermos-lhe que sentimos a falta dela durante o dia.
Nesta altura a criança também já começa a ser capaz de participar mais activamente na rotina da casa e pedir-lhe ajuda para fazer ou jantar ou por a mesa, enquanto conversamos sobre como foi o dia e o que fizemos pode ser uma boa forma de estimular essa ligação.

É muito importante também, nesta idade e nas outras, reservar algum tempo para simplesmente estar com a criança. Para além de todas as outras tarefas que procuramos fazer sempre que possível mantendo a criança envolvida e por perto, é fundamental termos também algum tempo em que estamos só com a criança. Principalmente quando chegamos a casa, depois de um dia de trabalho, é muito importante que, antes de qualquer outra coisa, tiremos um tempo para restabelecer a ligação com os filhos, para recolher a criança, como diz Gordon Neufeld. Se não fizermos isto logo quando chegamos, tudo o resto será bem mais difícil. E, com crianças pequenas e um afastamento de muitas horas, é natural que elas nos recebam com um certa frieza até, por vezes, quase com uma atitude de desinteresse. Esse é um sinal ainda mais importante a que devemos estar atentos, para lhes darmos o tempo de que elas precisarem para se ligarem a nós outra vez. E fazemos isto simplesmente ficando perto delas, mostrando que estamos disponíveis, atentos e receptivos, o tempo que for preciso. Depois disso então, podemos passar ao resto das coisas que precisamos de fazer mas, sempre, tentando manter a criança por perto e o mais envolvida possível.
A hora de deitar também pode ser uma boa altura para re-afirmar essa ligação. Deve ser sempre uma altura em que damos toda a nossa disponibilidade à criança durante alguns minutos. Podemos adormecê-la no colo (sim, no colo) ou na cama se preferirmos mas, o importante é que a criança se sinta ouvida, escutada, aceite. E, quanto mais segura a criança se sentir, mais fácil será o adormecer. Porque, para dormir precisamos de segurança acima de tudo, mais do que qualquer outra coisa, uma criança para adormecer precisa de se sentir segura para poder largar tudo e abandonar-se ao sono. E, a nossa presença - com toda a disponibilidade física que a criança precisar e toda a disponibilidade emocional também - é que o que pode dar à criança toda a segurança necessária para que a hora de dormir seja uma altura de relaxamento e tranquilidade e não uma altura de medo e de insegurança em que se sente sozinha.
Mesmo com as crianças mais velhas, que já adormeçam sozinhas, a hora de deitar também pode ser uma boa altura para restabelecer ligações e para simplesmente partilhar algum tempo juntos.

Com filhos crescidos
Quando as crianças crescem é muito fácil pensarmos que já não é preciso fazer nada para mantermos a nossa ligação com eles. Mas isto também não é verdade. sobretudo quando começa a aproximar-se a adolescência é fundamental que passemos tempo, regularmente com os nossos filhos. As refeições em família podem ser uma altura importante para falar e restabelecer a ligação mas é muito importante encontrarmos mais tempo para simplesmente estar juntos. As férias podem ser uma excelente oportunidade e, quando existem vários filhos, também pode ser muito importante, tirarmos regularmente um ou dois dias para que cada um deles passe um ou dois dias apenas com o pai ou a mãe, para poder sentir que tem a atenção exclusiva daquele pai ou mãe, durante aquele tempo, para não ter de competir com mais ninguém. Isto pode ser uma forma muito importante até de reparar algumas relações que, por vezes, passam por alguma fase de maior distanciamento.

Em todas as idades uma atitude de aceitação incondicional, de empatia e de acolhimento é fundamental para se estabelecer uma boa ligação com os nossos filhos. E, em todas as idades, o essencial é estarmos atentos às mensagens que os nossos filhos nos transmitem e, mais do que fórmulas como as dos dez minutos diários de qualidade, devemos confiar nos nossos filhos e na forma como sempre nos vão mostrando que precisam de nós de maneiras diferentes ao longo da vida. 

Ao longo de toda a vida dos nossos filhos, incluindo a adolescência, o fundamental é que eles sintam que são uma parte essencial e importante da nossa vida. E, para isso, é preciso muito mais do que dez minutos diários de atenção: é precisa uma disponibilidade constante e uma presença regular na vida deles. 



sábado, 15 de março de 2014

Vídeo - Responder com sensibilidade: terceiro princípio da parentalidade com apego


O terceiro princípio da parentalidade com apego, tal como é definido pela Attachment Parenting International, fala-nos da importância de responder com sensibilidade ao bebé. Este é talvez um dos princípios mais importantes e aquele que, na verdade, acaba por estar na base de todos os outros. As investigações mais recentes da neurofisiologia mostram que estas respostas podem ter um impacto enorme na forma como o bebé irá crescer e na forma como o seu cérebro e o seu sistema nervoso se irão desenvolver.


quinta-feira, 6 de março de 2014

Aprender Sem Limites


Acredito que, como pais, temos o dever de ensinar e de orientar os nossos filhos mas, a verdade, é que também temos muito a aprender com eles, se estivermos disponíveis para o fazer. E, há uns dias, aprendi com o meu filho de dois anos e meio algumas coisas muito importantes. Numa tarde de chuva, estávamos os dois em casa quando resolvi ir para a cozinha fazer umas bolachas, sabendo que ele gosta sempre de me ajudar. Mas, desta vez, em vez de me ajudar estava com mais vontade de brincar com a batedeira ou a máquina dos bolos como lhe chama. É uma batedeira velha que já só raramente uso e, por isso, já o deixei brincar com ela algumas vezes. Mas, desta vez, comecei a pensar que seria chato se ele a estragasse e disse-lhe que não podia brincar com a máquina dos bolos. Ele – que ainda por cima tem andado meio constipado e, por isso, um pouco mais impaciente – começou a chorar e a pedi-la e eu a recusar-me a dar-lha. Durante algum tempo tentei falar com ele dizendo-lhe a máquina não era para brincar. Tentei ser empática e mostrar-lhe que compreendia que ele gostava muito de brincar com a máquina mas que ela não era brinquedo e por isso não lha podia dar. Tentei distraí-lo com outros brinquedos, pedir-lhe para me ajudar com as bolachas, pegá-lo ao colo, enfim, tentei tudo o que costuma resultar e ele continuava lavado em lágrimas. Até que por fim lá resolvi pensar que, a verdade, é que a máquina já não tem muito uso e que se se estragasse não seria assim tão grave, além de que, ele já tem brincado com ela e nunca a estragou, por isso resolvi ceder. Disse-lhe que se era assim tão importante podia brincar com a máquina dos bolos. Ele ficou logo contente e eu, no fundo da minha cabeça, não podia deixar de ouvir aquelas vozinhas que dizem que não se deve ceder depois dele fazer uma birra (não gosto desta palavra mas, por vezes, não consigo evitá-la) e que tinha sido fraca por não conseguir impor-lhe limites (o fantasma dos limites que, infelizmente assombra muitas casas por aí). Mas, o que se passou a seguir mostrou-me como estavam erradas estas vozes. Com a batedeira na mão e o choro já esquecido o meu filho, dirigia-se, feliz da vida, para as tomadas da sala (as únicas que não estão protegidas) de batedeira em punho dizendo que a ia ligar para fazer os bolos na sala. Aí, é claro que tive de intervir e dizer-lhe que nem pensar, que não podia ligar a batedeira na ficha porque era perigoso (tive medo que as varetas a girar o magoassem), que se insistisse em ligá-la tinha que lha tirar e que só podia brincar com ela na cozinha dele, ao pé de mim. Ele olhou para mim, ainda com os olhinhos de choro do episódio anterior e pensei que iríamos recomeçar tudo quando o vi voltar para a cozinha acedendo rapidamente a brincar com a batedeira desligada, ao pé de mim e repetindo algumas vezes que não podia ligar a batedeira na ficha, porque era perigoso e a mãe não deixava porque podia fazer dói-dói.
 
Então, há aprendi várias coisas que aprendi com este episódio:

  1. Que não devemos ter medo de ceder: quando os nossos filhos querem algo que é importante para eles e que não tínhamos percebido que era assim tão importante, não abrimos nenhum precedente grave se lhe dissermos isso mesmo. Se lhes mostrarmos que não fazíamos ideia de que aquilo era assim tão importante para eles naquele momento e os deixarmos fazê-lo (se não houver nenhum risco ou nada de muito fundamental envolvido, é claro).

  1. Que os nossos filhos sabem bem quando falamos a sério. Neste caso, quando eu lhe disse que nem pensasse em ligar a batedeira na ficha, era a segurança dele que estava em jogo e não apenas a minha comodidade, ou o meu interesse em manter a batedeira longe das mãos dele e ele soube distinguir isso perfeitamente. E percebeu que, se no primeiro caso eu não estava assim tão certa das razões porque não devia ceder, no segundo não iria mesmo recuar.

  1. Devemos ser coerentes com as nossas imposições: o meu filho sabia que eu já o tinha deixado brincar com a batedeira por isso sentiu que não era justo que as regras mudassem assim sem mais nem menos e reagiu protestando o melhor que podia contra o que sentiu como uma injustiça.

Esta situação fez-me pensar também em vários aspectos ligados à questão dos limites, algo de que tantas vezes se fala de formas com que nem sempre concordo.

  1. Em primeiro lugar acredito que, os limites que devemos impor são os que são necessários. Neste caso eu tinha que o impedir de ligar a batedeira à ficha, por uma questão de segurança, mas o facto dele brincar com a batedeira era apenas uma comodidade minha.

  1. Mais importante do que a questão dos limites é a nossa ligação á criança. Não precisamos de criar limites apenas porque achamos que as crianças precisam de limites. Os limites já existem na vida diária: tenho que impedir várias vezes o meu filho de fazer coisas que o podem por em perigo, como atravessar a estrada sozinho, trepar ás estantes de casa ou ligar pequenos electrodomésticos nas tomadas eléctricas e esses limites, sim, claro que são necessários. Os outros que tantas pessoas defendem e acham que se devem impor fazem apenas a falta que quisermos que façam, ou seja, há determinadas situações em que eu não quero que o meu filho faça algumas coisas que me incomodam – por exemplo, neste caso queria poupar a batedeira – então, nessas alturas preciso de me questionar sobre o que será mais importante: o bem-estar do meu filho ou as minhas comodidades. Se ter aquele comportamento não for assim tão importante para ele, então podemos negociar ou tentar mostrar-lhe outra coisa para fazer, ou simplesmente dizer-lhe que não quero que o faça. Mas, se percebo que, para ele a importância daquele comportamento é maior que a minha comodidade, então não tem mal nenhum ceder. Não estamos a abrir nenhum precedente grave, nem a tornar os nossos filhos nuns tiranos ou ditadores como tantas pessoas pensam. Pelo contrário, estamos a mostrar-lhes que valorizamos os seus sentimentos, que os respeitamos e que estamos abertos a fazer cedências justamente porque eles são tão importantes para nós. Neste caso, em que eu sei que o meu filho gosta tanto de brincar com a batedeira, porque é que isso deveria ser menos importante do que a minha necessidade de a proteger quando, ainda por cima, já quase nem sequer a uso (porque tenho outra melhor, mas que pensei que se poderia estragar um dia) e quando ele já tem brincado outras vezes com ela sem nunca a ter estragado?


Na verdade, as crianças já encontram limites todos os dias, como os tais que precisamos de impor para a sua segurança e outros que a própria vida se encarrega de trazer. Porque tantas vezes está a chover quando queríamos que estivesse sol, porque nem sempre há morangos ou mirtilos (os preferidos do meu filho) no supermercado, porque nem sempre podemos brincar quando ele quer, etc. Então porquê tanta preocupação com os limites? Porque é mais fácil pensar que é tudo uma questão de regras e de disciplina do que simplesmente confiarmos nos nossos filhos e em nós próprios e sermos simplesmente capazes de ouvir o que nos diz o coração. Porque preferimos acreditar que podemos controlar uma criança com regras e com disciplina do que acreditar que podemos simplesmente chegar ao seu coração e que isso é suficiente para que ela nos dê ouvidos quando é verdadeiramente importante que o faça. Sim, porque acredito que os filhos devem ouvir os pais mas, acima de tudo, devem aprender a ouvir-se a si próprios. E alguém que aprende a ouvir por medo e por discipina ou respeito não é alguém que aprender a ouvir-se. Alguém que aprende a seguir o coração e a ouvir o seu e o dos outros é alguém que sabe perfeitamente como se deve comportar. Uma criança que se sente ouvida, respeitada, acolhida é uma criança que sabe quando é importante ouvir também os seus pais. Mas uma criança que se sente ouvida, respeitada e acolhida, por vezes, também pode ser uma criança que não desiste facilmente e, por isso, ás vezes dá mais trabalho. O meu filho sabia que eu já o tinha deixado brincar com a máquina dos bolos, sabia que eu não estava assim tão certa das razões para não o deixar brincar com ela outra vez e, por isso mesmo, fez valer o seu ponto de vista e não desistiu enquanto não o impôs. E isso é mau? Não acredito que seja, porque quero que ele cresça capaz de fazer valer os seus direitos, quero que ele cresça acreditando que a sua voz conta, que tem valor, que pode ser ouvida.
Quando fiz o meu estágio académico, em escolas primárias do concelho da amadora, onde se encontravam algumas crianças de contextos problemáticos e com vários problemas de comportamento e de integração, lembro-me que alguém um dia comentou que aquelas crianças precisavam era de limites e disciplina e lembro-me de ter pensado que o que elas precisavam era de se sentir amadas. E, hoje em dia, continuo a acreditar nisso: mais do que disciplinar ou limitar os nossos filhos, devemo-nos perguntar se somos capazes de os fazer sentir-se amados, aceites, compreendidos e verdadeiramente acolhidos em tudo aquilo que são. Acredito que é esse o único caminho para criar seres humanos verdadeiramente empáticos e disponíveis para viver com os outros e fazer deste um mundo melhor. Acredito que, na vida daquelas crianças, tal como na vida de tantas outras, o que faria verdadeiramente a diferença seria encontrarem nas suas casas, nos seus pais, um verdadeiro porto seguro, uma relação onde se sentissem verdadeiramente acolhidas, aceites, respeitadas. Limites encontravam elas todos os dias e muitos mais do que a maioria das crianças que vem de famílias mais estáveis: encontravam os limites de não terem quem lhes desse segurança, os limites de não terem uma escola que as aceitasse, os limites de serem obrigadas a passar o dia numa escola de que não gostavam, os limites dos professores que também não as aceitavam ou acolhiam e muitas vezes os limites de nem sequer terem comida em casa. O que estas crianças precisavam não era de mais limites mas sim de abertura, de serem vistas, ouvidas, aceites e verdadeiramente acolhidas, pelos pais, pela escola e até pelos colegas com quem nem sempre conseguiam relacionar-se da melhor forma.