terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Primeiro princípio: a preparação para o parto, gravidez e parentalidade

Este é o segundo vídeo sobre os oito princípios da Parentalidade com Apego, tal como foram formulados pela organização Attachment Parenting International. Este fala do primeiro princípio que defende que deve haver sempre uma preparação para o parto, para a gravidez e para a parentalidade.


sábado, 14 de dezembro de 2013

Desculpas


Duas crianças, com cerca de dois anos e meio, brincam no parque infantil com alguns brinquedos espalhados no chão. Brincam lado a lado porque, nestas idades, as crianças ainda não têm a capacidade de interagir e cooperar de forma a que se possa dizer que estão verdadeiramente a brincar em conjunto. Estas crianças estão entretidas no seu mundo, brincando e comunicando ao seu modo até que uma delas decide bater com um carrinho de madeira na cabeça da outra que desata a correr para o pé da sua mãe a chorar.
Pode ter sido apenas para ver como reagiria o outro, para ver se o carrinho faria algum som a bater na cabeça do rapaz, para saber se se partiria ou porque estava realmente chateado com alguma coisa que se tivesse passado entretanto. O que é certo, é que as crianças, por vezes, fazem estas coisas e não o fazem  por maldade, porque, nesta idade ainda nem têm bem a capacidade de perceber o que isso é ou a capacidade de perceber bem o sofrimento do outro. Mas, neste caso, o pai do rapaz que bateu que apenas viu o outro menino sair a correr para o colo da mãe que lhe explicou que o seu filho lhe tinha batido com o carro na cabeça, pega no filho pelo braço e leva-o para o pé do outro que chorava dizendo com voz grave e autoritária: “pede desculpa ao Pedro, vá pede desculpa!” A criança não tinha vontade nenhuma de pedir desculpa, até porque nem percebia muito bem o porquê daquele alarido todo, mas o pai insiste: “Não vês o Pedro a chorar? Diz desculpa ao Pedro, vá! Estou à espera que peças desculpa!” Perante esta insistência, o coitado lá repete, esta palavra que o pai tanto quer que ele diga, em voz baixa, com um ar entre o assustado pela reacção do pai e pela confusão toda que se gerou de repente e o envergonhado pela atitude do pai e das restantes pessoas que olham para si como se, de repente, tivesse passado de coisa mais fofa ao diabo em figura de gente. Mas o pai ainda não ficou satisfeito com estas desculpas repetidas em voz baixa e pouco segura e continua ainda a insistir: “Isso assim não é nada, ninguém ouviu! Pede desculpa outra vez ao Pedro como deve ser, em voz alta!” A criança agressora lá repete a tal palavra ao agredido – agora num tom mais alto mas com um ar ainda mais humilhado - que não parece muito interessado em ouvi-lo, até porque já não lhe dói a cabeça e já está confortável no colo da sua mãe e, entretanto ficou também meio baralhado com aquela confusão toda. O pai, continuando a pegar na criança pelo braço e um pouco mais aliviado com o pedido de desculpas do filho, pede também desculpa à mãe do Pedro e leva-o para longe dali aproveitando o caminho para lhe dizer que não volte a fazer isso e que se bate em mais algum menino não volta a trazê-lo ao parque tão cedo.
Não assisti a esta cena mas já vi outras parecidas várias vezes. E fico sempre a pensar: o que é a criança aprende com este pedido de desculpas? Nada. Rigorosamente nada de útil ou positivo. O pai desta cena a única coisa que fez foi fazer com que a criança se sentisse envergonhada e humilhada sem sequer chegar a perceber bem porquê. Esta criança sentiu-se humilhada pela atitude do pai que lhe mostrou que fez algo de muito grave, de muito errado e que a colocou no centro de todas as atenções, ao mesmo tempo que a forçava a repetir uma palavra que ela nem percebia muito bem para que servia ou o que queria dizer. Porque desculpa é apenas uma palavra, não serve de nada para que a criança perceba as consequências dos seus actos. Depois desta espécie de humilhação pública em que todo o parque olhava para a criança à espera do tal pedido de desculpas a única coisa que o pai lhe disse é que não se podia bater e que, se o fizesse, deixaria de o trazer ao parque, transmitindo-lhe mais uma vez essa ideia ou sensação de que fizera algo de muito grave, de tão feio que o pai nem queria voltar a ser visto com ele em público novamente se esse comportamento fosse repetido. Esta atitude só traz à criança uma sensação de vergonha que é dos sentimentos mais nocivos que podem existir. Uma criança envergonhada, humilhada, é uma criança que sente que deixou de ser digna do amor dos pais e este é um sentimento muito corrosivo para uma criança pequena que precisa deste amor e que usa os seus pais como um espelho. As crianças aprendem quem são através daquilo que veêm reflecido nos pais. Uma criança que vê constantemente reflectido no olhar dos seus pais este sentimento de desaprovação de incompreensão é uma criança que se passa a ver de uma forma muito negativa. Se os pais veêm os seus comportamentos como um mal que precisa de ser controlado a criança passa a acreditar também que existe essa mal dentro de si e isso poderá ser muito prejudicial para o seu desenvolvimento, para a sua auto-estima e para a sua confiança em si mesma.
Então, nestes casos, qual seria a melhor forma de lidar com uma situação destas? Seria muito mais adequado se o pai tentasse mostrar à criança as consequências das suas acções sem a fazer sentir-se humilhada, sem a fazer sentir-se desajustada, sem a fazer sentir que existe algo de errado consigo. Porque na realidade, uma criança pequena que bate não o faz por maldade mas sim por incompreensão, incompreensão das consequências desse acto e do sofrimento que pode provocar nos outros. Então o pai poderia ter falado com ele, mostrado como o outro menino ficou triste e magoado, aproveitando para ajudar a criança a compreender as consequências dos seus actos. Poderia também explicar que não gosta de o ver bater nas outras crianças,  mas fazendo isto a partir de um lugar, dentro de si, que sabe que a criança não  o fez por mal, a partir desse lugar que ama o seu filho acima de tudo e que é capaz de o ver como um ser integralmente bom mas que, por vezes, faz coisas erradas.
Porque os nossos filhos aprendem a ver-se a si mesmos através do nosso olhar. A imagem que temos deles é exactamente a imagem que eles irão formar de si mesmos. Então é muito importante sermos capazes de lhes transmitir uma imagem positiva mesmo nas situações que gostaríamos de corrigir. É fundamental sermos capazes de transmitir aos nossos filhos este amor incondicional porque é através dele que eles aprenderão a amar-se a si próprios. Isto não quer dizer que precisamos de ter uma atitude passiva perante todos os comportamentos deles mas quer dizer que é muito importante sermos capazes de corrigir os comportamentos sem sentir que precisamos de castigar a criança. É muito importante olharmos para a criança como alguém que, por vezes, pode precisar de ser direccionado, pode precisar de alguém que lhe mostre alguns limites ou outros caminhos a seguir mas não podemos olhar para ela como alguém que tem uma natureza má e que precisa de ser controlada. Porque se for esta a imagem que temos deles será esta a imagem que eles construirão de si próprios. Então podemos aprender a corrigir ou a direccionar sem castigar, sem julgar. Precisamos de aprender a corrigir mantendo presente o amor que temos por eles. Porque os momentos em que erramos são justamente aqueles em que mais precisamos de nos sentir amados e aceites. Só assim estaremos verdadeiramente disponíveis para reflectir sobre esse erro e aceitar que errámos. 
Na verdade este pai, ao forçar o filho a pedir desculpas desta forma, provavelmente fê-lo porque se sentiu ele próprio envergonhado com o comportamento do filho, preocupado com o julgamento dos outros, com medo que os outros pais ou mães presentes pensassem que o seu filho era má pessoa ou que ele não o sabia educar. Então é preciso também estarmos sempre conscientes das escolhas que fazemos quando escolhemos educar os nossos filhos neste tipo de situações e é muito importante perguntarmo-nos sempre se agiriamos exactamente da mesma forma caso estivéssemos sozinhos e sem mais ninguém a ver.
Porque os nossos filhos precisam mesmo de saber que os amamos seja em que circustâncias for. E precisam de ver reflectido nos nossos olhos, através de nós e da forma como interagimos com eles que são seres humanos bons, capazes, competentes e dignos de ser amados mesmo quando cometem erros. 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Parentalidade com Apego - Oito princípios básicos

Uma descrição da importância da Parentalidade com Apego e dos oito princípios que estão na base desta abordagem, tal como foram formulados pela organização Attachment Parenting International, dedicada a defender e divulgar os benefícios desta forma de educar e de nos relacionarmos com os filhos. 




terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Ser Mãe com Consciência


Uma conversa este fim de semana, em que alguém criticava o facto de uma colega de trabalho na Alemanha ser obrigada a trabalhar em part-time porque não podia pagar o preço altissímo de uma creche a tempo inteiro para a filha pequena - e em que eu defendi que o ideal seria que todas as mães ou pais de filhos pequenos pudessem trabalhar apenas em part-time, enquanto a outra pessoa discordava - deixou-me a pensar num dos princípios básicos da parentalidade com apego: o  princípio que defende que deve existir sempre uma preparação para a gravidez, para o nascimento e para a parentalidade. Fiquei a pensar bastante nesta questão e decidi escrever sobre ela porque chego à conclusão que, uma coisa que parece tão simples, na verdade acaba por ser até bastante negligenciada.

            
Em relação à gravidez hoje em dia já existem muitas observações e investigações que comprovam que os estados emocionais da mãe afectam o bebé, bem como tudo aquilo que come ou que ingere. Isto
não quer dizer que precisamos de passar uma gravidez sem o mínimo de stress ou de ansiedade mas quer dizer que precisamos de ser capazes de criar um ambiente adequado para aquela criança que, durante nove meses, precisará do nosso corpo para crescer e, por outro lado, precisamos também de ser capazes de cuidar do nosso corpo que estará a ser submetido a um esforço extra e que, por isso mesmo, também precisará de um pouco mais de atenção. Então isto quer dizer que devemos esforçar-nos por nos alimentar o melhor possível, por fazer algum exercício adequado ao nosso estado e por tentar viver da forma mais harmoniosa possível o que, mais uma vez, não implica eliminarmos todo o stress da nossa vida mas sim sermos capazes de lidar da melhor forma com os desafios que vão surgindo e encontrarmos um tempo adequado para nos nutrirmos e restabelecermos sempre que sentirmos que passámos um pouco dos nossos limites.
            Em relação ao nascimento também é muito importante encontrarmos forma de fazer com que este seja o mais harmonioso possível tanto para a mãe como para o bebé. Isto quer dizer que devemos tentar encontrar as condições necessárias para que este momento tão importante possa ser vivido da melhor forma o que, na nossa sociedade nem sempre acontece. Infelizmente o parto ainda é visto, muitas vezes, como um acto médico em que a mulher tem de estar numa posição passiva e em que os médicos têm toda a responsabilidade e todo o poder de decidir como é que as coisas se irão passar. É importante que haja aqui uma mudança de mentalidades, que deixemos de ver mulher que vai dar à luz como alguém que tem de se sujeitar aos procedimentos médicos sejam eles quais forem para passarmos a ver essa mulher como alguém capaz, competente, que conhece o seu corpo melhor do que ninguém e que tem um instinto que faz parte da espécie e que pode guiar e facilitar todo o trabalho de parto desde que lhe seja dada oportunidade de o seguir e de entrar em contacto com ele. É essencial também reconhecermos o recém-nascido com alguém com direitos e necessidades e respeitar a sua necessidade de contacto imediato com a mãe bem como o seu direito de não ser submetido a intervenções desnecessárias. Acredito que mudar a forma violenta como tantas vezes os bebés são recebidos neste mundo é um primeiro passo para tratarmos de facto todas as crianças com mais respeito e com a empatia que merecem e de que precisam para poderem crescer de forma harmoniosa e saudável.
            Em relação à parentalidade precisamos também de nos preparar a sério e de forma cuidada para esse acontecimento único e que mudará de uma forma irrevogável a nossa vida. Esta preparação não tem nada a haver com os cursos de preparação para o parto ou com a leitura dos vários livros que se encontram no mercado, ou com a consulta dos vários blogs e sites disponíveis na internet que tantas vezes os futuros pais ou mães consultam avidamente. Estes podem dar algumas dicas e informações relevantes mas a maior preparação de todas, a mais importante e a talvez a única que precisamos realmente de fazer é a de olhar para dentro de nós: olhar para dentro e perguntar-nos se queremos mesmo ter um filho e porque quereremos mesmo ter um filho. Muitas vezes esta questão nunca é verdadeiramente feita. Por vezes tem-se um filho apenas porque o companheiro ou companheira querem muito, ou simplesmente porque é o que toda a gente faz. E ter um filho é a decisão mais importante da nossa vida, é aquela que mudará todo o nosso futuro e aquela com que nunca poderemos voltar atrás.
       Já ouvi algumas mães dizerem que estavam ansiosas por voltar ao trabalho depois dos filhos nascerem, outras dizem que mal podem esperar pela primeira noite com os avós para voltarem a sair à noite com os amigos ou a ir à discoteca. A verdade é que uma mãe para quem o trabalho é o mais importante ou uma mãe que não está preparada para deixar certos aspectos da sua vida quando um filho nasce não deveria ter filhos. Pelo menos não deveria ter filhos naquele momento da sua vida. Por vezes deixamos-nos levar pela ideia de que o relógio biológico não pára e de que não podemos esperar até tarde para ter filhos mas, a verdade, é que os nossos filhos irão agradecer se esperarmos até termos viajado tudo o que queríamos viajar, ou se esperarmos até á altura em que a nossa carreira já esteja mais segura para a podermos por de  de parte durante algum tempo, ou até à altura em que a conta bancária já nos permita trabalhar menos. Não vale a pena ter filhos se não estivermos preparados para abdicar de muitas coisas por eles. E abdicar de muitas coisas não significa que iremos deixar de ter uma vida. Significa que, durante alguns anos, teremos prioridades diferentes, o que não quer dizer que não devemos cultivar outros interesses e outras actividades: antes pelo contrário, é fundamental preservarmos a nossa identidade e mantermos algumas actividades de que gostamos mas, sabendo sempre, que a nossa prioridade durante os primeiros anos de vida dos nossos filhos deverá ser acompanhá-los, vê-los crescer, dar-lhes tempo a eles e a nós também para estabelecer um vínculo profundo e seguro que os acompanhará a vida toda. Se não estamos prontas para isso, se achamos que esta dedicação não nos trará nenhum tipo de satisfação e que a realização que tiraremos disso não se compara à que podemos obter no trabalho, então devermos questionar-nos se queremos realmente ser mães. Porque nem todas as mulheres têm de se sentir realizadas como mães mas todas as mães se deveriam sentir realizadas com os filhos.

Algumas mulheres que já são mães, podem ficar com medo de olhar para dentro e chegar à conclusão que afinal talvez não devessem ter tido um filho na altura da vida em que tiveram. E este pensamento pode ser assustador por várias razões: porque nos pode fazer sentir culpadas, egoístas, irresponsáveis e porque, na verdade, já não há nada que se possa fazer. Mas, na verdade, há muito que se pode e deve fazer, sim. Em primeiro lugar é preciso acolher esses sentimentos, arranjar espaço para deixá-los existir em vez de os negarmos e tentarmos esconder dentro de nós. Depois é preciso olhar bem para eles e termos alguma compaixão por nós mesmas. Perceber que não faz mal ter esses sentimentos, que eles não nos vão tornar piores pessoas ou piores mães. Pensar que fizemos o melhor que sabíamos com o conhecimento que tínhamos na altura. Porque o que nos pode tornar piores mães é não sermos capazes de lidar e de aceitar os nossos sentimentos. Há muitas mães que passam uma vida inteira a fugir destes sentimentos e acabam por culpar os filhos, de forma inconsciente, por tudo o que acham que perderam na vida quando decidiram tê-los. E esta culpa que se vai cultivando dia após dia, mesmo que muito subtilmente,   é o pior veneno que pode haver numa relação. E é também um dos piores sentimentos com que uma criança pode crescer: a sensação de que não devia estar ali naquela família, de que não pertence aquela mãe ou aqueles pais.

Então, se realmente chegarmos à conclusão que não decidimos ter um filho de forma tão consciente quanto gostaríamos o que podemos fazer é simplesmente aceitá-lo, reconhecê-lo. Essa aceitação pode permitir-nos olhar para a criança que gerámos, talvez pela primeira vez, com um olhar totalmente livre e disponível para a acolher. Porque só podemos acolher verdadeiramente os nossos filhos depois de nos acolhermos a nós. E então podemos perceber que esta relação, apesar de tudo, pode sempre ser reparada. Nunca é tarde demais para construirmos uma relação mais próxima com os nossos filhos. E é essa proximidade, uma proximidade verdadeira que pode ajudar-nos a curar as feridas que existiam e que levámos tanto tempo a reconhecer e aceitar. Através dessa proximidade podemos perceber que a relação com os nossos filhos pode ser uma das melhores formas de sararmos as nossas feridas. Podemos perceber que o amor que sentimos por eles e o prazer de os vermos crescer e de estarmos verdadeiramente presentes nessa relação é muito superior a tudo aquilo que pensamos que podemos ter perdido quando decidimos tê-los. Se o permitirmos, se dermos uma oportunidade a nós mesmas, podemos perceber que essa relação pode ser mesmo a maior fonte de gratificação e de realização que temos ao nosso dispor. Basta querermos. Basta estarmos prontas para olharmos para dentro de nós primeiro, para podermos encontrar os nossos filhos depois.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Ausências - efeitos da privação da figura materna


“A este respeito os efeitos da separação da mãe podem ser comparados aos dos efeitos de fumar ou de radiações. Apesar dos efeitos das doses pequenas parecerem insignificantes, eles são cumulativos. A dose mais segura é uma dose zero.” John Bowlby (1973) – Attachment and Loss. Volume 2 – Separation: Anxiety and Anger.

          Esta frase, escrita por Bowlby, no seu livro que se tornou, há muito tempo, um clássico da

Psicologia, refere-se a um estudo* feito com macacos bebés que eram separados das suas mães por períodos que variavam entre os dois dias e as três semanas. Estes estudos, feitos por vários investigadores e com mais do que uma espécie de macacos, confirmaram a ideia de Bowlby de que a presença da mãe é de facto uma condição essencial para o bem-estar e para o bom desenvolvimento de qualquer primata. Estes macaquinhos, mesmo quando continuavam no seu meio ambiente, com os outros macacos e a única coisa que faltava era a mãe (que era retirada desse ambiente durante alguns dias ou semanas) mostravam claros sinais de que essa falta os tinha perturbado. Durante as primeiras horas da ausência da mãe estes macacos choravam e gritavam como se chamassem por ela, depois, acabavam por ficar aparentemente mais calmos mas mostravam um comportamento muito mais apático e deprimido. Quando a mãe voltava, durante os primeiros dias, estes mostravam-se muito mais necessitados da sua presença, passando quase a totalidade do seu dia a tentar manter o contacto físico e a proximidade com esta e mostrando-se muito mais alerta e vigilantes com todo o tipo de acontecimento que pudesse indiciar que a mãe iria desaparecer outra vez. Mas o dado mais importante talvez, e ao qual a frase citada se refere, é que, passados alguns dias ou até semanas, mesmo quando já parecia que tudo tinha voltado ao normal, estes macacos continuavam a ter um comportamento diferente daqueles macacos que nunca tinham sido separados das suas mães. Só que este comportamento só se via em situações de desafio ou de stress: quando eram colocados objectos estranhos na jaula, por exemplo, estes macacos mostravam-se muito mais receosos do que os outros e tinham muito menos iniciativa de explorar esses objectos. E, quando havia algo fora do normal nas suas rotinas, estes macacos mostravam-se muito mais receosos, inseguros, necessitados da presença da mãe e também com muito menos vontade de explorar ou de correr algum tipo de riscos, quando comparados com os outros que nunca tinham sofrido com a ausência das suas mães.

          Bowlby acreditava que estas observações eram válidas também para os humanos. Na verdade ele descreve também muitas observações que foram feitas em que crianças pequenas precisavam ser afastadas da mãe, geralmente porque esta estava doente ou ia para o hospital para ter outro filho (coisa que nos anos 50, 60, podia demorar vários dias) e as crianças ficavam numa instituição ou com famílias de acolhimento. Nos casos em que as crianças iam para instituições, a experiência era sempre mais traumática, principalmente se a criança fosse sozinha, sem nenhum irmão. Aquilo que se verificava era um comportamento em tudo idêntico ao dos macacos: as crianças começavam por chorar muito, depois apresentavam um comportamento apático e deprimido. Quando voltavam a estar com a mãe o comportamento podia oscilar entre uma preocupação intensa com manterem-se perto dela a todo o custo, e uma vigilância constante de tudo o que pudesse indicar que esta se iria voltar a ausentar, até um comportamento mais ambivalente em que a criança parecia já não procurar a mãe e não querer a sua presença. Na verdade, este comportamento mais ambivalente era mais provável quanto maior fosse o tempo desta ausência e se a criança tivesse entre um e três anos. Segundo Bowlby, a partir dos três anos, dava-se uma alteração grande no comportamento da criança que parecia já muito mais capaz de suportar separações curtas com menos sofrimento.
O que faltou nesta observação das crianças humanas foi uma observação mais detalhada de como esta ausência as afectou mesmo passadas algumas semanas de ter acontecido. Mas, de acordo com o que é possível saber hoje em dia, através da psicofisiologia, tudo indica que estas ausências possam ter o mesmo efeito nas crias humanas e nos macacos, tornando-as menos resistentes ao stress e menos resilientes.

O sistema de resposta ao stress

             Sue Gerhardt, psicoterapeuta, explica que quando um bebé é repetidamente exposto a situações de stress – e para Bowlby a ausência da figura materna era das situações mais stressantes para um bebé - sabe-se que o seu sistema de resposta ao stress começa a libertar grandes quantidades de cortisol. O que acontece é que este cortisol permanentemente a flutuar no sistema em grandes quantidades acaba por danificar o hipocampo, fazendo com que os receptores de cortisol se desliguem e com que este se torne menos sensível e capaz de informar o hipotálamo que já se produziu cortisol suficiente. Isto quer dizer que esta resposta de alarme acaba por ficar permanentenmente ligada o que significa que a criança passará a viver num estado de tensão quase constante em que será muito mais difícil lidar com qualquer desafio em que qualquer situação nova se tornará muito mais assustadora, tal como acontecia com os macaquinhos que se mostravam muito mais receosos e inseguros para explorar o ambiente em situações novas.

         O comportamento da mãe depois da reunião

            A única coisa que estes investigadores encontraram que fazia alguma diferença na intensidade das mudanças que aconteciam nos macacos era o comportamento da mãe após a reunião de ambos: se a mãe rejeitasse a cria e a sua necessidade constante de conforto e proximidade, esta cria mostrava-se muito mais receosa. Nos casos em que a mãe se mostrava tolerante e receptiva a manter o contacto com a cria, estas continuavam a ter algumas alterações na sua capacidade de lidar com os desafios mas eram menos intensas.
Então, a lição a retirar daqui é que de facto a presença constante da mãe é essencial para o bom desenvolvimento de um bebé mas, se por algum motivo, esta tiver mesmo que ser interrompida, é muito importante a mãe estar disponível para reparar esse dano e para dar ao seu filho toda a segurança que ele pode ter perdido através de muito contato físico e de uma compreensão e aceitação das alterações de comportamento que este pode apresentar.

             Hoje em dia, muitas vezes, as obrigações da vida moderna fazem com que precisemos de nos ausentar muitas vezes, por vezes, essas ausências repetem-se diariamente quando o bebé é deixado numa creche ou infantário. Então é muito importante que sejamos capazes de reparar as marcas que essas ausências vão deixando e a forma de o fazermos é simplesmente escutando os nossos filhos, olhando para eles e deixando que nos mostrem de que é precisam para seja possível reparar a ligação. O elo que une uma mãe ao seu filho é muito forte mas, apesar de ser inquebrável, pode ficar fragilizado por separações prolongadas ou muito repetidas. Então a forma de repararmos esse elo é procurarmos mostrar que estamos totalmente disponíveis quando voltamos a estar juntos. E, com bebés e crianças muito pequeninas, a melhor forma de o mostrar é através de muito contacto físico que é essencial para o seu bem-estar.
Por vezes os pais não percebem porque é que o filho parece estar tão bem na escola e em casa chora muito mais ou faz tem comportamentos que parecem regressivos. Mas é muito natural que isto aconteça porque a criança, quando percebe que não tem alternativa e que a mãe não vai aparecer tão cedo acaba por adoptar um comportamento que parece mais conformado mas que não quer dizer que esteja alegre ou feliz. Isto não quer dizer que a criança esteja muito bem na escola e mal quando chega a casa, quer simplesmente dizer que, na escola, a criança percebe que não vale a pena chorar ou protestar porque a mãe não vai voltar. E, quando a criança volta finalmente a estar com a mãe, por vezes, pode ser difícil processar todas essas emoções que a ausência gerou e então surgem comportamentos que os pais nem sempre conseguem compreender.
Outras vezes também pode acontecer que, depois de uma ausência mais prolongada a criança mostre um comportamento agressivo para com a mãe. Bowlby via esta como uma consequência natural dessa ausência: a zanga da criança era a sua forma instintiva de fazer com que a sua figura de apego não voltasse a repetir essa ausência como se, ao castigá-la com esse comportamento agressivo quisesse impedi-la de voltar a ausentar-se. 
O mais importante é termos noção de que não há nada de natural na forma como vivemos a vida hoje em dia, longe dos nossos filhos, deixando-os ao cuidado de estranhos tantas horas seguidas. E, por isso mesmo, não é de estranhar que, muitas vezes, eles tenham comportamentos que também não nos parecem naturais ou que vemos como estranhos. O que é preciso é sermos capazes de nos sintonizar com essas pequenas feridas e estarmos totalmente disponíveis para as sarar. E a única forma de o fazemos é oferecendo-lhes a nossa presença e o nosso coração, totalmente, sem reservas, sempre que eles precisarem e sempre que estivermos juntos.

*Fico sempre num dilema quando cito estudos feitos com animais: por um lado não gosto de os citar como se fossem algo normal e aceitável, porque não acho que tenhamos o direito de usar e criar animais em cativeiro, como neste caso, apenas para serem estudados e receio que ao citar este tipo de estudos esteja de alguma forma a contribuir para a sua normalização. Por outro lado, é verdade que já foram feitos e deram um contributo importante para a psicologia e para o desenvolvimento de algumas teorias. 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Co-Sleeping - Bebés em Relação


Quando mais leio sobre o desenvolvimento dos bebés mais me convenço de que estes não foram mesmo feitos para estar sozinhos. As investigações mais recentes acerca dos processos neurofisiológicos têm vindo a demonstrar de forma cada vez mais indiscutivel que os bebés nascem de facto programados para estabelecer relações significativas e que essas relações são tão essenciais à sua sobrevivência e a um bom desenvolvimento como o alimento. Na verdade, podemos até dizer que essas relações são mais importantes do que o alimento como o demonstram as observações feitas em orfanatos da primeira metade do século XX, onde as crianças eram criadas em ambientes assépticos, quase sem contacto com germes ou vírus porque não contactavam umas com as outras e tinham apenas o mínimo de contacto possível com os adultos e onde recebiam todo o alimento de que necessitavam mas que, no entanto, tinham taxas de mortalidade muito superiores ao que seria de esperar e às das crianças que viviam com as famílias, a maior parte das vezes, com ambientes muito mais contaminados e nem sempre com muito alimento. As experiências feitas por Harry Harlow com macacos recém nascidos, nos anos 60 também demontram que o contacto físico parece tão ou mais importante do que alimento. Este investigador, numa série de estudos polémicos em que macaquinhos recém-nascidos eram afastados das suas mães e criados em isolamento, demonstrou claramente que estes primatas estão programados para procurar instintivamente uma fonte de conforto físico tanto ou mais do que uma fonte de alimento. Nestas experiências – em que o bem-estar dos macacos foi claramente ignorado - Harlow, colocava dentro das jaulas dos macaquinhos um cilindro de arame que, em metado dos casos, estava revestido com um material de tecido macio e agradável ao toque. Dentro destes cilindros era sempre colocado um biberão de onde os macaquinhos podiam obter o leite necessário à sua sobrevivência. O que se verificou foi que os macacos bebés passavam sempre muito mais tempo junto dos cilindros de tecido do que junto dos de arame. E, sempre que se assustavam com um barulho ou qualquer outro estímulo, estes macaquinhos recorriam ao cilindro revestido de tecido e nunca ao de arame, mesmo quando este era  a sua única fonte de alimento. Estas experiências demonstraram claramente que a necessidade de contacto físico é tão importante ou até mais ainda do que a necessidade de alimento. Outra coisa que se observou com estas foi que, depois de crescerem nestas condições de isolamento, os macacos quando eram postos em contacto com outros macacos já não sabiam relacionar-se e, se chegavam a ter crias, eram totalmente incapazes e incompetentes como mães.
Outros dados indicam que os bebés nascem com o instinto de estabelecer relações: o facto de serem capazes de reconhecer a voz e o cheiro do leite da mãe apenas algumas horas depois de nascerem, o facto de mostrarem sempre uma preferência por imagens de rostos humanos, o próprio choro que tem como finalidade comunicar que algo não está bem e fazer com um adulto intervenha, os comportamentos de sorrir e balbuciar que rapidamente se começam a manifestar principalmente para com as principais figuras de apego, etc. 
Há também observações que mostram que os bebés começam muito cedo a ser capazes de ler as emoções, como a experiência da cara neutra desenvolvida de Edward Tronick, em que bebés de três meses já mostram reacções de angústia e aflição quando a mãe mantém uma cara que não demonstra nenhum tipo de emoção para com a criança e não responde às suas chamadas de atenção. Bastavam três minutos para estes bebés ficarem bastante aflitos quando viam que os seus esforços para trazer a mãe de volta à interacção não resultavam e estes demoravam ainda alguns minutos até voltarem a interagir normalmente quando a mãe voltar a uma atitude natural. Ver aqui o vídeo desta experiência

James McKenna, um antropólogo dos E.U.A., que desenvolveu e participou já em dezenas de estudos sobre o sono dos bebés, também defende que, nos primeiros tempos de vida, tudo indica que os bebés não estão preparados para passar muito tempo sozinhos. Este autor que observou dezenas ou centenas de pares de mães e bebés no seu laboratório do sono explica que, quando mãe e bebé dormem juntos apresentam padrões cerebrais e respiratórios muito semelhantes. Segundo este investigador, o bebé, que nasce com um sistema respiratório que está em formação durante os primeiros três meses de vida, precisa da presença da mãe para regular a sua respiração. Até aos três meses os bebés, com um sistema respiratório ainda imaturo, ficam mais sujeitos à ocorrência de apneia (paragens respiratórias) que, se o bebé estiver num sono profundo podem ser perigosas ao ponto deste não acordar e podem ser uma das causas para o síndroma de morte súbita (um síndroma em que os bebés morrem, quando estão a dormir, sem nenhuma causa conhecida e sem terem apresentado nenhum tipo de sintomas). Então McKenna explica que, quando os bebés dormem com as mães, têm geralmente um sono mais superficial e acordam mais algumas vezes por noite (adormecendo também mais rapidamente) o que pode representar justamente uma protecção contra o síndroma de morte súbita. As estatísticas da morte súbita em países onde as crianças dormem sozinhas e acompanhadas parecem confirmar esta hipótese: nos E.U.A. o indíce de morte súbita é de 2 por cada 1000 nascimentos, no Japão, onde a regra é os bebés dormirem com os pais, este indíce é de 0,2 por cada 1000 nascimentos e em Honk Kong, onde os bebés também costumam dormir com os pais, e de 0,1, por cada 1000 nascimentos.
Na verdade, na maior parte do mundo e durante grande parte da história humana, os bebés sempre dormiram com os pais. Em todas as sociedades mais tradicionais, como as asiáticas, tal como em todas as espécies de mamíferos, a tendência é para os bebés dormirem com os pais. Só na sociedade ocidental, e só recentemente é que passou a ser mais comum os bebés dormirem sozinhos do que na cama dos pais e a verdade é que, tudo indica, que estes não estão programados para o fazer.

Nas sociedades ocidentais existe, hoje em dia, uma tendência muito grande para que os pais se preocupem com a independência dos filhos. E, desde muito cedo, isso revela-se na preocupação de os porem a dormir sozinhos no quarto, de os deixarem adormecer sozinhos, de não responderem sempre ao seu choro, de não lhes pegarem muito ao colo, de não darem de mamar durante muito tempo, etc. Mas, a verdade é que cada vez mais estudos mostram que esta não é uma forma nada natural de criar um ser humano. Meredith Small, no seu livro Our babies Ourselves, descreve a relação que as várias sociedades humanas têm com as suas crias, e demonstra que, mesmo nas tribos onde a independência tende a ser mais valorizada é comummente aceite que um bebé é um ser totalmente dependente e essa dependência é reconhecida e encarada com toda a naturalidade, pelo menos durante os primeiros anos de vida. Em todas as sociedades, excepto na ocidental, é aceite que o bebé é um ser dependente da mãe e que essa dependência não deve ser desvalorizada mas sim aceite, reconhecida e protegida.


Winnicot um conhecido teórico do desenvolvimento infantil dizia que não existe tal coisa como um bebé isolado, um bebé só existe em relação. Mas, infelizmente, nas sociedades ocidentais, muitas vezes passa-se um tempo precioso da infância dos nossos filhos a tentar negar essa relação.

O co-sleeping é uma forma de reconhecer essa relação, essa dependência, de lhe dar espaço e tempo para existir. Dormir com os nossos filhos é perceber que os laços que nos unem a eles são algo que faz parte da cultura humana desde todos os tempos, é respeitar e honrar essa ligação física e emocional que não acaba quando pomos um bebé no mundo. É compreender que, mais do que o alimento físico, o bebé precisa de ser alimentado emocionalmente, precisa que lhe seja permitido alimentar-se também do corpo da sua mãe, do bater do seu coração, precisa que lhe seja permitido viver nesse estado de semi-fusão pelo menos ainda durante algum tempo, até que o seu sistema psicofisiológico amadureça o suficiente para poder funcionar por si e até que o seu coração se sinta capaz de guardar o amor da mãe e do pai mesmo quando está longe deles. Acredito que, numa cultura onde se passam tantas horas longe dos filhos o contacto físico que se pode ter com um filho enquanto dorme pode mesmo ser essencial para manter a ligação, aquilo que em inglês se chama bond e que podemos traduzir como o laço invísel que une os pais aos seus filhos. Sem um contacto físico quase constante nos primeiros meses e ainda bastante presente durante os primeiros anos, esse laço quebra-se muito facilmente e, quando o laço se quebra é difícil repará-lo.
James McKenna observou também no seu laboratório algo que muitas mães que dormem com os filhos descrevem: que há uma sintonia constante entre mãe e bebé, mesmo quando os dois dormem. Para para além do comportamento de mães que acarinhavam os filhos mesmo a dormir e que pareciam sempre conscientes da presença destes, para além da sincronia psicofisiológica que era possível observar entre ambos, este investigador também observou que havia uma tendência grande para que as mães acordassem exactamente alguns segundos antes dos filhos. Lembro-me de uma mãe que dormia com o filho me descrever isto quando eu estava grávida e de me ter acontecido exactamente o mesmo todas as noites que dormi com o meu filho em que ele acordava para mamar: acordava sempre uns segundos antes dele  e já sabia que ele iria acordar para mamar passado muito pouco tempo. Isto fazia com que lhe desse de mamar assim que ele acordava, o que fazia com que ele não precisasse de chorar nem ficasse agitado, tornando muito mais fácil que voltássemos os dois a dormir rapidamente. Isto só é possível porque esse laço, essa ligação que faz com o nosso organismo entre em sintonia é de facto algo natural e para o qual estamos programados. Mas é preciso que lhe demos espaço e condições para existir. De acordo com McKenna, se mãe e criança não estivessem a dormir juntos esta sincronização já não acontecia e não havia este sincronizar dos ciclos nem dos despertares.

Tal como diz Meredith Small, ao sobrevalorizar a independência dos bebés tudo indica que passamos por cima das suas necessidades e da sua programação biológica. E ao sobrevalorizar a independência na sociedade esquecemo-nos que só somos felizes em relação. Ninguém é feliz sozinho e as pessoas mais felizes são justamente aquelas que sabem reconhecer a sua dependência, são aquelas que mais procuram estabelecer relações e que o fazem com confiança e sem medo de reconhecer que o ser humano é um animal social, que não vive isolado do mundo. Jonathan Haidt, um investigador da área da Psicologia Moral, no seu livro, The Righteous Mind, cita uma série de estudos que demonstram que somos muito mais felizes quando nos permitimos fazer parte de um todo e não viver isoladamente, como este autor diz, o ser humano é parte macaco e parte abelha, um animal que vive em colónias onde todos trabalham para o todo e não em função de si próprios. Então, para criarmos bebés felizes, confiantes e saudáveis precisamos de reconhecer que os nossos filhos precisam de nós tanto quanto nós também precisamos deles. E assumirmos essa dependência mútua é o primeiro passo para um caminho de uma verdadeira autonomia que só é possível se formos capazes de a assumir como um percurso de interacção constante com o meio e com todos aqueles com quem temos uma necessidade vital de estabelecer relações e pontes para os seus mundos. 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Cuidar dos filhos é também cuidar de nós


            Uma vez ouvi um senhor dizer que, desde que os filhos nasciam, passávamos a viver para eles e não pude deixar de ficar a pensar nessa frase e no desconforto que me provocou. É o mesmo desconforto que sinto muitas vezes quando oiço algumas mães dizerem que põem os filhos em primeiro lugar e só depois pensam nelas. São frases que não gosto de ouvir porque me lembram como já ouvi tantas pessoas adultas queixarem-se de que as mães lhes dizem constantemente que fizeram tudo por elas deixando implícita a mensagem – sempre pesada e desconfortável – de que os filhos devem, de alguma forma, pagar a dedicação que tiveram para com eles durante todos os anos em que foram pequenos.
            Por muito bem intencionada que seja uma mãe que diz que põe sempre os filhos em primeiro lugar isto significa que há alguma parte de si que não está a ser cuidada. Eu não ponho o meu filho em primeiro lugar pela simples razão de que, tudo o que faço por ele, estou a fazer por mim também. Sempre que cuido dele, sempre que faço alguma coisa por ele que precisa de ser feita tenho plena consciência de que, esse cuidar me traz muito mais a mim do que a ele. Vejo na maternidade um complemento daquilo que sou e não uma tarefa que tenho de cumprir por isso não me faz sentido dizer que o ponho em primeiro lugar porque, para o pôr em primeiro ou em segundo lugar teria de haver uma hierarquia que não existe: não sinto que faça sentido por as necessidades dele à frente das minhas porque são ambas igualmente importantes, nem mais nem menos. Claro que há coisas que são mais urgentes, porque ele é mais pequeno e dependente, há algumas necessidades que não podem esperar, algumas coisas que não podem ser adiadas mas isso não significa que as ponha em primeiro lugar, significa apenas que percebo que são mais urgentes.
Também sei que tenho a responsabilidade como mãe de cuidar das minhas necessidades e essas necessidades nem sempre estão relacionadas com ele. Sei que, sempre que deixar uma necessidade minha por preencher irei estar um pouco menos disponível, menos receptiva para as necessidades dele.
Mas, a verdade é que, muitas das necessidades dele também são minhas. Por exemplo, ele tem necessidade de estar comigo, de me sentir presente, mas eu também tenho necessidade de estar com ele. Ele  -como qualquer criança - tem necessidade de sentir que é uma prioridade na minha vida, que é valorizado por mim, que é amado – mas eu também tenho necessidade de arranjar formas de lhe demonstrar isso. Portanto nada disso é visto como uma tarefa, um objectivo que precisa de ser cumprido e que me irá roubar tempo ou espaço porque todo o tempo que tenho com ele também é um tempo que tenho comigo: também é um tempo que posso aprender a estar presente, a aceitar, a comunicar, a não julgar, a crescer tanto como ele cresce comigo.
Depois há as outras necessidades mais básicas como a de comer, a de dormir, de ter uma casa minimamente limpa e arrumada, etc,  e são essas que, por vezes, se podem tornar um peso mas, mesmo com essas posso aprender que não estou só a cuidar dele mas também de mim, porque também eu preciso dessas coisas todas e a verdade é que, desde que fui mãe, passei, por exemplo, a ter uma alimentação muito mais saudável.
Uma das coisas que ouvimos como mães é que precisamos de cuidar da relação do casal e, quase sempre se pensa que só o podemos fazer se nos afastarmos dos filhos. Mas, se os dois membros do casal conseguirem olhar para a parentalidade como uma oportunidade de crescimento, de auto-preenchimento e de auto-conhecimento não há necessidade de o fazer. Ser pai ou mãe também nos pode tornar melhor marido ou mulher porque, se deixarmos, nos pode tornar pessoas mais felizes, mais preenchidas e mais capazes de aceitar e apreciar verdadeiramente o outro. Os filhos ajudam-nos a crescer, a olhar para dentro de nós e isso só pode favorecer uma relação que já tenha bases sólidas de aceitação e respeito mútuo. 
Lembro-me da primeira vez que fui de férias com o meu filho e, uma parte de mim, pensava que não ia poder descansar de verdade porque estaria sempre a cuidar dele e lembro-me que vim muito feliz dessas férias porque me senti totalmente descansada, repousada e incomparavelmente mais feliz do que se tivesse ido sem ele! Nessa altura percebi que não é cuidar dos filhos que cansa, o que cansa é a rotina do dia-a-dia. Cuidar dos filhos não cansa absolutamente nada se tivermos consciência de que cuidar deles é também cuidar de nós. Porque cada momento com os nossos filhos é uma oportunidade para nos renovarmos, para crescermos, para nos conhecermos e para aprendermos a ser melhores como mães e como seres humanos.