sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Adolescências compridas e rituais imaturos


Estamos outra vez naquela altura do ano em que se vêem perto das universidades uma série de jovens com uma espécie de farda - que só por si já demonstra bem a insensatez de tudo aquilo a que está associada uma vez que é exactamente a mesma quer faça chuva quer faça sol, quer estejam 10 ou 40 graus centígrados - envolvidos em actividades que envolvem gritos e humilhações várias a um outro grupo de jovens que ainda não tem o direito de vestir a tal farda e que se vai deixando mandar, humilhar e dirigir.

Este é um fenómeno a que é difícil ficar indiferente e que, apesar de não ter números oficiais, me parece ter crescido bastante sobretudo na última década.  Por isso é importante compreendermos o que estará na origem deste crescimento e porque ele pode ser encarado como um dos sinais que algo não está a funcionar como deveria na nossa sociedade. 

Adolescência mais longa 

Primeiro é importante termos consciência de que, neste momento, nas sociedades ocidentais, temos a mais longa adolescência da história da humanidade. Os nossos jovens entram cada vez mais cedo na adolescência e saem dela cada vez mais tarde: há cem anos atrás a idade média para o aparecimento da menarca andava por volta dos quinze anos hoje, em média, acontece aos doze. E, se nessa altura era perfeitamente natural que rapazes e raparigas de dezassete ou dezoito anos já estivessem casados e a trabalhar, integrados na sociedade como adultos, hoje ainda precisam de mais algum tempo até os considerarmos realmente aptos a desempenhar esse papel.

Com o prolongar desta fase que estaria de certo modo programada para ser apenas uma transição relativamente rápida do estado de criança para o estado de adulto é natural que surjam algumas complicações para as quais ainda não temos resposta.

Falta de rituais de passagem 

Nas sociedades tradicionais havia sempre ritos de passagem importantes para marcar a transição de um estado para o outro e a entrada na vida adulta. Nessas sociedades a adolescência era vista muito mais como uma ponte entre dois estados do que como um estado em si mesmo. Aliás a palavra adolescência tem origem no latim e significa crescer para, o que nos mostra que é suposto que seja apenas uma fase transitória entre dois estados. Esta definição é importante porque influencia a forma como nos relacionamos com os adolescentes: se nos lembrarmos que eles não são crianças nem adultos, mas que estão algures entre os dois, fica mais fácil percebermos aquilo de que precisam e saber de que forma devemos relacionar-nos com eles.

Nas nossas sociedades perdemos esses rituais que os jovens tentam, de algum modo, recriar com as praxes académicas.
O problema deste tipo de ritual é que eles não são criados e suportados pelos adultos que deveriam ainda ser a referência e o modelo desses jovens mas vão sendo improvisados pelos próprios.

Um ritual de passagem tradicional cumpre uma função específica de ajudar o jovem a despedir-se do seu estado anterior e a sentir que está pronto para entrar na vida adulta. Os rituais de passagem tradicional são feitos com o apoio dos adultos envolventes e servem para ajudar à integração na sociedade adulta, ao mesmo tempo que ajudam os jovens a tomar consciência das suas novas responsabilidades mas também das suas capacidades procurando transmitir-lhes uma sensação de poder e competência, através do simbolismo das tarefas que eles precisam de realizar e que poderão desempenhar um papel importante na construção de uma nova auto-imagem.

Porque esta é realmente a tarefa principal da adolescência: a capacidade de criar uma nova imagem de si mesmo, agora separada da família e a capacidade de se afirmar e integrar na sociedade com essa nova consciência de si e do seu papel na vida e na comunidade. Ora nada disto é conseguido com as praxes: antes pelo contrário até. Porque aquilo que vemos nas praxes são jovens imaturos e incapazes de se encontrarem e de criarem uma verdadeira autonomia.

Condições necessárias para uma transição segura, para que o amadurecimento se torne possível:

Para que um adolescente encontre a sua identidade, para que seja capaz de se descobrir de se conhecer e de se afirmar e integrar sem precisar de se perder de si mesmo são precisas algumas coisas fundamentais: primeiro é preciso que lhe tenha sido permitido encontrar a segurança de ter ligações fortes e estáveis com as pessoas mais importantes da sua vida, idealmente os pais, e que estas lhe tenham demonstrado que é seguro estar no mundo, explorá-lo e explorar-se a si mesmo; depois é preciso que essas pessoas continuem a ser uma referência e um modelo a seguir. Para isso é preciso que elas se mantenham por perto, presentes e disponíveis mas que, ao mesmo tempo, saibam dar o espaço necessário aos jovens para que estes se possam descobrir e olhar para dentro sem medo. E isso é algo que falta muito aos adolescentes dos nossos dias: esse tempo para olhar para dentro e a segurança de não terem medo daquilo que irão encontrar por saberem que terão sempre alguém, mais maduro e consciente, que estará presente para os ajudar a lidar com isso.

Na verdade as praxes são também o sintoma de um fenómeno bastante comum no nosso tempo e que está na origem de muitos problemas: o fenómeno da orientação para os pares - nome dado pelo psicólogo canadiano Gordon Neufeld a este fenómeno que faz com que os adultos deixem de ser modelos e referências para os jovens que passam assim a querer agradar apenas aos outros jovens e que nos coloca numa posição muito mais secundária do que aquela que seria desejável. É este fenómeno que podemos observar tantas vezes quando comentamos que hoje os jovens não respeitam os professores, por exemplo. Isto acontece sempre que os adultos deixam de ser uma referência. É fácil observar que, pela primeira vez na história também, os ídolos dos nossos adolescentes são, em grande parte, também eles adolescentes. E um adolescente, visto que está também ele em transição, não será com certeza o melhor modelo a seguir para outro adolescente. 

É um lugar comum dizermos que os adolescentes precisam de encontrar o seu grupo e que é natural que procurem esse sentimento de pertença. É verdade que nesta fase a necessidade de pertencer a um grupo se torna mais forte porque os adolescentes, por estarem em transição, têm alguma tendência para se sentirem sozinhos (porque a auto-descoberta tem sempre uma componente grande de solidão inevitável) mas também porque nesta altura há um instinto grande de querer encontrar o seu lugar no mundo, na sociedade, fora da família. Para as crianças tudo o que é mais importante é pertencer à família, para um adolescente é preciso sair dela e é muito fácil ceder à tentação de a substituir por um grupo.

Mas é importante compreender que a procura desse sentimento de pertença não pode e não deve levar à perda da individualidade e é exactamente isso que acontece quando temos grupos de jovens que se vestem da mesma maneira, falam da mesma maneira e se portam da mesma maneira. Isto significa que houve um processo de maturação que não chegou a acontecer como deveria. Se pensarmos nas crianças, por volta dos dois ou três anos de idade, é muito comum começarem a querer imitar tudo o que os pais ou irmãos mais velhos fazem ou dizem. E faz sentido que assim seja porque, nessa fase com a imaturidade característica e própria deste estágio, é só assim que conseguem ter o sentimento de pertença que lhes dá a segurança necessária para crescer. Mas, se tudo correr bem com o seu desenvolvimento, vão começando a encontrar outras formas de se sentirem seguras e ligadas às pessoas importantes. Estes adolescentes, na verdade, ainda não desenvolveram esses mecanismos mais complexos que lhes permitem sentir-se ligados às pessoas importantes e continuam a portar-se como crianças de dois anos que precisam de ser iguais a elas para se sentirem ligadas a essas pessoas.

Porque é que isto é um problema?

Primeiro porque mostra que algo correu mal no seu desenvolvimento, depois porque não permite que esse desenvolvimento continue a acontecer. Cria um bloqueio. Não podemos construir uma relação verdadeira com os outros se nos perdemos de nós sempre que estamos com eles. Se não conseguimos agarrar-nos com força suficiente à nossa identidade quando estamos com os outros - que inclui os nossos gostos, as nossas motivações e os nossos valores - então também não conseguimos criar ligações verdadeiras com eles. Ficamos presos a uma identidade e a um comportamento tribal em que qualquer coisa que seja diferente nos faz sentir ameaçados, porque acreditamos que vamos perder essa ligação com os outros se formos diferentes deles. Estas ligações que dependem dessa identificação mais superficial são muito fracas e facilmente ameaçadas. Por isso é que as crianças precisam tanto que os pais mostrem constantemente que estão seguras, que gostam delas e que se esforcem para manter a ligação e também é por isso que é tão fácil assustarem-se quando nos zangamos com elas. Porque a capacidade de guardarem dentro de si esse amor e de se sentirem seguras com ele ainda é muito limitada.

É preciso haver maturidade para sermos capazes de nos agarrar ao amor dos outros e pelos outros mesmo e ainda mais quando existem diferenças grandes entre nós. E para isso temos que nos sentir seguros também com quem somos, com a nossa identidade. Então, não é demais dizer que este comportamento tribal que as praxes representam, mesmo que de uma forma simplista, está na base de tudo o que também acaba por levar às guerras, à intolerância e a comportamentos como o racismo e a xenofobia. Porque todos eles têm na sua origem este medo de nos sentirmos ameaçados por aquilo que é diferente. 

Uma pessoa madura, adulta e segura de si não tem tanta necessidade de entrar em tribalismos porque também não se sente tão ameaçada pela diferença. Isto não quer dizer que não tenha necessidade de pertencer a um grupo, já que somos seres sociais e sabe-se que essa pertença a um grupo pode estar também na base da nossa satisfação com a vida mas é preciso distinguir entre os grupos que anulam a nossa identidade e autonomia, como as seitas e as praxes que funcionam de formas muito semelhantes, e aqueles onde nos é permitido estar realmente com as pessoas, em relações autênticas, em que não precisamos de nos perder de nós próprios.

Então precisamos de olhar para este fenómeno das praxes e compreender que é apenas um sintoma de uma falta grande no desenvolvimento destes jovens e tentar compreender de que forma é que poderemos preenchê-la no futuro. E isso começa com a capacidade de criarmos ligações seguras e de não termos medo de estar presentes, disponíveis e de coração verdadeiramente aberto para os nossos filhos ao longo de toda a sua vida. E de não termos medo de assumir e reclamar esse papel de guias e de orientadores também com os adolescentes que tiverem um papel importante nas nossas vidas. 




segunda-feira, 24 de junho de 2019

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Bullying, competividade e emoções

Hoje acordei a pensar em Bullying, algo que infelizmente parece cada vez mais presente no mundo real mas que se encontra ainda mais facilmente nas redes sociais. É importante falar deste fenómeno e compreender como é que ele acontece e também porque é que as redes sociais o tornam tão fácil, tão comum e tão presente. 

Fazer bullying é tratar mal alguém com o objectivo de nos sentirmos por cima, de nos sentirmos melhor, de nos sentirmos mais espertos mais capazes, mais competentes, etc. Quando alguém faz bullying isso significa que, naquele momento, o seu único foco é conseguir esse sentimento de que é melhor do que o outro, seja em que domínio for. Então isto quer dizer que essa pessoa, pelo menos naquele momento, não está focada em sentimentos nem emoções, mas apenas em ter esse sentimento de conquista, de prazer momentâneo de que foi capaz de vencer o outro. 

Alguém que tem uma necessidade constante de fazer isto é alguém que, provavelmente, ao longo da sua história precisou de se defender muito, precisou de se fechar às emoções, aos sentimentos e precisou muito de se sentir importante e especial. Todas as crianças precisam de sentir-se especiais, sobretudo nos primeiros anos de vida, todas as crianças precisam de se sentir únicas, apreciadas, capazes, competentes e especiais aos olhos das pessoas importantes para si. Quando isso não acontece é muito natural que a criança procure outras formas de se sentir especial e a competitividade excessiva pode ser um reflexo disso mesmo. Quando uma criança precisa repetidamente de ganhar nos jogos, nas corridas ou até mesmo nas notas isso pode querer dizer que aquela criança está à procura desse sentimento de que é boa, capaz, competente, única e especial que, deve vir, em primeiro lugar dos pais e não pode estar dependente das suas conquistas ou da apreciação dos outros. 

Muitas vezes temos medo de fazer os nossos filhos sentirem-se especiais, como se isso estivesse associado a uma incapacidade de lidarem com o mundo e com as frustrações. Por isso é importante explicar que fazer uma criança sentir-se especial não é o mesmo que satisfazer todos os seus desejos ou aceitar passivamente todos os seus comportamentos. Não é o mesmo que fechar os olhos aos seus erros ou fracassos mas é simplesmente mostrar-lhe que a amamos apesar destes. Mostrar que esse amor não depende de nada daquilo que eles fazem mas que está simplesmente presente e não é posto em causa por nada que eles possam fazer. 
Todas as crianças precisam de ver o brilho no olhar dos pais apenas porque estão presentes, apenas porque existem, apenas porque acabaram de entrar na sala. 

Quando esse brilho nunca existiu ou esteve demasiado escondido por todas as outras preocupações que os pais tantas vezes têm então a criança cresce sempre com a sensação de que precisa de preencher esse sentimento de que é especial para alguém e irá procurar formas de o fazer. A menos que essa falta tenha sido tão grande que ela desista simplesmente de si e do mundo e de acreditar ou de esperar alguma coisa dos outros. 

Então alguém que tem um comportamento de bully está simplesmente a tentar preencher essa falha da única forma que conhece: humilhando os outros. Isto acontece sobretudo entre pares, já que, quando todos estamos em igualdade de circunstâncias se torna mais fácil fazer sobressair essa necessidade de competir. Quando crescemos com essa sensação constante de que falta alguma coisa, se estamos rodeados de pessoas iguais a nós, como numa turma em que todos têm a mesma idade, por exemplo, é mais fácil sentirmos que essas pessoas estão a competir connosco por esses mesmos recursos que, inconscientemente, nos habituámos a sentir que são escassos. Então, precisamos desesperadamente de sentir que lhes passamos à frente. 

Se ainda não desligámos completamente as nossas emoções podemos fazê-lo simplesmente tentando ter melhores notas que os outros, ou ser melhores no desporto ou em alguma outra coisa em que nos sintamos capazes de ficar por cima. Mas, se já fomos tão feridos na nossa capacidade de confiar  e gostar dos outros que precisámos de fechar o coração para sobreviver então torna-se muito fácil entrar nesse jogo constante de humilhar e de tentar rebaixar os outros, sem sequer nos preocuparmos com aquilo que estarão a sentir. 
E depois temos as outras pessoas da turma, ou do grupo que, podem facilmente ir atrás desse comportamento apenas porque querem também sentir-se especiais e entrar num grupo dá-nos esse sentimento de pertença e de união de que todos precisamos. E, mais uma vez, se as nossas feridas forem demasiado grandes podemos ficar mais focados nesse prazer temporário de nos sentirmos parte de um grupo, mesmo que para isso tenhamos que seguir um líder que maltrata alguém, do que nos sentimentos da pessoa que está a ser mal tratada. Até porque o sentimento de que somos nós contra alguém é sempre algo que serve para unir as pessoas e criar essa sensação de grupo que dá alguma gratificação temporária e ajuda a preencher essas falhas. 
Sobretudo na adolescência em que uma das tarefas é justamente a de pertencer a um grupo, porque é esse sentimento de pertença a um grupo que também nos ajuda a separar na família, algo que faz parte dos instintos naturais de um adolescente. 

O que fazer quando os nossos filhos são vítimas de bullying 


Não serve de nada tentar falar com um bully e muito menos dizer-lhe que nos magoou. Porque isso só irá alimentar o seu sentimento de vitória, de conquista, de quem conseguiu ficar por cima. 
Então quando sabemos que alguma criança ou jovem, ou mesmo adulto, foi ou está a ser vítima de bullying o mais importante é focarmos a nossa atenção na vítima, primeiro, e não no bully. 
Se for possível, a primeira coisa a fazer é  retirarmos a criança da situação, afastando-a dessa pessoa ou grupo, falando com os adultos responsáveis sempre que isto acontece numa escola, para tentarem intervir e proteger a criança do ataque, afastando-a das situações em que ele acontece. Claro que isto tem que ser feito sem que a criança sinta que está a ser penalizada ou que é ela o problema. 

Depois é fundamental que essa criança tenha uma ligação segura com alguém com quem possa falar sobre isso. Não podemos evitar que os nossos filhos sejam magoados mas podemos dar-lhes um colo para falarem sobre isso e para vivenciarem as suas emoções mais dolorosas sem precisarem de as esconder em alguma parte de si. E isso é a coisa mais importante que podemos fazer por alguém que sofre: dar-lhe um espaço para lidar com essas emoções, dar-lhe um ombro para chorar e um colo onde possa sentir-se seguro e acolhido. Se a criança ou jovem tiver a segurança de saber que existe na sua vida, pelo menos uma pessoa, com quem tenha essa ligação segura, uma pessoa que a aceita, que a acolhe e que a ajuda a lidar com a dor e com os seus sentimentos ela estará preparada para enfrentar essas dificuldades e maus tratos do mundo sem que eles causem estragos demasiado grandes. 
A coisa mais importante que podemos fazer pelos nossos filhos ou jovens com quem trabalhamos é mesmo esta: garantir que essa ligação segura existe com, pelo menos, um adulto. É esta ligação que protege de verdade e que lhes dá espaço para poderem entrar em contacto com os seus sentimentos e serem capazes de aprender a lidar com as emoções. Esta ligação não os impede de serem magoados ou maltratados mas garante que a dor desses maus-tratos não se torne demasiado grande para que possa realmente provocar estragos nas suas vidas. 

Depois precisamos de olhar para o bully como alguém que também foi ferido mas que se fechou de forma a não ter consciência dessa ferida. Então aquilo que precisamos de fazer com esse bully, se nos for possível e quando não fomos nós a vítima, claro, é também sermos capazes de criar com ele uma relação de segurança Uma relação em que ele possa confiar que é seguro voltar a sentir, voltar a entrar em contacto com as suas emoções. Sem este trabalho que só pode ser feito por um adulto seguro, confiante e verdadeiramente disponível, nunca será possível lidar de forma verdadeiramente eficaz com este problema e mudar o comportamento do agressor. 

E sem criarmos condições para que essas ligações existam nas vidas dos nossos filhos nunca iremos acabar com este fenómeno tão presente nos nossos dias. 

Porque é que as redes sociais potenciam os fenómenos de bullying 


Porque é muito fácil chamar nomes a alguém que não estamos a ver. Quando falamos através de um ecrã não vemos o rosto das pessoas, não ouvimos o seu tom de voz, não temos qualquer tipo de pista das que normalmente usamos para perceber como é que as pessoas se estão a sentir. Por isso é que as redes sociais também dão azo a muitos mal entendidos: porque nas redes sociais, através de um ecrã, ficamos todos completamente analfabetos no terreno emocional. Isto porque é a comunicação não verbal que nos mostra como é que os outros se sentem e que influencia a nossa forma de comunicar com eles. Quando falamos com alguém ou quando alguém fala connosco estamos constantemente a avaliar, de forma inconsciente, a sua comunicação não verbal: o tom de voz, a prosódia, as expressões faciais, os gestos, etc. E nas redes sociais isto não acontece, por isso não temos nenhuma pista de como o outro se está a sentir e isso torna-nos praticamente analfabetos do ponto de vista emocional. Os emojis com expressões foram uma forma de colmatar isso mas são muito insuficientes quando comparados com os circuitos mais complexos que temos vindo a  desenvolver ao longo de milhares de anos da nossa história. Por isso é muito fácil surgirem mal entendidos, mesmo quando comunicamos com boas intenções. 
E também se torna muito fácil mal tratar alguém que não estamos a ver como reage. E, mais uma vez, aqui também procuramos sentir-nos parte de um grupo apoiando quem mal trata ou sentir-nos líderes desse grupo rebaixando e criticando outras pessoas. 
Não estamos programados para lidar com ecrãs, mas sim com pessoas. Ainda temos muito a aprender com as novas tecnologias e com a forma como lidamos com elas. E infelizmente, parece que também ainda temos muito que aprender sobre as nossas emoções e sobre como lidar com elas de maneira mais construtiva. 
Por isso e para que isto não aconteça a melhor coisa que podemos fazer pelos nossos filhos é não ter medo de estarmos verdadeiramente presentes nas suas vidas e de os ajudar a lidar com as suas próprias emoções, dores e frustrações sempre que elas acontecem. 



sexta-feira, 5 de abril de 2019

Entrevista - Páginas Soltas

Para quem quiser ouvir deixo aqui o link para uma entrevista da rádio Torres Novas, no programa Páginas Soltas, com a Sandra Barbosa.

Entrevista

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Apego, separações, trauma e crimes violentos

Estamos numa altura do ano em que milhares de crianças voltam à escola e em que outras tantas estão a começar pela primeira vez este percurso. E isto traz muitas vezes lágrimas e protestos aos filhos e muitas angústias aos pais. Muitas vezes essas lágrimas são encaradas com naturalidade e fazem-nos crer até que elas são parte essencial do processo de adaptação.

Outras vezes também há quem diga que para evitar essas lágrimas é importante que a criança vá o mais cedo possível para a escola, porque quanto mais cedo se fizer essa adaptação mais facilmente ela acontece.

Também há quem defenda que os pais não podem ficar na sala e que têm que se despedir rapidamente para não prolongarem o sofrimento das crianças.

Mas nenhuma destas afirmações é verdade e todas elas têm por base um grande desconhecimento daquilo que é o funcionamento de um instinto básico e fundamental para o desenvolvimento da criança: o instinto de apego. 

Na verdade temos todos, enquanto sociedade, um grande desconhecimento da forma como este mecanismo funciona e das suas implicações para o desenvolvimento das crianças e da forma como podermos educá-las. No meu livro Mindfulness para Pais, explico de uma forma mais aprofundada a importância deste conceito e a forma como toda a nossa personalidade se molda à volta deste instinto e em função dele. E a forma como é importante compreendermos e reconhecermos a nossa própria história para sermos capazes de respeitar, proteger e nutrir este instinto também nos nossos filhos.

Já foi há mais de 60 anos que Bowlby chamou a atenção para o facto das crianças terem este instinto básico que as leva a estabelecer uma relação única e intensa com a pessoa que cuida delas e foi também ele que observou, pela primeira vez, a forma como a ausência dessa pessoa influenciava o comportamento das crianças. Foi através do trabalho de Bowlby que a presença dos pais passou a ser permitida nos hospitais, por exemplo, quando as crianças precisavam de ser internadas. Antes disso pensava-se que esta presença só servia para atrapalhar os médicos e enfermeiros e até prejudicar o tratamento.

O trabalho dele também foi muito importante para começar a mudar a política das instituições de acolhimento que passaram a reconhecer que era essencial para as crianças ter a possibilidade de estabelecer uma relação preferencial com um adulto cuidador. Porque, como explico no meu livro, as crianças a quem isto não era permitido não tinham um desenvolvimento normal e até apresentavam uma taxa de mortalidade muito superior ao que seria esperado.

Mas, mesmo que tenha havido uma grande evolução na forma como entendemos as crianças, ainda assim continua a haver um desconhecimento geral do impacto que tem este instinto em que tudo o que fazemos com as nossas crianças incluindo a entrada na escola. 

Há pouco tempo vi um um novo vídeo de uma criança que esteve separada dos pais pelas políticas do Donald Trump em relação aos imigrantes, de que já falei aqui. Este vídeo demonstra bem como este desconhecimento pode ser prejudicial e como é importante educar os pais e a sociedade em geral para a importância deste instinto de apego e para a forma como ele se manifesta e para as consequências que existem quando ele não é respeitado. 

Em primeiro lugar é óbvio que, se este instinto fosse compreendido e respeitado este tipo de políticas nunca existiria. Mas depois é preciso perceber o que acontece quando se separa uma criança pequena dos pais. Uma criança pequena está programada para se manter perto dos seus pais e em sítios familiares. Todas as crianças saudáveis, quando são pequenas, mostram alguma relutância em falar com estranhos, em estar ao colo deles ou em ser tocadas ou abraçadas por pessoas estranhas. Podem demonstrar isto de forma mais ou menos intensa, mas é natural e saudável que o demonstrem, ao contrário daquilo que tantas vezes nos dizem. Porque uma criança pequena não sobreviveria sem os seus pais a natureza certificou-se que isto estava bem incutido nos seus genes e na sua programação inata. Por isso instinto é mesmo a palavra certa: porque não é aprendido, nem pensado, nem adquirido. Todos os bebés nascem com um instinto básico de estabelecer relações com as pessoas que cuidam se de si. E há vários indícios que o demonstram: como a preferência que todos os bebés têm por caras humanas, como a capacidade de o recém nascido reconhecer o cheiro do leite da sua mãe, como o sorriso que surge entre as 6 e as 8 semanas e começa por ser dirigido a qualquer pessoa mas que, com o tempo, passa a aparecer apenas com as pessoas a quem o bebé se sente ligado, ou a necessidade de colo que todos os bebés demonstram com maior ou menor intensidade, isto para dar apenas alguns exemplos.

Então, este instinto faz com o que o bebé e a criança procurem aprofundar a relação com os seus pais, ou com as pessoas que cuidam de si ao mesmo tempo que também lhe diz que é mais seguro manter-se em sítios que sejam familiares e conhecidos. 

Por isso sempre que a criança está num sítio desconhecido é activado o seu sistema de alerta e a única forma de desligar esse sistema de alerta é através da presença dos pais, ou de outra pessoa com quem haja uma relação de apego, que faz com que a criança se sinta segura novamente. 

Então isto quer dizer que, na ausência de uma figura de apego para a criança, esse estado de alerta que acontece num sítio novo ou desconhecido, não irá desaparecer. Mas ninguém aguenta ficar em estado de alerta durante muito tempo, porque isto tem um custo demasiado elevado para o organismo. Este estado provoca uma série de alterações fisiológicas que podem provocar danos quando são mantidas por demasiado tempo, como acontecia no caso desses bebés em instituições, que morriam mesmo por não terem com quem estabelecer relações.

Então, uma forma de lidar com isto é desligar esse alarme, como mecanismo de defesa. Mas a única forma de desligar o alarme é desligar também o instinto de apego, que é a origem do alarme neste caso. 

Esse vídeo (que pode ser visto aqui ) mostra um rapaz de 3 anos que esteve separado da mãe durante alguns meses bem como a sua irmã bebé. A irmã bebé está ao colo do pai e não parece mostrar grande interesse em estar ao colo dele, como se não o reconhecesse. Mas com o rapaz de quatro anos o que se passa é ainda mais impressionante: a mãe chora e quer agarrá-lo para o beijar, mas o rapaz recusa-se a deixá-la agarrá-lo e afasta-se fugindo dela. Isto deixa a mãe desesperada e sem compreender bem o que se passa com ele.

Há um filme de 1952 que se tornou histórico e mostra uma criança de 2 anos que foi internada num hospital, durante oito dias sem a presença dos pais que só podiam visitá-la, durante uma ou duas horas por dia. A pequena Laura nesse vídeo mostrou justamente o que acontece nestes casos: primeiro há o desespero da criança que sente esse estado de alarme e não pode fazer nada para o neutralizar porque não tem a presença dos pais, depois a criança entra numa espécie de conformismo que começa com uma atitude de tristeza e de apatia em que a criança está como que a desligar-se dessa parte de si própria e depois disso pode até portar-se como se não se tivesse passado nada e voltar a parecer alegre e até com um certo grau de tranquilidade. Se a ausência não for demasiado grande, a criança pode voltar a mostrar interesse em estar com os pais e volta a ficar desesperada quando eles partem, era o que acontecia com a pequena Laura. Mas, ao final de uma semana no hospital, quando os pais finalmente vêm buscá-la para voltar para casa o que se vê é a pequena Laura a andar atrás dos pais, sem procurar o contacto físico com eles e sem sequer se mostrar muito interessada em voltar para casa ou em estar com eles. Isto quer dizer que ela já tinha desligado completamente esse instinto e por isso já não mostrava nenhum interesse em estar com pais. E foi justamente isso que aconteceu também com este outro menino do vídeo. 

Porque é que é importante que os pais saibam isto ? 

Primeiro porque isso ajuda a que percebam que a criança não está simplesmente zangada e pode nem sequer estar consciente de que desligou essa parte de si. Isto pode ajudar também os pais a que não se sintam tão frustrados ou impacientes ou inseguros, quando a separação não foi da sua responsabilidade ou quando não tiveram como evitá-la.

Depois porque compreendendo isto também nos permite dar tempo à criança para ser capaz de reactivar esse instinto, nos casos em que lhe é possível aprender a deixar de ter medo de voltar a confiar nos adultos. Ou, nos casos em que as coisas tenham sido mais graves e mais intensas, compreender que isto é um verdadeiro trauma e que pode ser precisa ajuda profissional para lidar com ele.

Quando um pai ou mãe não compreendem aquilo que se passa com os filhos, a sua própria frustração pode fazer com que se tornem mais impacientes com eles ou que pensem que eles precisam de uma atitude mais dura ou firme e, na realidade, isto pode ajudar ainda mais a acentuar esse trauma e a piorar a situação.

Bowlby falava também de algumas experiências feitas com macacos, de que já falei aqui em que os macaquinhos eram separados das suas mães e apresentavam algumas alterações no seu sistema de resposta ao stress, tornando-se mais receosos, desconfiados e contidos nas suas explorações mesmo depois de terem sido novamente reunidos com as mães. E, nestes casos, aquilo que se verificou foi que o fazia a diferença na forma como os macacos pareciam ter ficado afectados por esta ausência era o comportamento da mãe quando voltavam a estar juntos: quando as mães eram capazes de aceitar e de acolher as suas manifestações de insegurança e as suas modificações de comportamento, estes apresentavam menos alterações do que quando as mães pareciam esperar que eles se portassem como se não se tivesse passado nada. Podemos extrapolar isto para os seres humanos. Neste caso, é claro que não é essencial termos um conhecimento da forma como o instinto de apego foi afectado pela separação, mas este conhecimento pode ser importante para nos ajudar a sentir mais confiança para saber o que precisamos de fazer para ajudar a criança a ultrapassar o trauma. 

Na verdade há outra caso da actualidade que também toca neste tema e que também demonstra como é importante o reconhecimento deste mecanismo e da forma como ele influencia todo o comportamento futuro da criança. O caso que tem sido tão falado da filha adoptiva que matou a mãe que a adoptou. Este caso tem chocado a opinião pública e há uma certa incompreensão geral de como é que uma criança que foi acolhida com tanto amor pode ter depois ter feito uma coisa destas à mulher que a acolheu. E nestes casos há uma certa tendência para pensar que existe algum tipo de maldade inerente que terá vindo com os genes ou coisa parecida naquela pessoa e que nada do que se tivesse passado com ela faria diferença.

Mas não acredito nisto. Acredito que a mãe que a adoptou o tenha feito com a melhor das intenções e que tenha sido uma excelente mãe. Na verdade não sei quase nada sobre a história de ambas, apenas aquilo que foi possível ler na comunicação social e que não diz quase nada sobre o lado mais íntimo ou pessoal das suas histórias, como é natural. Mas, mesmo partindo do princípio que a mãe dela tenha sido excelente, amorosa e boa cuidadora há um aspecto essencial nesta história que é facto daquela mulher ter sido adoptada aos cinco ou aos nove anos (já li as duas versões) e de ter vivido por isso os seus primeiros anos numa instituição. Isto quer dizer que há toda uma história por trás, que não faço ideia de qual tenha sido, mas que não pode ser ignorada. E tenho a certeza que essa história terá muita negligência ou maus tratos pelo meio. E essa negligência não tem necessariamente de estar ligada a maus tratos ou a fome nem a nenhum tipo de miséria material. Basta que em bebé, nos seus primeiros tempos de vida, não tenha havido um adulto de referência que a fizesse sentir-se segura e que a ensinasse a amar. Porque o apego é um instinto é verdade, é a partir dele que aprendemos a amar, mas para isso é preciso que esse instinto não precise de ser desligado, é preciso que sejamos capazes de continuar a dar-lhe ouvidos, é preciso que ele não seja uma fonte de sofrimento e de alerta e que não seja constantemente posto em causa. Só assim, é que através desse instinto podemos aprender a amar. E só se aprendemos a amar se tivermos sido amados.  E se isso não for aprendido nos primeiros anos da infância é possível que nunca venha a sê-lo. 

Por isso é que é importante que tenhamos um conhecimento informado sobre o apego e os seus mecanismos e é importante que saibamos reconhecer quando é importante pedir ajuda se alguma coisa acontece que possa perturbar este mecanismo de forma demasiado intensa. 

Porque sem este conhecimento o amor pode não ser suficiente para ajudarmos os nossos filhos a crescer com toda a confiança e segurança de que eles precisam. Com este conhecimento talvez esta mãe adoptiva pudesse ter ajudado a filha a  lidar com o trauma que certamente viveu nos seus primeiros tempos de vida. Sem este conhecimento a mãe emigrante do rapazinho de quatro anos pode pensar que o seu filho ficou simplesmente zangado ou até mal educado com o tempo de separação que viveu e pode acreditar que precisa de ser apenas mais dura com ele para que volte a ser um rapazinho mais afável e simpático, o que provavelmente só fará com que ele se afaste ainda mais. Sem este conhecimento podemos também pensar que para por os nossos filhos na escola é preciso deixá-los chorar ou que quanto mais cedo forem melhor será. 

Porque sem este conhecimento não percebemos que é natural que eles fiquem em alerta num sítio estranho com pessoas desconhecidas e que somos nós as únicas pessoas que podem ajudá-los a sair deste estado de alerta. 

É a primeira vez na história que entregamos os nossos filhos aos cuidados de estranhos, em sítios desconhecidos diariamente. E fazemos isto sem a mínima consciência do impacto que poderá ter e da forma como é anti-natural o que lhes estamos a pedir. Então a única forma de tornarmos isto menos prejudicial é pensar que eles estão programados para ficar com pessoas com quem se sentem seguros e isto só acontece se elas forem conhecidas e em sítios familiares. Por isso temos de ficar com eles e ser os agentes de transferência desse instinto: fazer com que os adultos que vão ficar com eles deixem de ser estranhos, mostrando que podem confiar neles. A forma de fazer isto naturalmente é deixando que nos vejam a interagir e conversar com eles, mostrando que gostamos e confiamos neles. porque os nossos filhos, quando tudo está certo, também estão programados para nos imitar e seguir o que fazemos. 

Compreender este mecanismo também nos ajuda a perceber que quando uma criança pequena desata a chorar quando os pais a vão buscar à creche por exemplo, significa que está a descarregar todo aquele stress e estado de alerta que sentiu durante o dia com as pessoas com quem se sente segura e que isto mostra, por um lado, que a creche ainda não é um local seguro e por outro que apesar de tudo também ainda não é tão ameaçador que a tenha obrigado a desligar esse instinto de vez. 

Compreender o instinto de apego também é importante para uma mãe ou um pai que precisam de se ausentar por alguns dias quando têm uma criança pequena. Porque nos permite ver com outras luz todas as alterações de comportamento que irão com certeza surgir com a nossa volta. E permite-nos também ter a capacidade de o ajudar a lidar o melhor possível com tudo que possa ter surgido nessa ausência.

É à luz deste mecanismo que também precisamos de olhar para os castigos e as palmadas para conseguirmos compreender as suas verdadeiras consequências, como já expliquei aqui

Porque é através deste instinto de apego e da sua compreensão que parte a nossa capacidade de criar filhos verdadeiramente resilientes e capazes de enfrentar os desafios. Porque este instinto é a verdadeira base da nossa força interior e o ponto até que somos capazes de o preservar e manter intacto é também o que faz toda a diferença na nossa capacidade de lidar com as adversidades e até de tirar partido delas ou de nos tornarmos simplesmente vítimas das circunstâncias. É a capacidade de amar que nos torna humanos, é o amor que dá sentido à vida e é só a partir dele que podemos construir vidas verdadeiramente felizes e realizadas. Mas sem este instinto de apego não podemos aprender a amar. Sem este instinto não somos capazes de nos tornar verdadeiramente humanos. 

Não acredito em pessoas más que tiveram infâncias boas. É verdade que existem algumas perturbações neurológicas que não têm nada a ver com infância da pessoa. O autismo, por exemplo, durante muito tempo pensou-se que tinha a ver com a frieza dos pais e hoje sabe-se que é uma desordem neurológica e uma perturbação na forma como o cérebro se desenvolve embora não se saiba ainda porque é que acontece. Mas a verdade é que estas perturbações na grande maioria das vezes não estão associadas a crimes violentos nem áquilo que chamamos de maldade.

Essa maldade e as pessoas a quem chamamos de psicopatas basicamente são pessoas sem a capacidade de amar e isto só pode acontecer numa pessoa que nunca se sentiu amada. E é preciso percebermos que, para uma criança, ser amada ou sentir-se amada são duas coisas diferentes. Todos os pais amam os filhos mas nem sempre sabemos demonstrá-lo da melhor maneira.

Este meu livro serve também para nos ajudar a perceber a melhor forma de comunicar esse amor aos nossos filhos e a melhor forma de sermos capazes de proteger e honrar esse instinto de apego tão importante que podemos mesmo dizer que forma a pedra basilar da nossa humanidade, porque, como também explico no livro, é à sua volta que toda a nossa personalidade se forma e é a forma como ele nos estrutura que também defina a nossa maneira de estar no mundo e de nos relacionarmos com os outros e até connosco próprios.  



segunda-feira, 25 de junho de 2018

Crianças separadas dos pais e política de coração fechado

Nas notícias ultimamente o mundo tem assistido em choque ao que os E.U.A têm vindo a fazer com a sua política de imigração que separa pais e crianças, pequenas ou grandes.  Muitos psicólogos, pediatras e investigadores nas áreas do apego e do stress têm-se manifestado contra a gravidade desta política e aproveitado para tentar explicar a gravidade e o impacto que podem ter este tipo de situações, como se pode ler neste artigo, da conhecida Psychology Today, assinado por quarenta investigadores desta área.


É muito importante percebermos as consequências deste tipo de políticas porque se é chocante  para todos ver uma criança a chorar porque está num sítio estranho, ameaçador sem os seus pais é muito importante que percebamos que, infelizmente, as consequências de um trauma deste tipo não irão acabar quando a criança voltar a estar com os pais e podem mesmo prolongar-se por toda a sua vida.

Já há algum tempo que vários investigadores e teóricos do desenvolvimento defendem que, para uma criança, é mais importante a necessidade de se sentir ligada a um adulto que cuide de si do que a própria necessidade de alimento que, até aos anos 50 se acreditava ser a mais importante. Isto faz  todo o sentido se pensarmos que, para um bebé humano se alimentar ele precisa de ter uma ligação com um adulto que se preocupe e se importe consigo o suficiente para lhe dar esse alimento com a frequência necessária e também precisa de manter essa ligação para ter alguém que cuide das suas necessidades físicas mais básicas, como manter-se limpo, quente e num ambiente protegido.

Por isso todo o instinto dos bebés e crianças lhes diz que precisam de estabelecer essa ligação que acontece com as pessoas que cuidam de si durante a maior parte do tempo. E esse mesmo instinto também lhes diz que, sobretudo em situações de perigo, é a essas pessoas que precisa de recorrer e que são essas pessoas as responsáveis por manterem a sua integridade física e por lhe darem o sentimento de conforto e de protecção de que necessita. Se, por algum motivo, a criança ou o bebé sente essa ligação ameaçada ou se sente que alguma coisa do exterior o pode estar a colocar em perigo todo o seu organismo entra num estado de alerta que, se se prolongar por muito tempo, se torna naquilo a que chamamos o stress tóxico, que causa vários prejuízos à sua saúde e que prejudica e limita muito todo o seu desenvolvimento neurológico e cerebral.

É também este instinto de apego que diz às crianças que quando estão em sítios estranhos devem procurar a protecção dos seus pais, para se sentirem seguras. E é isso que qualquer criança saudável demonstra claramente no seu primeiro dia de escola ou em tantas outras situações estranhas: que quer ficar junto daqueles com que se sente segura e a quem está mais ligada.

O que é que acontece às crianças em situações tão traumáticas como esta?

Aquilo que pode ser observado nestes casos é que uma criança saudável e segura começa  por protestar com todas as suas forças, activando o seu instinto de apego, na tentativa de fazer com que os seus pais a oiçam e respondam aos seus protestos fazendo-a sentir-se novamente protegida. O choro é um mecanismo que tem como finalidade fazer com que os pais reajam e respondam à situação, preenchendo assim as necessidades da criança.

Mas, se não há uma resposta a esse choro, então ele não está a cumprir a sua finalidade. Por isso, com o tempo esses protestos vão diminuindo de intensidade e, se esta situação se prolongar, acabam mesmo por desaparecer. O que não quer dizer que desapareça o estado de alerta. De um ponto de vista fisiológico a criança pode continuar num estado de alerta e de activação mas o choro passa a ser um desperdício de energia, se não se obtém resposta, e o organismo, sobretudo em alturas de tensão, precisa de conservar ao máximo essa energia para garantir a sua sobrevivência.

E isto é o que muitas vezes faz com que os adultos pensem que a criança está a aprender a lidar com a situação: o facto do choro, a manifestação mais visível de sofrimento, começar a desaparecer ao final de algum tempo. E, na realidade, a criança até parece tornar-se mais autónoma, independente e pode até dar um falso ar de segurança que pode enganar um olhar menos atento. Isto porque a criança tenta a todo o custo adaptar-se à situação para conseguir sobreviver. Mas esta adaptação tem um custo: ela precisa de se desligar dos seus sinais de alarme. Porque enquanto estes estiverem ligados, com toda a sua intensidade, ela não vai ser capaz de fazer mais nada e isso pode por em perigo a sua sobrevivência. Acontece que a única forma eficaz de desligar esse alarme seria a presença dos pais, que podem trazer de volta o sentimento de segurança. Mas, sem essa presença, já que não há forma de desligar eficazmente esse alarme então, tudo o que resta, é tentar ignorar os seus sinais. Mas para isso a criança também tem de desligar a parte de si que se sente ameaçada e que sabe que precisa de manter essa ligação com os pais. Porque se continuar a estar sempre consciente dessa falta, desse instinto de apego que não está a ser satisfeito mantém-se a frustração que se torna demasiado intensa para lhe permitir lidar com o que quer que seja para além disso. Então, a única forma de uma criança lidar com uma separação demasiado prolongada é desligar a sua consciência dessa parte de si que sabe que precisa de manter a ligação com os pais ou com as suas figuras de apego.

Por isso o que acontece nestes casos, quando a ausência destas figuras foi demasiado dura ou demasiado longa para a criança, é que - quando ela volta a reunir-se com as suas figuras de apego - já há um distanciamento ou um desinteresse da sua parte nesta reunião. Quando a ausência foi difícil mas não tanto que ela precisa de se desligar desses sentimentos o que pode acontecer é que a criança, ao ver o pai ou a mãe, desata num choro intenso como se fosse uma espécie de descarga. Isto acontece muitas vezes quando os pais vão buscar os filhos à creche e é apenas sinal de que aquela ausência foi dura para a criança e de que ela não tinha um ambiente seguro onde pudesse aprender a lidar com essa tensão, mas ainda é relativamente fácil reparar essa situação, porque a criança ainda não se desligou do que está a sentir e ainda o demonstra procurando o colo dos pais para chorar.

Mas, quando a dor dessa ausência foi tão grande que ela precisou de desligar essa parte de si que estava a sofrer com essa ausência, isto quer dizer que não será fácil para a criança reactivar essa parte de si, voltar a abrir o seu coração e voltar a confiar nos pais. Vi um vídeo de um menino da Guatemala, que deveria ter uns quatro ou cinco anos e esteve separado da mãe durante algumas semanas nos E.U.A, por causa desta política. Quando finalmente se reencontraram a mãe chorou e abraçou-o repetindo várias vezes que o amava e que não iriam voltar a separar-se. O menino pareceu deixar sair algumas lágrimas (apenas porque se vê a mãe a limpar-lhe o rosto) mas não abraçou a mãe, não chorou intensamente como ela e não disse nada enquanto era abraçado. Um pouco mais tarde vê-se na filmagem a criança a ser levada pela mão de outra pessoa, com um ar triste mas, ao mesmo tempo, quase apático, enquanto a mãe seguia atrás dele, ainda com um ar emocionado e os olhos cheios de lágrimas. Os jornalistas que filmaram esta cena, comentavam o comportamento da criança dizendo que estava tão bem comportado e tão calmo.

Este pequeno vídeo demonstra bem como a criança foi afectada por esta separação: ela foi tão dura que ele já nem conseguia abrir o seu coração para chorar por tudo o que tinha passado. Já não conseguia sentir-se suficientemente seguro para chorar, nem sequer com a própria mãe. Já não conseguia sequer lembrar-se de que esse seu instinto de apego existia e por isso já quase lhe era indiferente estar com a mãe ou com um estranho. Se assim não fosse ele não se deixaria levar calmamente pela mão por outra pessoa enquanto a mãe caminhava atrás de si, por exemplo. É possível que com o tempo, se mãe for capaz de acolher a ferida enorme daquela criança, ela consiga reparar um pouco a situação. Mas não há dúvidas de que aquele menino foi seriamente abalado na sua capacidade de confiar nos outros, no mundo e em si próprio. E a verdade é que, se não tivermos consciência do enorme impacto que este tipo de separação pode ter numa criança, pode ser muito difícil também para os pais lidar com todas as alterações de comportamento que irão com certeza surgir. O que, por sua vez, só irá servir para acentuar ainda mais todos os efeitos do trauma.

Estudos com macacos bebés, de que já falei aqui, mostram como a ausência da mãe, mesmo quando tudo o resto se mantém, cria uma fragilidade que pode fazer com que as crias passem a ter maior dificuldade em lidar com os desafios e com o stress ao longo da vida.

Investigações feitas na Finlândia também demonstraram isto: durante a segunda guerra mundial houve varias crianças que foram separadas dos pais. Investigações posteriores mostraram que as crianças que foram levadas para longe da família, sofreram mais danos na sua saúde mental, do que aquelas que ficaram e tiveram de enfrentar todos os horrores e dificuldades da guerra. A grande diferença nestes casos é que as que ficaram, até podem ter passado mais dificuldades materiais e ter sido expostas a situações mais violentas mas tinham o mais importante para conseguir lidar com isso: a relação com os pais. É essa relação o amortecedor mais importante em todas as situações de stress e é dela que precisamos de cuidar antes de tudo o resto. 

A triste ironia desta situação é que o próprio Trump foi com certeza vítima de uma infância em que as suas necessidades de acolhimento, protecção e segurança não foram tidas em conta. Não conheço a história dele mas conheço o suficiente sobre o desenvolvimento humano para perceber que o coração dele também se fechou algures no tempo, não sei se por causa de um trauma muito intenso ou por causa de várias situações traumáticas que se terão repetido com frequência na sua vida. Na verdade é isto o mais comum nestes casos: pode não haver nenhuma situação muito marcante na vida das crianças mas vão existindo várias situações diárias em que a criança se sente negligenciada, não reconhecida, em que vê a sua ligação com as suas figuras de referência ameaçada. Esta ameaça pode ser real, como  no caso destas crianças separadas, ou pode ser apenas uma sensação que a criança tem de que os pais não são capazes de a aceitar como é, ou que não são capazes de a proteger, de a manter segura. E são estas situações que vão deixando marcas tão fundas ao ponto de ser possível observar as diferenças no desenvolvimento cerebral, nos estados de activação fisiológica - sobretudo em situações de desafio - mas, mais importante, na forma de lidar com os outros e  na capacidade de estabelecer boas relações.

É claro que para os pais também é traumático ficar sem os filhos. A grande diferença é que, primeiro, os pais não precisam dos filhos para se sentirem protegidos e, segundo, o seu organismo já não está em desenvolvimento. As crianças ainda estão em formação, por isso, tudo o que acontece, sobretudo nos primeiros anos de vida, tem um impacto muito maior do que nos adultos e determina a forma como o seu organismo se desenvolve e a sua personalidade se molda.

Uma criança que cresceu sem ter oportunidade de confiar nos outros é também uma criança que cresce sem perceber que é essa a nossa maior riqueza: a relação que temos e construímos com as outras pessoas. Por isso é muito fácil que essa criança se torne num adulto narcisista e materialista em que as pessoas são vistas apenas como meios para atingir um fim. Porque algures na sua história essa criança foi forçada a fechar o seu coração aos sentimentos e a desvalorizar todo o tipo de relacionamentos.

Por isso é mesmo tristemente irónico que este tipo de políticas, acabem por dar origem a pessoas como Donald Trump, ou a pessoas que o apoiam, numa espécie de ciclo vicioso que pode continuar para sempre se não tivermos consciência dos seus efeitos. Porque a única forma de construirmos um mundo justo é percebermos que precisamos de respeitar as crianças de hoje. Porque uma criança que é obrigada a fechar o seu coração será um adulto com muita dificuldade de o abrir. E um adulto que não abre o coração é um adulto que não sente empatia e sem ela fica muito difícil deixar-se tocar pelo sofrimento dos outros, principalmente quando este colide com os seus próprios interesses egoístas. 

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Bullies, emoções e stress

Na escola do meu filho, esta semana, falámos de bullying. Este é um fenómeno cada vez mais presente nas escolas e na vida dos nossos filhos, infelizmente, por isso é importante compreendê-lo. Uma das coisas em que acredito cada vez mais é que o mais importante não é tanto ficarmos focados em como é que as crianças devem lidar com isto mas em como é que nós, adultos, podemos fazer com que isto deixe de acontecer. Somos nós, adultos que precisamos de compreender e de encontrar estratégias para lidar com estas coisas quando elas acontecem e não propriamente as crianças. Na verdade, acredito que, se nós, enquanto adultos, soubermos cumprir o nosso papel e tivermos a consciência e a segurança necessária para o fazer, estas situações não acontecerão com tanta facilidade e passo a explicar porquê. 

A educação emocional e o stress tóxico

A questão da educação emocional surge muitas vezes quando se fala neste tema, como se fosse uma forma de o resolvermos.
Hoje fala-se cada vez mais em inteligência emocional e há uma certa tendência para acharmos que, assim como as outras inteligências são treinadas na escola, também esta poderia ser se houvesse abertura por parte dos professores e outros responsáveis para construir programas mais vocacionados para as emoções. Na verdade, a Psicologia Positiva veio demonstrar que a inteligência emocional é bem mais importante para o sucesso do que aquele tipo de inteligência mais racional ou intelectual que é medida pelo Q.I.

E uma boa parte da inteligência emocional passa por sermos capazes de identificar o que sentimos, na altura em que o sentimos e por sermos capazes de dar nomes aos nossos sentimentos. Há estudos que demonstram que o simples facto de aprendemos a nomear o que sentimos nos ajuda a lidar melhor com as emoções e a ser mais capazes de enfrentar os desafios e de lidar com as emoções mais intensas e difíceis.

Então, seguindo esta lógica, é natural que pensemos que será útil ensinar as crianças a reconhecer e a nomear aquilo que sentem. Só que há um problema nesta lógica: para entrarmos em contacto, de verdade, com as nossas emoções precisamos - todos, adultos e crianças - de nos sentir em segurança. Se uma criança se sente insegura ou ameaçada de algum modo, ela entra num modo defensivo que bloqueia o acesso às suas emoções e sentimentos. 

Quando nos sentimos inseguros ou ameaçados entra em funcionamento o nosso sistema nervoso simpático que liga a resposta de luta ou fuga que, por sua vez, desliga a nossa capacidade de entrar em contacto com os sentimentos ou emoções mais profundas porque esta é uma resposta de emergência que nos coloca num estado de alerta em que ficamos muito mais focados em encontrar soluções imediatas para as potenciais ameaças que possam surgir. E, neste estado de alerta não é possível entrar em contacto com emoções mais intensas ou profundas porque elas podem funcionar como uma espécie de bloqueio: quando sentimos muita tristeza, frustração ou medo ficamos sem vontade de lidar com mais nada e com muito menos capacidade de lidar com os desafios. Por isso a natureza certificou-se de que o nosso sistema de resposta ao stress desliga a capacidade de sentir estas emoções, porque, em situações de emergência, não podemos dar-nos ao luxo de ficar paralisados pela tristeza ou frustração já que precisamos de reagir e de responder às ameaças que possam surgir. 

Acontece que as crianças, por natureza, são seres dependentes. As crianças nascem com um instinto de apego, que lhes diz que precisam de manter uma boa ligação com, pelo menos um adulto capaz de as acolher e respeitar, para poderem sentir-se seguras.  Então sempre que uma criança sente que essa ligação não existe ou que ela está em perigo isto dá origem a sentimentos muito intensos de angústia, de frustração e de medo que são difíceis de enfrentar. Se estes sentimentos surgem repetidamente, como acontece quando a criança se sente frequentemente rejeitada, magoada ou negligenciada pelas pessoas que cuidam dela, então ela passa a estar constantemente exposta ao que podemos chamar stress tóxico que, por sua vez, a faz ficar de forma quase constante num estado de alerta. Este estado de alerta faz com que ela se desligue desses sentimentos de tristeza ou medo mas também faz com que ela se desligue do seu instinto de apego, porque este está a ser uma fonte constante de sofrimento. Assim, a criança passa a viver num modo defensivo permanente que pode ser observado em vários comportamentos associados à ansiedade. Embora, nos casos mais graves, essa ansiedade já nem se veja porque já foi também ela desligada porque era tão grande que a criança precisou de activar o estado seguinte que está associado a uma resposta de congelamento que, algumas vezes, pode ser confundido até com uma falsa independência ou autonomia. (Explico de forma mais aprofundada estas questões no meu livro, Mindfulness para Pais, sobretudo no capítulo
dedicado à teoria Polivaga).

Infelizmente vivemos numa sociedade em que as crianças são expostas a uma separação das suas figuras de apego muito maior do que aquela com que estão preparadas para lidar, porque passam muitas horas na escola e porque, muitas vezes, os métodos de disciplinar e de educar também acabam por estimular esse sentimento de separação, como já expliquei neste artigo e também neste.

Isto quer dizer que, nas escolas, o mais frequente é que as crianças, sobretudo as mais novas, estejam nesse estado de alarme e de defesa que já não lhes permite entrar em contacto com o que estão a sentir, porque passam o dia longe dos pais e, na maior parte dos casos, não há um outro adulto que possa ser uma figura de apego ou que possa estabelecer com elas uma relação segura.

Então, na verdade, as escolas, tal como funcionam nos nossos dias, não são o melhor sítio para falar de educação emocional porque não adianta falar de emoções a uma criança que não se sente segura o suficiente para as vivenciar. É importante falar sobre emoções com as crianças, sim, mas só faz sentido fazê-lo no contexto de uma relação segura, em que a criança não tenha receio de abrir o coração e de olhar de verdade para dentro de si e para o que possa sentir. E isto, infelizmente, é difícil de acontecer na maioria das nossas escolas, por várias razões mas também porque o número de alunos é quase sempre demasiado elevado para que os adultos possam ter verdadeira disponibilidade para construir essas relações com eles.

O desenvolvimento do cérebro e as emoções

Outra coisa que é essencial para uma verdadeira educação emocional é que a criança se torne capaz de reflectir sobre aquilo que sente. Na verdade é isto que nos distingue dos animais: eles também têm emoções mas não são capazes (tanto quanto sabemos) de pensar sobre elas. As crianças também têm, desde que nascem a capacidade de sentir as suas emoções mas, só com o tempo é que vão aprendendo a reflectir sobre elas.

Mas, para que isto seja possível, é preciso que se desenvolva uma parte específica do nosso cérebro: o cortex-pré-frontal, que é característico dos seres humanos e que é também a última parte do cérebro a desenvolver-se. Esta zona do cérebro só começa o seu desenvolvimento a partir dos seis anos de idade e acredita-se que continua até cerca dos vinte e quatro ou vinte cinco anos de idade. Na verdade, há muitos adultos que ainda não desenvolveram bem essa zona. Porque para que esta  se desenvolva da melhor forma a criança não pode ser demasiado exposta aos tais níveis de stress tóxico que já se sabe que prejudicam o desenvolvimento de algumas áreas do cérebro, nomeadamente desta. Na verdade, a natureza é sábia e o desenvolvimento desta zona não é crucial para a nossa sobrevivência. Por isso, quando a criança é exposta a demasiado stress é como se o seu organismo precisasse de conservar toda a sua energia para enfrentar as ameaças e não sobrasse a energia necessária para o desenvolvimento de tudo o que não seja essencial à vida.

A única forma desta zona desenvolver todo o seu potencial é através desse sentimento de segurança que se gera quando a criança se sente segura e acolhida pelas suas figuras de apego. É só através desse relacionamento que ela poderá realmente aprender a lidar com as emoções e a pensar sobre elas e é isso que irá permitir um bom desenvolvimento desta zona que, por sua vez, também irá facilitar esta tarefa.

Sabe-se até, como  já expliquei aqui e aqui que um fraco desenvolvimento desta zona pode estar na origem de uma condição cada vez mais comum: o défice de atenção.

Se queremos ajudar a criança a pensar sobre as suas emoções sem nos preocuparmos com as condições físicas para que ela o possa fazer - que dependem da segurança das suas ligações com as figuras de apego - é o mesmo que começar a fazer uma casa pelo telhado: não há nenhuma base para sustentar o que queremos transmitir-lhes. 

A personalidade do Bully 

Gordon Neufeld de quem falo muito aqui porque a teoria que ele construiu é realmente o modelo de desenvolvimento mais completo que conheço, fala também do bullying e do tipo de crianças que o faz. Ele explica que o que está na base deste tipo de comportamento é aquilo a que ele chama o instinto alfa. Este instinto alfa existe em todos nós, mas pode ser um pouco mais forte em algumas pessoas do que noutras. Este instinto está ligado a uma noção de hierarquia que nos faz estar atentos às fragilidades dos outros e adoptar uma postura de dominância quando as identificamos. Neufeld fala numa hierarquia natural, numa dança que acontece naturalmente: no nosso dia-a-dia de adultos, vamos alternando entre uma posição de dependência e de dominância, consoante as situações. Isto quando tudo está bem, quando existem problemas pode acontecer que se gere uma rigidez em que, por vezes, acabamos por ficar presos num ou noutro papel. Este é o caso dos bullies que vivem nesta rigidez e acabam por ficar presos na posição de dominância.

Numa relação de educação, entre pais e filhos ou alunos e professores é muito importante que os pais permaneçam na posição alfa, e os filhos fiquem na posição de dependência, pelo menos durante a maior parte do tempo, porque só assim é que será possível orientá-los e só assim é que eles podem descansar de verdade. Porque estar sempre na posição alfa é muito cansativo, então, se queremos que as crianças descansem e relaxem de verdade é essencial que elas sejam capazes de assumir o seu papel de dependentes connosco e que estejamos preparados para assumir o nosso papel de guias. Hoje em dia há muito quem diga que devemos encarar as crianças como nossos iguais, mas isto não é verdade. As crianças precisam de se sentir cuidadas e protegidas e não podem senti-lo se nos colocarmos ao mesmo nível que elas. 

Elas precisam de sentir que nós, enquanto pais, somos capazes de assumir o controlo e só assim é que elas podem descansar de verdade. Neufeld tem uma expressão muito bonita que diz que precisamos de fazer com que as crianças descansem no nosso amor. E uma criança só descansa quando se sente protegida. Se não se sentir segura e protegida ela está sempre em modo de alerta, com toda a activação do sistema simpático que impede um verdadeiro descanso e que está relacionada com tantos problemas de ansiedade que vemos nas crianças de hoje em dia.


Então, quando uma criança não se sente protegida, uma das defesas que ela tem é justamente activar esse instinto alfa e é aqui que surgem aquelas crianças que geralmente chamamos mandonas ou pequenos tiranos. Aqui a criança está a tentar assumir o controlo, porque sente que ninguém está a ser capaz de cuidar de si como deveria. Acontece que, quando este instinto alfa está activo mas existe um desenvolvimento saudável, ele surge associado à vontade de cuidar dos mais fracos. Este instinto traz consigo uma maior facilidade em identificar as fragilidades e as necessidades dos outros, justamente para que sejamos mais capazes de as preencher. É isto que deve acontecer entre irmãos, por exemplo, quando existe essa tal hierarquia natural e é também uma das razões pelas quais é mais fácil e mais tranquilo muitas vezes para as crianças relacionarem-se com crianças de outras idades do que com crianças da mesma idade: porque quando este instinto se activa naturalmente, um passa a dominante e o outro a dependente e tudo funciona com harmonia e quando isto não acontece há mais tensão e competitividade. É graças a este instinto que as crianças mais velhas têm naturalmente vontade de cuidar e proteger as mais novas e também é este instinto que nos faz a nós, adultos, querer cuidar das crianças e de todos os que identificamos como mais frágeis do que nós. Acontece que estar sempre na posição de cuidador é muito cansativo por isso é importante que também saibamos deixar-nos cuidar e isso só se aprende se, na infância, isto tiver sido fácil para nós. Se na nossa infância era muito difícil confiarmos nos nossos pais ou nos adultos que cuidavam de nós então podemos ficar sempre com  dificuldade de adoptar esse papel de dependência, que está associado a uma grande dificuldade de relaxar de verdade e pode estar na origem de vários problemas de ansiedade.

Mas, o que acontece no caso dos bullies é que, apesar de terem este instinto alfa muito activo, eles já estão desligados dos seus sentimentos e por isso não conseguem juntar a este instinto essa motivação para cuidar e proteger os outros quando identificam as suas fragilidades. Por isso eles ficam atentos aos seus pontos fracos mas não para cuidar ou proteger e sim para dominar e explorar essas fraquezas a seu favor. Por isto Neufeld explica que a pior coisa que podemos fazer com um Bully é dizer-lhe que nos magoou, porque isso só lhe chama ainda mais a atenção para as nossas fragilidades e só o faz sentir-se ainda mais no controlo, dando-lhe cada vez mais vontade de nos manipular. 

É verdade que os bullies também precisam de ser ajudados mas para os ajudar a prioridade é mesmo criar uma ponte com alguém, com um adulto que se importe de verdade com a criança e que seja capaz de lhe transmitir isso mesmo e que lhe dê um espaço em que ela possa aprender a voltar a confiar. E isto não é fácil nem rápido mas é a única forma de fazer com que voltem a entrar em contacto com os seus sentimentos e também com que lhes seja possível sair deste estado de dominância.

Para as vítimas o mais importante é exactamente o mesmo: é garantir que existe alguém com quem se sentem seguras, em quem podem confiar e que as possa ajudar a lidar com que sentem. A protecção mais importante é mesmo esta: garantir que existe pelo menos um adulto que se importa e com quem a criança se sente segura. E para que essa segurança exista é fundamental também que não tenhamos medo de acolher os sentimentos deles: de frustração, de tristeza, de medo e todos os que possam surgir. É muito importante que eles saibam que esses são sentimentos normais, que também fazem parte da vida e é fundamental que cresçam com essa segurança de que é possível viver esses sentimentos sem lutar com eles e que é possível passar por toda a tristeza, por todo o medo e toda a frustração e ainda ser feliz e ter uma vida boa. Porque só assim é que poderão crescer sem ter medo de si próprios ou daquilo que sentem.

Então volto ao que escrevi no início deste texto: a melhor protecção para o bullying, aquilo que é mais importante, é que os adultos saibam exactamente o seu lugar na vida das crianças e que não tenham medo de o assumir. Porque se os adultos souberem o seu lugar e como este é importante, estas situações não acontecem ou, pelo menos, tornam-se muito mais fáceis de resolver.

Aquilo que as nossas crianças precisam é, em primeiro lugar, é de pais com mais tempo, mais disponibilidade e mais segurança no seu papel de pais. E depois, nas escolas, precisamos também de adultos que saibam assumir um papel de liderança e que saibam como são importantes. Numa escola primária, por exemplo, o mais frequente é que os professores não estejam nos recreios e que as auxiliares estejam por lá apenas a vigiar. E é nos recreios que estas coisas acontecem. E os recreios são um lugar de enorme sofrimento para muitas crianças. Mas muitas vezes achamos que o melhor é deixá-los entregues a si mesmos e acreditamos que estamos a fomentar autonomia quando os deixamos resolver sozinhos os seus conflitos e problemas. Mas isto não é verdade. A verdadeira autonomia vem de não termos medo do que sentimos e de não termos medo de lidar com as emoções e isto só acontece se nos sentirmos seguros e para essa segurança existir as crianças precisam de adultos presentes, atentos e disponíveis. E, para isso, os adultos no recreio não podem servir só para resolver problemas e muito menos para castigar, precisam de encontrar uma maneira de fazer com que as crianças os encarem como referências e isso só é possível se forem capazes de gostar verdadeiramente delas e de mostrar que estão presentes e que querem fazer parte das suas vidas.

Se os adultos estiverem presentes e disponíveis de verdade não são precisos castigos, porque as crianças se importam com os que eles dizem e os encaram como modelos. Se não houver esta ligação os castigos não servem de nada e até pioram toda a situação. 

Quando uma criança se dirige a um adulto, numa escola, para falar de algo que sente ou que lhe fizeram não podemos desvalorizar isso dizendo que não se fazem queixinhas. Temos de estar presentes ser capazes de ouvir e de intervir se necessário. Porque só assim garantimos o nosso lugar no coração delas e só assim elas se sentirão seguras o suficiente para serem capazes de nos tomar como modelos e de entrarem em contacto com os seus próprios sentimentos, o suficiente, para não magoar os outros e para não se magoarem a si próprias. Não podemos menosprezar o nosso papel nas suas vidas e não podemos esquecer-nos que a verdadeira autonomia se constrói com base na dependência que também tem o seu papel no desenvolvimento e precisa de ser reconhecida. E se queremos de verdade ajudar os nossos filhos e alunos não podemos esquecer-nos de manter sempre aberto o caminho do nosso coração para o deles.

Quando os nossos filhos são a vítima 

Quando os nossos filhos são vítimas de bullying, quando sabemos que foram magoados e sofreram com isso é muito fácil ficarmos revoltados aflitos mas também nós temos de aprender a lidar com isto e saber que, desde que eles encontrem sempre o seu caminho para o nosso coração, não existe nenhuma emoção com que não possam aprender a lidar, desde que nós também estejamos dispostos a lidar com as nossas. Mais do que ficarmos preocupados em ensiná-los a defender-se ou pensarmos no que eles devem dizer, fazer e nas estratégias que podem usar para lidar com quem lhes faz isto o mais importante é pensarmos que enquanto eles tiverem em nós uma base de segurança, o mundo será sempre muito menos assustador. E para que essa base exista é preciso termos tempo para os escutar e é fundamental que sejamos capazes de ser empáticos com o que sentem.

Enquanto formos capazes de manter uma ponte entre o nosso coração e o deles será sempre muito mais fácil que eles encontrem a sua coragem para lidar com este tipo de situações e que se mantenham sempre fieis a si mesmos e às suas emoções, sem medo de as sentir. E isto é tudo o que podemos fazer pelos nossos filhos na verdade: não podemos poupá-los ao sofrimento nem às angústias de ter que lidar com os outros mas podemos dar-lhes uma base sólida e segura onde podem sempre voltar e descansar. Descansar de verdade, no nosso amor, no nosso coração e nos nossos braços. E é nesse descanso que eles irão encontrar a sua capacidade de lidar com os desafios e de enfrentar o medo, a tristeza e a frustração que tantas vezes fazem parte da vida. Aprender a não ter medo do que sentimos é provavelmente o aspecto mais importante de qualquer educação emocional. E só podemos aprender a não ter medo dos nossos sentimentos mais intensos se houver alguém que já tenha feito esse mesmo percurso, que já tenha lidado com esses mesmos sentimentos e que nos ajude a passar por eles, de mãos dadas sempre que for necessário, percebendo que nada de mal acontece no final.