quinta-feira, 21 de maio de 2020

Saúde e relacionamentos

Aquilo que nos torna pessoas são as nossas relações. Aquilo que nos define enquanto espécie é a grande necessidade que temos de estabelecer ligações desde o primeiro momento de vida e a forma como precisamos delas para nos desenvolvermos. 

Estudos feitos com crianças que viveram em situações trágicas como os conhecidos orfanatos da Roménia mostraram bem como, sem a possibilidade de estabelecer ligações as crianças ficavam com problemas de desenvolvimento em todos os níveis: cognitivos, motores e emocionais e até uma estatura abaixo da média. E havia um grande número delas que, mesmo com alimento suficiente e boas condições materiais e de higiene nem sequer chegava a sobreviver. Faillure to thrive foi o nome dado pelos investigadores a esse fenómeno muito observado nessas instituições em que o organismo das crianças simplesmente não conseguia sobreviver ao stress de não ter alguém com quem pudesse construir uma ligação. No caso daquelas a quem era permitido contactar com outras crianças verificou-se que algumas chegaram a criar uma língua própria que só elas entendiam, preenchendo essa necessidade desesperada que tinham de se ligar alguém mesmo que fosse apenas outra criança. 

A conhecida experiência da cara parada ou Still face experiment no seu nome original e todas as investigações tão importantes do seu autor, Ed. Tronick, também demonstram muito bem como é fundamental responder aos bebés e crianças para o seu bom desenvolvimento e como eles o esperam e dependem disso desde os seus primeiros dias. 


Estudos com macaquinhos sacrificados nos anos 50 também mostraram bem a importância do toque e a forma como ele é prioritário até em relação ao próprio alimento. 


Uma investigação da Sue Jonhson, terapeuta de casal, também mostra como o simples facto de termos uma pessoa que amamos a segurar-nos a mão durante um procedimento doloroso diminui bastante o stress e até a própria sensação de dor. 

Ainda há dias comecei a ler um livro de um médico que na sua introdução diz que a solidão é uma causa de morte tão grande como a obesidade e os diabetes. E sabe-se que o sentimento de solidão aumenta em cerca de cinquenta por cento a probabilidade de se sofrer um ataque cardíaco, dando um significado mais literal à expressão de coração partido. Sabe-se também que depois de um episódio de enfarte um dos aspectos mais determinantes para a sobrevivência é a qualidade dos relacionamentos da pessoa. 

Também já foi demonstrado que o sentimento de rejeição activa no cérebro exactamente as mesmas zonas que a dor física, mostrando como este sentimento tem também um papel importante na nossa sobrevivência. Porque evoluímos enquanto espécie com base nessa mesma dependência. Foi o facto de sermos capazes de colaborar que nos permitiu dividir o cuidado com as crias, construir abrigos melhores, armazenar alimentos e tudo o resto que teve um papel fundamental para a nossa sobrevivência. 

Descrevo isto tudo apenas para que nos lembremos daquilo que nos torna pessoas e nos faz crescer e viver bem e com saúde: os relacionamentos. 

Então não podemos esquecer-nos disto nos momentos de crise como o que estamos a viver. É verdade que podemos manter boas relações com algum distanciamento das pessoas que não estão no nosso círculo mais íntimo, também é verdade que podemos usar os ecrãs de vez em quando para as alimentar e também é verdade que, enquanto adultos ou crianças mais crescidas conseguimos criar boas ligações mesmo com uma parte do rosto tapada pelas máscaras porque já conseguimos relacionar-nos mais com base nas palavras e outro tipo de gestos. 

Mas precisamos de nos lembrar que não podemos alimentar ligações apenas e sempre com ecrãs pelo meio, muito menos nas crianças. O ensino à distância não faz sentido para uma criança e faz muito pouco para um jovem. As crianças aprendem quando conseguem sentir-se ligadas aos adultos que ensinam e é muito mais difícil fazer isso através de um ecrã, além de que nem sequer é positivo para o seu desenvolvimento cerebral o uso excessivo de ecrãs, como já expliquei aqui

Mas, mesmo para os adultos a presença física de alguém é insubstituível. Quando estamos com alguém ao pé de nós, a conversar de forma mais íntima e presente, há uma sincronização dos ritmos e um mundo de micro-expressões faciais, que são muito mais difíceis de interpretar num ecrã e que dão ás duas pessoas um sentimento de segurança que , por sua vez, activa o seu circuito social, responsável pelo estado de equilíbrio e sensação de bem-estar e saúde. 

E quando falamos de crianças também é verdade que é possível estabelecer uma ligação com elas mesmo com máscara posta - com crianças mais crescidas não tanto com bebés - mas é muito mais difícil porque ainda não estão tão treinadas a ler as nossas expressões e os seus circuitos sociais são menos desenvolvidos. E se isto até pode funcionar com uma criança calma, equilibrada e com um adulto com quem já exista uma boa ligação, fica tudo muito mais difícil quando a criança está tensa o que acontece muito facilmente quando estão sem os pais.  

E esperar que uma criança fique tranquila sem contacto físico, sem toque, é simplesmente não perceber mesmo nada das suas necessidades, sobretudo para as mais pequenas mas também, ainda que em menor escala, para as mais velhas. 

Ao mesmo tempo também temos pessoas nos hospitais a serem submetidas a cirurgias difíceis e arriscadas e que estão completamente sozinhas. Compreendo que a entrada cada pessoa nova no hospital se torna um novo possível foco de infecção. Mas também sei que essa entrada poderá ter um papel fundamental na recuperação de doenças difíceis e de situações potencialmente traumáticas. Sei que também é arriscado deixarmos sozinhas pessoas que estão a ser tratadas por problemas de saúde graves e assustadores, porque esse sentimento de solidão irá activar no seu organismo uma carga de stress tóxico que poderá eventualmente ser tão letal como o vírus do qual estão a ser protegidas. 

Também me custa muito saber de recém-nascidos que estiveram separados quinze dias das suas mães: para serem protegidos de um vírus arriscam-se a uma vida inteira de traumas causados por essa separação que se sabe que pode ter efeitos destruidores no seu sistema de resposta ao stress, na amamentação e na criação de um vínculo do qual depende toda a organização e estrutura mental da criança. 

Todas estas medidas têm algo em comum: uma visão redutora e limitada do que é a saúde e o não reconhecimento da importância da saúde mental que é construída, em boa parte, através das ligações que criamos. 

Por isso gostava de ver estas questões importantes a entrarem também nas equações. Quando tentamos proteger-nos do vírus gostava que o fizéssemos com a noção de que é também importante para a nossa saúde proteger as relações e libertar-nos do medo que nos faz, neste momento, ver cada um dos outros como um potencial perigo para a nossa saúde. Nunca ouvi dizer tantas vezes que estamos todos juntos mas, a verdade, é que nunca estivemos tão separados. Separados pelo medo que os outros nos infectem, separados pelo medo que os outros não levem isto suficientemente a sério ou separados pelo medo que o levem demasiado a sério. 

Então precisamos de nos juntar naquilo que nos torna mais humanos: o reconhecimento de que todos precisamos uns dos outros para sobreviver, para estar bem e para ser felizes. 

E precisamos que isto comece a pesar tanto nas decisões como as estatísticas que mostram tão bem o lado racional da humanidade mas que falham redondamente naquilo que é mais importante: as emoções. Porque se este lado racional nos trouxe conquistas maravilhosas e fantásticas que melhoraram muito a nossa qualidade de vida a verdade é que também nos afastou daquilo que nos faz felizes: as emoções. 

Um livro muito bom do psiquiatra Ian Mcgilchrist - the master and his emissary - explica como o mundo ocidental valoriza excessivamente as funções do hemisfério esquerdo. E nunca como agora isso foi tão claro para mim. Quando achamos que não há problema em pedir a adultos e crianças que se distanciem e usem máscaras estamos a valorizar demasiado a racionalidade e a deixar completamente de lado todas as funções do hemisfério direito, que é justamente o que analisa a comunicação não verbal e está mais ligado às emoções. Acontece que esta valorização excessiva do hemisfério esquerdo, com todos os benefícios importantes que nos trouxe, como o conhecimento científico, também tem uma responsabilidade importante no crescente mal estar, ansiedade e depressão que se vêem hoje em dia. É através do hemisfério direito que nos ligamos ao corpo e às emoções. E é só através do contacto com estas que podemos ser felizes e ter vidas preenchidas.


O hemisfério esquerdo permite-nos fazer coisas muito importantes, como dar nomes ao que sentimos e perceber porque acontece. Mas sem o direito ficamos vazios, reduzidos apenas ao intelecto podemos conquistar muitas coisas mas sem amor a vida não faz sentido.



Precisamos de encontrar um equilíbrio que nos permita perceber que se queremos viver bem, não apenas sobreviver, controlar o vírus não pode ser a nossa única preocupação.



Precisamos de ter noção que uma boa parte da comunicação acontece de forma não verbal. E quando alguém usa máscara e se distancia aquilo que o nosso organismo lê é um sinal de perigo.

Não sou contra o uso da máscara em situações específicas, como transportes públicos por exemplo. Mas precisamos de não as normalizar demasiado sob pena de anularmos e desvalorizarmos completamente o nosso hemisfério direito, anulando também tudo o que nos torna humanos e nos permite ser felizes.



E se isto é válido para os adultos, é ainda mais importante para as crianças em que o cérebro ainda está a organizar-se de formas que se irão tornar permanentes.

E sobretudo não podemos distancia-nos um dos outros e continuar a encarar todos como potenciais transmissores de vírus perigosos sob pena de vermos gravemente afectada a nossa saúde mental. 

Não acredito que esta crise nos traga muitas coisas boas, porque durante uma crise tudo o que queremos é sobreviver. Mas gostava muito que, no futuro, começássemos a ser mais capazes de valorizar as emoções e as relações como o património mais importante da humanidade e aquele que precisa mais de ser protegido e valorizado e que percebêssemos que não se pode falar de saúde física sem pensar na mental e sem pensar nas emoções e nas relações porque elas fazem parte de um todo inseparável que não pode ser analisado separadamente. Mesmo que seja impossível pô-las no microscópio como já fazemos com os vírus. 



quinta-feira, 9 de abril de 2020

Aprender a brincar

Neste momento as escolas estão-se a preparar para um terceiro período virtual mas, infelizmente, não acredito que esta seja a melhor opção.
Já têm sido muito faladas as dificuldades que isto apresenta às famílias com a gestão do teletrabalho, ou em famílias com vários filhos e poucos computadores ou a desigualdade também provocada pela inexistência de computadores em tantas casas.
Mas, para além de tudo isto que são questões importantes, também existem outras que têm sido menos debatidas mas que considero igualmente importantes.

Não acredito que o estudo através de um ecrã seja a melhor forma de aprender, sobretudo para os mais novos em que o cérebro ainda está em formação.

Sabemos já há algum tempo que o conteúdo de tudo o que vamos aprendendo muda a estrutura do nosso cérebro, construindo novas sinapses e redes neuronais em função das aprendizagens feitas. Mas, o que estamos mais recentemente a aprender é que a forma como aprendemos também molda o nosso cérebro tanto ou até mais do que conteúdo.

Já existem vários estudos que demonstram que ler o mesmo texto num ecrã ou no papel não tem o mesmo resultado. Em experiências feitas para avaliar isto verificou-se que as pessoas que liam no papel tinham mais facilidade em assimilar os conteúdos e perceber aquilo que estavam a ler do que aquelas que liam num ecrã. 

Sempre que lemos alguma coisa num ecrã, com ligação à internet a nossa mente precisa de fazer avaliações constantes, sobre toda a restante informação que não pára de chegar e que pode não ter nada a ver com o conteúdo do texto. Mas mesmo que a informação seja relevante para o conteúdo - como acontece quando os textos têm mais links, por exemplo -  a nossa capacidade de assimilação e concentração torna-se ainda mais reduzida. Isto acontece porque a nossa mente precisa de avaliar, primeiro se aquela informação é ou não relevante e depois se devemos ou não abrir o link. Isto pode parecer pouco mas a verdade é que para o fazermos precisamos de abrir outras partes da nossa atenção que quebram a concentração necessária e fundamental para assimilar um texto e pensar sobre ele de forma mais aprofundada. Por isso alguns estudos também demonstram que quanto mais rico, do ponto de vista digital, for o texto ou a informação transmitida menor será a nossa capacidade de a assimilar, ao contrário daquilo que tantas vezes temos tendência para pensar. Há uma tendência natural para pensarmos que um vídeo no youtube por exemplo é uma boa forma de fazer as crianças aprenderem algo sobre determinado tema. É verdade que um vídeo capta mais facilmente a atenção do que um texto, e um vídeo mais rico com mais música, cor e movimento chama mais a atenção do que outro mais pobre. Acontece que chamar a atenção não é exactamente o mesmo que aprender. E a forma com os ecrãs captam a nossa atenção deixa-nos num estado de semi-passividade que, na verdade, é contrário aquilo que é preciso para sermos capazes de aprender a pensar e não apenas meros receptores de conteúdos. Quando vemos um vídeo a nossa mente fica ocupada a avaliar todas as outras informações que não param de chegar e sobra menos espaço para se focar verdadeiramente naquele tema. Por isso hoje em dia temos é fácil termos acesso a muita informação mas esta acaba por ser superficial na maior parte das vezes.

Quando estamos a ler um livro, essas distracções não existem e por isso a nossa mente fica livre para se focar verdadeiramente no tema que está a ser tratado e acaba por ser capaz de memorizar e assimilar a informação de forma mais completa, ao mesmo tempo que temos mais capacidade para reflectir de forma mais profunda sobre aquele tema.

Mas, talvez até mais importante do que isto, é o que acontece quando estamos a ler no papel: a nossa mente está a aprender a manter o foco e isto também está associado a uma maior capacidade de gerir a nossa atenção o que, por sua vez, está associado a um maior bem-estar e satisfação. Quando estamos online existem constantemente distracções, a nossa capacidade de foco fica muito mais limitada, saltitamos constantemente de uma informação para outra e isto faz com que o cérebro perca a sua capacidade de se manter focado o que, por sua vez, está associado a muitos problemas de ansiedade e a um sentimento de agitação e mal estar constante.

Um dos grandes benefícios da meditação é justamente treinar essa capacidade de manter o foco e é esta capacidade que é responsável por uma boa parte dos sentimentos de bem-estar e tranquilidade que a meditação pode trazer. E isto é precisamente o oposto daquilo que acontece sempre que estamos online, em que, mesmo que estejamos a ler um texto ou a tentar aprender alguma coisa, a nossa mente tem de fazer essas avaliações permanentes que reduzem um pouco a sua capacidade de manter o foco. E quanto mais tempo passarmos a fazê-lo mais difícil se torna manter esse foco, mesmo quando já não estamos online.

Se isto é verdade para adultos, será ainda mais importante pensar nos efeitos que isto poderá ter nas crianças que estão ainda em fase de aprendizagem e formação e em que todas as experiências têm um um impacto ainda maior na formação do seu cérebro. 
Por isso não acredito que manter a aprendizagem através da internet seja o mais acertado para as nossas crianças neste momento.
Até porque quando falamos de crianças precisamos de saber que elas não aprendem unicamente com processos de reflexão, a ler ou a estudar. As crianças precisam de aprender a brincar, a mexer, a experienciar e isto tudo é muito mais difícil de fazer através de um ecrã. Além de que existe uma componente fundamental na aprendizagem que os ecrãs também não facilitam: a relação. As crianças aprendem sobretudo em relação. As crianças aprendem melhor quando gostam dos professores e quando os professores gostam delas e é mais difícil transmitir isso através de um ecrã.

Quando lemos um livro, porque a nossa mente fica mais focada e silenciada, também conseguimos criar uma proximidade emocional com o conteúdo mais facilmente do que num ecrã. E isto também é essencial na aprendizagem. Aprendemos melhor aquilo que nos toca do ponto de vista emocional. Memorizamos melhor as coisas que nos emocionam. As emoções transformam o cérebro e ajudam a desenvolvê-lo. As crianças aprendem essencialmente em relação. Estudos com crianças pequenas constataram que quando o mesmo conteúdo era transmitido pela mesma pessoa ao vivo ou através de um ecrã os resultados eram bastante diferentes: as crianças aprendiam muito melhor ao vivo. Da mesma forma também sabemos que as crianças pequenas que passam muito tempo a ver televisão têm mais dificuldades de linguagem, mesmo que até vejam programas educativos.

Por tudo isto, não acredito que a escola seja uma prioridade neste momento. 

Brincar é o mais importante 

O mais importante nesta altura é darmos aos nossos filhos um sentimento de segurança, através da relação que temos com eles. Se sentimos que fazer alguns exercícios escolares com eles nos ajuda a manter essa relação e é positivo para ambos, óptimo, podemos fazê-lo claro mas se, pelo contrário, como tantas vezes acontece, isso só servir para criar tensão e conflitos, então a aprendizagem formal da escola pode mesmo ficar para segundo plano. Até porque é muito difícil aprender quando estamos com medo ou ansiosos.

Acredito que, neste momento, a nossas prioridades precisam de ser apenas duas: preservar a relação que temos com as nossas crianças e deixá-las brincar. 

Porque é que a brincadeira livre é tão importante neste momento? Porque é através dela que as crianças podem processar muito daquilo que estão a sentir e a viver. Através da brincadeira as crianças encontram formas criativas e importantes de libertar a tensão e de descarregar os medos que possam estar a sentir. E encontram formas de integrar e processar tudo o que estão a viver. Por isso, neste momento, mais do que nunca precisamos é de criar espaço e dar-lhes tempo para brincar. Para brincarem livremente, sem interferências e sem julgamentos da nossa parte. Isto é válido tanto para os mais pequenos como para os mais novos e até para adolescentes e adultos. Com estes últimos as brincadeiras serão diferentes, mas é importante também que encontrem espaços de liberdade que lhes permitam entrar em contacto e assimilar tudo o que estão a sentir. Isto pode acontecer quando ouvimos música que nos ajuda a chorar e a libertar a tristeza, por exemplo, ou quando pintamos ou desenhamos para quem gosta de o fazer, ou quando dançamos ou qualquer outra coisa que nos faça sentir que somos capazes de trazer o foco para o presente, de entrar em contacto com as nossas emoções e de libertar o que estamos a sentir. E para as crianças a forma principal de fazer isto é brincar.

Por isso, neste momento, mais do que qualquer outra coisa é de brincar que precisam os nossos filhos. E criar as condições para a brincadeira aconteça tem de ser a nossa prioridade.


Condições para brincar 

É impossível obrigar alguém a brincar mas podemos criar condições para que a brincadeira surja espontaneamente e existem algumas condições essenciais para isso: primeiro as necessidades têm de estar satisfeitas e a necessidade mais importante é a da nossa presença, de se sentirem ligados a nós, depois precisam também de se sentir seguras porque é impossível brincar quando estamos em estado de alerta e depois é preciso que haja diariamente bastante tempo livre de ecrãs.

Neste momento é provável que seja mais difícil esses momentos de brincadeira acontecerem de forma espontânea porque as crianças podem estar mais alarmadas e inseguras, por isso temos de os preservar ainda mais. Para isso neste momento não acho que devamos estar preocupados com estudos e com escolas, porque essa preocupação traz mais uma carga de tensão que se irá juntar a todas aquelas com que já temos de lidar neste momento.

Além disso uma criança segura e com tempo para brincar, também é uma criança que tem  uma disponibilidade natural para aprender de forma mais livre. E as crianças aprendem a brincar também. Uma criança mais tranquila e mais segura, com tempo e espaço para brincar, também é uma criança que mantém a sua curiosidade natural que é um ingrediente essencial para que a verdadeira aprendizagem aconteça. E também é uma criança mais capaz de se sentar a ler um livro, por exemplo que, neste momento, me parece uma aprendizagem mais útil e positiva do que a dos conteúdos formais da escola.

Acho que pode ser útil manter o contacto com as escolas, que podem ir sugerindo alguns exercícios pontualmente mas, sobretudo, para manter a relação entre as crianças e com os professores. As crianças aprendem sobretudo em relação e são estas relações que, neste momento, mais do que tudo importa preservar. Muito mais do que fazer trabalhos de matemática ou português ou estudo do meio. São elas que alimentam de verdade o cérebro. Tudo o resto é secundário e pode ficar para segundo plano neste momento. Até porque se formos capazes de alimentar bem as nossas crianças, neste momento, com a relação que temos com elas e esses momentos fundamentais de brincadeira livre ao longo do dia, de certeza que mais facilmente elas conseguirão aprender todo o conteúdo académico  que ficou para trás quando for necessário fazê-lo. 

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Paradoxos do isolamento

Aquilo que está a ser pedido à maioria de nós neste momento deixa-nos numa espécie de paradoxo fisiológico: por um lado é-nos incutido um sentimento de medo - que aliás a comunicação social tem feito um bom trabalho de manter com a sua contagem diária de mortos e infectados - medo de ficar doente, de ver os nossos entes queridos doentes ou de causar doença nos outros mas medo também da cura com toda a desestruturação que ela está a provocar nas nossas vidas; por outro lado é-nos pedido que não façamos nada com esse medo e que nos limitemos a ficar em casa, o mais quietos possível. Isto deixa-nos um pouco sem saída do ponto de vista fisiológico porque, sempre que o nosso sistema de alarme é activado, o que acontece quando sentimos medo ou quando existe esta sensação de que há uma ameaça presente de forma constante temos duas hipóteses: ou activamos a resposta de luta-ou-fuga, através do nosso sistema nervoso simpático ou activamos a resposta de congelamento, comandada pelo nervo vago dorsal. Acontece que, a primeira resposta, a mais adaptativa e natural para lidar com as ameaças, aquela que partilhamos com todos os mamíferos é a de luta ou fuga. Mas, neste momento, não podemos lutar nem fugir por isso se este é o nosso mecanismo de resposta principal é bem provável que nos sintamos muito frustrados, zangados, revoltados e com um certo sentimento de desorientação ou de agitação permanente porque não temos como fazer aquilo que o nosso organismo nos está a pedir. 

Mas quando a resposta de luta ou fuga se mantém activa demasiado tempo sem que isso produza nenhum resultado, há uma probabilidade de que passemos a activar a resposta de congelamento. Isto acontece sobretudo quando na nossa história precisámos de recorrer muitas vezes a este mecanismo, que acaba por tornar-se o nosso primeiro meio de resposta. Este é o caso de pessoas com história de trauma profundo na infância. Esta resposta activa um mecanismo de defesa que temos em comum com os répteis que se limitam a fingir-se de mortos quando uma presa os ataca até que a ameaça desapareça. Mas nós não somos répteis por isso esta resposta tem um custo muito elevado para os seres humanos que não podem usar este mecanismo por muito tempo, já que o seu organismo precisa de manter níveis de oxigénio e temperatura mais constantes. Por isso este mecanismo só é activado em situações extremas e tem um custo muito grande para o nosso organismo. Uma das suas consequências, do ponto de vista psicológico, é um sentimento de impotência, daquilo a que se chama a desesperança aprendida: a sensação de que nada do que façamos importa ou faz diferença no mundo e isto vem associado a sentimentos de tristeza profunda ou de dissociação - que vem muitas vezes associada a uma sensação de vazio, ou de que não estamos bem aqui, no nosso corpo, uma incapacidade grande de estarmos presentes com a nossa experiência em cada momento, um sentimento de que precisamos de fugir e, se não o podemos fazer em corpo, tentamos fazê-lo em mente. É o que relatam muitas pessoas que sofreram maus tratos profundos quando dizem que o corpo estava ali mas a cabeça já não. Esta é uma defesa adaptativa na medida em que nos permite sobreviver, mas esta sobrevivência vem com um custo muito elevado: a perda do prazer na vida, o medo de lidar com as emoções, a necessidade de fecharmos certas partes de nós mesmos e a dificuldade de criarmos ligações seguras e significativas que nos preencham de verdade.

 A forma como usamos estes mecanismos de resposta não depende da nossa vontade, isto acontece de forma automática e inconsciente e a maioria das vezes nem nos damos conta de que estamos a activá-los.

Acontece que a forma principal de desactivarmos o nosso estado de alarme é através da co-regulação. A co-regulação é mesmo a estratégia principal de sobrevivência da nossa espécie. E, neste momento, também nos está a ser pedido que nos distanciemos dos outros. 

Mas o nosso sistema nervoso está programado para se regular através dos relacionamentos. Precisamos de ver as outras pessoas, de olhar nos olhos delas e de as tocar também para nos sentirmos seguros. É verdade que o mundo virtual de hoje facilita um pouco as ligações, mesmo nesta altura de isolamento, mas também é verdade que podemos cair facilmente no perigo de achar que elas substituem tudo e isso não é verdade. Mesmo numa videochamada falta-nos muita informação não verbal importante que influencia a forma como comunicamos e como nos sentimos. E a forma como lidamos com isso  depende do nosso perfil.

Existe um grupo de pessoas a que podemos chamar reactivas, alguns autores falam de pessoas sensíveis ou no caso das crianças, há quem fale das crianças orquídeas, que são pessoas em que de certa forma o sistema nervoso tem mais dificuldade em excluir os estímulos internos e externos. Estas pessoas processam constantemente um maior número de informações e geralmente de forma mais intensa. Então este grupo que se estima que será cerca de 20% da população, será provavelmente aquele que tem maior dificuldade com este tipo de comunicação. Isto porque, por um lado estão mais habituadas a receber e a processar uma série de informações subtis que faltam nas videochamadas e sentindo essa ausência fica-lhes mais difícil comunicar, por outro lado porque ao processarem mais estímulos do meio ambiente também lhes é mais difícil desligarem-se do sítio onde estão que terá estímulos muito diferentes daqueles que a outra pessoa experimenta o que pode contribuir para uma certa des-sincronia na conversa. Porque nas conversas importantes aquilo que acontece é que criamos uma certa sincronia entre as pessoas, uma sincronia do ponto de vista fisiológico que pode ser observada exteriormente nos gestos que é comum serem parecidos, nas expressões faciais em que uma pessoa espelha a emoção da outra ou na postura corporal que também adopta certas semelhanças quando essa sincronia acontece. Claro que é possível conseguir também alguma sincronia com uma videochamada, menos com um telefonema porque nos falta informação importante quando não vemos o rosto de alguém, mas a verdade é que pode ser um pouco mais difícil. E a verdade também é que isto não tem o mesmo grau de facilidade ou dificuldade para todas as pessoas o que pode ter a ver com algumas características pessoais mas também com a nossa história. Para uma pessoa que não está muito habituada a ser ouvida e acolhida de verdade e que, por isso mesmo, tem sempre uma atitude mais defensiva com os outros a comunicação online torna-se mais difícil porque há sempre um medo inconsciente de que o outro não seja verdadeiramente capaz de acolher a nossa dor e se esse medo também se manifesta mesmo na presença física das outras pessoas, é ainda mais provável que ele tome conta da nossa comunicação quando essa presença não existe. Porque quando já há alguma tendência para nos sentirmos sozinhos e incompreendidos, mesmo na presença dos outros, é natural que isto se intensifique quando nem sequer temos essa presença, como se o nosso corpo confirmasse que essa solidão é real.

Para pessoas com apego do tipo ambivalente, pessoas que na infância tiveram mães que nem sempre foram capazes de responder às suas necessidades esse medo de não se ser acolhido ou compreendido é uma constante, ainda que nem sempre tenham consciência disto. Estas pessoas têm na sua história uma experiência de sentir que os outros não sabem ou não conseguem ou não querem dar resposta às suas necessidades, por isso quando falam com alguém, inconscientemente, também esperam que as outras pessoas não sejam capazes de preencher verdadeiramente as suas necessidades. E é ainda mais fácil que isto se manifeste quando essa comunicação se faz através de um ecrã. É também nestas pessoas que esta experiência de isolamento pode estar mais associada a estados de ansiedade e agitação que vêm do reviver dessas experiências de infância em que se sentiram em perigo por não verem as suas necessidades bem acolhidas ou preenchidas. Porque para uma criança não há ameaça maior do que sentir que os seus pais podem não ser capazes de as proteger ou de preencher as suas necessidades de afecto e de reconhecimento. Isto é tão assustador que acaba por ser mais fácil a criança interiorizar que é ela que tem o problema ou os defeitos que não permitem que os outros gostem de si e, por isso, neste caso a experiência de isolamento pode acentuar ainda mais isso, porque, por muito que de um ponto de vista racional se saiba que as outras pessoas não nos procuram porque não podem, de um ponto de vista mais inconsciente isto vem confirmar o medo de que elas simplesmente não queiram estar connosco ou que não se importem com as nossas necessidades e não queiram saber dos nossos medos.

As pessoas caracterizadas por um apego do tipo evitante são pessoas que têm uma certa tendência para desvalorizar as emoções, porque na sua infância estas nunca foram bem acolhidas ou valorizadas. Por isso nestes casos há muitas vezes uma tendência excessiva para racionalizar e, nestes casos, pode ser muito fácil cair na ilusão de que a comunicação virtual substitui perfeitamente a real porque é mais provável que nem haja consciência desse vazio que existe pela incapacidade de se entrar em contacto com as próprias emoções.  Nestas pessoas o isolamento poderá estar mais associado a um sentimento de incapacidade e de tristeza profunda como se confirmasse aquilo que elas, no fundo sempre souberam: que estão sozinhas porque ninguém gosta verdadeiramente delas, porque não são dignas de amor. Nestes casos é mais provável que surja também o tal sentimento de desesperança aprendida, de que nada do que façamos importa.

Por fim, para as pessoas do tipo desorganizado, pessoas que sofreram traumas profundos na infância, a comunicação online pode ser ainda mais desorientadora por causa dos paradoxos com que as confronta.
Então, na verdade as pessoas que podem usufruir melhor deste tipo de comunicação são justamente as que menos precisam, porque são pessoas mais seguras, com melhores experiências de acolhimento e reconhecimento que, por isso mesmo, também desenvolveram mais capacidades de auto-regulação. 

Ao escrever isto quero apenas chamar a atenção para o facto de que nos está a ser pedido algo realmente difícil e que é natural que isso tenha custos elevados. E uma das formas importantes de preservarmos a nossa saúde mental começa por sermos capazes de acolher aquilo que estamos a sentir, passa por sermos capazes de nomear as nossas emoções e também por sermos capazes de dar um significado aquilo que estamos a viver.

Acredito que, por um lado, seria mais fácil, menos confuso e desorientador se nos pedissem para agir e não apenas para ficar parados à espera que o perigo passe. Se nos pedissem para agir de forma concreta, reforçando o apoio às vítimas com algum tipo de voluntariado, por exemplo, ou de outras formas que pudessem ajudar-nos a dar algum uso ao estado de alarme que estamos todos a sentir. Não posso ter a certeza de que isto seria o mais eficaz no combate ao vírus, nem sei exactamente em que moldes o poderíamos fazer mas sei que poderia ser mais fácil do ponto de vista emocional para muitas pessoas

Mas talvez o mais importante neste momento seja mesmo darmos voz ao sentimento de desorientação que é muito natural que várias pessoas estejam neste momento a sentir e perceber que ele tem uma razão fisiológica para existir. E saber que precisamos de o encarar e de libertar toda a tristeza que vem com todas as frustrações desta nova realidade em vez de tentarmos disfarçá-la ou ignorá-la com as mil e uma actividades tentadoras que chegam aos nossos e-mails e telemóveis todos os dias. Precisamos de fazer as pazes com essa tristeza e de saber que, neste momento, ela é mesmo o mais natural perante todas as perdas que estamos a vivenciar: de liberdade, de relacionamentos, de dinheiro e de saúde. Porque enquanto não encararmos e nomearmos esta tristeza também será muito mais difícil encontrar alguma coisa de positivo nisto tudo e dar um significado a tudo o que estamos a viver. 

E também é preciso que tenhamos consciência de que, se estas perdas se mantiverem por um tempo demasiado longo é muito provável que, a partir de certa altura, elas superem os ganhos que podemos obter com esta situação. Porque a saúde mental é uma parte inseparável da saúde física e ficarmos isolados durante demasiado tempo também pode matar-nos de muitas formas diferentes. 

quinta-feira, 19 de março de 2020

Manter os filhos seguros em tempos de isolamento

Estamos a viver tempos muito difíceis e desafiadores. Não adianta negar isto, nem romantizá-lo. Sim, é difícil ficar fechado em casa, com crianças ou sem elas. Sobretudo para quem já vivia em situações mais frágeis e para todos aqueles que, neste momento, têm a sua sobrevivência em risco, pela insegurança económica que esta crise também gerou.

Fico frustrada quando vejo várias publicações nas redes sociais que falam da quarentena como se fosse só uma questão de aceitar, parar e aproveitar para passar tempo com os filhos e família que vive connosco. Sei que para muitas famílias isto terá um efeito muito perturbador e negativo e também sei que o medo, mesmo depois da situação aguda de doença passar, para muitas pessoas se irá manter por muito tempo, sob a forma de stress pós-traumático ou de qualquer outro tipo de perturbação da ansiedade.

Mas também sei que, neste momento, precisamos de ter esperança e de acreditar que tudo irá correr da melhor forma. 
Acontece que, acredito que para correr da melhor forma a primeira coisa que precisamos de fazer é mesmo aceitar que isto tudo está muito longe de ser perfeito. Só assim podemos sair disto com o mínimo de efeitos traumáticos em nós e nos nossos filhos.
Precisamos de aceitar que talvez a escola fique para trás, ou a música ou a ginástica. Que talvez eles vejam mais horas de televisão do que seria desejável, que talvez não tenhamos vontade de fazer todos os dias as refeições nutritivas e completas que desejávamos fazer e que, mesmo passando muito tempo juntos, talvez não tenhamos assim tanta vontade de brincar e de jogar como pensamos que deveríamos ter. Sobretudo nos primeiros dias, em que ainda estamos a adaptar-nos a esta nova realidade e a lidar com o nosso medo.

Quando estamos com medo não é fácil ter vontade de brincar ou de jogar, nem sequer de pensar em que é que haveremos de fazer para o jantar. Porque o medo activa as partes mais primitivas do nosso cérebro que fazem com que nos preocupemos apenas com a sobrevivência. Por isso é natural que sintamos que não muito espaço dentro de nós para mais nada. 
Então a primeira coisa a fazer é reconhecer esse medo. E o medo, neste momento, não tem necessariamente que vir da doença. O medo pode vir de não sabermos se continuaremos a ter emprego depois disto, se vamos conseguir pagar as contas no final do mês, de não saber como vamos conseguir trabalhar em casa e cuidar dos nossos filhos ao mesmo tempo, de não saber se somos capazes de estar tanto tempo fechados com eles, de não saber como irá ficar a nossa relação com o nosso companheiro ou companheira depois disto, de não saber como iremos cuidar de pais idosos ou familiares mais frágeis que dependam de nós ou simplesmente de vermos tanto medo à nossa volta.

Quando ficamos em alerta desligamos o cortéx-pré-frontal a parte do cérebro que nos permite, pensar, analisar e avaliar as situações com alguma distância. O medo liga as partes mais primitivas por isso também é muito mais fácil gritar e ficarmos zangados quando estamos com medo, porque o nosso organismo já está em estado de alerta e qualquer coisinha irá servir para acentuar ainda mais esse estado. Quando estamos assim é muito fácil que gestos simples e neutros das pessoas que estão perto de nós nos pareçam ameaçadores ou hostis, porque ficamos programados para sobreviver e detectar ameaças e vemos tudo com esse filtro.

E a verdade é que é muito difícil desligar o medo quando somos bombardeados constantemente com informações sobre a doença e sobre quantos morreram e quantos adoeceram. É muito difícil desligar o medo quando o vemos nos olhos de toda a gente e quando podemos senti-lo no ar em todas as curtas deslocações que fazemos. Mas precisamos de ser capazes de aceitar que é natural estar com medo, estamos a viver algo novo, diferente e a mudança só por si é sempre um foco de tensão. Não faz mal ter medo, apesar de todas as publicações que também já li sobre o facto do medo baixar a nossa imunidade. Na verdade isto não é bem assim, o nosso sistema de alarme é mais complexo do que isso e, sim a resposta de alarme altera o funcionamento do sistema imunitário mas isto faz-se sentir mais a longo prazo. De qualquer maneira não faz mal estarmos com medo desde que saibamos acolhê-lo, aceitá-lo e saber que, neste momento, ele é uma resposta natural a tudo o que se está a passar. O que nos faz mal de verdade é negar e não aceitar as nossas emoções. Quando reconhecemos o medo e o aceitamos, paradoxalmente, ele também diminui porque ao fazer isto activamos o tal cortex pré frontal que nos permite criar um distanciamento mínimo da situação que faz com deixemos de estar tão mergulhados nela.

Também não faz mal mostrar aos nossos filhos que estamos com medo, desde que também saibamos mostrar que somos capazes de lidar com esse medo, que ele não nos controla e que continuamos a ser capazes de os acolher, de cuidar deles e de lhes dar segurança.  E sobretudo é importante ajudá-los também a perceber que podem ter medo, que isso não faz mal e é natural. Precisamos de ajudar as crianças a dar um nome ao que sentem mais do que perguntar-lhes o que estão a sentir, sobretudo às mais pequenas. Não adianta muito perguntar a uma criança de quatro ou cinco anos o que está a sentir porque ela não saberá dar-lhe um nome e só ficará ainda mais perdida.
E, nisto do medo, também é importante saber que as crianças não são todas iguais: as mais sensíveis ou reactivas irão senti-lo mais e provavelmente mais cedo. Nas crianças o medo também as torna muito mais explosivas e reactivas e por isso pode dar origem a mais conflitos entre irmãos, por exemplo ou a comportamentos mais agressivos.

Uma das coisas que precisamos de fazer, talvez a mais importante é fazê-los sentir que, apesar de tudo, ainda estamos no controlo, por muito que não o sintamos. Podemos sentir que perdermos o controlo das nossas vidas, das nossas rotinas, do nosso trabalho, das nossas finanças, etc, mas precisamos de sentir que ainda somos capazes de manter o controlo com os nossos filhos. Manter o controlo não quer dizer que nunca gritamos ou que sabemos sempre exactamente o que fazer ou que eles nos obedecem o tempo todo. Manter o controlo neste caso significa que ainda somos capazes de os ajudar a lidar com o que sentem e ainda somos capazes de ser a sua base segura. 

As crianças precisam de se sentir seguras e essa segurança não vem das notícias, não vem das estatísticas, nem da esperança de que haja uma vacina em breve. A segurança das crianças vem de sentirem que os pais são capazes de as proteger. E é isso que temos de as fazer sentir. Não precisamos de mentir, nem de fingir. Só temos de nos lembrar que temos recursos em nós para as proteger de verdade. Esta doença, nesse aspecto, não é diferente de todos os outros perigos que os nossos filhos enfrentam diariamente: não podemos impedi-los de cair e partir a cabeça, nem de apanhar outras doenças, nem sequer de se magoarem a sério um dia. Tudo o que podemos fazer é dar-lhes um colo seguro para chorar quando isto acontecer. E isto continuamos a poder fazer: podemos dar-lhes esse colo para chorarem com saudades dos amigos quando elas apertarem mais, com saudades das brincadeiras, da escola, das corridas, podemos dar-lhes esse colo quando se sentirem com medo de tudo o que está a acontecer. Na verdade as crianças têm uma probabilidade muito reduzida de ter complicações com esta doença, dizem-nos as estatísticas, mas o medo não quer saber de estatísticas porque o medo não é nada racional. E a melhor forma de lidar com o medo, neste caso, também passa pelas lágrimas. As lágrimas por tudo o que pensamos que poderá estar perdido da nossa vida anterior, as lágrimas por tudo aquilo de que sentimos saudades, as lágrimas por tudo aquilo de que estamos a abdicar. Quando choramos o nosso sistema de alerta acaba por se desligar, por isso é tão importante dar espaço para as crianças chorarem, dar-lhes um colo seguro e acolhedor para o fazerem. Porque as lágrimas desligam o nosso sistema nervoso simpático, permitem-nos adaptar à nova realidade e fazer a despedida daquela que já passou.

Dar segurança às crianças não passa obrigatoriamente por dar respostas. Têm circulado muitos vídeos sobre como explicar o corona às crianças mas o mais importante não é elas compreenderem exactamente o que está a acontecer, é confiarem nos pais. O mais importante é sentir que terão sempre esse colo e que o nosso medo não nos impede de falar com elas, de ver o medo delas e de perceber como podemos ajudá-las a encontrar as suas lágrimas e a ficar mais tranquilas.

Tenho visto também muitas publicações a falar da importância de manter uma rotina. Para algumas crianças e adultos isto pode ser importante realmente. E tenho visto muitas pessoas preocupadas com essa rotina. Mas uma rotina não é algo que precisamos de criar desde o primeiro dia, podemos ir criando essa rotina aos poucos, sem stress e sem pressão e adaptando-nos a esta nova realidade. Essa rotina não tem que ser uma reprodução dos horários e tarefas daquilo que fazíamos antes disto acontecer. 

Sinceramente, não acho que a escola precise de ser uma prioridade nestes momentos. Se as crianças gostarem de estudar e isso as ajudar a passar o tempo, óptimo. Mas não precisamos de transformar isto numa prioridade. Temos de nos lembrar que não somos, nem precisamos de ser, professores dos nossos filhos. E se manter as actividades escolares for para nós mais uma fonte de pressão e de tensão e, sobretudo, se ela estiver a por em causa a nossa relação com os filhos por falta de paciência ou de disponibilidade para os ajudarmos, então, aqui é mesmo importante lembrar que ela não precisa de ser prioridade agora. Esta é uma altura excepcional, por isso podemos vivê-la com muitas excepções também. 

Depois também temos de nos lembrar que as actividades online podem ser uma boa ajuda neste momento mas não podem tornar-se o nosso único recurso. E não substituem as outras. Estamos programados para estar com as pessoas, temos uma capacidade chamada neurocepção que nos faz avaliar constantemente o ambiente à nossa volta e também dentro de nós em busca de pistas de segurança. Para isso, uma das coisas que fazemos inconscientemente, é avaliar toda a comunicação não verbal das outras pessoas: o tom de voz, o ritmo do discurso, as expressões, os gestos. Uma zona do corpo que envia muitos sinais são os olhos, sobretudo os músculos pequeninos à volta dos olhos, os chamados pés de galinha, que mostram se estamos realmente relaxados ou não e estamos a ouvir de verdade outra pessoa. Por exemplo, quando estamos a ouvir atentamente alguém há uma tendência universal para levantar um pouco as sobrancelhas, o que, por sua vez, faz com os músculos do ouvido médio se contraiam o que permite que sejamos capazes de extrair melhor a voz humana no meio de outros ruídos. Quando olhamos para alguém que amamos as nossas pupilas dilatam-se e os bebés já reagem a esta dilatação nos olhos das mães. E tudo isto são coisas muito mais difíceis de fazer online, por isso uma video-chamada, apesar de ser melhor que o telefone simplesmente, não tem o mesmo efeito securizante que o contacto real. 


Muitas discussões e mal entendidos entre casais, por exemplo, acontecem no carro, porquê? Porque nestes casos não conseguimos olhar nos olhos um do outro, o que nos põe muito mais facilmente num estado defensivo. Então isto mostra como é importante o contacto visual e como precisamos de contacto real, para nos regularmos. Claro que, quando somos adultos maduros, aprendemos a criar estratégias diferentes de auto-regulação que não dependem tanto dos outros. Mas, a verdade, é que a nossa principal estratégia de sobrevivência enquanto espécie é mesmo a co-regulação e para isto o contacto e a presença física são fundamentais. Por isso é natural que nos sintamos aflitos e em pânico num período de isolamento social. Precisamos de reconhecer isso e fazer as pazes com esta realidade mais do que tentar negá-la criando a ilusão de que podemos usar as relações virtuais para substituir as reais. Se vivemos numa relação conjugal é bom termos noção de que essa pessoa será a nossa principal figura de apego e é através dela que podemos muito mais facilmente co-regular as nossas emoções e é bom que os casais saibam e sintam que, neste momento, é perfeitamente natural que se sintam a precisar muito mais um do outro e que, também por isto, é natural que se sintam também muito mais reactivos e sensíveis a tudo o que a outra pessoa fizer ou disser.

As crianças, sobretudo as mais pequenas ainda não tiveram tempo para desenvolver estratégias de auto-regulação. Por isso precisam mesmo de nós para o fazer, por isso também, é natural que, neste momento pareçam muito mais carentes e necessitadas da nossa atenção e presença e isso não tem nada de errado.

Então para passarmos por isto da melhor forma possível precisamos de saber que o isolamento não tem nada de natural para o ser humano e que não faz mal termos medo, ficarmos assustados e não sabermos como lidar com isto. Precisamos também de saber que não faz mal termos um pouco menos de paciência com os nossos filhos, desde que também sejamos capazes de lhes explicar e mostrar que estamos um pouco tensos mas que somos capazes de os proteger, cuidar e manter seguros. As crianças não precisam de pais perfeitos mas precisam de acreditar que os seus o são. E, para isso, neste caso, temos mesmo de saber que não há fórmulas nem segredos e precisamos apenas de fazer aquilo que sentimos que nos dá mais força para continuar a viver da melhor forma e a cuidar dos nossos filhos. Precisamos também de saber que mais do brincar com amigos, estudar ou fazer conferências online, os nossos filhos precisam de nós e, enquanto estiverem connosco, uma boa parte do seu mundo está mesmo no sítio certo. Enquanto forem capazes de encontrar um caminho para o nosso colo e o brilho nos nossos olhos apenas porque entraram na sala também serão capazes de passar por tudo isto da forma mais serena e tranquila possível. 



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Adultos e crianças numa dança hierárquica

Sempre que falo em hierarquia entre pais e filhos há quem fique incomodado. Mas a hierarquia é algo natural nas relações e essencial entre pais e filhos. A hierarquia acontece naturalmente quando estamos na posição de cuidadores, só podemos cuidar daqueles que estão numa posição de dependentes. E, pela ordem natural das coisas, as crianças dependem dos adultos. Ficar na posição de cuidadores não significa que temos o direito de maltratar, despeitar ou abusar das crianças. Antes pelo contrário até, se estamos na posição de cuidadores sabemos que só podemos cuidar se soubermos respeitar as necessidades das crianças de quem cuidamos.

Mesmo nas relações de casal esta dança entre quem cuida e quem é cuidado tem de existir, a diferença é que, numa relação entre iguais, como é um casal, esta tem de ser mesmo uma dança equilibrada: se for sempre o mesmo a cuidar ou a receber esse cuidado a relação não funciona. Mas numa dança não podem guiar os dois parceiros ao mesmo tempo, um tem de se deixar guiar enquanto o outro guia senão torna-se impossível dançar.

Mas a grande diferença entre uma relação de casal e uma relação entre pais e filhos é que, numa relação de casal, os dois membros (idealmente) já terão amadurecido. Numa relação entre pais e filhos, existe um dos membros que ainda não amadureceu e por isso mesmo ainda não tem capacidade para cuidar do outro e precisa de ser cuidado para que possa desenvolver-se e amadurecer. Não apenas crescer, porque aumentar de idade não significa necessariamente que o amadurecimento aconteceu, este amadurecimento só acontece se encontrar as condições ideais para acontecer. Por isso existem tantas pessoas muito avançadas nos anos mas muito pouco desenvolvidas emocionalmente. Assim como não podemos forçar uma planta a crescer também não podemos forçar uma criança a amadurecer, temos apenas de criar as condições necessárias para que isso se torne possível. E uma dela é que entre pais e filhos, não pode haver alternância. Temos mesmo de ficar na posição de cuidadores o tempo todo. E, se precisamos que alguém cuide de nós de vez em quando, como é natural que aconteça, esse alguém não podem mesmo ser os nossos filhos.

Acontece que, todos temos em nós uma criança que ainda existe e que cresceu, muitas vezes, num ambiente que não era o ideal em que nem sempre foi cuidada da maneira que precisava e quando precisava. Então, quando isto aconteceu com demasiada frequência o que se passa é que passamos a ter dentro de nós uma criança ferida e, se ainda não tratámos dessas feridas elas continuam a existir e a tomar conta de nós sobretudo nos momentos mais difíceis, porque esta criança ficou refém destas necessidades que nunca chegaram a ser preenchidas em alguma altura do seu desenvolvimento e não foi capaz de amadurecer por completo. Claro que podemos fazer com que esse amadurecimento aconteça mais tarde, na vida adulta, através de relações que sirvam para, de certa forma, corrigir aquilo que nos faltou. Mas, se não encontrámos ainda uma forma de fazer essa correcção e de permitir que essa criança cresça aquilo que vejo acontecer muitas vezes é que passamos a educar os nossos filhos a partir dessa criança ferida que existe dentro de nós e não a partir do adulto que até pode funcionar bem a maior parte do tempo mas que acaba por ficar em segundo plano nos momentos mais emotivos, que era justamente quando mais precisávamos que estivesse no controlo.  

Isto vê-se quando temos muita dificuldade em lidar com determinadas situações apenas porque queremos fazer diferente daquilo que os nossos pais fizeram connosco. Por exemplo, sabemos que faz mal à criança comer doces todos os dias mas acabamos por ter medo de lhe dizer que não porque tivemos pais muito autoritários que nunca nos deixavam fazer o que gostávamos.

Sempre que dizemos que não queremos fazer isto ou aquilo com os nossos filhos apenas porque os nossos pais o faziam connosco e era muito doloroso isto significa que, muito provavelmente, esta é uma ferida que ainda não fechou. E quando as nossas feridas não fecham elas podem tornar-se tão presentes que acabam por nos impedir de ver as coisas sem passar pelo seu filtro. Isto quer dizer que acabamos por educar a partir dessas feridas e não a partir das necessidades reais dos nossos filhos.

Na verdade, claro que não há nada de errado com o facto de não querermos repetir um erro que os nossos pais fizeram connosco. E claro que é saudável que queiramos corrigir esses erros que nos fizeram sofrer. Acontece que, quando a nossa única motivação para não fazer algo com os nossos filhos é apenas o facto daquilo nos ter feito sofrer na infância isso pode ser sinal de que não estamos a educar a partir do nosso adulto mas a partir dessa criança ferida.

Quando essa criança ferida nunca foi tratada ou cuidada, quando essas feridas ainda não sararam é difícil ficarmos realmente no papel de cuidadores dos nossos filhos porque existe uma parte demasiado grande de nós que ainda precisa de ser cuidada e que ainda pede muita atenção. E se não estivermos conscientes disto - e é tão mais difícil ter esta consciência quanto maiores forem as feridas -  é muito fácil que as nossas necessidades se misturem com as deles e que não nos sintamos capazes de ficar nesse papel de cuidador e que não nos sintamos confortáveis com esta ideia de que precisa de existir uma superioridade hierárquica entre nós e os nossos filhos. Porque na verdade não é fácil ficar no papel do adulto quando essa criança ferida ainda precisa tanto de ver as suas necessidades preenchidas. E só podemos ficar no papel de cuidadores se estivermos no lugar do adulto.

Uma necessidade só desaparece depois de ser preenchida. Se nunca nos sentimos seguros no papel de dependentes isso quer dizer que não tivemos oportunidade de crescer e amadurecer completamente, quer dizer que ainda existe uma parte de nós que precisa muito de ser cuidada como se fosse criança. E por vezes temos pais que esperam, inconscientemente, que os filhos cuidem dessas suas necessidades porque a sua criança nunca as viu satisfeitas.

Nestes casos então precisamos de ter noção que essa criança ferida em nós precisa sim de ser cuidada, precisa de ser trazida para a luz, de ser vista, aceite e acolhida mas nunca pelos nossos filhos. Os filhos em nós só podem ver o adulto e nunca a criança, muito menos ferida, para se sentirem seguros. Podemos e devemos falar de sentimentos e emoções com os nossos filhos mas sempre a partir do adulto, não daquelas que nos fazem sentir frágeis e a precisar de cuidado. Os nossos filhos precisam de sentir que podem confiar em nós, que podem ser protegidos e seguros por nós e isso dificilmente acontecerá se mostramos demasiado a nossa criança ferida e se eles nos virem como demasiado vulneráveis. Isto acontece quando, por exemplo, dizemos várias vezes aos nossos filhos que o comportamento deles nos magoa. Muitas vezes pensamos que é melhor dizer a um filho que ficámos tristes porque ele nos bateu ou porque nos chamou chatos do que simplesmente ralhar ou reprimir esse comportamento. Nestes casos ralhar ou castigar não são adequados porque a criança está simplesmente a expressar algo que não sabe e não tem ainda capacidade de expressar de outro modo. Mas, a verdade, é que dizer que ficámos tristes ou magoados também não é muito positivo. Porque nos coloca numa posição de fragilidade e vulnerabilidade e faz com que a criança se sinta obrigada a cuidar dos nossos sentimentos. Então, nestes casos, podemos sim dizer que não gostamos que ela bata ou chame nomes, precisamos de acolher o sentimento que está por trás desse comportamento, mostrar que aceitamos a zanga ou a frustração que a levou a fazer isso mas que não gostamos que se porte assim e dar-lhe algumas alternativas mais aceitáveis, isto sobretudo nas crianças mais pequenas. Mas é diferente dizer simplesmente que não gostamos ou mostrar que nos sentimos vulneráveis ou fragilizados por aquele comportamento. E essa diferença pode ser enorme na forma como a criança vai processar a situação. Porque de facto uma criança não tem de se preocupar com os sentimentos dos pais. Isto pode parecer estranho, claro que queremos que eles nos queiram agradar e que a nossa opinião importe mas isso é muito diferente de lhes dar noção de que têm tanto poder sobre nós que conseguem deixar-nos tristes e frágeis. Porque as crianças precisam de acreditar que os pais são uma espécie de super-heróis capazes de aceitar e acolher todas as suas emoções sem se irem abaixo por causa delas. 

Isto é ainda mais importante no caso das crianças mais sensíveis ou reactivas, que têm ainda mais tendência para se colocarem muito rapidamente nesse papel de cuidadores em que nunca queremos que estejam connosco.
Porque isso lhes traz toda a ansiedade de estarem num papel que não é o seu e onde nunca poderão ser bem sucedidos. E toda a ansiedade de precisarem de se colocar num papel em que o seu instinto lhes diz que nunca deveriam estar.

Então,  quando temos dificuldade em lidar com esta noção de hierarquia, pode significar que temos dificuldade em nos colocar no papel de adultos com os nossos filhos. Talvez porque tenhamos medo de os ferir ou magoar. Mas nada magoa mais do que sentirem que ninguém está no leme da relação, que ninguém conduz essa dança em que também é suposto eles dançarem.

E estar no leme da relação significa que precisamos de antecipar as necessidades dos nossos filhos antes mesmo deles terem noção delas. Isto é válido sobretudo para coisas como o sono ou a comida, que têm um peso grande no dia-a-dia e um impacto na relação e nas emoções. Não podemos esperar que filhos pequenos nos digam que estão cansados quando precisam de ir dormir, não devemos dar-lhes o controlo das refeições todas e esperar que sejam eles a tomar a iniciativa sempre que têm fome. Porque isso os coloca no papel de cuidadores e não de dependentes onde é suposto estarem.

Também não ajuda muito quando lhes perguntamos constantemente porque choram, ou o que é que têm e quando mostramos que não percebemos nada do que se passa com eles, sobretudo com os mais pequenos. Porque quando estamos no papel de cuidadores é suposto que tenhamos algum conhecimento sobre quem estamos a cuidar. É suposto também que os pais saibam mais que os filhos sobre as emoções e sobre o que se passa com eles. Temos de ser nós a ajudá-los a dar nome ao que sentem, porque para eles é tudo novo e não o vão descobrir sem a nossa ajuda.

Temos de encontrar o nosso adulto cuidador e, quando estamos no papel de adulto cuidador, somos nós que temos as respostas, não as procuramos nos outros, muito menos naqueles de quem estamos a cuidar. E é importante que passemos para os nossos filhos essa imagem de que sabemos exactamente para onde vamos, mesmo que nem sempre tenhamos certezas disto.

No papel de adulto cuidador também somos capazes de sentir que temos tudo aquilo de que aquela pessoa precisa. Temos tudo o que os nossos filhos precisam para crescer felizes e seguros. Mas se ficamos no papel de criança ferida, é muito mais fácil sentir que não somos suficientes, que não somos capazes, que precisamos de ajuda. E, se transmitimos isso aos nossos filhos eles vão sentir-se inseguros naturalmente e isso também fará com que tenham muito menos vontade de nos obedecer porque como é que podemos seguir alguém que parece não saber o caminho?

E esta questão da obediência que tantas vezes é quase um vilão e algo que não devemos querer também é importante nesta dança entre cuidadores e dependentes. Porque uma criança obedece naturalmente a alguém a quem confia e a quem se sente ligada. Por isso a obediência também é uma medida da qualidade da nossa ligação com os filhos, sim. Claro que haverá crianças com mais tendência para desobedecer e fases da vida delas em que isso também estará mais presente e claro que é saudável que as crianças nos provoquem, desafiem e desobedeçam em certa medida. Mas, a verdade é que a obediência também tem a sua importância. Sim, é preciso que os nossos filhos pensem por eles, sim queremos adultos capazes de questionar e tomar posições mas, também queremos adultos que confiem e que se importem. E obedecer aos pais também é sinal de que se importam com o que os pais pensam. E se se importam significa que a ligação ainda existe.

Só deixamos de nos preocupar com o que os outros pensam quando já não estamos ligados a eles. 

A questão do locus de controlo externo, que acontece nas pessoas que precisam de uma aprovação constante dos outros e vivem em função desse reconhecimento não surge porque elogiámos demais os nossos filhos ou porque os fizemos obedecer em excesso. Isto é uma visão demasiado simplista. Essa busca permanente de reconhecimento acontece quando não tivemos o suficiente na nossa infância, quando não fomos protegidos, quando não nos sentimos seguros, acolhidos e aceites. Aí precisámos justamente de sair desse papel de dependentes e passar mais para o de cuidadores.

Todos os filhos querem agradar aos pais e isso é bom e natural. Sempre foi assim e é bom que continue a ser. Porque essa é também a receita para vivermos em sociedade e para construirmos relações seguras. Claro que é essencial que eles sintam que não precisam de agradar para que continuemos a gostar deles. Mas sabermos que alguém nos ama incondicionalmente ainda nos dá mais vontade de agradar a essa pessoa, ao mesmo tempo que, naturalmente não nos impede de ser quem somos. Mas isto é justamente o que transmitimos muito mais facilmente quando estamos no papel de adultos.

Porque é gostaríamos de estar casados com alguém que não gostasse de nos agradar? que se estivesse nas tintas para o que nos faz felizes?

E, na verdade, as relações de casal não são assim tão diferentes das de pais e filhos. Hoje a ouvir um podcast em que se falava de relacionamentos surgiu a pergunta: porque é precisamos sempre de ter esse sentimento de posse em relação ao outro?

E a resposta é que esse sentimento de posse surge justamente quando a nossa criança ferida sente que precisa da outra pessoa mas não sabe se pode confiar realmente nela. Entre dois adultos que sabem cuidar e ser cuidados esse sentimento de posso dá apenas lugar ao sentimento de que existe algo especial entre os dois que precisa de ser cuidado, protegido. E esse algo especial é uma relação de apego que é a forma natural de nos deixarmos cuidar e ser cuidados. Esse apego de que precisamos na infância para sobreviver e para nos desenvolvermos continua a ser essencial na idade adulta para podermos sentir-nos felizes e desenvolver relações seguras.

Então é importante perguntarmos-nos sempre se estamos a educar a partir do nosso adulto ou a partir da criança ferida. Porque os nossos filhos precisam mesmo do adulto, uma criança não é uma base segura para outra criança. E só nesse papel de adulto é que podemos preencher todas as necessidades para que as crianças que eles são hoje possam realmente crescer e amadurecer e não apenas envelhecer.



terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Educar com limites, respeito e acolhimento

Uma das questões que gera mais polarizações no campo da educação talvez seja a questão dos limites. Existem aqueles que defendem que os limites são essenciais e que sem eles estaremos a condenar os nossos filhos a uma vida de incapacidade de lidar com a frustração e sem qualquer possibilidade de sucesso e os que, no lado oposto, defendem que as crianças não precisam de limites nenhuns mas apenas de respeito e de alguém que as compreenda.

Confesso que os discursos mais polarizados dos dois lados me despertam alguns anti-corpos apesar de, na sua essência, até concordar com estas duas posições e saber que não são incompatíveis como tantas vezes parecem. Vou explicar porquê. 

O discurso de que as crianças precisam de limites e sem eles estaremos a criar pequenos ditadores e tiranos que nunca nos saberão respeitar nem tolerar qualquer tipo de frustração desperta em mim uma reacção de rejeição e acredito que terá o mesmo efeito em muitas outras pessoas.  Isto porque, mesmo que não seja o que se diz, é um discurso que parte de uma certa atitude de que as crianças têm tendências más que precisam de ser dominadas e controladas e que, caso não o façamos, corremos o risco de que elas nos controlem a nós. Eu não acredito que as crianças sejam seres malvados que precisam de ser domados, mas acredito que as crianças precisam de sentir que os pais estão no controlo e na verdade é isto que essas pessoas dizem. Mas quando dizemos isto apenas assim, desta forma, sinto que falta um certo elemento de acolhimento e de amor e aceitação pela natureza da criança e acredito que muitas pessoas rejeitem estas teorias apenas por sentirem também a falta desse calor e desse respeito que as crianças nos merecem. E isso faz despertar em nós a criança ferida, que se sentiu pouco acolhida na infância e que rejeita essa forma de educar porque sente que, de algum modo, foi ela a causadora do seu sofrimento.

Mas claro que colocar limites, por vezes, é mesmo um acto de amor e de compreensão da natureza da criança que precisa de ser protegida e orientada. 

Do lado oposto temos aquelas pessoas que dizem que ao colocar limites estamos a criar crianças submissas e permanentemente frustradas que não terão oportunidade de se descobrir a si mesmas, fruto dessa criação autoritária. Confesso que, este lado, para mim é muitas vezes mais fácil de ouvir e aceitar, talvez porque não atinja tanto a minha criança interior. Mas, a verdade é que, muitas vezes, também vem despido de algum conhecimento sobre o desenvolvimento infantil e as necessidades das crianças. Neste lado concordo com a ideia de que as crianças não têm de ser moldadas às nossas vontades nem expectativas e que são merecedoras de respeito e dignidade. Mas, a verdade, é que respeitar uma criança é reconhecer que a sua natureza também lhes diz que elas precisam de ser guiadas, orientadas, protegidas. E como podemos ser protegidos por alguém que nunca assume o controlo? Como podemos deixar-nos guiar por alguém que parece não saber bem o caminho? E como é que podemos sentir-nos seguros com alguém que não nos transmite uma imagem de segurança, que parece não confiar em si próprio e no papel fundamental que precisa de desempenhar? 

Quando precisamos de um mapa, por estarmos em território desconhecido, não queremos um mapa que não nos dê certezas, ninguém se deixaria orientar por um GPS que estivesse sempre a fazer perguntas ou a mudar de caminho e de direcção ou que nos mostrasse o caminho cheio de incerteza na voz. Então as nossas crianças também não podem deixar-se orientar por nós se não soubermos  bem para onde queremos ir, ou pelo menos, se não aparentarmos saber o melhor possível quando estamos perto delas. 

Mas, se este discurso baseado no respeito e aceitação nem sempre é muito fundamentado nos modelos da psicologia do desenvolvimento, a verdade, é o que discurso mais autoritário também se baseia muitas vezes em modelos que não estão muito actualizados. 
As neurociências têm vindo a mostrar-nos cada vez melhor a importância e o impacto que têm os relacionamentos na nossa vida e sobretudo entre pais e filhos. Então aquilo de que as crianças precisam em primeiro lugar é de relações seguras e a qualidade do relacionamento entre pais e filhos deve ser a nossa primeira preocupação e a base mais importante de todo o nosso trabalho. Sem ela não existem limites nem nada que possa fazer realmente a diferença. Acontece que a nossa capacidade de reconhecermos que precisa de existir uma hierarquia entre pais e filhos também contribui muito para a qualidade dessa relação. 

Gordon Neufeld, psicólogo canadiano que construiu um modelo muito completo do desenvolvimento infantil que me orienta sempre no meu trabalho, costuma dizer que a parentalidade é como uma dança. Então precisamos de saber dançar. E para dançar não adianta termos apenas um conhecimento teórico dos passos ou da música, pode ajudar temos algumas noções básicas, mas acima de tudo, precisamos de sentir a música. E isto não é racional. Nunca ouve tanta informação sobre parentalidade e, paradoxalmente, também nunca ouve tanta dificuldade em dançar como parece haver nos nossos dias. 

Nesta questão dos limites essa ideia da dança faz-me muito sentido. Porque é realmente uma dança em que temos de ser capazes de sentir os nossos filhos e o nosso próprio instinto e de saber ir ajustando as duas coisas. Não precisamos que ninguém nos ensine a ser pai e mãe se formos capazes de simplesmente entrar nessa dança. Aí saberemos exactamente o que precisamos de impor e o que precisamos de respeitar. Saberemos quando é tempo de respeitar, apoiar e acolher sem direcções e quando é fundamental orientar, guiar e até proibir. Sim, porque às vezes parece que proibir é uma palavra proibida na educação hoje em dia, mas enquanto pais temos mesmo de proibir certas coisas aos nossos filhos por vezes, temos de os proibir de fumar e beber álcool em crianças, por exemplo ou de se atirarem para uma estrada com carros. 

Vejo por vezes muita confusão na cabeça dos pais em relação a estas coisas porque se esquecem de como dançar. Por exemplo, é claro que não devemos obrigar uma criança a comer, temos obrigação de escolher comidas saudáveis e de lhas apresentar e de proibir aquelas que não consideramos decentes mas não podemos obrigá-las a comer as quantidades que imaginamos serem as certas. Porque os mecanismos de saciedade são algo muito instintivo e variam de pessoa para pessoa e também são algo que é relativamente fácil de avariar por isso é importante que criem uma relação saudável com a comida e que aprendam a ouvir o seu próprio corpo. Mas isto é muito diferente de esperarmos que sejam eles a dizer-nos que têm fome ou até a servirem-se sozinhos. Devemos ser nós a estipular os horários das refeições e a ter consciência de quando será mais ou menos adequado dar-lhes comida. A comida está muito relacionada com este sentimento de sermos cuidados e uma criança que tem sempre de pedir comida e em que não há nenhuma regularidade nas refeições é uma criança que, facilmente, se sente perdida ou descuidada. Quando antecipamos as necessidades dos nossos filhos, sabendo que é muito provável que eles tenham fome a determinada hora e lhes damos comida a essa hora, eles sentem-se cuidados, vistos, acolhidos, seguros e compreendidos. Não há nada mais reconfortante do que sentirmos que alguém nos conhece e cuida de nós, preenchendo as nossas necessidades sem termos que lhes pedir.

Então esta é uma dança em que precisamos de manter o equilíbrio e saber quando é que não tem mal nenhum darmos uma bolacha a uma criança que a pediu fora de horas e quando é que precisamos  de ser nós a manter o controlo das refeições. E também saber que as crianças não são iguais e que aquilo que não fazia muito mal com um filho pode causar alguns estragos com outro. 

Outra questão em que vejo muitas vezes alguma confusão é no dormir. Temos as pessoas que dizem que as crianças precisam de dormir sozinhas desde cedo no seu quarto e em horas fixas e as que dizem que podem dormir com os pais e não precisam de horários porque eles sabem quando têm sono.

Sou apologista de que não devemos forçar as crianças a dormir sozinhas, acho importante que durmam com os pais, pelo menos no primeiro ano de vida e reconheço benefícios em continuarem a fazê-lo durante os primeiros anos, até se sentirem prontas para dormir sozinhas. Já falei muito disto no meu livro, Amar não Basta, e também aqui e aqui mas acredito que, se os nossos filhos precisam desse contacto para se sentirem seguros não ganhamos nada em tentar afastá-los à força antes de estarem preparados para isso. Isto não quer dizer que esperamos que eles nos digam que estão prontos para passar a dormir sozinhos mas sim, que enquanto pais, conhecemos os nossos filhos bem o suficiente para saber quando é altura de os incentivar a dar esse passo ou quando devemos ainda esperar mais um pouco até que estejam prontos para ele. 

E isto é muito diferente de dizer que não precisam de horários ou de serem forçados a ir para a cama mesmo que não o queiram. Primeiro acredito que precisam de horários, sim. E muitos problemas de adultos que sofrem de insónias podem ter começado justamente com a falta de horários na infância. Porque o corpo humano está programado para dormir a determinadas horas. Mesmo para quem tem trabalhos nocturnos, por exemplo, sabemos que dormir de dia não é o mesmo que dormir à  noite. E uma das razões pelas quais é tão desgastante trabalhar por turnos é justamente pela falta de um horário para dormir. O nosso corpo está programado para começar a segregar níveis mais baixos de cortisol ao final do dia e esses níveis começam a ser naturalmente mais altos pela manhã. Claro que poderá haver alguma variabilidade individual, não precisamos todos de estar na cama às nove em ponto, mas existem algumas limitações e mínimos que precisamos de cumprir. E o sono precisa de obedecer a alguns ritmos para funcionar o melhor possível. Os bebés ainda não têm um ritmo circadiano bem definido, e a sua produção de cortisol só começa a seguir estes ritmos por volta dos 9 meses de idade, por isso podem estar a dormir profundamente às três da tarde e completamente prontos para a brincadeira às quatro da manhã, para infelicidade dos pais, mas esta é mais uma razão, para mantermos a regularidade de horários, para os ajudarmos a criar esses ritmos de forma saudável.

Mas quando estes ritmos já existem, uma criança que se deite às onze da noite tem muitas probabilidades de dormir pior do que quando se deita às nove. Este dormir pior pode significar apenas um sono mais agitado e menos reparador ou um sono com mais despertares ao longo da noite. Por isso quando deixamos que crianças pequenas se deitem tarde, muitas vezes, elas acordam ainda mais cedo que o normal. Porque estas alterações provocam mudanças na sua produção de cortisol, uma hormona que também se altera em função dos nossos níveis de stress, o que por sua vez provoca mudanças no sono e pode impedi-las de descansar tudo o que precisam.

Se uma criança não vai dormir na hora em que deveria, quando aparecem os primeiros sinais de sono, o que acontece é que os seus níveis de cortisol vão começar a subir por isso ela terá mais dificuldade em adormecer e provavelmente resistirá à ideia de ir para a cama. Os níveis de cortisol mais elevados fazem com que eles pareçam mais excitados e energéticos porque estão a entrar em estado de alerta e isso também os impede de saberem aquilo de que precisam, porque com a agitação do cortisol a subir (e há crianças mais reactivas e outras menos a este estímulo) o organismo começa a entrar em estado de alerta e quando estamos assim dormir é muito mais difícil, porque o corpo nos diz que devemos estar acordados para nos proteger do perigos. E isto acontece a um nível inconsciente e de forma que eles simplesmente ainda não têm capacidade para perceber que, na realidade não há perigo nenhum, e só precisam de descansar. É aqui que acontece uma boa parte das lutas contra o sono. Mas, se cedermos e os deixamos simplesmente ficar acordados até que caiam para o lado de cansaço, só estamos a aumentar os níveis de stress no seu organismo que, provavelmente, os irão impedir de ter uma noite realmente boa de sono. Isto pode ter várias consequências, que muitas vezes são visíveis ao nível comportamental e terá com certeza efeitos na vida adulta. Isto com crianças mais reactivas torna-se ainda mais intenso. Por isso nesta dança somos mesmo nós que temos de assumir o controlo e não ter medo de tomar decisões. E, aqui, como em tantas outras coisas, a rotina e as regras ajudam. E ajuda também muito que eles confiem
em nós e que estejam habituados a ser orientados.

Então realmente estes dois lados que parecem opostos têm alguma verdade: as crianças precisam de ser orientadas e precisam de sentir que os pais estão no controlo e sabem o caminho a seguir. Mas também precisam de se sentir respeitadas e acolhidas. 

Para isso precisamos de não ter medo e de ser capazes de assumir o papel de quem está no controlo, da mesma maneira que também precisamos de saber respeitar a ligação fundamental que temos com os nossos filhos e de os acolher. Precisamos de olhar para os nossos filhos e vê-los como realmente são e saber de que precisam e também de sermos capazes de transmitir que os vemos, que os compreendemos e conhecemos e que sabemos cuidar deles. Quando temos medo de nos impor e de tomar decisões não estamos a fazê-lo por respeito aos nossos filhos mas estamos a agir em função da nossa criança ferida, aquela que não foi acolhida na infância como precisava de ter sido e que tem muito medo de ferir também os seus filhos. Então precisamos também de acolher essa criança e de lhe mostrar que é possível orientar, educar e respeitar e acolher ao mesmo tempo. Precisamos de a fazer acreditar que temos tudo aquilo de que os nossos filhos precisam para serem felizes e se sentirem seguros quando somos capazes de dançar a partir da música do amor e da confiança e não da música do medo e das feridas da nossa infância. 

Precisamos de encontrar uma forma de sarar essas feridas para que sejamos capazes de olhar para os nossos filhos a partir do adulto que somos hoje. E para que não tenhamos medo de assumir esse papel de adulto que guia e que se sente capaz de amar, respeitar e dar segurança ao mesmo tempo. Porque as duas coisas não só não são incompatíveis como precisam mesmo de andar juntas se queremos ter dar aos nossos filhos a possibilidade de crescerem felizes e tranquilos.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Birras filmadas e como podemos ajudar os nossos filhos a lidar com as emoções

Tem circulado nas redes sociais por estes dias um vídeo de um pai que filmou a filha a ter um episódio de grande descontrolo que, ao que parece, durou cerca de 45 minutos. O vídeo é bem mais curto que isso, mas confesso que não o consegui ver da primeira vez, porque me fez muita impressão. Mas, entretanto, resolvi vê-lo agora até ao final porque senti que era importante falar sobre isto. 

Primeiro, uma das questões que não pode ser ignorada é o facto desta criança ter sido filmada num momento de grande fragilidade e de ter sido exposta desta forma, que foi uma das coisas que me incomodou. Além disso num momento destes os nossos filhos precisam de apoio e da nossa presença e disponibilidade total e não me parece que esse apoio possa considerar-se total quando existe uma câmara a filmar e a preocupação com todos os que irão ver depois essa filmagem. 

Mas, depois de ver tantas pessoas a partilhar este vídeo e de perceber que muitas até apoiavam e louvavam a atitude do pai, fiquei ainda mais incomodada e foi por isso que decidi escrever este texto. 

No vídeo vemos uma criança muito aflita, com grande dificuldade de integrar e regular as suas emoções, como é perfeitamente normal e natural nesta idade. O que já não me parece tão natural assim é a duração deste episódio e o comportamento tão passivo do pai. Na verdade aquilo que vi no vídeo, para além de uma criança em sofrimento, foi também um pai perdido. Sem querer julgar o pai e a forma como educa a filha, sem fazer ideia daquilo que poderá ter levado aquela situação e sem duvidar das suas boas intenções ao tentar estar presente e dar algum espaço à filha para expressar o que estava a sentir, a verdade, é que me pareceu que ele não fazia ideia daquilo que deveria fazer para acalmar a criança. E isso é grave porquê? Porque passa para a criança uma sensação de medo e de insegurança acerca dos seus próprios sentimentos - que são tão intensos que nem os adultos sabem lidar com eles - e acerca da sua relação com o pai - que é tão frágil que ele nem sabe o que pode fazer para a acalmar. E se isso se repetir muitas vezes irá facilmente criar na criança um sentimento mais ou menos permanente de ansiedade e insegurança. 

As crianças não lêem as nossas intenções mas sentem as nossas emoções e observam o nosso comportamento, sem fazerem ideia das razões que estão por trás dele. E, o comportamento do pai, neste caso o que mostrou à filha, foi que não podia fazer nada que a ajudasse a regular as suas emoções e a sair daquele estado. A certa altura a criança aproxima-se dele e agarra-se ao pescoço do pai. O contacto físico é uma forma de ajudar a acalmar uma criança mas, neste caso, nem isso parece ter resultado muito porque foi a criança que precisou de o procurar. É verdade que quando as crianças estão assim nem sempre querem que as abracemos ou peguemos ao colo e, por vezes, temos de lhes dar algum espaço, sim. Mas isso é diferente de esperar que sejam elas a procurar-nos. Porque isso passa uma mensagem de que não sabemos ler as suas emoções, não as conhecemos assim tão bem e não sabemos como ajudá-las. E pior ainda, passa uma mensagem, de que são elas que têm de nos procurar, mesmo nos momentos mais difíceis. São elas que têm de estar no controlo da situação. E isso impede-as de descansar e relaxar. Como é que podemos relaxar e descansar de verdade nos braços de alguém quando sentimos que somos nós que temos sempre de pedir ajuda e de procurar essa pessoa? Quando a pessoa mostra que não nos conhece, que não sabe o que fazer, como lidar connosco? 

Enquanto pais e mães somos nós que temos sempre de assumir a responsabilidade da relação e isso implica também que sejamos  nós, sobretudo nos momentos mais difíceis, a assumir o controlo. Para isso temos de estar atentos e perceber quando é que já podemos aproximar-nos e dar um abraço ou um colo, não apenas ficar à espera que a criança o procure. 

Temos a obrigação de ajudar os nossos filhos a lidar e a regular as suas emoções. E, se isso demora 45 minutos a acontecer então também temos a obrigação de nos questionar sobre o que poderá estar a correr mal e talvez pedir ajuda. 

É verdade que é importante que as crianças chorem e é verdade que é natural que se descontrolem de vez em quando. E também é verdade que precisamos de aceitar e acolher as suas emoções. Mas, nada disto implica ficarmos quietos à espera que tudo passe. Aceitar e acolher emoções não tem nada a ver com passividade. Não significa que não podemos fazer nada para as modificar e, sobretudo, não significa que, enquanto pais, não temos obrigação de ajudar os nossos filhos a sair desses estados intensos que eles simplesmente não têm capacidade para regular sozinhos. E ficar ao lado de um filho que está nesse estado sem fazer nada não ajuda porque uma criança não tem capacidade para perceber que estamos ali por ela se não lho mostramos claramente com gestos, palavras e atitudes. 

Na verdade, mesmo como adultos, nessas situações precisamos que sejam os outros a assumir o controlo e mostrar que são capazes e estão dispostos a ajudar-nos. Nessas alturas não chegam as palavras bem intencionadas, precisamos mesmo de acções, de gestos que mostrem que os outros sabem lidar connosco e que estão dispostos a fazer o que for preciso para nos ajudar. 

Porque nestas alturas são as partes mais primitivas do cérebro que estão no comando, estamos em pleno modo de alerta e, nesse modo de alerta não respondemos às coisas mais subtis, precisamos mesmo de gestos e atitudes concretas e bem visíveis para que tenham algum efeito. 

Aquilo que uma criança precisa numa situação destas, acima de qualquer outra coisa, é de sentir que o adulto assumiu o controlo e sabe o que fazer. E quando não sabemos então precisamos de fingir porque não é possível acalmar uma criança se não nos sentirmos no controlo da situação. E foi isso que me pareceu faltar muito neste vídeo. 

Então o que fazer nestas situações? 

Primeiro acolher os sentimentos e emoções dos nossos filhos significa que somos capazes de nos colocar no lugar deles, de perceber minimamente o que os fez ficar assim. E depois temos de ser capazes de lhes transmitir isso sem uma atitude de julgamento, sem lhes transmitir que aquela emoção é errada. Isto faz-se dizendo que compreendemos que eles se sintam zangados, frustrados, tristes ou que acharmos mais adequado. Mas precisamos de fazer isso com empatia e para isso também não será natural que estejamos completamente calmos e tranquilos. 

É verdade que ajuda muito a controlar o episódio se os pais mantiverem o seu auto-controlo. Mas manter o auto-controlo não é ficar totalmente passivo. Precisamos de entrar em contacto com a emoção da criança, para sermos capazes de lhe mostrar que não faz mal sentir aquilo e que aquela emoção pode ser transformada e integrada. Para isso precisamos de não ter medo de a sentir. Só assim podemos ser verdadeiramente empáticos. Há uma diferença entre sentir a emoção e deixarmos-nos arrastar por ela. A criança é arrastada por ela porque ainda não desenvolveu o seu cortéx-pré-frontal que nos permite reflectir sobre o que estamos a sentir. Por isso ainda ficam completamente à mercê das emoções nestas alturas e por isso é que nós temos obrigação de as ajudar a controlarem-nas. Nós, idealmente, já o teremos desenvolvido e por isso podemos mostrar aos nossos filhos que é possível sentir medo, raiva, tristeza, frustração, etc. e não perder o controlo. 

Quando falamos aos nossos filhos sobre o que estão a sentir também ajudamos a desligar as partes mais primitivas do cérebro e a ligar as mais racionais o que também irá contribuir para a sua auto-regulação e para o desenvolvimento do tal cortéx-pré-frontal. 

Então não precisamos de nos manter completamente calmos quando os nossos filhos estão a perder a cabeça e, na verdade, isso nem sequer é realmente adequado. Porque as nossas emoções também têm que espelhar as deles, um pouco, de preferência com o auto-controlo que eles ainda não têm. Claro que não adianta nada se perdermos a cabeça também, mas é preciso encontrar o equilíbrio entre sentir aquilo que eles sentem (num grau um pouco menor, é claro) mas manter o auto-controlo necessário para perceber e explicar a situação aos nossos filhos e mostrar-lhes como se pode fazer esse caminho para regular e integrar as emoções. 

E precisamos de lhes mostrar que é seguro expressarem essas emoções connosco mas essa segurança só pode existir se nós também sentirmos que conseguimos lidar com a situação, que não precisamos de nos retirar para um lugar de passividade total nem precisamos de reprimir completamente aquela emoção ou a sua manifestação.

Falo também disto com mais pormenor na última parte do meu livro Amar não Basta.