quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Fantasmas nas nossas camas - Pais que dormem com os filhos

Há pouco tempo li uma entrevista de uma conhecida especialista do sono que criticava o facto de, segundo ela, haver casos de adultos com trinta anos a dormir com os pais. E, segundo a própria, isso começava, é claro com o problema dos pais não os terem ensinado a dormir sozinhos em crianças.

Então há aqui várias coisa que merecem ser questionadas. Em primeiro lugar, a velha crença de que precisamos de ensinar as crianças a dormir. Aqui estou plenamente de acordo com o pediatra Carlos Gonzalez quando afirma que não se ensina ninguém a dormir. Tudo que podemos fazer é criar as condições ideais para que uma criança durma e essas condições podem variar um pouco mas há uma que será fundamental em todos os casos: segurança. Porque dormir é uma espécie de abandono. Para dormir precisamos de ser capazes de abandonar o mundo, sabendo que ele estará seguro e o voltaremos a encontrar quando acordarmos mas, acima de tudo, precisamos de nos abandonar a nós. Ninguém decide adormecer, ninguém controla racionalmente o sono. Se assim fosse não teríamos tantos problemas de insónias. Dormir é simplesmente algo que deixamos que aconteça e, para que isso aconteça, precisamos de estar tranquilos e seguros. Muitos adultos têm insónias justamente por falta de segurança: porque não conseguem parar de pensar nos problemas do trabalho, ou nas contas para pagar, ou na discussão que tiveram com o marido ou mulher nesse dia.

Porque para dormir precisamos acima de tudo de confiar: precisamos de confiar que o mundo estará cá de manhã quando acordarmos e que tudo irá estar bem e precisamos de confiar que não nos acontecerá nada de mal enquanto estivermos nesse estado de inconsciência que é o sono e que implica alguma vulnerabilidade, até mesmo do ponto de vista físico. Qualquer animal, para dormir, procura um sítio seguro e qualquer mamífero procura sítios seguros para as suas crias dormirem, porque sabem instintivamente que dormir é um estado vulnerável.
E, de um ponto de vista mais fisiológico, para dormir precisamos de desligar o nosso sistema de alerta, precisamos de ser capazes de desligar o sistema de resposta ao stress que se activa sempre que nos sentimos perante uma potencial ameaça e que nos impede de dormir, excepto quando já estamos num estado de total exaustão, porque dormir seria ficarmos vulneráveis aos perigos.

Então, enquanto pais a única coisa que podemos fazer para que os nossos filhos durmam é criar um ambiente seguro. E essa segurança pode ser diferente de criança para criança. Os bebés precisam de mais contacto físico mas, por vezes esse contacto pode não chegar. Alguns bebés precisam também de movimento e isso não está errado. Muitos pais se questionam o que estarão a fazer de mal porque os bebés, para além de precisarem de colo para adormecer, também precisam de ser embalados. Isto é natural, o embalo recria as condições do útero onde o bebé se sentia tão bem e, por outro lado, o embalo activa mesmo determinadas partes do cérebro que detectam o movimento e que, só assim, podem produzir uma sensação de relaxamento e tranquilidade, desligando o tal sistema de alarme. Por algum motivo um movimento típico das crianças autistas ou com outros problemas de desenvolvimento é aquele movimento do corpo para trás e para a frente, como se se estivessem a embalar a si próprias. Isto acontece porque a criança encontra neste mecanismo algum tipo de controlo dos seus estados de stress e uma forma de reduzir um pouco a sua tensão. Este movimento também se via muito nas de crianças institucionalizadas a quem não era permitido nenhum tipo de contacto físico.

Talvez este mecanismo seja fruto da herança genética que partilhamos com outros mamíferos que andam a maior parte do tempo agarrados às suas mães, ou talvez seja herança dos nossos próprios antepassados que também estavam muito mais em movimento, porque andavam muito mais ao colo do que nós. O que é certo é que, o facto de ser universal que o movimento acalma os bebés significa que isto não pode estar errado. Logo também não será errado dar a um bebé aquilo que ele precisa. E poderá haver dias em que isto faz mais falta do que noutros, ou crianças que precisam mais desse movimento do que outras porque não somos todos iguais e não nos sentimos sempre da mesma forma.

Por outro lado também há crianças que precisam de mais contacto físico do que outras e crianças que continuam a precisar dele por vários motivos. Então, se a criança, precisa deste contacto o que é que ganharemos em tirar-lho? Apenas mais insegurança.

Outra coisa em que também é preciso pensar quando falamos de pais que dormem com os filhos é que, apesar de tudo, existe uma diferença grande entre os pais que dormem com os filhos por opção e aqueles que o fazem porque sentem que não têm outra alternativa.

Em tempos falava de co-sleeping com uma colega que trabalha num serviço de pedopsiquiatria e ela dizia-me que, nesse serviço, todas as crianças dormiam com os pais. Isto é um argumento muitas vezes usado pelos médicos que lidam com muitas famílias disfuncionais e que constatam que esta é uma realidade dessas famílias. Mas, aqui, precisamos de pensar que a partilha de cama dessas crianças com os pais não tem necessariamente de ser a culpada dos problemas da criança: antes pelo contrário, o que acontece é que, nestas famílias, existem outros problemas que esta partilha de cama pode ajudar a minimizar. Por um lado se a criança tem algum problema de relacionamento ou de desenvolvimento é natural que isto lhe cause alguma ansiedade e alguma insegurança, então também é natural que essa criança não queira ficar sozinha de noite, um momento de maior vulnerabilidade. E, por isso, o mais natural é que procure o conforto do corpo dos pais, para se sentir mais segura e protegida. Por outro lado, se os pais também sentem que há algo que não está certo com a criança, se sentem que a sua relação com ela não funciona bem também podem querer dormir com a criança como forma de se sentirem um pouco mais tranquilos em relação a isso. Sim, porque os adultos, por vezes, também precisam desse contacto físico para se sentirem seguros.

E, depois os efeitos da intenção com que se partilha a cama com uma criança também são muito diferentes. É diferente o caso de um pai que partilha a cama com o filho porque sente que esta é a única forma de conseguir descansar ou um pai que partilha a cama com o filho por opção e porque sente que esta é uma forma positiva de relacionar com a criança. No primeiro caso o que acontece geralmente é o sentimento de culpa e de medo. Na verdade as famílias em que os pais dormem com os filhos são muito mais comuns do que aquilo que se pensa mas, o que acontece, é que justamente por causa desta culpa e deste medo associados à vergonha, as pessoas acabam muitas vezes por esconder este comportamento.

Então é muito importante que se desmitifique esta ideia de que a partilha de cama é culpada de coisas muitos graves no desenvolvimento das crianças. E é fundamental que os pais percam o medo de dormir com os filhos.

Muitas vezes os pais de crianças mais crescidas perguntam-me se acho que ainda podem dormir com os filhos, dizem-me que os filhos não querem dormir sozinhos e fazem-no, quase sempre, com este misto de culpa e de vergonha de quem acha que fez alguma coisa de errada. A resposta que dou normalmente nesses casos é que, se a criança precisa realmente daquele contacto será muito mais prejudicial negá-lo do que dar-lhe simplesmente aquilo de que ela precisa - livres de culpa e de vergonhas - até que um dia ela deixe de precisar.

É verdade que um bebé precisa mais de contacto físico e da nossa presença do que uma criança mais velha. Também é verdade que será natural que uma criança mais velha consiga mais facilmente adormecer sozinha que um bebé. Mas o facto de isto ser o mais esperado não quer dizer que tenha de ser forçado. Todas as crianças têm necessidades diferentes. Há uns dias ouvi uma frase do educador do meu filho com que me identifiquei e que faz todo o sentido aqui, a propósito de outra coisa, ele dizia que não era apologista de autonomias forçadas. E realmente não se pode mesmo forçar a autonomia de uma criança. Ainda por cima as crianças são muito mais atentas aos sentimentos e às expressões não verbais mais subtis do que os adultos, isto significa que, uma criança que precisa de dormir com os pais que se sentem culpados de o fazer, sente essa culpa e acaba por interiorizar essa vergonha. Um pai que acredita que há algo de errado com o seu filho por não conseguir dormir sozinho, acaba por transmitir ao filho essa visão fazendo com que, por sua vez, esse filho acabe por interiorizar que há algo de errado consigo. Por sua vez isso acaba por gerar ainda mais insegurança, ansiedade e vergonha e, mais uma vez, procurar o conforto do corpo dos pais pode ser justamente uma maneira de minimizar o desconforto provocado por esses sentimentos.

Então, a única solução, será confiar nos nossos filhos. Saber que não é negando as suas necessidades que estas algum dia irão desaparecer.

Mais uma questão em que este artigo me deixou a pensar foi esta: e porque será que queremos assim tanto que estas necessidades desapareçam? Porquê esta necessidade de querermos afastar os nossos filhos de nós? Porquê este medo da dependência e estes fantasmas da autonomia que assombram tantas casas por aí? 


Ao ler este artigo lembrei-me da abertura de um livro do Kabat-Zinn - Everyday Blessings - que descreve a noite em que um dos filhos voltou a casa depois de ter passado a sua primeira temporada na faculdade e os pais já estavam deitados. Kabat-Zinn descreve de forma comovente a maneira como o filho foi ter com eles ao quarto e se deitou, na cama dos pais, ao comprido, em cima deles e abraçando os dois ao mesmo tempo. Nesse livro, comovente e inspirador, ele descreve esse como um dos momentos mais ricos e significativos na sua vida de pai. E fala da felicidade de sentir aquele corpo, daquele jovem adulto - que ele diz que, em bebé, carregou nos seus braços durante todo o tempo que lhe foi possível -  e da felicidade de sentir que existia ainda essa intimidade entre os dois e de sentir que esse reencontro o deixava a ele tão feliz como aos pais. Confesso que esta  imagem do filho crescido deitado em cima dos pais que estavam na cama me comoveu e marcou desde o dia em que a li e pensei que gostaria muito de ter essa relação com o meu filho, um dia, quando ele for crescido.  E, quando li este artigo foi uma das imagens que me veio à memória e que me fez perguntar que tipo de relação é que queremos ter com os nossos filhos afinal? Uma em que eles sintam que os pais estão tão distantes e afastados que mal podem tocar-lhes ou outra em que, mesmo adultos, sintam que é possível ter a proximidade e o conforto de um abraço daqueles que só damos às pessoas mesmo especiais para nós. Porque é através do corpo que damos e recebemos afecto. É através do corpo que estabelecemos relações e dormir com alguém ou simplesmente estar um pouco na cama de alguém pode ser uma maneira muito íntima de expressar esse afecto. Então, se queremos ter uma relação verdadeiramente próxima e significativa com os nossos filhos, porquê negar-lhes esse contacto?

Porque é que, para tantas pessoas, é tão chocante pensar num adulto de trinta anos a entrar na cama dos pais?

Os Fantasmas da Psicanálise 

Na minha opinião isto são ideias que vêm dos fantasmas deixados pelas teorias psicanalíticas mais antiquadas. As ideias defendidas por Freud, em relação ao édipo e a toda a excessiva sexualização da infância que este descrevia. Há algum tempo li uma entrevista de um conhecido psiquiatra, Daniel Sampaio, que dizia que as crianças que dormem com os pais acabam por exibir comportamentos sexuais precoces. Então, mesmo quando não é isto que os médicos dizem, na verdade é isto que pensam: que os pais que deixam as crianças dormir consigo, ou que as mães que dão de mamar até tarde acabam por fazer com que a criança crie algum tipo de trauma no campo da sexualidade que irá impedir o seu desenvolvimento normal e natural.

Acontece que a psicanálise - que tantos especialistas tomam como certa -  é apenas uma visão do ser humano, não é a única, não é a melhor e, em muitas coisas, nem sequer considero que seja a mais certa ou a mais útil. É uma visão do ser humano criada por outro ser humano que, na altura, se baseou nas suas próprias observações ou seja, nem sequer, podemos dizer que tenha uma base muito científica. E, se há muitas coisas que tiveram muito mérito nestas teorias - como o conceito de inconsciente que ninguém nega e que realmente foi um contributo importante para estruturar a nossa visão da consciência - existem também outras coisas que podem não fazer tanto sentido e que, na verdade nem sequer são muito úteis quando falamos de crianças e de educação. Freud tinha uma visão muito negra do ser humano, para Freud o ser humano tinha uma natureza má e egoísta que a sociedade precisava de corrigir através da educação. E, por isso, as crianças precisavam de ser domadas e educadas para não ficarem apenas a funcionar com base no princípio do prazer. Segundo Freud se as crianças não fossem educadas de uma forma relativamente rígida e com muitos limites estar tornar-se-iam uma espécie de animais insaciáveis e passariam a orientar todos os seus esforços na busca do prazer.

Freud tinha também uma preocupação excessiva com a sexualidade na infância. Se as suas teorias tiveram o mérito de reconhecer as crianças não são seres totalmente assexuados como até então se pensava, também caíram no excesso de resumir todo o desenvolvimento infantil a uma fase do desenvolvimento sexual. E, atrás disto vêm as teorias do édipo que, se por um lado também têm algum fundo de verdade, na medida em que é natural que a criança use o progenitor do sexo oposto como uma espécie de aprendizagem para lidar com esse sexo, também acho que é exagerada no sentido de acreditar e defender que a criança tem fantasias de natureza sexual com esse progenitor e que, todos os comportamentos que encorajem a proximidade física estão a dar azo a essas fantasias. E aqui acabamos por cair no excesso de fazer com as mães tenham medo de dar de mamar aos filhos ou de dormir com eles porque podem estar a contribuir de algum modo para essas fantasias e a alimentar o famoso édipo na criança. Gordon Neufeld é um psicólogo canadiano que passou trinta ou quarenta anos da sua vida a estudar o desenvolvimento infantil e a tentar perceber os vários modelos existentes e com base nisso criou um modelo do desenvolvimento que se estrutura em torno do conceito de apego e que me parece muito mais sensato e completo e bem organizado e estruturado do que o de Freud e é ele próprio que afirma que esta visão do Èdipo de que Freud falava é apenas uma má interpretação da natureza profunda do vínculo que as crianças estabelecem com os pais. Porque a partir de uma certa idade, quando tudo corre bem no seu desenvolvimento, é natural que as crianças comecem a verbalizar que querem ficar com os pais para sempre e a forma mais natural nas nossas sociedades de alguém ficar junto e declarar esse amor é o casamento, por isso, quando percebem isto, muitas vezes elas começam a dizer que querem casar com a mãe ou com o pai e geralmente escolhem o progenitor do sexo oposto porque ainda é esse o modelo de casamento que prevalece, mesmo nos nossos dias.
Então não podemos associar estes comportamentos naturais e instintivos apenas à sexualidade, porque é muito limitativo fazê-lo. Afinal se Freud, por um lado, veio libertar a mente de vários dos seus contemporâneos para quem o sexo era um tabu e veio permitir-lhes reconhecer que este era uma parte muito mais presente e muito mais importante da vida do que até então era aceite, por outro lado, hoje em dia, muitas vezes caímos no erro da sexualização excessiva. E, na verdade, isto revela até um comportamento quase esquizofrénico da nossa sociedade que vive tanto com o sexo que está presente em tantas coisas  hoje em dia - até para vender carros - e que tenta promover cada vez uma sexualidade livre e liberta de tabus mas que, ao mesmo tempo, fica cheia de medo de estar a incentivar nas crianças comportamentos perigosos nesse campo. Quando, convenhamos, uma criança que dorme com o pai ou a mãe, uma criança que mama até tarde está apenas a fazer aquilo que é biologicamente natural e os pais que cedem a esse instinto estão também a fazer apenas aquilo que a sua consciência lhes pede e, a verdade é que, a negação desse contacto físico numa altura em que a criança precisa dele é justamente o caminho mais seguro para uma sexualidade que poderá não ser muito saudável. Porque uma criança que cresce com a segurança de poder contar com a presença física dos pais quando precisa dela é uma que cresce bem e em paz com o seu corpo e isso será um dos ingredientes mais importantes para uma sexualidade saudável e feliz.

A psicanálise foi uma grande influência na psicologia, foi das primeiras teorias coerentes sobre o funcionamento humano e foi também a base das primeiras intervenções psicoterapêuticas no ocidente. Talvez por isso, ainda hoje em dia, tem uma grande influência. A psicanálise desenvolveu-se muito também no meio médico, Freud era médico neurologista e, durante os primeiros tempos do aparecimento desta teoria apenas os médicos podiam fazer psicanálise. Não sei se será esta a razão pela qual nas faculdades de medicina me parece que esta é a base de todas as cadeiras viradas para as questões psicológicas e do desenvolvimento infantil e, muito provavelmente, será por isso também que tantos médicos e pediatras ainda ajudam a levar estes fantasmas para dentro de tantas casas.
A verdade é que Freud deu um ênfase excessivo às questões da sexualidade infantil o que, por um lado, poderá ter tido o mérito de quebrar alguns tabus mas, por outro, veio criar muitos fantasmas totalmente inúteis e desnecessários.

Rogers e Bowlby - uma visão mais positiva 

Acontece que, depois de Freud, surgiram muitas outras teorias acerca do desenvolvimento humano. Uma das que com mais de identifico foi desenvolvida por Carl Rogers, o pai da psicologia Humanista e que tem uma visão um pouco oposta à de Freud: para este psicólogo, que faleceu em 1987 - tal como já defendia Rousseau, filósofo do século XVIII - o homem tem uma natureza intrinsecamente boa e precisa apenas de encontrar as condições ideais para que possa desenvolver todo o seu potencial. Uma dessas condições é aquilo a que chamou a aceitação positiva incondicional que as crianças precisam de sentir por parte dos seus pais. Segundo Rogers esta aceitação era o ambiente base de que todas as crianças necessitavam para serem capazes de desenvolver todas as suas capacidades e para viverem de acordo com a sua natureza.

Isto enquadra-se um pouco melhor na teoria de John Bowlby que desenvolveu o conceito de apego (ver artigo sobre este tema), um marco orientador e fundamental na psicologia do desenvolvimento. Na verdade Bowlby também tinha formação em psicanálise mas ele próprio fez algumas alterações no modelo psicanalítico original defendido por Freud, passando a defender muito mais a importância do estabelecimento de um vínculo seguro com a mãe na formação de toda a personalidade futura da criança. Observações essas que aconteceram com base no seu trabalho com crianças institucionalizadas e também na leitura e observações que foi fazendo até de estudos do comportamento animal, algo que também o influenciou bastante.

Acontece que, as teorias de Rogers e de Bowlby, para além de serem mais recentes que as de Freud, estão muito mais em sintonia com todas as descobertas recentes que a psicologia vai fazendo - principalmente no campo das neurociências - acerca do desenvolvimento infantil. Além de que Bowlby apoiou-se bem mais na ciência e no trabalho de outros investigadores do que Freud, desenvolvendo uma teoria que, na minha opinião, é bastante mais fundamentada.

Então é pena que estes fantasmas da psicanálise ainda se façam ouvir tanto e é pena que assombrem ainda tantas casas levando tantos pais a terem medo de fazer coisas que são e sempre foram perfeitamente naturais. E é pena que tantos profissionais de saúde e tantos supostos especialistas de desenvolvimento infantil não consigam livrar-se dos seus próprios medos e dos seus próprios fantasmas quando falam com os pais e com as crianças que, supostamente, deveriam ajudar.

E tenho mesmo muita pena que, em nome destes fantasmas que já vêm de outros séculos, haja tantos pais com medo de dar colo, de dar mama, com medo de por os filhos na cama consigo. Tenho mesmo muita pena que haja tantos pais que se assustam com os medos que estes especialistas espalham ao ponto de deixarem de ouvir o seu coração e de seguirem o seu instinto que, sem sombra de dúvidas, lhes dirá que podem confiar nos seus filhos, que os seus filhos são bons e não são monstros manipuladores a quem precisam de dizer não constantemente. Tenho mesmo muita pena que haja tantos pais que tiveram eles próprios tanta falta de colo e contacto a fazerem os filhos passar pelo mesmo em nome de uma suposta autonomia que, às vezes, parece tão importante que se sobrepõe a tudo o resto.

Então precisamos mesmo de começar a tirar estes fantasmas das nossas cabeças e das nossas camas e começar a fazer aquilo que simplesmente é mais natural para nós e para os nossos filhos. Precisamos de perder o medo e de seguir o instinto e de a acreditar nos nossos filhos e naquilo que eles nos pedem.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Yoga e ansiedade nas crianças

Muitos pais falam comigo preocupados com os comportamentos ansiosos que vêem nos seus filhos. Porque, infelizmente, são cada vez mais os casos de crianças que sofrem com a tensão em que vivem quase diariamente e são cada vez mais os comportamentos que o demonstram como, por exemplo, dores de cabeça constantes como acontece com algumas crianças que conheço.

E, a maior parte das vezes, estes pais que chegam até mim que, na maior parte dos casos, são pessoas informadas, preocupadas e atentas já ouviram dizer que o yoga pode ser uma boa solução e muitas vezes esta é mesmo a recomendação do médico de família ou do pediatra que segue a criança. Como, além de psicóloga também sou professora de yoga e também já dei aulas de yoga a crianças, então muitas vezes estes pais vêm falar comigo na esperança de encontrarem no yoga uma solução para a ansiedade dos filhos. Mas  verdade é que fico sempre com sentimentos ambivalentes nestes casos, que vou tentar explicar porque surgem.

Benefícios do Yoga para crianças


É verdade que uma prática de yoga pode ter vários benefícios para uma criança. Por um lado, do ponto de vista físico, é importante que as crianças ganhem uma maior consciência do corpo e que aprendam o que podem fazer para o manterem saudável ao mesmo que podem também aprender a ter algum prazer com isso. Também é verdade que as crianças passam cada vez mais tempo sentadas e têm cada vez menos oportunidades de mexer o corpo e de entrar em contacto com ele e de explorar os seus limites, pelo que as aulas de yoga podem ser uma boa altura para o fazerem. Uma vantagem do yoga em relação a outros desportos é o facto de não ter a vertente competitiva que está presente nos outros e que pode ser uma fonte de tensão e de ansiedade para as crianças que, cada vez mais, já estão sujeitas a tantas pressões para serem capazes e para serem as melhores em tantas áreas da sua vida. O yoga pode ser também uma boa forma da criança entrar mais em contacto com as suas emoções e de aprender a adquirir algumas estratégias e ferramentas que lhe permitam geri-las da melhor forma. Através de alguns exercícios de respiração, de relaxamento e de concentração a criança pode aprender a libertar alguma tensão, a estar mais em contacto com o seu mundo interno a ser mais capaz de gerir os seus estados. O yoga pode também ajudar na capacidade de concentração levando a criança a perceber que é possível direccionar a sua atenção e a não ficar tão à mercê das distracções. Se o professor for capaz de transmitir à criança uma atitude de aceitação e de respeito pelo próprio corpo isto pode também ter um papel importante na auto-estima da criança e na criação de uma auto-imagem positiva. Todos estes benefícios têm vindo a ser comprovados por algumas investigações que vão sendo feitas nesta área.

No entanto não acho que o yoga deva ser encarado como a primeira solução para lidar com a ansiedade e insegurança nas crianças. Até porque, as crianças mais ansiosas, são justamente aquelas que terão mais dificuldade em retirar verdadeiros benefícios de uma aula de yoga.


As crianças vivem ainda muito em relação. Os adultos também mas, nas crianças, isto está ainda mais presente. Na infância os relacionamentos que formamos com as pessoas significativas são a fonte mais poderosa de experiências e a que mais contribui para moldar o nosso cérebro e a nossa forma de lidar com o mundo e connosco próprios. As crianças nascem totalmente predispostas para estabelecer relações significativas com as pessoas que cuidam de si. E nascem também com uma tendência inata para confiar nessas pessoas e para verem o mundo através daquilo que elas lhes mostram. Assim, as crianças são autênticos espelhos da forma dos seus pais estarem no mundo. Uma criança procura nos seus pais referências para a forma como se deve comportar, para a forma como deve agir, para a forma como deve lidar com as emoções e sentimentos. 

Os bebés quando nascem passam os primeiros meses num estado de fusão emocional com a mãe, isto quer dizer que, para além de precisarem muito da sua presença e da sua disponibilidade quase constante também acabam por ser um bom reflexo das suas emoções e daquilo que a mãe vai sentido. Se a mãe está ansiosa, por exemplo, os bebés demonstram muito rapidamente essa ansiedade passando a ter um comportamento mais agitado e com mais choro. Observações feitas com mães deprimidas mostraram que os bebés dessas mães apresentavam eles próprios um comportamento semelhante ao da depressão: mostravam muito mais expressões de desconforto de mau-estar do que expressões positivas, tinham episódios de choro mais frequentes do que os filhos de mães não deprimidas e tinham uma maior tendência para se tornarem bebés que mostravam muito pouca vontade de interagir. Isto demonstra que os bebés aprendem com as mães como devem olhar para o mundo e também como olhar para si próprios. Também do ponto de vista neurológico há estudos que mostram que o organismo do bebé tem tendência para se regular através do contacto com o organismo da mãe. Por exemplo, se o bebé está a chorar é muito mais fácil acalmá-lo se a mãe estiver com ele no colo e se mantiver ela própria calma. É como se o organismo mais maduro da mãe mostrasse ao bebé como pode passar de um estado de tensão e mal-estar para um outro estado diferente, de equilíbrio.

Por outro lado, a forma como respondemos aos nossos filhos também vai moldando o seu organismo. Por exemplo, sabe-se que os bebés que são repetidamente expostos a situações de stress - como nos casos em que são deixados a chorar sozinhos – acabam por ter os seus organismos inundados de cortisol, o que faz com o seu hipocampo perca a sensibilidade a esta hormona e deixe de ser capaz de avisar o cérebro que já foi produzida em excesso, o que quer dizer que, o hipotálamo se torna incapaz de desligar a produção de cortisol e a criança passa a viver com a resposta de stress ligada quase de forma permanente. Isto significa que esta será uma criança que terá sempre muita dificuldade em lidar com os desafios. Porque o seu organismo está já num estado permanente de sobrecarga que acaba por provocar um desgaste e fazer com que lhe sobre muito pouca energia extra para lidar com desafios.

Sobretudo durante os primeiros dois anos de vida, o cérebro das crianças está em constante formação. Nesta altura são perdidas e criadas milhares de ligações neuronais. É como se a criança, durante estes dois anos, estivesse a tentar perceber em que tipo de mundo irá viver e tentasse adaptar-se o melhor possível a este. Isto quer dizer que através das experiências que os pais proporcionam ás crianças, ela vai moldando o seu  organismo e o seu cérebro de forma a criar determinados padrões. E estas experiências incluem não só a forma como os pais respondem às suas necessidades mas também a forma como vê os seus próprios pais a lidar com as emoções. As crianças aprendem mais por imitação do que pelo que ouvem e, sobretudo nos primeiros tempos de vida, elas são peritas a sentir mesmo o que não foi dito. Nos dois primeiros anos a criança usa principalmente o lado direito do seu cérebro que está ligado ás emoções e, só a partir dos dois anos de vida, com o desenvolvimento da linguagem é que a criança começa a ser capaz de usar o lado esquerdo que lhe permite racionalizar, analisar e interpretar de forma  mais elaborada o que sente. Isto quer dizer que, nestes primeiros dois anos de vida, criança absorve muita coisa e faz muitas aprendizagens apenas através daquilo que sente com os pais.



Então, quando penso em crianças ansiosas, inseguras ou com alguma dificuldade em lidar com as situações da vida, é inevitável pensar que isso estará, de algum modo ligado ás experiências que viveu com os seus pais. E, se é verdade que os primeiros dois anos de vida são determinantes no que toca a essa moldagem que vai acontecendo, também é verdade que, durante toda a infância continua a existir alguma permeabilidade que permite à criança alterar esses padrões que foram criados. Também é verdade que esta capacidade de alterar esses padrões se mantém até na vida adulta mas, acontece que, na infância, esses padrões ainda não estão tão consolidados o que facilita essa alteração.

Uma das formas mais eficazes de alterarmos os nossos padrões de funcionamento é através das relações que estabelecemos com os outros e criam determinadas experiências dentro de nós, que nos fazem segregar hormonas e neuropéptidos – substâncias que segregamos em função daquilo que sentimos e que têm o poder de influenciar e de alterar a nossa fisiologia. E, se isto é verdade ao longo de toda a vida é ainda mais verdade durante a infância: uma altura em que estamos mais receptivos, mais predispostos a estabelecer relações e deixarmos-nos moldar por elas. Na meditação do tipo mindfulness, por exemplo, que tem vindo a ser comprovada como uma excelente forma de quebrarmos determinados padrões e de alterarmos o nosso funcionamento mesmo ao nível cerebral, o que acontece é justamente o facto de nos tornarmos capazes de estar verdadeiramente em relação connosco próprios e é isso que pode fazer toda a diferença na forma como encaramos a vida.

Então, isto quer dizer que, antes de decidirmos que uma criança ansiosa tem um problema e que precisamos de encontrar estratégias para a ajudar a lidar com ele, podemos pensar que ela está apenas a fazer aquilo que aprendeu connosco ao longo dos seus anos de vida e que, por isso mesmo, uma forma muito eficaz de a ajudar a lidar com a sua ansiedade é aprendermos a lidar com a nossa.

Sem culpas, porque cada pai ou mãe faz exactamente o melhor que sabe fazer com os seus filhos e sem culpas porque apenas podemos dar aos nossos filhos aquilo que aprendemos a dar a nós próprios. Então, se queremos verdadeiramente quebrar o ciclo e ajudar os nossos filhos a lidarem da melhor forma com as suas emoções, precisamos primeiro de aprender a lidar com as nossas. Por isto, dou comigo muitas vezes a dizer aos pais que, em vez, de porem os seus filhos a praticar yoga deviam pensar em ser eles próprios a praticar. Porque, honestamente, se é verdade que as crianças ansiosas ou inseguras podem encontrar no yoga algumas ferramentas que lhes permitam lidar melhor com essa ansiedade, também é verdade que essas crianças aprenderam a sê-lo por causa de todas experiências que viveram com os pais. Então, acredito que a melhor forma de eliminar de vez essa insegurança ou ansiedade é modificar essas experiências.

Muitas vezes, justamente por causa dos nossos receios ou ansiedades acabamos por acreditar que são as pessoas de fora que podem ajudar os nossos filhos  quando a melhor ajuda é nós simplesmente estarmos dispostos a estar presentes, verdadeiramente presentes na relação que temos com eles. Então, muitas vezes os pais fazem o esforço de levar o filho a algum lado para fazer aulas de yoga, incluindo mais uma actividade nas suas agendas já tão preenchidas e atarefadas quando esse tempo seria muito mais bem empregue se o passassem com a criança, criando espaço e oportunidade para estarem verdadeiramente com ela.


A nossa presença, inteira, completa de corpo e coração é o melhor presente que podemos dar a uma criança. E, quando nos tornamos capazes de lhe dar essa presença de forma regular, com que ela possa aprender a contar, estamos a criar-lhe a possibilidade de crescer no verdadeiro sentido do termo. Essa presença dos pais tem um efeito terapêutico muito mais profundo e completo do que aquele que qualquer aula de yoga ou qualquer outra relação lhe pode proporcionar. Uma criança precisa, mais do que tudo de sentir a presença e a aceitação incondicional dos seus pais. É a falta dessa presença - que acontece, a maior parte das vezes, por causa das nossas próprias ansiedades - que está na base de todas as inseguranças com que os nossos filhos lidam. Então, antes de procurarmos no exterior a correcção e a solução para esses medos ou dificuldades que os nossos filhos enfrentam, acredito que faremos muito melhor se as procurarmos em nós mesmos. E isto implica uma grande responsabilidade, sim, é verdade. Mas é uma responsabilidade sem culpa. É uma responsabilidade apenas de nos tornarmos conscientes do nosso poder enquanto pais ou mães de uma criança mas uma responsabilidade onde não entram culpas porque, enquanto pais, também já fomos filhos e fazemos apenas o melhor que nos foi possível aprender com os nossos pais. E sem culpas também porque é essencial que saibamos que é sempre tempo de mudar aquilo que ensinamos e transmitimos aos nossos filhos. Basta tomarmos consciência de que é tempo de lidar com as nossas feridas, é tempo de quebrar o ciclo e basta tomarmos consciência de que os nossos filhos estão sempre prontos, disponíveis para nos receber e para aceitar o que temos para lhes dar, sobretudo quando conseguem sentir que estamos realmente dispostos a tentar fazer diferente. 

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Crianças Hiperactivas e Pais Ausentes

Hoje em dia fala-se muito de hiperactividade com défice de atenção (PHDA) um termo que se tem vindo a tornar cada vez mais comum, principalmente quando aplicado às crianças.

O diagnóstico 

Há vários aspectos importantes que é preciso focar sobre esta questão. Em primeiro lugar é importante falar da questão do diagnóstico e de como este é feito. Os diagnósticos, em psicologia, são feitos com base na DSM (Diagnostic and Statistic Manual of Mental Disorders) que, com base na investigação e no trabalho de vários psiquiatras e psicólogos fornece uma lista dos sintomas mais comuns nas várias perturbações e dos critérios necessários para se decidir que alguém tem uma perturbação mental.

Então para se decidir que alguém tem uma perturbação mental é necessário que essa pessoa se encaixe nesses critérios que são definidos pela DSM. Mas, acontece que, em avaliação psicológica as coisas não são assim tão simples e, neste caso, uma das coisas que é preciso o avaliador decidir é se esses comportamentos são de facto adequados para a idade e para as circunstâncias da criança e, logo aqui, encontramos um certo grau de subjectividade que pode influenciar e muito o diagnóstico.

Por exemplo, estes são alguns dos critérios de diagnóstico que, diz o manual, devem persistir durante, pelo menos, 6 meses: dificuldade frequente em manter a atenção nas tarefas, com frequência parece não ouvir quando alguém lhe fala directamente, com frequência fala em excesso, com frequência se levanta e anda em actividades onde se esperaria que estivesse sentado, ou com frequência interrompe as actividades dos outros. Ora todos estes critérios podem ser interpretados de formas diferentes consoante a visão que tiver a pessoa que faz o diagnóstico acerca daquilo que será um comportamento esperado ou natural para uma determinada criança.

Por isso acredito que uma das razões que contribui para a fama desta perturbação é o facto de estar, muito provavelmente, a ser sobrediagnosticada incorrectamente. Porque as crianças têm cada vez menos tempo e espaço para serem crianças e, por isso é muito natural que tenham cada vez mais dificuldade em portar-se como os adultos gostariam que se portassem. Quando as crianças passam os seus tempos livres em casa, a ver televisão ou a jogar computador em vez de estarem na rua a mexer o corpo, a correr ou a jogar, quando as escolas muitas vezes nem sequer têm um recreio decente onde possam correr à vontade e pular e quando o tempo de aulas em que têm de estar sentadas a ouvir a cumprir tarefas é cada vez maior é muito natural que, uma boa parte dessas crianças, tenha dificuldade em estar sentada e em fazer o que lhe pedem e em ouvir o que lhe dizem.


Li uma vez uma notícia em que o presidente da sociedade portuguesa de pediatria dizia que estamos a criar uma geração de analfabetos do corpo porque as crianças têm cada vez menos tempo para brincarem livremente e para explorarem o corpo e os seus limites. Hoje em dia, a única oportunidade que a grande maioria das crianças tem para sentir o seu corpo é em actividades desportivas estruturadas que não lhe dão uma verdadeira oportunidade de o conhecer e explorar da mesma forma que acontece se lhes for permitido brincar livremente na rua ou em espaços amplos.

Então, isto gera realmente uma grande dificuldade em estar quieto, em ouvir, em obedecer, gera uma certa dose de mau-estar que vem de um corpo que está em crescimento e que precisa de espaço e de tempo para se mexer, para se descobrir, para se explorar à vontade sem outros limites que não os próprios que se vão descobrindo a cada dia. E estas crianças que dizemos que têm bichos carpinteiros e que preferem levantar-se e falar com os colegas do lado do que estar sentadas o tempo todo, neste contexto, apesar de tudo, são as crianças mais saudáveis. Porque aquelas que se limitam a estar caladas e a obedecer são as que já desistiram de si e do seu corpo. São aquelas que, não sendo hiperactivas, são muito provavelmente deprimidas. Mas as crianças deprimidas não perturbam os professores, não interrompem as aulas, não fazem perguntas a torto e a direito, não passam o tempo a falar e por isso não dão tanto que falar.

As causas 

Mas, por outro lado também acredito que haja realmente hoje em dia uma maior quantidade de crianças com PHDA,(que dito assim me parece um grande palavrão mas parece que as pessoas que sabem do que estão a falar usam sempre siglas e não quero ficar atrás) porque também há uma série de factores ambientais que, muito provavelmente, contribuem para isso. E quem diz crianças diz adultos também porque esta perturbação não é exclusiva das crianças.

Gabor Maté é um médico que escreveu um livro onde apresenta uma explicação muito interessante sobre esta perturbação. Este autor, que também sofre de défice de atenção, defende que esta é uma perturbação que tem origem na infância e na forma como as crianças se relacionam com os pais. Todas as crianças nascem com uma necessidade inata de estabelecer relações e de sentirem protegidas, seguras e cuidadas pelos pais (ou pelos cuidadores principais).

A neurociência mostra que a forma como os pais respondem às necessidades da criança molda a forma como o seu cérebro se desenvolve. Se uma criança é exposta a repetidas situações de stress o seu organismo começa a segregar quantidades anormais de cortisol e tem sido demonstrado que este cortisol em excesso na corrente sanguínea pode chegar a provocar uma diminuição de tamanho de algumas zonas do cérebro, nomeadamente do Cortéx Orbito-Pré Frontal (OFPC, em inglês, para usar mais uma sigla) que algumas investigações mostram que é consideravelmente mais pequeno em crianças que foram severamente negligenciadas nos primeiros anos de vida.

Então aqui a chave é esta ligação entre o desenvolvimento cerebral e a negligência que provoca um estado de stress ainda mais severo do que os maus tratos ou abusos, que já de si causam grandes perturbações. Porque tudo indica que não há nada mais grave para um cérebro em formação do que a falta da possibilidade de estabelecer relações com alguém e tudo indica que esta falta é ainda mais grave do os maus tratos que também já sabemos que podem ser muito prejudiciais. 

E é importante sabermos que esta negligência pode ser extrema, como a que acontecia em algumas instituições em que os bebés eram deixados sozinhos horas a fio sem terem ninguém com quem interagir ou pode ser mais suave quando, em casa, os bebés são repetidamente ignorados simplesmente porque os pais não têm disponibilidade para eles. As crianças nascem com uma necessidade enorme de estabelecer relações, esta necessidade é tão grande que, nessas condições de negligência extrema que eram típicas em muitos orfanatos da antiga união soviética, por exemplo, as crianças tinham uma taxa de mortalidade muito superior ao normal mesmo quando eram mantidas todas as condições de higiene e não faltavam alimentos e cuidados de saúde. Outro dos sinais desta negligência - para além de inúmeros atrasos físicos e psicológicos - encontrado na maioria destas crianças era o facto de não crescerem o que seria normal ou esperado para a sua idade mesmo quando comiam até mais do que seria normal (é relativamente comum as crianças em instituições comerem em excesso quando isso lhes é possibilitado). Estes atrasos no crescimento mostram que, quando a criança nasce num tipo de ambiente em que não lhe é permitido estabelecer relações o seu corpo desenvolve uma resposta de stress extrema, é como se partisse do princípio que o meio à sua volta não é seguro e por isso toda a sua energia tem de ser preservada para poder sobreviver. 

A resposta de Stress 

Stephen Porges, desenvolveu a teoria do Sistema Polivago, esta teoria explica que, desde que nascemos que começamos a moldar  o nosso sistema de resposta ao stress e quando o bebé ou a criança vivem em condições de stress extremo, é como se esse sistema de resposta ficasse moldado para estar ou num estado de alerta constante - despoletando a chamada resposta de luta ou fuga; ou, em casos ainda mais graves, o organismo entra numa espécie de shut-down, um mecanismo que herdámos dos répteis, os nossos ancestrais, que se fingem de mortos quando encontram uma ameaça. Este mecanismo de shutdowm que é o mais primito a que podemos recorrer e que, geralmente, é despoletado nestes casos mais extremos, pode ser o responsável por vários problemas, entre eles os atraso cognitivos e de crescimento que se encontram nestas crianças.

Mas é importante reter aqui que esta negligência não precisa de ser tão extrema para causar danos. 

Ela pode acontecer também em casa, na família, ou porque os pais estão demasiado envolvidos com os seus próprios problemas - como é o caso das mães deprimidas que tem sido bastante estudado - ou por uma questão de ignorância acerca das necessidades de um bebé ou, outras vezes, por receios que podem ter a ver também com a sua própria infância e que os impedem de estar verdadeiramente disponíveis e presentes na relação.

Porque as crianças nascem a precisar de estabelecer relações e, segundo explica Porges, quando o sistema de alerta é activado, fica desactivado o sistema de interacção social, o que quer dizer que se torna cada vez mais difícil estabelecer relações significativas porque a criança fica em modo de alerta. E aqui pode começar um ciclo vicioso em que se torna cada vez mais difícil estabelecer relações porque uma criança em estado de alerta é uma criança que chora mais e que se torna mais díficil de acolher e, quanto mais difícil é manter essa relação e fazer a criança sentir-se segura, mais intensas se tornam as tais reacções de stress que podem chegar até ao tal ponto de activar o tal mecanismo mais primitivo de shut-down em que a criança entre num estado de conservação em que apenas as funções mínimas essenciais para a sobrevivência serão mantidas.

É muito importante termos noção de que a criança nasce com uma grande necessidade de se sentir segura e protegida através do vínculo que procura estabelecer com os pais. Então tudo o que prejudique esse vínculo acaba por provocar um estado de stress e de alerta que, se for repetido várias vezes, pode ter consequências nefastas no desenvolvimento cerebral da criança. Sabe-se que é mais difícil a criança estabelecer relações de apego seguras quando a mãe está deprimida, por exemplo, porque uma mãe deprimida tem menos disponibilidade para falar com a criança e para estar presente quando ela precisa. Um dos aspectos fundamentais para se estabelecer um apego seguro é sermos capazes de responder aos sinais da criança, sermos capazes de estar em sintonia com as suas necessidades durante a maior parte do tempo. 

A criança e a mãe criam uma espécie de sintonia em que os ritmos fisiológicos da mãe ajudam a regular os do bebé. É como se o organismo mais maduro da mãe mostrasse ao bebé como deve comportar-se, ajudando-o assim a aprender a caminhar para a sua própria auto-regulação. Se a mãe não está presente, se não está disponível, se não tem nenhum contacto físico com o bebé, ou se está muito preocupada com os seus próprios problemas, esta sincronia não tem possibilidade de acontecer e o bebé precisa de começar a regular sozinho o seu organismo o que, para um bebé pequeno, é uma tarefa difícil e que obriga a despender muita energia. Por isso o seu organismo entende que não está num ambiente seguro e desencadeia a tal resposta de stress.

Isto é o que acontece também com muitos métodos de treinamento do bebé, principalmente aqueles que pretendem que o bebé durma a noite toda, porque afastam a mãe do bebé, impedem-na de ler os seus sinais e quebram essa sincronia essencial que precisa de existir entre os dois.
Então aquilo que acontece é que um bebé em stress, um bebé que não se sente seguro, não pode gastar muitas energias a desenvolver o seu organismo e por isso este desenvolvimento passa a estar limitado ao mínimo essencial. E, podem acontecer então essas alterações ao nível cerebral em que determinadas zonas não se desenvolvem porque, naquele momento, não são essenciais para a sobrevivência da criança.


E o que é que isto tem a ver com a hiperactividade? 

Gabor Maté, explica que esta zona do cérebro - o cortéx orbito pré frontal - é uma espécie de polícia sinaleiro do cérebro (outros autores chamam-lhe o controlador aéreo) o que quer dizer que é uma área que está ligada à capacidade de analisar, avaliar, seleccionar e estruturar a informação. Então, quando esta zona não se desenvolve totalmente, é natural que passe a haver algumas falhas neste mecanismo e torna-se muito mais difícil seleccionar a informação e manter a concentração nas tarefas como é típico do défice de atenção que pode ser, ou não, acompanhado pela famosa hiperactividade.

A hiperactividade pode ser uma consequência motora de não se ser capaz de seleccionar e de controlar minimamente os estímulos porque somos invadidos a cada momento, uma espécie de fuga para o desconforto e tensão que se geram quando não somos capazes de exercer este controlo interno, esta capacidade de auto-regulação. Mas, também acontece muitas vezes, que existe apenas o défice de atenção mesmo sem a parte da hiperactividade, ou esta pode ser também mais discreta, como uma tendência para roer as unhas, ou para abanar a perna constantemente, por exemplo.

Por causa desta deficiência no OFPC é que os medicamentos que geralmente se dão para esta perturbação, para espanto de muitos pais, são estimulantes, como café, por exemplo. Porque estas substâncias têm a capacidade de activar o tal polícia sinaleiro que, sem elas, é como se estivesse a dormir, para que este possa começar a fazer a tal selecção e organização.

Mas isto não quer dizer que a medicação seja a melhor solução porque, na realidade, esta só mascara o problema. Então aquilo que é preciso é, em primeiro lugar, compreender que uma criança pequena ainda tem o cérebro em formação por isso nem sequer faz sentido falar desta perturbação antes dos 3 ou 4 anos de idade. Depois é preciso também compreender que o nosso cérebro mantém uma grande plasticidade durante a infância mas também na idade adulta. O que quer dizer que a forma mais duradoura de alterar a sua estrutura não são os medicamentos mas as experiências que temos porque são estas que moldam realmente o nosso cérebro e o nosso sistema nervoso.

O que fazer? 

Em primeiro lugar então é necessária alguma cautela no diagnóstico e ter a certeza se não estamos apenas perante uma reacção à falta de espaço e de tempo para brincar e correr livremente bem como a um sistema de ensino que nem sempre é o mais adequado.

Depois, concordo com O Gabor Maté quando diz que deve ser a criança a decidir se quer ser medicada. Porque esta perturbação pode trazer consigo muito sofrimento, a incapacidade de estar presente mesmo nas brincadeiras, pode trazer consigo muitas dificuldades no relacionamento com os outros e é importante termos consciência de que a criança tem o direito de querer ver-se livre desse sofrimento. Então é importante termos noção de que a medicação pode ajudar a criança ser capaz de estabelecer melhores relações mas deve ser sempre encarada como uma ajuda temporária e nunca como uma solução permanente. Também é importante que a criança tenha verdadeiramente a possibilidade de decidir se quer ser medicada, procurando explicar-lhe as implicações deste gesto de forma a que ela as perceba e seja capaz de não se sentir diferente ou incapaz por querer recorrer a esta ajuda durante algum tempo.

Também é essencial que se perceba que, se esta é uma perturbação que tem a sua origem num sentimento de insegurança, então o que é mais importante para a reverter é encontra formas de dar à criança essa segurança. No caso de uma criança isto passa acima de tudo pela mudança na sua relação com os pais, pela construção de uma verdadeira sincronia com estes que lhe permita sentir-se ouvida, acolhida, aceite e segura na presença deles, pelo menos durante a maior parte do tempo. São as nossas experiências que moldam o nosso cérebro e as experiência mais marcantes acontecem na nossa relação com os outros, então, antes de qualquer outra coisa é aqui que devemos procurar soluções sobretudo para as crianças. Nunca é tarde para mudar a relação que temos com os nossos filhos, desde que haja vontade para isso.

Quando não é possível à criança obter essa segurança na relação com os pais, como acontece em famílias muitos desestruturadas, esta pode ser obtida com outro adulto com quem haja possibilidade de estabelecer uma relação significativa e que possa ter um papel activo e estável na vida da criança.

É verdade que práticas como a meditação ou o yoga podem também ter algum efeito porque podem ajudar a adquirir esta capacidade de nos auto-regularmos. Mas isto é válido sobretudo nos adultos. Porque nas crianças, todo o seu organismo, toda a sua natureza, está programada para obter esta regulação do contacto com os pais, da relação que estabelece com eles e esta deve ser a fonte primária e prioritária para a estabelecermos, tudo o resto são apenas pensos rápidos que podemos colocar nas feridas: até podem ajudar a sará-las mas nunca resolvem a causa.

Por último é preciso também termos noção de que, quando dizemos a um pai ou mãe que ele é responsável pela hiperactividade do filho, não significa que o estejamos a acusá-los de falta de amor. Sabemos que todos os pais amam os filhos e todos os pais fazem o melhor que sabem com as possibilidades que têm ao seu alcance. O que acontece é que os próprios pais muitas vezes também têm feridas e mágoas por resolver que afectam a sua confiança nos seus próprios instintos e na sua capacidade de lidar com os filho. Por isso, para termos a certeza de que não estamos a perpetuar um ciclo de sofrimento com os nossos filhos a primeira e a mais importante que temos a fazer quando nos tornamos pai ou mãe de alguém é cuidar das nossas feridas. Arranjar forma de deixá-las sarar, porque só assim poderemos ser realmente os pais que nossos filhos merecem.

Aqui fica uma palestra de Janeiro de 2015, sobre este mesmo tema, para quem preferir o vídeo: http://parentalidadecomapego.blogspot.pt/search/label/V%C3%ADdeo%20-%20palestra%20sobre%20D%C3%A9fice%20de%20Aten%C3%A7%C3%A3o%20e%20Hiperactividade

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Mindfulness - Atenção Plena para lidar com os desafios da parentalidade

Mindfulness é um estado de atenção que pode ser traduzido para português como Atenção Plena. É um estado em que prestamos atenção ao momento presente, livres dos julgamentos e análises que, geralmente, estão presentes a maior parte do tempo na nossa experiência.

Este é um estado cujos benefícios têm sido cada vez mais estudados, compreendidos e reconhecidos pela ciência e que tem vindo a ser cada vez mais usado em vários contextos terapêuticos. (Pode ver aqui uma descrição mais pormenorizada dos benefícios do Mindfulness.)

Enquanto pais, este estado tem a grande vantagem de nos tornar mais capazes de estarmos verdadeiramente presentes quando estamos com os nossos filhos, o que nem sempre é fácil quando não conseguimos deixar de lado as preocupações e distracções que, tantas vezes, enchem a nossa atenção. E a verdade é que as crianças precisam da nossa presença física mas também emocional. Para uma criança sentir que importa na nossa vida ela tem de sentir que quando estamos com ela gostamos de estar com ela, tem de sentir que temos prazer ao conversar com ela, ao brincar, etc. E, se estamos com a cabeça cheia de problemas ou de outras distracções que não conseguimos eliminar será mais difícil transmitir-lhe esse prazer e fazer com que a criança sinta que é importante na nossa vida.

O mindfulness pode ser uma excelente ferramenta para nos ajudar a ser capazes de estar mais presentes o que, neste caso, terá um grande benefício para os nossos filhos mas também para nós: porque nos permite usufruir verdadeiramente da ligação que temos com eles e que pode ser uma grande fonte de prazer, de realização e de felicidade. Quantas vezes nos focamos mais nos problemas do que na maravilha e no privilégio que são ter uma criança aos nossos cuidados, que depende de nós e que podemos ver crescer, com quem podemos partilhar a descoberta maravilhosa de estar vivo e de aproveitar cada momento?

Ninguém se esquece da sensação avassaladora de amor incondicional que sente ao ver um filho pela primeira vez. Podemos pensar que Isto acontece por causa de todas as hormonas que estão envolvidas no parto (e que já sabemos que se alteram também nos homens) mas isto não será suficiente ara o explicar. Nestas alturas entramos, espontaneamente,  neste estado de atenção plena: voltamos toda a nossa atenção para conhecer aquele bebé sobre quem ainda não fazemos julgamentos, avaliações e limitamos-nos a estar conscientes de que podemos depositar naquele ser todo o nosso amor, toda a nossa atenção, pelo menos durante os primeiros instantes. E este estado pode prolongar-se durante várias horas ou dias mas, geralmente, acaba por desaparecer. Porquê? Por vários motivos: por um lado porque nos habituamos aos nossos filhos e, ao deixar de ser novidade esta ligação que temos com eles mais facilmente passa para segundo plano na nossa atenção, por outro lado também porque muitas vezes começam a surgir os medos, preocupações ou inseguranças que acabam por estar mais presentes e ocupar uma boa fatia da nossa atenção e também porque, à medida que os meses vão passando começamos a fazer muito mais julgamentos e avaliações que também podem condicionar esta nossa capacidade de estar simplesmente presentes. Por exemplo, se o nosso filho faz alguma coisa de que não gostamos, pode surgir o medo de não o estarmos a educar correctamente, a preocupação com o facto dele poder ter ou não más intenções, o receio de que os outros o julguem ou nos julguem a nós por não sabermos controlá-lo, etc. E, muitas vezes, estas preocupações acabam por estar tão presentes que não nos deixam desfrutar dessa sensação maravilhosa que é o amor de uma mãe ou pai pelo filho.

Esse amor nunca deixa de estar presente, o amor pelos filhos nunca desaparece e até há quem sinta que cresce mas, a verdade, é que deixamos de o colocar em primeiro plano nas nossas vidas e na nossa consciência. Porque achamos que há coisas mais importantes para resolver ou decidir ou porque simplesmente não somos capazes de permitir que a nossa mente se desligue dos julgamentos, avaliações e preocupações constantes que nos ocupam durante a maior parte do tempo. Então o treino de mindfulness permite-nos começar a ser mais capazes de direccionar a atenção e, quando estamos com os nossos filhos, não há nada melhor do que sermos capazes de focar a nossa atenção no amor que temos por eles, livres dos receios, medos, preocupações e ansiedades que, tantas vezes são o foco na nossa atenção e nos impedem de ver o resto. E há já muitos estudos que compravam o efeito positivo para a nossa saúde física e mental de sermos capazes de nos centrar neste tipo de sentimentos.

Por outro lado também pode acontecer que haja uma certa habituação ao que sentimos pelos nossos filhos e que, por isso, isto deixe de ser uma fonte tão intensa de prazer. Uma das descobertas que a ciência fez acerca do mindfulness é que nos permite ver as coisas sempre com um olhar fresco, com uma percepção mais apurada. isto acontece porque o mindfulness nos permite desligar um pouco dos pré-conceitos e pré-concepções que, geralmente, vamos fazendo acerca da vida. Então esta prática ou este estado permite-nos olhar para tudo como se fosse a primeira vez, com a frescura do olhar de uma criança. Isto é algo que nos pode ajudar muito a saborear mais a vida e a aproveitar cada momento mas, na parentalidade, isto pode tornar-se ainda mais valioso, permitindo-nos apreciar esse sentimento diariamente, olhando para os nossos filhos como se fosse sempre a primeira vez que os vemos. Livres de todos os condicionamentos que a nossa experiência nos faz ter e que limitam essa nossa capacidade  de estar verdadeiramente na presença deles e de nós próprios com tudo o que sentimos por eles.

Atenção Plena para ajudar a quebrar o ciclo 

Por outro lado, o mindfulness também nos pode ajudar a curar algumas feridas da nossa infância. Porque todas as crianças precisam de sentir esse amor incondicional e essa presença da parte dos pais mas nem sempre os têm e isso acaba por deixar marcas.

Os nossos filhos aprendem a ver-se tal como nós os vemos. Se os vemos como seres dignos de amor e de respeito e somos capazes de lhes transmitir isso eles aprenderão a ver-se também assim. Se formos capazes de transmitir aos nossos filhos o amor que sentimos por eles, com actos e com palavras, através dessa presença e disponibilidade afectiva que lhes diz que estamos presentes - eles, mais facilmente, aprenderão a amar-se também a si próprios. E, na verdade, essa é provavelmente a falha que está na origem de todas as perturbações psicológicas: a falta da capacidade de nos amarmos verdadeiramente a nós mesmos. A falta de nos vermos como seres intrinsecamente dignos, válidos e merecedores de amor, de carinho e de respeito.

E, quando temos essa falta, quando uma parte de nós não está totalmente certa do seu valor ou da sua dignidade, ou da sua competência, é mais difícil acreditarmos e transmitirmos aos nossos filhos que são seres válidos, dignos desse amor e respeito incondicionais. Então, quando isto não acontece gera-se um ciclo vicioso que se torna difícil quebrar.

E, é aqui que, mais uma vez, o mindfulness nos pode ser muito útil. Um investigador americano, Daniel Siegel, descobriu que o treino de mindfulness activa no cérebro um padrão muito semelhante ao que é produzido pelo apego do tipo seguro (ver artigo sobre os vários tipos de apego ). A forma como nos ligamos aos nossos pais produz um determinado padrão de apego que, por sua vez, produz um determinado padrão cerebral que irá moldar e influenciar toda a forma como encaramos o que nos rodeia e como nos relacionamos com os outros. E, se não fizermos algo para compreender as nossas experiências e o tipo de relação que tivemos com os nossos pais, as estatísticas mostram que, o mais provável, é que estabeleçamos com os nossos filhos o mesmo tipo de padrão que tivemos com os nossos pais.

Mas, através de uma prática de mindfulness podemos alterar esse padrão e, assim, podemos finalmente quebrar esse ciclo. Isto acontece porque, durante esta prática, aprendemos a dar a nós mesmos justamente aquilo que todas as crianças precisam: a nossa presença, uma presença autêntica, genuína, livre de julgamentos e de avaliações; uma presença de amor e de aceitação incondicionais, aceitação por quem somos e pela fase da vida em que estamos. Isto quer dizer que aprendemos a encontrar dentro de nós aquilo que, muitas vezes, levamos uma vida inteira a procurar fora. Porque quando esta falta existe e nem nos damos conta disso a nossa tendência será sempre para procurar relações e situações que a possam preencher. Procuramos nos outros a tal segurança que não encontrámos nos nossos pais e exigimos que estejam presentes e disponíveis tal como queríamos que os nossos pais tivessem estado. Ou, pelo contrário, quando fomos tão feridos que passou a doer muito procurar esse amor nos noutros, acabamos por nos fechar e acreditar que não precisamos de ninguém para ser felizes e estar bem. Mas, acontece que, por mais que queiramos acreditar que não precisamos de ninguém ou por mais que os outros nos dêem aquilo de que achamos precisar, quando esta falta vem do nosso passado, do nosso interior, não há nada no exterior que a possa compensar. Mas o mindfulness permite-nos perceber que, apesar dos nossos pais não o terem sabido demonstrar da melhor forma, somos realmente dignos de amor e dá-nos a possibilidade de perceber que podemos amar-nos de forma verdadeiramente incondicional, apesar de não o termos aprendido a fazer em crianças.

Termino este texto com um diálogo que tive com o meu filho de três anos que demonstra a forma como as crianças aprendem o amor próprio:

Filho - Mãe tu gostas de mim?
Eu - Gosto filho.
Filho - Eu também gosto de mim! Gosto de mim da mãe e do pai!

No meu livro Mindfulness Yoga - Atenção Plena para Lidar com os Desafios - descrevo os benefícios deste estado e a forma como pode transformar a nossa relação connosco mesmos e com o mundo. Neste livro podem encontrar também um programa de prática para ser seguido, em casa, ao longo de doze semanas, acompanhado de um Cd com meditações guiadas, que permite conhecer e integrar os benefícios desta prática no nosso dia-a-dia.

No próximo dia 1 de Novembro irei também começar um Curso de oito semanas onde vamos experimentar, compreender e explorar a forma como podemos tornar o mindfulness parte da nossa vida e usufruir de todos os seus benefícios. Para saber mais sobre este curso pode ver aqui
Se quiser mais informações sobre o livro ou sobre o curso pode escrever-me para inforvida@gmail.com



quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Conversar e brincar

Há pouco tempo circulava em várias páginas do facebook um artigo que mostrava aos pais algumas estratégias para perguntarem aos filhos como tinha corrido a escola de forma a obterem respostas mais esclarecedoras, já que as crianças nem sempre têm vontade de fazer aos pais um relato completo e detalhado de tudo o que se passou nesse dia e que os pais, naturalmente, gostam de saber. Quando li este artigo o que me ocorreu foi que, se um pai ou uma mãe precisa que lhe indiquem estratégias deste género para obter informações acerca da vida dos seus filhos então alguma coisa vai mal na relação. É verdade que, ás vezes, podemos perguntar as coisas de outra maneira para obter informações, é verdade que mudar um pouco a nossa forma de falar ou de perguntar, por vezes, pode fazer alguma diferença na capacidade de estabelecermos um diálogo com os nossos filhos. Mas, também é verdade que, se sentimos que esse diálogo não acontece, ou que acontece com muita dificuldade, então em vez de procurar estratégias, provavelmente, deveríamos procurar perceber o que está mal na relação.

Usando uma metáfora a recorre Gordon Neufeld - psicólogo canadiano – no seu livro “Hold on to your Kids”, podemos imaginar o seguinte cenário: o nosso marido chega a casa, depois de um dia inteiro de trabalho e, todos os dias lhe perguntamos “como foi o teu o dia?”. E, diariamente ele responde que “foi normal” ou “não foi nada de especial” ou “foi o mesmo de sempre” e vai para o escritório ou para outra divisão mexer no computador ou ver televisão sem nos dirigir mais nenhuma palavra. Se este cenário se repete e se esta pessoa nunca mostra interesse nenhum em nos contar como foi o seu dia ou que se passou consigo, muito provavelmente não iremos procurar estratégias de o fazer falar mais connosco ou para obter informações, como se este comportamento fosse simplesmente normal. Se isto acontece muitas vezes o mais provável é que comecemos a sentir-nos frustradas e a questionar as bases da nossa relação com essa pessoa.

Então, quando um filho passa o dia inteiro longe dos pais, na escola, é muito natural que ao fim do dia, principalmente se está cansado, não tenha grande vontade de fazer um relatório completo sobre tudo o que se passou na escola. Mas, também é natural, quando as relações são boas que ele tenha vontade de contar alguma coisa que tenha sido mais importante ou que julgue mais relevante do seu dia. E, tal como acontece com as pessoas adultas, pode ser que a criança não tenha vontade de contar nada logo à saída da escola ou ao chegar a casa. Algumas crianças, tal como alguns adultos, podem precisar de algum tempo para si antes de terem vontade de partilhar alguma coisa. Outras podem querer contar logo tudo o que se passou assim que vêem os pais. Algumas crianças são mais caladas e reservadas e não ficam entusiasmadas tão facilmente. Outras entusiasmam-se com pouco e, se forem mais verbais, é natural que queiram contar logo tudo. Mas, o importante é que, quando tudo está bem e as relações são seguras as crianças acabam sempre por contar aquilo que é importante contar, no seu tempo. Isto não quer dizer que não devemos fazer perguntas, antes pelo contrário, perguntar é bom, é saudável, perguntar mostra interesse e preocupação. Mas é bom perguntar de forma autêntica e genuína e também dar espaço e tempo à criança para contar o que sente que é importante contar naquela altura. Respeitar a sua vontade e confiar no laço e na relação que estabelecemos com elas o suficiente para sabermos que elas nos contam tudo o que é importante quando é importante contar.

E algumas crianças podem não gostar de contar com palavras, até porque, se forem mais pequenas, podem ainda não dominar bem as palavras. Então, respeitar e confiar na relação que estabelecemos com os nossos filhos implica também estar atento a outras formas de comunicar que não passam só pelas palavras.

Contar sem palavras

Se queremos saber se os nossos filhos estão bem na escola, por exemplo, podemos observar as suas expressões quando falam nela, podemos observar a forma como saem da cama e de casa de manhã quando sabem que é dia de ir para a escola: se o fazem contentes e com entusiasmo na cara e no corpo ou se, pelo contrário, o corpo se arrasta e a cara fica triste por saberem que não têm outra escolha. Com crianças mais pequenas, sobretudo, podemos estar atentos a mudanças no seu comportamento: se começou a chorar mais, por exemplo, ou se tem menos vontade de brincar, se tem comportamentos mais agressivos, se se recusa a fazer mais coisas, etc. Tudo isto podem ser sinais de alguma instabilidade, que não tem necessariamente de ser negativa, mas é sinal de que a criança está a passar por uma fase de mudança interior que pode ser exigente.
Se as crianças gostam de desenhar, pintar, cantar ou dançar, estas podem também ser formas de expressão muito válidas e, se estivermos atentos, também nos podem dizer coisas sobre a forma como se sentem e como passaram o dia. 

Comunicar a brincar

É muito importante também observarmos a forma como os nossos filhos brincam. E a melhor forma de o fazermos pode ser brincando com eles, mas sem dirigirmos a brincadeira. As crianças, muitas vezes, expressam a brincar aquilo que não conseguem verbalizar. Na terapia com crianças, por exemplo, é importante que haja brinquedos no consultório porque, ao brincar as crianças reproduzem muitos padrões da sua vida e conseguem, muitas vezes, expressar coisas que são incapazes de verbalizar seja porque se tratam de experiências muito intensas ou porque simplesmente não têm capacidade para o fazer. Então, ao brincar com os nossos filhos podemos recolher muita informação de como passaram os dias. É muito natural que eles reproduzam as situações que mais os marcaram no seu dia. É provável que as crianças reproduzam comportamentos e  palavras que ouviram no seu dia enquanto brincam. Se houver alguma situação mais marcante ou até traumática, se lhes dermos espaço, ela acabará por ser reproduzida na brincadeira. Por exemplo, o meu filho uma vez partiu a cabeça e teve de ser cozido o que foi uma experiência um bocado traumatizante para ele porque ainda era muito pequeno e foi assustador estar com dores e com pessoas a agarrá-lo, numa cama de hospital para lhe darem os pontos. No meu consultório tenho uns bonecos e uma mobília de hospital, então, sempre que ele tinha oportunidade de brincar com esses bonecos, durante meses, reproduzia essa cena com os bonecos dizendo que estavam a chorar e com medo. Esta é uma forma da criança expressar o que viveu e, neste caso, ele usava esta reprodução para falar do que tinha acontecido. Sempre que alguma situação nos traumatiza é importante revivê-la quando sabemos que estamos em segurança porque isto nos permite criar uma nova associação no nosso cérebro e retirar alguma carga negativa dessa situação, que de outro modo poderia continuar a ter um impacto muito mais pesado na nossa memória. É por isso que, sempre que passamos por uma experiência traumática, ficamos com vontade de falar nela o tempo todo durante algum tempo depois de ter acontecido. É como se precisássemos de fazer uma espécie de reprogramação porque, se não o fizermos, nunca teremos oportunidade de integrar essa experiência de forma mais saudável e ela continuará na nossa memória como uma espécie de botão que fica pronto a ser activado em todas as situações que se possam assemelhar a esta, despertando uma série de sintomas daquilo a que se chama stress pós-traumático.

Então, instintivamente as crianças sabem isto e, por isso, sempre que vivem algo mais intenso, se não forem capazes de falar sobre essa experiência, irão com certeza, reproduzi-la nas suas brincadeiras quando se sentirem em segurança para o fazerem. E, quando isso acontece é muito importante adoptarmos uma atitude não de julgamento mas de escuta e de presença. Sermos capazes de ouvir aquilo que os nossos filhos nos dizem mesmo sem palavras é muito importante para que se sintam ouvidos e acolhidos e para que sintam vontade de continuar a comunicar connosco. Em algumas situações, se percebemos que eles estão mesmo a reproduzir algo que aconteceu podemos usar essa brincadeira para tentar falar com eles. Falar da situação, das emoções que despertou e do que a criança pode estar ainda a sentir em relação a esta. Isto pode ajudar a fazer a tal integração mais facilmente, mas apenas se sentirmos que a criança está receptiva e reage bem a esta tentativa.

Outras vezes, a criança fala mesmo daquilo que aconteceu e, nestes casos, por vezes a nossa tendência é para lhe dizermos que já passou, já está tudo bem e não precisa de pensar mais nisso. Mas pode ser mais útil ouvirmos a criança, mesmo que nos pareça que está a repetir aquilo pela milésima vez, porque isto significa que ela ainda precisa de reproduzir essa situação. E, se formos capazes de a ouvir com empatia e criar uma atmosfera de segurança será ainda mais fácil que a ela crie uma nova memória associada a essa situação - diferente da memória inicial de perigo - para que esta possa perder essa carga traumatizante.

Da mesma forma se aconteceu alguma coisa muito boa, com que a criança se entusiasmou também é importante estarmos presentes e sermos empáticos. É muito importante partilharmos esse sentimento com eles e sermos capazes de lhes mostrar que o sentimos, porque não há nada melhor que sentirmos que alguém de quem gostamos fica feliz por nós. E porque para construir uma relação saudável com os nossos filhos é importante que sejamos capazes de criar momentos de sintonia, de abertura, de verdadeira partilha. E, na verdade, isto não se consegue com estratégias nem técnicas mas apenas com a nossa presença, de coração aberto e liberto de julgamentos e pré-conceitos. 
Então, desta forma, confiando nos nossos filhos e na relação que construímos com eles, por vezes, podemos até nem recolher todos os pormenores e informações que julgamos importantes para satisfazer a nossa curiosidade sobre os seus dias mas ficaremos, sem dúvida, a saber aquilo que para eles é mais importante. E isso é que o verdadeiramente importa: conhecer o seu coração dos nossos filhos e aquilo que o preenche, mais do que saber se jogaram à bola ou às escondidas no recreio. 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A Entrada na Escola

A entrada na escola é um período de grandes mudanças na vida de uma criança e, por vezes, também dos pais. 
Acredito que, antes dos três anos as crianças deveriam passar o seu dia com os pais ou com um adulto que tome conta delas e com quem possam estabelecer uma relação prioritária, o que não é possível numa creche em que existem várias crianças. A grande tarefa dos primeiros anos de vida de uma criança é estabelecer relações. Estabelecer relações com os adultos que cuidam de si. Durante os primeiros dois anos de vida o cérebro das crianças está em grande expansão e transformação e são criadas e perdidas milhares de ligações neuronais. E forma como tudo isto acontece depende das experiências que a criança tenha. Uma criança precisa de desenvolver relações seguras, em que se sinta protegida, ouvida, amada e são estas ligações que irão influenciar toda a forma como se irá desenvolver e estruturar o seu cérebro. As experiências dos primeiros anos de vida, quando são vivenciadas repetidamente, criam determinados padrões de funcionamento cerebral que irão definir e moldar toda forma da criança viver e estar no mundo e de se relacionar com a sua experiência e com as pessoas ao longo de todo a sua vida. Isto pode parecer um pouco assustador mas, de facto, precisamos de ter noção de como são importantes os primeiros anos de vida de uma criança. E uma tarefa fundamental desses primeiros anos é estabelecer relações e, essas relações, precisam de ser estabelecidas principalmente com outros adultos, não com crianças. Porque nesta fase a criança precisa de se sentir protegida, amada, precisa de de sentir acolhida e de ter um espelho e é impossível sentir isto da parte de outra criança pequena. Por isso, nesta fase, as crianças ainda não precisam tanto de estar com outras crianças mas sim com adultos durante a maior parte do seu tempo. E, de preferência com adultos que possam estar disponíveis e atentos durante a maior parte do tempo, o que é muito difícil de conseguir com três ou quatro crianças a cargo, todas da mesma idade e com as mesmas necessidades.
Além disso só a partir dos dois anos de idade é que a criança começa a desenvolver alguma noção de aqui)
tempo e, só a partir dessa idade, é que começa também a desenvolver alguma capacidade de perceber que a sua mãe volta mesmo quando não está presente. Isto quer dizer que só a partir dessa idade é que a entrada na escola pode não ser uma ameaça tão grande uma vez que a criança pode começar a perceber que não irá ficar para sempre sem a mãe ou o pai. (este tema foi mais desenvolvido
Mas, na verdade acredito que antes dos três anos a criança não irá recolher nenhuns benefícios da escola. Porque só a partir dessa idade é que o mundo da criança se começa verdadeiramente a expandir e começa a surgir alguma capacidade e interesse em estabelecer relações com outras crianças, embora nesta idade as crianças ainda não formem verdadeiras amizades e não brinquem verdadeiramente em equipa – isto começa a acontecer mais por volta dos quatro anos. É partir desta idade também que a criança começa a ser capaz de interiorizar a imagem da mãe, do pai e/ou de outros adultos significativos da sua vida, o que quer dizer que é capaz de sentir que a mãe gosta de si mesmo quando esta não está presente. Isto é muito importante porque lhe permite que não se sinta abandonada e pode dar-lhe algum conforto nos momentos difíceis. Por outro lado, nesta idade, se a criança teve uma relação relação com os pais e um bom modelo de relacionamentos seguros também já tem a confiança necessária para estabelecer relações com outros adultos e crianças. Também é nesta idade que a criança começa a ser capaz de brincar mais sozinha e de estar no seu mundo sem tanta necessidade de ter a atenção constante de um adulto. E, nesta idade também a criança começa a ter mais curiosidade pelo mundo e ser capaz de experimentar coisas diferentes que a escola pode proporcionar.
Aos três anos, geralmente, a criança também já tem um bom domínio da linguagem e isto é importante porque, por um lado, permite-lhe expressar mais facilmente as suas necessidades mesmo com pessoas que não conhece e, por outro, permite-lhe também compreender melhor o que os pais lhe dizem sobre a escola e também contar aos pais o que lá se passou, ajudando a fazer uma ponte entre a sua vida na família e na escola. 
Ainda assim, não quer dizer que todas as crianças estejam preparadas para ir para a escola aos três anos ou que tenham de o fazer. Na verdade, pode haver crianças que, aos três anos, ainda precisem mais de estar com um adulto que possa estar mais presente e disponível. Por outro lado, se os pais tiverem disponibilidade para proporcionar à criança a variedade de experiências e de relacionamentos que se encontram geralmente na escola, esta também pode não ser necessária.

Formas de tornar mais suave a entrada a criança na escola


Se tomou a decisão de levar o seu filho para a escola pela primeira vez, existem algumas questões que considero importantes e que podem facilitar essa transição levando a uma melhor integração e diminuindo o stress e a ansiedade que tantas vezes surgem nesta altura. 

1. Em primeiro lugar é importante decidir porque é que quer por o seu filho na escola.                 Pensar se ele realmente estará preparado para essa mudança e se será realmente o melhor para ele. Quando as crianças chegam aos três anos há muita pressão social para que entrem na escola mas, embora esta seja uma idade em que a entrada na escola se torna, geralmente, mais fácil não quer dizer que isto seja realmente o melhor para todas as crianças.

2. Depois,  mais do que qualquer modelo educativo ou pedagógico, é fundamental conhecer as pessoas com quem vai deixar o seu filho. E é importante escolher uma escola aberta, onde lhe seja permitido ter este conhecimento. São elas que vão estar com o seu filho uma boa parte do dia. Se tudo correr bem essas pessoas irão também ter um papel importante nas experiências do seu filho e irão ajudar a moldar também a forma como ele se relaciona consigo e com os outros. Um bom educador torna-se um modelo a seguir, por isso pergunte-se se quer aquela pessoa como modelo para o seu filho. Mas, mais importante, pergunte-se se aquela pessoa será capaz de dar afecto e amor ao seu filho, porque é disso que as crianças precisam mais do qualquer coisa e isso é fundamental para estabelecerem uma boa relação com a escola e para que tudo corra bem.
Para mim, quando escolhi a escola do meu filho, o mais importante foi sentir que todas as pessoas que lá estavam – desde professores, directores, a auxiliares – eram pessoas que gostavam verdadeiramente de crianças. Visitei outras escolas onde isso não era tão visível e, para mim, isso é fundamental. Porque quero que o meu filho cresça com pessoas que sabe que gostam dele. Porque essas pessoas serão também o seu espelho.

3. Depois é importante que dê algum tempo à criança para conhecer a escola. As crianças desta idade, geralmente, não gostam de grandes alterações á rotina. Ainda agora começaram a ser capazes de perceber como é que as coisas se organizam e a ter alguma noção de como irá decorrer o seu dia e, de repente, tudo é alterado e estão numa situação completamente nova. Por isso há que tentar minimizar esse impacto. O ideal será que faça algumas visitas à escola e conheçam algumas pessoas antes de lá ficarem um dia inteiro. Depois dessas visitas também ajuda que vá falando com o seu filho sobre a escola, sobre quem ficará com ele e como será.

4. Nos primeiros dias também pode ser importante que os pais estejam presentes, mesmo na sala com a criança, pelo menos durante algum tempo. Muitas vezes os educadores não o permitem porque acham que irá dificultar a habituação da criança. Mas é importante estabelecer uma ponte entre a família e a escola para que a criança não se sinta tão ameaçada e esta poderá ser uma forma de o fazer. Para que isto aconteça o ideal é que o pai ou a mãe tentem brincar na sala com o filho um pouco, que conversem com o educador, com os auxiliares ou outros adultos presentes: se a criança vir que os pais estão à vontade e que gostam desses adultos, mais facilmente se sentirá à vontade para estabelecer uma relação com eles. Num mundo mais natural, viveríamos em comunidades mais pequenas em que as crianças já conheceriam os adultos e crianças com quem passariam o dia. Por isso é importante tentarmos recriar, dentro do que nos for possível, esse ambiente mais comunitário, de aldeia, para que as crianças se sintam seguras e confortáveis e para que a entrada na escola não seja a entrada num mundo novo, distante e completamente separado de tudo o que conheciam até essa altura. Neste sentido é importante questionar-se, antes de decidir a escola, se a política desta tem essa abertura com os pais e se lhe será possível fazê-lo. Certifique-se que a escola que escolheu não vê os pais como intrusos indesejáveis mas sim como parte da escola. Um dos sinais disso é o facto de, muitas escolas, nem deixarem os pais entrar nas instalações, como se não tivessem o direito de lá estar. Na escola do meu filho, podemos entrar em qualquer altura do dia e ir à sala dele e nunca me sentiria confortável se fosse de outro modo.

5. É importante também que tome consciência dos seus sentimentos em relação a esta nova fase da vida do seu filho. Porque esta entrada na escola trará consigo algumas mudanças. Para quem esteve com os filhos até esta altura esta é uma fase de separação que pode não ser fácil. Porque temos medo que os nossos filhos precisem de nós ou, por vezes, temos medo de precisar deles. Também porque vamos  deixar entrar pessoas novas na vida dos nossos filhos e estas serão pessoas que, se tudo correr bem, se tornarão importantes para eles e terão também um papel significativo nas suas vidas. Isso pode também despertar alguns medos ou inseguranças da nossa parte.
Por outro lado, esta mudança na nossa rotina também implica alguma adaptação da nossa parte e nem todos lidam bem com isso.

E esta entrada na escola pode também despertar medos e feridas antigas da nossa parte
. Se a nossa própria entrada na escola ou vida escolar não correu bem, se a escola era uma fonte de desconforto para nós ou de sofrimento, ou se nos sentimos abandonados e mal cuidados quando fomos para a escola é muito natural que essas feridas venham à superfície mesmo que não o façam de uma forma consciente. Por vezes estamos seguros da nossa escolha, sabemos que é o melhor para os nossos filhos, mas há uma sensação de desconforto e de mau estar que nem sabemos bem de onde vem e que pode estar relacionada com estas feridas mal resolvidas. Nestes casos ajuda tomarmos contacto com elas e percebermos que, por essa ter sido a nossa experiência, não quer dizer que seja a dos nossos filhos. e que, o facto de estarmos conscientes desse nosso sofrimento nos pode até tornar mais sensíveis e atentos às experiências do nosso filho, ajudando a torná-las mais positivas.

6. Sobretudo nos primeiros tempos, tente que a criança não fique demasiadas horas na escola. Hoje em dia as crianças passam tempo demais na escola, por isso tente ir buscá-las um pouco mais cedo, sobretudo na fase de adaptação, durante os primeiros meses. Algumas investigações concluiram que as crianças que passavam mais de trinta horas por semana na escola antes dos 4 anos de idade apresentavam comportamentos mais agressivos e níveis mais altos de ansiedade. Existem também estudos que mostram que, no jardim de infância, os níveis de ansiedade – medidos através de hormonas como o cortisol, na corrente sanguínea – vão subindo à medida que se aproxima o final do dia. As crianças, sobretudo as mais pequenas, não devem estar nove ou dez horas por dia na escola, como tantas vezes acontece.

7. Quando o for buscar à escola procure ter um tempo para estar verdadeiramente com o seu filho, a brincar ou conversar, a restabelecer a ligação da forma que for mais adequada. Se não o foi buscar à escola, e só vê ao chegar a casa procure estar com ele antes de fazer o que quer que seja. Sente-se ao pé dele, ou brinque com ele um pouco. Mostre-lhe que ele é verdadeiramente uma prioridade na sua vida.

8. Antes de irem para a escola, procure acordar com tempo para poderem estar um pouco juntos. É muito imporante restabelecer a ligação com a criança quando ela acorda e facilita muito toda a rotina. Tire alguns momentos para se deitar ao lado do seu filho na cama, ou para se sentar com ele no sofá, para estarem simplesmente juntos. Se fizer isto verá que tudo o resto corre com muito mais tranquilidade e harmonia. Não é que a ligação com os nossos filhos se perca quando estamos separados mas, mesmo assim, é importante reforçá-la sempre depois uma separação como dormir, ou passar um dia na escola

9. Esteja atento aos sinais do seu filho ao final do dia, veja se ele está contente, bem-disposto mesmo que esteja cansado. Oiça com muita atenção tudo o que ele lhe conta e lhe diz sobre a escola, mas observe também a sua linguagem corporal quando ele o faz. Esta é melhor forma de saber se tomou a decisão certa.

10. Se o seu filho chora quando o deixa na escola tente perceber porquê. É natural que a criança não queira sair da sua zona de conforto, daquilo a que está habituada, daquilo que conhece. È natural que haja uma certa resistência a separar-se dos pais para ficar com pessoas que mal conhece. Nem todas as crianças lidam com a mudança da mesma forma e nem todas expressam os sentimentos da mesma maneira.
Tente perceber se o choro pára logo ou se continua ao longo do dia e pergunte aos adultos como é que ele esteve.
Tente também perceber o que sente dentro de si quando o seu filho chora. Se os pais vão muito ansiosos deixar o filho na escola ele sente isso. As crianças são muito sensíveis e absorvem os nossos medos e ansiedades. Por isso, em primeiro lugar, certifique-se que não está, inconscientemente, a transmitir ao seu filho que a escola pode ser um lugar mau com a sua ansiedade ou o seu medo ao deixá-lo lá ficar.
É sempre difícil ver um filho chorar mas é preciso sabermos distinguir o choro de uma criança que está apenas a sair da sua zona de conforto e um choro de verdadeira angústia ou sofrimento.
Os pais são os maiores especialistas nos filhos, por isso o pai ou a mãe, melhor que ninguém saberão o que precisam de fazer para lidar com esse choro. Não deixe que os professores o desvalorizem ou o intimidem dizendo que só tem de se ir embora e de o deixar chorar um bocado. Porque se sair da escola ansioso ou inseguro é isso que irá transmitir ao seu filho no dia seguinte. Por isso fique o tempo que sentir que precisa de ficar para se sentir confortável. Às vezes não são só as crianças que precisam de lidar com os seus medos, os pais também, por isso tente encontrar formas de se sentir mais tranquilo nessa separação. 
Também é muito importante saber como é que lidam com o choro do seu filho. Eu gostei muito de ouvir o educador do meu filho dizer que, na sala dele, estão proibidas frases do tipo: "os outros meninos não estão a chorar, não vês que só tu é que choras'" ou "não és nenhum bebé para estar a chorar". Os sentimentos da criança não podem ser desvalorizados dessa forma e é muito importante que os adultos que vão passar o dia com ela os saibam acolher e respeitar.
Por último, não tenha medo de falar com o seu filho sobre o que ele está a sentir e de lhe mostrar que gosta dele e que quer o melhor para ele. Mostre-lhe que o compreende e que aceita o sofrimento dele e que fará tudo o que for possível para que as coisas se tornem mais fáceis. E, se chegar à conclusão que esse choro não é só de desconforto mas sim de verdadeiro sofrimento então não hesite em pensar noutra alternativa e esperar mais um pouco se vir que o seu filho ainda não está preparado para a escola.