quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Amamentar sem fantasmas

Há pouco tempo fui confrontada com algumas afirmações sobre a amamentação, por parte de um conhecido pediatra português, que me deixaram triste e revoltada com as ideias que este transmitiu. Triste porque, infelizmente, é alguém que tem uma posição que lhe permite influenciar muita gente e revoltada porque as suas afirmações são mesmo ofensivas para tantas mães e mulheres que dão o seu melhor para alimentar os seus filhos com o alimento mais perfeito que existe, sim, porque o leite materno é realmente o alimento mais perfeito que existe mas não só, porque amamentar também é dar conforto, carinho e segurança, ao contrário do que esse senhor afirmou.

Segundo esse pediatra uma mãe que amamenta um filho depois dos doze meses de idade está a prejudicar gravemente a criança porque o faz regredir e o impede de crescer e, segundo os fantasmas que este senhor tem no sótão, uma mãe que amamenta um filho depois dos 12 meses de idade só poderá estar a fazê-lo por razões egoístas e narcisistas, porque as mães hoje em dia têm poucos filhos e por isso recusam-se a ficar com o colo vazio e querem prolongar ao máximo a sensação de ainda terem um bebé. Estas foram as palavras desse senhor que me deixaram triste, revoltada e ofendida.
Triste e revoltada como profissional por saber que nenhuma destas afirmações tem fundamento científico e por ter noção de que ainda há tantos fantasmas destes a meter medo a tantas mães e ofendida, como mãe, por alguém achar que o facto de eu amamentar os meus filhos pode significar que estou a usá-los, de um modo narcisista para preencher alguma das minhas necessidades.

Assim, por estas razões não podia mesmo deixar de dar resposta a estes fantasmas que habitam na cabeça deste médico e, infelizmente, na cabeça de tantas outras pessoas.

O argumento da mãe narcisista 

Primeiro, é verdade que amamentar nos pode trazer uma boa sensação de proximidade com os nossos filhos e que tem alguns aspectos agradáveis. Amamentar um filho, como pegar-lhe ao colo ou dormir com ele pode estar de facto ligado a algumas sensações de prazer, é verdade, mas esse prazer não tem de estar ligado a nenhuma motivação egoísta, na verdade esse prazer que é suposto encontrarmos na nossa relação diária com os filhos, é ele mesmo a garantia de que somos capazes de sacrificar até os nossos próprios interesses para cuidar deles.

Mas, também é verdade que, como todas as mães que amamentam ou amamentaram sabem amamentar um bebé ou criança não é sempre um mar de rosas. Nem sempre nos apetece dar mama quando eles querem mamar, nem sempre nos apetece acordar várias vezes de noite quando eles querem mamar, nem sempre nos apetece estar cem por cento disponíveis como a amamentação exige.

Na verdade qualquer mãe que amamenta um filho está a fazê-lo principalmente porque sabe que isto é mesmo o melhor para ele e nem sequer faz sentido pensar que alguém o faça apenas por razões egoístas porque, para uma mãe egoísta é muito mais fácil dar biberão (e com isto não estou a chamar egoísta a quem o dá) porque a verdade é que o biberão não nos obriga a estar tão presentes e tão disponíveis como a amamentação. Na verdade uma mãe doente, obsessiva e que viva a maternidade de forma doentia usando os filhos para satisfazer as suas necessidades até tem menos probabilidades de amamentar muito tempo. Isto porque amamentar nos põe em contacto com o bebé mas também connosco próprias, amamentar traz-nos de volta ao corpo e isso vem, muitas vezes, acompanhado de um sentimento de vulnerabilidade que pode não ser assim tão fácil de enfrentar. Uma mãe narcisista - como aquelas que, segundo esse senhor, amamentam para além dos doze meses de idade- é alguém que foi muito ferida na sua infância. Uma personalidade narcisista constrói-se através de uma infância em que a pessoa se sentiu bastante negligenciada e uma das consequências dessa negligência é o negar das emoções e, consequentemente, do corpo, porque as emoções se sentem e se expressam através do corpo. Então, uma personalidade narcisista constrói-se através da negação das suas próprias feridas e de uma boa parte das suas próprias emoções e uma característica deste tipo de personalidade é justamente uma certa dificuldade em compreender e criar empatia com os sentimentos dos outros. O que significa que é provável que estas mães tenham também alguma dificuldade em compreender os sentimentos e as necessidades dos filhos e, como tal, também se torna menos provável que tenham a capacidade de aceitar e de acolher as necessidades de segurança, de conforto e de contacto físico que as crianças demonstram não só mas também através da amamentação.

Além disto uma pessoa narcisista é também uma pessoa que já se fechou aos outros e que, como tal, tem medo de criar ligações mais profundas. E a amamentação não é a única forma de uma mãe se ligar a um filho mas é uma forma bastante profunda e eficaz de o fazermos. Por isso uma mãe narcisista terá também mais probabilidades de querer cortar esse modo de se ligar aos filhos.

Uma mãe narcisista terá também muito mais probabilidades de se assustar com todas as emoções cruas que a amamentação traz, sobretudo nos primeiros tempos de pós-parto. Na verdade, para todas as mulheres que tenham algum tipo de fragilidade ou até de doença mental, o pós-parto é um turbilhão de emoções muito duro de enfrentar e a amamentação pode ser uma boa parte desse turbilhão. A amamentação desperta nas mães um misto de sentimentos profundos e muitas vezes contraditórios: o desejo de se ligar ao bebé mas também o cansaço que por vezes representa ter um ser que depende exclusivamente de si para sobreviver. Durante o pós-parto muitas vezes as mães entram em contacto com recordações e sentimentos que nem sabiam que tinham e podem vir à superfície muitos medos, inseguranças e feridas que estavam escondidas. E a amamentação é um bom veículo para que isto aconteça porque nos põe em contacto com o corpo, através do qual tudo isto acaba por se expressar. 

A amamentação também dá um contributo importante para todas as alterações hormonais que acontecem no pós-parto - com o aumento da produção de oxitocina - por exemplo, que podem também fazer com as emoções da mãe fiquem mais volúveis e aumentam o seu sentimento de vulnerabilidade. E isto, mais uma vez, para quem tenha algum tipo de fragilidade, como aconteça no caso de uma mãe narcisista, é ainda mais difícil de suportar.

Então, aquilo que é mais provável acontecer com uma mãe verdadeiramente narcisista é tentar criar um certo distanciamento do bebé - para não se sentir afundar ou descontrolar com todos os sentimentos que ele traz - e, com isso, o primeiro impulso também será muito provavelmente o de rejeitar a amamentação. Porque se torna praticamente insuportável aguentar essa tomada de consciência e esse entrar em contacto com o corpo e com as emoções que a amamentação pode trazer. Por isso, logo aqui, percebemos que não faz sentido afirmar que todas as mães que amamentam um bebé com mais de doze meses têm uma personalidade narcisista ou traços de narcisismo como este médico parece pensar. 

Todas as mães que amamentam sabem como pode ser cansativo dar de mamar e este cansaço não vem só das exigências de cuidar de um bebé e das calorias extra que o nosso corpo precisa de gastar para fabricar o leite mas a verdade é que, quando amamentava os meus filhos em bebés, sentia que muito para além do alimento que lhes estava a dar na forma de leite era como se estivesse também a dar-lhes uma parte qualquer da minha energia. Não consigo dizer isto sem que pareça algo muito esotérico mas acredito que todas as mães que amamentam saibam do que estou a falar: de certo modo é como se aquela relação que estabelecemos com um bebé que mama nos fizesse sentir que estamos também a dar-lhe uma parte de quem somos, como se para além do leite precisássemos de o alimentar com todo o nosso ser porque a relação que se cria, nos primeiros tempos, é mesmo muito simbiótica. E, com o tempo isso vai-se atenuando, mas a amamentação continua a ser sempre um momento em que podemos facilmente restabelecer o vínculo que temos com o nosso filho e em que podemos facilmente sentir que estamos a alimentar a ligação que existe entre nós com toda a importância que hoje sabemos que isso tem para o seu desenvolvimento.

Leite materno como o alimento perfeito

Do ponto de vista da nutrição, sim, é verdade que existem muitos alimentos hoje em dia que podem preencher as necessidades nutricionais das crianças e este é um dos argumentos usados: o facto que, no mundo ocidental as crianças não passam fome e têm muitos outros alimentos à sua disposição. Mas que lógica tem, pergunto eu, dizermos que até aos dois anos, pelo menos, as crianças precisam de consumir produtos lácteos, que são feitos com o leite de outras espécies para preencher as suas necessidades de cálcio, quando podem ter à sua disposição um alimento que não poderia ser mais perfeito?! Porque nenhum outro alimento se modifica em função das necessidades, da idade e até do género das crianças. Hoje em dia sabemos que o leite materno se vai alterando à medida que a criança cresce e as suas necessidades mudam, sabemos também que o leite que as mães produzem para as meninas é diferente do leite que é produzido para os rapazes (parece que o deles é um pouco mais calórico) e sabemos que quando a criança está doente, o organismo da mãe entra em contacto com aquilo que está a provocar essa doença (através da sua saliva ao que parece) e é capaz de começar logo a fabricar anticorpos que são transmitidos no leite e que ajudam a criança a combater essa doença com maior eficácia, visto que o seu sistema imunitário ainda é bastante imaturo até aos dois anos de idade e continua a desenvolver-se até aos seis. Então não existe nenhum outro alimento na natureza que seja realmente tão perfeito como este. Nenhuma fórmula produzida em laboratório pode ter esta eficácia e não é por acaso que as estatísticas mostram que as crianças amamentadas adoecem menos e recuperam mais depressa do que as que não o são.

É preciso dizer aqui também que isto é válido para todos os leites de todas as mulheres. Que o mito do leite fraco, não passa disso mesmo: um mito, em parte alimentado pela indústria das fórmulas. A natureza é muito sábia e o corpo de uma mulher que acabou de ter um bebé faz tudo o que for preciso para fabricar o melhor alimento para o bebé, mesmo no caso de mulheres sub-nutridas. Li em tempos um livro sobre três bebés que nasceram em Auschwitz, em plena segunda guerra mundial, três bebés que sobreviveram até hoje graças justamente ao leite das suas mães que sobreviviam com uma dieta de apenas 300 calorias por dia, muito inferior ao que qualquer pessoa precisa. Mas foi esse leite precisamente que os salvou porque o corpo das suas mães mobilizou todos os seus recursos para o produzir até ao ponto de, pelo menos uma delas, ter ficado com graves problemas nos ossos porque o seu corpo foi buscar todas as reservas de cálcio que conseguiu encontrar para fabricar o leite para aquele bebé. Então, não existe leite fraco e também não existem mulheres que não conseguem ter leite suficiente, excepto no caso de algumas raridades genéticas que, geralmente, também não lhes permitem engravidar. Na verdade, até existem casos de mães que adoptam e conseguem amamentar e também já soube do caso de uma avó que decidiu amamentar o neto depois da mãe deste ter morrido no parto e de um casal de mulheres em que apenas uma estava grávida mas em que a companheira também estava a preparar-se para amamentar a bebé. Podem surgir algumas dificuldades na amamentação, é verdade, mas todas elas podem ser superadas com o devido apoio de alguém bem informado.

Leite materno como alimento para o cérebro


Mas, para além dos inquestionáveis benefícios da amamentação do ponto de vista físico, também já existem estudos que mostram que as crianças amamentadas mais tempo têm até um Q.I. mais elevado e melhores probabilidades de ter sucesso na vida. Isto porque a amamentar não é apenas alimentar o corpo da criança. Na verdade, hoje em dia, sabemos que ao dar resposta às necessidades da criança estamos também a alimentar o seu cérebro, a ajudá-lo a crescer e a desenvolver-se. 

A sucção não nutritiva, que também faz parte da amamentação, também é uma forma de ensinar o bebé a desenvolver os seus próprios mecanismos de regulação do stress e sabemos que isso também tem uma importância muito grande para o desenvolvimento do cérebro, que é prejudicado pelas grandes quantidades de cortisol que são segregadas quando o bebé é sujeito a grandes estados de stress com frequência. E o objecto original para essa sucção não nutritiva é a mama, não a chucha. A chucha foi algo que veio depois e que muitos bebés nem aceitam e que pode também contribuir para prejudicar muito o sucesso da amamentação, sobretudo se é introduzida demasiado cedo. Ao chuchar o bebé aprende a relaxar e treina e fortalece os circuitos neuronais que estão associados a essa sensação de relaxamento. Este é mesmo um dos principais recursos para o bebé se acalmar e é quase o único recurso para um bebé pequenino. É verdade que, com o crescimento, as crianças começam a desenvolver outras estratégias de relaxamento e encontram outras formas de se acalmar mas também é verdade que este continua a ser ainda um importante recurso nos primeiros anos da infância, não é por acaso que tantas crianças têm dificuldade em largar o dedo ou a chucha e por isso é também natural que tantas ainda precisem da mama para adormecer, por exemplo.

E qualquer mãe que amamenta um filho sabe que está a fazê-lo para dar resposta às necessidades dele, não às suas. É preciso ter uma cabeça mesmo muito cheia de fantasmas para afirmar que aquilo que as mulheres sempre fizeram ao longo de toda a sua história é um comportamento doentio ou regressivo.

Um dos argumentos deste médico é que hoje em dia as mulheres só têm um filho, na maior parte dos casos, e por isso ficam demasiado presas a este filho e muito relutantes em deixá-lo crescer e, para prolongarem a sensação de o ter nos braços, prolongam demasiado a amamentação como forma de impedir esse crescimento e o desenvolvimento da sua autonomia.

Então pergunto porque é que, antigamente, quando as mulheres tinham mais filhos e lhes davam de mamar com toda a naturalidade até muito mais tarde do que aquilo que é costume hoje dia, não o faziam por causa das suas próprias necessidades egoístas? Porque antigamente eram obrigadas a fazê-lo visto que não havia tanta comida, imagino que seria essa a resposta. Mas, nesse caso, porque é que isso não representava uma regressão para os filhos? Ou vivíamos numa sociedade de pessoas infantis, pouco desenvolvidas e sem autonomia até aos anos 60 ou 70 quando as fórmulas para bebés foram introduzidas em massa?

Na verdade, até aos anos 60 era muito comum as crianças mamarem até tarde, sobretudo nas zonas mais rurais que também eram a maior parte do país. Foi o aparecimento das fórmulas e a entrada das mulheres no mercado de trabalho que baixou dramaticamente o número de crianças amamentadas, ao ponto de se tornar necessário fazer campanhas de saúde pública para estimular as mães a fazer aquilo que, na verdade, deveria ser o mais natural. Hoje em dia as estatísticas mostram que a esmagadora maioria das mulheres sai do hospital a dar de mamar aos filhos mas, infelizmente, à medida que as crianças crescem e os desafios aumentam esse número vai baixando até que aos, seis meses, já só há uma minoria de bebés a ser amamentado em exclusivo e depois dos doze meses de idade, infelizmente, são mesmo poucas as mães que ainda dão de mamar.

Porque é que, um comportamento que sempre foi natural e que fazia parte daquilo que era esperado e natural para uma mãe foi desaparecendo?

Por vários motivos: a introdução das fórmulas e a entrada das mulheres no mercado de trabalho deram um grande contributo para isto. O facto do parto se ter vindo a tornar cada vez mais intervencionado, também contribuiu porque os bebés precisam de ser deixados em paz e de estar junto do corpo da mãe quando nascem para activar o instinto que os faz procurar a mama. Quando o bebé é demasiado mexido pelos profissionais ou quando não lhe é permitido passar a primeira hora de vida, em paz, tranquilo, junto ao peito da mãe pode não ser capaz de despertar este instinto e com isso podem surgir as primeiras dificuldades no processo de amamentar que podem mesmo acabar por comprometer todo o processo. 

Mas, para além destas razões mais práticas, acredito que, enquanto sociedade também nos temos vindo a afastar cada vez mais corpo e dos instintos e daquilo que é natural. Acabamos por viver muito no mundo da razão e a maternidade, sobretudo nos primeiros tempos, não tem nada de racional e isso pode assustar. Muitas mães, por exemplo, ficam com medo de não conseguir saber exactamente a quantidade de leite que o bebé ingeriu em cada mamada e muitos médicos alimentam isso ao afirmarem que o bebé precisa de x mililitros por dia ou por refeição. Depois, muitas mães, tentam controlar os intervalos entre mamadas de forma rígida para sentirem que podem ter algum controlo racional sobre a situação, o que também pode prejudicar muito todo o processo. A melhor, a única forma de dar de mamar com sucesso, é não olhar para relógios, nem tabelas, nem quantidades. Já vi mães a escreverem num bloco sempre que o bebé acaba de mamar, a que horas mamou, quanto tempo o fez e de que peito mamou. Isto é completamente contrário a tudo o que uma mãe recente precisa. Tudo o que é preciso para o sucesso da amamentação é ligar o instinto e deixar de lado tudo o que é quantificável e mensurável. A mesma coisa quando os médicos querem pesar o bebé todas as semanas e controlar o número de gramas que ele aumenta por dia. Se, em alguns casos, isto até poderá ajudar a controlar alguma situação de saúde mais grave, a verdade é que, na maior parte dos casos, sobretudo em mães de primeira viagem, só contribui para aumentar a ansiedade e tensão à volta da amamentação.

O facto das mães viverem cada vez mais isoladas a fase do pós-parto também contribuiu muito para que se sintam sozinhas e sem apoio para vencer algumas dificuldades que, antigamente, haveria sempre uma mulher mais velha e experiente por perto que poderia ajudar a vencer. Além de que antigamente as mulheres também tinham mais filhos e por isso também havia sempre mais crianças por perto e era mais fácil ir observando a forma como estas eram amamentadas o que ajudava a interiorizar também a naturalidade deste comportamento e alguma informação que poderia torná-lo mais simples. Hoje em dia muitas mulheres nunca viram um bebé a mamar até terem o seu nos braços e não têm ninguém que possa dar-lhes alguma orientação quando se deparam com dúvidas que não sabem como esclarecer.

O argumento da regressão

Outro argumento deste médico era o da regressão: que dar de mamar a uma criança com mais de doze meses significa fazer com que esta entre num comportamento regressivo que pode por em causa o seu desenvolvimento e a sua autonomia.

Não posso deixar de dizer que me parece que esta ideia tem por base uma visão que se baseia numa psicanálise de bolso. A psicanálise é apenas um dos modelos usados em psicologia para nos permitir ter alguma compreensão do processo de desenvolvimento e estruturação da mente humana. Mas é também um modelo antigo e um modelo que, como todos os outros, tem vindo a evoluir e a modificar-se em função dos novos conhecimentos que vão surgindo. Mas é muito fácil alguém pegar em algumas noções básicas de psicanálise mais antiga e acabar por interpretar de uma forma excessivamente limitada e fundamentalista algumas das suas ideias. Então isto é o que acontece quando alguém afirma que amamentar uma criança com mais de doze meses de idade é provocar um estado regressivo que pode limitar o crescimento psicológico dessa criança.

Porque, de acordo com a visão psicanalítica, uma criança que procura a mãe para mamar até pode estar a fazer uma ligeira regressão nesse momento, mas é uma regressão ao serviço do crescimento, porque essa regressão lhe permite encontrar o conforto e a segurança que são necessárias para continuar a crescer e a conhecer o mundo, os que a rodeiam e a si própria. Porque essa regressão é necessária para que, a seguir, a criança possa seguir em frente, com confiança. Porque o crescimento não acontece e não tem de acontecer sempre de uma forma linear. E quando não nos é permitido fazer essas regressões na altura certa, quando precisamos de as fazer, acabamos por precisar de as fazer mais tarde e, geralmente, de forma muito menos adaptativa. É daqui que surgem, muitas vezes, comportamentos menos equilibrados e até disfuncionais como é  o caso de algumas dependências químicas, por exemplo, ou de algumas perturbações mentais.

Então mamar não é só dar alimento mas também dar segurança, conforto e um contacto físico que permitem à criança também aprender a relacionar-se até com o seu próprio corpo porque é através do corpo da mãe que a criança também pode ter oportunidade de aprender a conhecer o seu. E é essencial que as crianças aprendam a crescer de forma segura e que tenham possibilidade de crescer sem medo do seu próprio corpo e sem medo de estabelecer ligações profundas com as pessoas importantes das suas vidas. E é isto que ensinamos a uma criança que mama, que pode confiar e aproximar-se de nós, que pode sentir-se segura no contacto físico com o nosso corpo, que respeitamos as suas necessidades, que lhe damos o espaço necessário para crescer com a segurança de saber que pode sempre voltar a procurar o conforto e a segurança desse contacto todas as vezes que forem necessárias.

E uma criança a quem isto é permitido é uma criança que está pronta para seguir em frente, para crescer e para partir para uma nova etapa do seu desenvolvimento quando for a altura certa. E nessa altura ela saberá mostrar à mãe que está pronta para uma nova fase da relação, que está pronta para procurar esse contacto e esse conforto de uma outra forma e que já não precisa da mama para receber a segurança e o conforto de se sentir amada e acolhida. Porque já é capaz de o fazer de uma outra forma. Mas, para que isso aconteça, temos de confiar e de lhe dar tempo para que ela mesma possa fazer essa descoberta por si e dar-lhe tempo para nos mostrar que está pronta para passar a essa nova fase.

Então, para isso precisamos de nos libertar destes fantasmas e de nos libertar de preconceitos. As mamas existem para alimentar bebés. Ponto. Os nossos filhos não têm culpa que vivamos numa sociedade em que a sexualização excessiva do corpo feminino nos leve a ter tantos fantasmas no sótão que achamos que ver uma mulher a amamentar uma criança de dois, três, quatro ou cinco anos em público é algo de indecente, quase pornográfico. Ao mesmo tempo que essa mesma parte do corpo da mulher é abusivamente usada para tudo em marketing, até para vender carros. Os nossos filhos não têm culpa que nos tenhamos esquecido de uma boa parte dos nossos instintos mas precisam que os recuperemos. Se queremos realmente construir uma sociedade mais equilibrada precisamos de começar por recuperar a nossa capacidade de estar bem com o nosso corpo e com as suas funções naturais e não há modo melhor de ensinar os nossos filhos a fazê-lo do que amamentar sem dar ouvidos a médicos que quase apetece dizer que - em alusão a uma frase antiga da psicanálise que falava na inveja do pénis de que as mulheres poderiam sofrer - parecem sofrer de uma inveja da mama. 


quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Vídeos - Vida Macro


Partilho estes vídeos, feitos pelo António Barbot, do projecto Vida Macro, em que pude falar um pouco sobre o meu trabalho. 








segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Apego: a Base que define a nossa relação com o mundo - vídeo da palestra

No último fim de semana estive nesta conferência muito interessante, que teve como orador principal o Dr. Carlos Gonzalez - com as suas intervenções sempre tão pertinentes e bem-humoradas - e que juntou outros oradores e temas também muito interessantes. Esta conferência foi organizada pela doula Cristina Cardigo - do mimami.org - a quem agradeço o convite para estar presente. 
Deixo aqui os vídeos da minha intervenção. 





sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Défice de atenção - crescer sem segurança

Esta semana li mais uma notícia de jornal que falava do número alarmante e que não pára de aumentar de crianças que estão medicadas para o défice de atenção apenas porque não se concentra. Por coincidência conheci também uma dessas crianças durante esta semana, uma criança que, como tantas outras, não tem sequer sinais de hiperactividade mas que, perante a realidade de ter más notas na escola e dificuldades de concentração o médico sugeriu aos pais que fosse medicada para o défice de atenção. Esta criança como tantas outras está medicada desde os 8 anos de idade e diz que nem sequer se sente bem com essa medicação, fica sem energia para brincar, cheia de sono e sem vontade de fazer nada. Claro que fica também sem vontade de se portar mal na escola, ou de falar com os colegas ou de perturbar as aulas. E infelizmente, pelo que dizem os números, estes casos são mesmo cada vez mais comuns por isso precisamos mesmo de falar sobre isto. 

Já expliquei aqui e aqui alguns aspectos importantes sobre esta perturbação mas existem outras coisas que ainda é importante dizer sobre estes casos. 

Em primeiro lugar, é preciso perceber que não há qualquer justificação possível para medicar uma criança apenas porque não consegue ter boas notas ou porque tem dificuldades de concentração. Já falei sobre a questão das notas aqui, por isso não me vou repetir mas é preciso termos noção de que num sistema de ensino que começa a ficar obsoleto e que dá cada vez menos resposta às necessidades das crianças de hoje em dia a preocupação com as notas chega a ser absurda.As crianças têm cada vez menos tempo para correr, para brincar e para ser crianças, por isso é muito natural que também tenham cada vez mais dificuldade em estar sentadas para aprender. 

Depois as crianças dos nossos dias também vivem num mundo em que há cada vez mais estímulos electrónicos e digitais e sabemos que isso também tem consequências na sua capacidade de atenção além de que as novas tecnologias também estão a transformar a forma de nos relacionarmos com o mundo e também de aprender coisas novas e a escola ainda não é capaz de acompanhar bem esta transformação na maior parte dos casos. 

Através dessas tecnologias as crianças também têm acesso a muitas informações e conhecimentos que também transformam os seus interesses e por isso a escola também precisa de acompanhar essas transformações e não é surpreendente que as matérias escolares pareçam hoje um pouco aborrecidas em tantos casos. 

As novas tecnologias têm também a sua responsabilidade na diminuição da capacidade de atenção mas a verdade é que existem outras causas muito mais importantes e que precisamos de conhecer e compreender que podem muito bem estar na base de uma certa epidemia do défice de atenção. 

O que é o défice de atenção
 

Esta é uma perturbação que é uma perturbação que se traduz numa incapacidade de focar ou dirigir a atenção. A nossa mente é invadida por vários estímulos em simultâneo: a cada momento podemos ter noção dos barulhos, dos cheiros, do toque, dos nossos pensamentos, sensações, etc, mas, geralmente, somos capazes de filtrar estes estímulos todos e focar-nos apenas no que interessa ignorando os outros. Nos casos em que existe défice de atenção isso torna-se mais difícil de fazer e a pessoa sente-se constantemente invadida por vários estímulos que não consegue ignorar e que a impedem de focar a sua atenção com eficácia naquilo que quer fazer. Isto dificulta o estudo, o trabalho mas também a vida pessoal porque também pode ser mais difícil estabelecer ligações se não conseguimos dar atenção às pessoas com quem nos relacionamos.

Este défice de atenção pode ou não ser acompanhado de hiperactividade e muitas vezes é confundido com esta apesar de serem coisas diferentes. Podemos dizer que a hiperatividade é a componente motora do défice de atenção e até há estudos que demonstram que esta - que se traduz numa grande agitação motora e numa quase incapacidade de manter o corpo imóvel - pode ser uma estratégia encontrada para ajudar a lidar com o défice de atenção porque parece que as crianças com défice de atenção e hiperactividade se concentram melhor quando lhes é permitido mexerem-se livremente. A hiperactividade é mais frequente nos rapazes do que nas raparigas mas existem muitas crianças, e adultos, com défice de atenção sem nenhuns sintomas de hiperactividade. 

É importante temos noção que esta dificuldade de manter a concentração é sempre maior quanto mais desinteressante for a tarefa que estamos a desempenhar, ou seja, se gostarmos do que estamos a fazer há sempre uma motivação maior para continuar e por isso acabamos por fazer um esforço maior para dirigir a atenção que, na maior parte dos casos que não são muito graves, acaba por resultar. Mas para isso essa motivação tem mesmo de vir de dentro a pessoa tem mesmo de se sentir capaz de retirar algum prazer daquilo que está a fazer para que este esforço possa existir e isso não é nada que ninguém possa forçar alguém a sentir. 

O que está na origem do défice de atenção 

Como já disse nos artigos anteriores, é verdade que hoje em dia pode haver algum abuso no diagnóstico desta perturbação mas também é verdade que parece existir mesmo um aumento dos casos em que realmente existe um défice de atenção. 

Para percebermos porque é que isto acontece é necessário percebermos que os seres humanos nascem com um cérebro muito imaturo. Basta pensarmos que os animais bebés aprendem rapidamente a andar e os seres humanos ainda precisam de vários meses para o fazer, por exemplo, para termos noção dessa imaturidade. Há quem diga que, para nascermos com as mesmas capacidades dos outros animais, precisaríamos de nascer já com um cérebro de dois anos de idade e é fácil de percebermos que uma criança de dois anos de idade jamais passaria pela pélvis de uma fêmea da nossa espécie. Então, a natureza arranjou forma de completarmos esse desenvolvimento cerebral cá fora. Por isso nos primeiros anos de vida o cérebro é constantemente moldado por todas as experiências que encontra no seu meio ambiente. E, como o ser humano é um animal altamente social, as experiências mais marcantes e com mais impacto são justamente as relações que a criança forma com os principais adultos à sua volta. E são essas relações que irão moldar a forma como o seu cérebro vai criando ou perdendo várias ligações neuronais. 

De uma forma muito resumida e simplificada podemos dizer que as crianças nascem com a parte mais primitiva do cérebro relativamente desenvolvida, as partes mais ligadas aos comportamentos instintivos estão presentes e relativamente desenvolvidas à nascença. Do ponto de vista anatómico podemos dizer que a parte mais interior do cérebro, a zona mais ligado aos instintos e às emoções está também relativamente desenvolvida à nascença. A parte que se encontra menos desenvolvida é a parte mais externa e que é justamente a parte que distingue mais os homens dos outros mamíferos e que lhe permite ter um comportamento mais racional, é a zona do córtex cerebral, a chamada massa cinzenta. Nesta parte do cérebro existe uma que é ainda mais importante neste caso que é o chamado cortex orbito pré-frontal. Então é nesta zona do cérebro que se desenvolve essa capacidade de filtrar os estímulos que nos permite manter a concentração e focar a atenção à vontade e há quem lhe chame o controlador aéreo ou o polícia sinaleiro do cérebro, por causa desta função de seleccionar a informação relevante em cada momento. É por causa desta zona do cérebro que há quem diga que o café ou outros estimulantes podem ajudar a minimizar o défice de atenção: ao contrário do que já ouvi dizer, o café não acalma, aquilo que o café faz nestes casos é justamente acordar esse polícia sinaleiro para que ele possa fazer mais facilmente o seu trabalho, estimula essa zona do cérebro (juntamente com tantas outras) que ajuda a fazer mais facilmente essa filtragem e por isso pode melhorar temporariamente a capacidade de concentração. 

Mas o mais importante é percebermos que esta zona do cérebro só se desenvolve se encontrar as condições ideais para o fazer. Na verdade esta é uma função que, em termos de sobrevivência, não tem um grande valor por isso a natureza só irá desenvolvê-la se todas as outras mais importantes tiverem sido desenvolvidas primeiro. Hoje sabemos que o nosso organismo é sábio na distribuição dos seus recursos e se o meio ambiente em que vive não for o ideal esses recursos serão gastos apenas naquilo que for estritamente necessário. E o meio ambiente ideal para uma criança nos primeiros anos de vida é um ambiente de segurança e de acolhimento. E essa segurança implica crescer com os pais ou as pessoas mais importantes na sua vida presentes e disponíveis a maior parte do tempo, coisa que, infelizmente hoje em dia nem sempre acontece. Nunca na história da humanidade tivemos tantas crianças a crescer sem essa possibilidade de terem um adulto presente e disponível para si durante a maior parte do tempo. Nas creches com várias crianças ao cuidado de um adulto é muito difícil que a criança se sinta suficientemente segura nessa ligação com o adulto. 

Depois, por outro lado, os pais também têm cada vez mais desafios e cada vez menos tempo para estar verdadeiramente com os filhos, para os poderem acolher de verdade. Na realidade existem muitos adultos também com défice de atenção e um adulto com défice de atenção também terá mais dificuldade em estar verdadeiramente presente com os filhos, daí a tendência para pensarmos que existe uma carga hereditária. Existe, sim, mas ela não tem nada a ver com os genes e sim com o facto de que um adulto com défice de atenção será provavelmente um adulto um pouco mais ansioso e também ele com alguma história de abandono emocional e sabemos que, a menos que os pais parem para pensar e compreender a sua história, as probabilidades de repetirem o que já foi feito com eles pelos seus próprios pais são elevadíssimas. 

Este défice de atenção vem muitas vezes acompanhado de alguma ansiedade que, também ela está quase sempre ligada a um ambiente inseguro na infância. A ansiedade é muito comum naquilo a que se chamam os casos de apego ambivalente - situações em que a criança não sentia que havia um adulto capaz de a ajudar a lidar com os sentimentos mais difíceis - que, infelizmente, é um tipo de apego relativamente comum nos nossos dias. 

Então aquilo que mais precisamos de entender sempre que vemos uma criança ou adulto com défice de atenção é que essa foi uma pessoa que não cresceu nas condições ideais. E aquilo que precisamos de fazer, mais do que tentar corrigir esse défice através de químicos que têm efeitos secundários que podem ser devastadores sobretudo nos mais novos, é perceber que essa criança, antes de qualquer outra coisa precisa de se sentir segura. Hoje sabemos que o nosso cérebro mantém alguma plasticidade, ou seja, mantém a capacidade de se alterar em função das suas experiências. Então, é verdade que os primeiros anos são muito importantes na formação cerebral e são os anos em que é mais fácil moldar o cérebro e conseguir efeitos duradouros mas também é verdade que é sempre possível alterá-lo em qualquer altura da vida. 

Os estudos na área do mindfulness, por exemplo, mostram que é possível alterar a própria estrutura cerebral apenas por aprendermos a direccionar a nossa atenção de modo mais consciente. E também  já existem estudos que mostram que os relacionamentos também podem alterar o funcionamento do nosso cérebro. 

Na verdade, para o ser humano, as relações próximas são sempre a fonte mais eficaz de transformação. Somos animais sociais, as relações humanas são o centro das nossas vidas, por muito que nos esqueçamos disso. Ninguém vive bem sozinho - o sentimento de solidão pode aumentar até 50% as probabilidades de se vir a ter um ataque cardíaco - não é por acaso que a morte, a perda de alguém importante, é das experiências mais dolorosas para qualquer pessoa. Então, o nosso cérebro está sempre programado para responder e reagir a essas relações e para se moldar em função delas. 
Então o que é urgente em primeiro lugar é percebermos como é que podemos criar mais segurança nas nossas crianças, como é que podemos lidar com essa epidemia de ansiedade e com os estados de alerta que a acompanham de forma tão presente nos nossos dias. E a única forma de o fazermos é encontrarmos maneira de estarmos verdadeiramente presentes com os nossos filhos, sobretudo nos seus primeiros anos de vida, não apenas em qualidade mas em quantidade também. Precisamos de reformular todas as nossas prioridades e de perceber que não podemos ter tudo e que não há outra forma de construir um mundo melhor e uma sociedade mais saudável e equilibrada a não ser dar aos nossos filhos aquilo de que eles precisam desesperadamente para crescerem bem: a nossa presença, de corpo e mente, de forma estável, previsível e segura. 

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Crianças que mordem

Já escrevi aqui sobre as crianças que batem e sobre como isso é uma fase normal do desenvolvimento. Mas ultimamente tenho pensado mais nas crianças que mordem, provavelmente porque tenho um mordedorzinho com pouco mais de um ano, uma boca cheia de dentes e mandíbulas de pit-bull. Não vale a pena explicar outra vez as razões pelas quais as crianças mordem porque, regra geral, são as mesmas que as levam a bater e estão já explicadas neste texto. Então, resumidamente, podemos dizer que as crianças mordem, da mesma maneira que batem, quando se sentem frustradas, cansadas ou contrariadas. Pode haver casos em que morder é também uma forma de chamar a atenção de outras crianças, por exemplo, ou apenas uma forma de aliviar a tensão das gengivas quando os dentes nascem ou até uma forma de brincadeira mas não costumam ser esses os casos que preocupam mais os pais porque é fácil de perceber que, nessas situações, a criança não o fez com más intenções.

O que preocupa mais os pais são aquelas dentadas que vêm mesmo da frustração e em que se percebe que a criança ficou aborrecida ou zangada com algo, até porque, geralmente nesses casos elas também acabam por ser mais fortes. E a verdade é que se o bater preocupa muita gente as dentadas ainda mais porque costumam fazer mais estragos e muitas vezes deixam marcas. Se apanhar uma palmada de uma criança de 1 ou 2 anos pode ser desconcertante, a verdade é que esta incomoda mais pela preocupação com o acto em si do que pelo estrago que faz em quem a apanha, mas as dentadas podem magoar mesmo e até fazer sangue ou deixar nódoas negras. Por isso os pais ficam preocupados com a criança que mordeu mas também com quem foi mordido que, se for outra criança, muitas vezes, acaba mesmo a chorar.

Então o mais importante, em primeiro lugar, é lembrarmos-nos que as crianças não vêem o mundo pelos nossos olhos. As crianças mais pequenas, para além de não terem os chamados sentimentos mistos, como expliquei aqui, também não têm de forma desenvolvida aquilo a que se chama a teoria da mente. Isto é o que nos dá a capacidade de perceber que os outros vêem as coisas e pensam de uma maneira diferente da nossa. Só a partir dos 4 anos de idade é que uma criança começa a ser capaz de entender que existem outros pontos de vista e que as pessoas podem ver o mundo de uma perspectiva muito diferente. Apesar de geralmente começar a haver alguns sinais de que se está a desenvolver esta capacidade a partir do primeiro ano de idade, só a partir dos 4 anos é que a criança começa mesmo a ser capaz de perceber que os outros podem não ver o mesmo que ela e, na verdade, ainda serão precisos vários anos para esta capacidade estar mesmo bem desenvolvida, até sermos capazes de entender que as outras pessoas podem ter motivações e sentimentos muito diferentes dos nossos nas várias situações e, na verdade, nem sempre os próprios adultos têm esta capacidade.

Então, isto quer dizer que uma criança que se zanga e morde outra ou nos pais está apenas a fazer isto por instinto, não porque sabe que o pai ou a outra criança vão ficar magoados. Por vezes as crianças depois de morder ficam mesmo espantadas com a reacção do outro, quando esta é mais intensa, porque não percebem realmente que magoaram.

Além disso, morder, tal como bater em momentos de tensão ou frustração é um comportamento automático fruto de uma alteração fisiológica que também expliquei aqui, por isso se ralharmos ou reprimirmos fortemente esse comportamento só iremos criar mais tensão que, também ela, terá de ser libertada de alguma forma.

Então o que podemos fazer quando temos crianças que mordem com muita frequência?

Primeiro precisamos de perceber o que é que originou essa reacção por parte da criança. Por vezes os pais dizem que a criança não estava zangada quando mordeu, então aqui, é preciso perceber se a criança mordeu apenas como forma de brincadeira ou se mordeu para chamar a atenção da outra criança ou se mordeu mesmo para libertar alguma tensão que ao adulto possa ter passado despercebida.

É importante tentarmos perceber as alturas em que a criança costuma morder e as razões pelas quais o faz para podermos evitar que o faça, sobretudo quando está com outras crianças a quem pode magoar. Assim se percebermos que uma criança pode estar prestes a morder outra podemos mais facilmente intervir afastando-a da outra criança ou procurando, sempre que possível, minimizar a fonte de tensão para ela.

Depois, quando não conseguimos mesmo evitar e a mordidela já aconteceu, é importante que nos lembremos que a criança não o fez com más intenções e saber que não adianta ralhar, nem castigar e muito menos envergonhar a criança, porque isso só irá criar mais tensão. O que podemos fazer, nos casos em que outra criança foi magoada, é chamar a atenção para esse facto e mostrar à criança que o outro ficou triste. Apenas como forma de ir chamando a atenção para os sentimentos dos outros mas sem esperarmos que uma criança de um ano ou dois compreenda verdadeiramente isto e sem lhe incutirmos uma atitude pesada e de culpa pelo facto do outro estar a triste ou magoado. Os pedidos de desculpas forçados não têm grande utilidade como já expliquei aqui.

Depois é importante também fazer alguma coisa com a criança que foi magoada sobretudo quando ela é um pouco mais crescida e se os pais não estiverem presentes - se os pais estiverem presentes serão sempre eles as pessoas mais indicadas para confortar a criança caso ela tenha ficado perturbada. Mas, se a criança já tiver idade suficiente para compreender, então, depois dos pais a confortarem também é importante que sejamos capazes de criar empatia com ela e de mostrar que compreendemos e reconhecemos os seus sentimentos. Muitas vezes o que dói mais não é tanto a dentada mesmo mas o sentir-se agredida pelo outro, então aqui é importante explicar que o outro que mordeu não o fez por mal e que ainda não percebe que está a magoar. Às vezes caímos na tentação de ralhar ou castigar a criança que mordeu apenas para que o outro veja que estamos do lado dele ou que reconhecemos a sua dor, às vezes os pais da criança que foi mordida quase exigem isso aos pais do que mordeu. Então, nestes casos, o mais importante é perceber que podemos mostrar à criança que foi mordida que nos importamos com ela mesmo sem castigar ou ralhar com a outra. Basta que nos foquemos nos sentimentos de quem levou a dentada e que sejamos capazes de mostrar que os reconhecemos e acolhemos. E por vezes temos de ser empáticos também com os pais que viram o filho a ser mordido e acabam também por, de certa forma, se sentirem eles próprios agredidos. Mas essa empatia não significa que precisemos de mudar nada na forma como achamos certo educar os nossos filhos. Precisamos de saber que, nestes casos, não ralhar ou não castigar não é ser permissivo é apenas compreender que essas atitudes não servem para impedir a criança de voltar a fazê-lo, acabam por criar mais tensão e frustração na criança e não têm mesmo nenhuma utilidade pedagógica.

E quando somos nós, os pais, o alvo da mordidela?

Por vezes pode haver uma reacção instintiva de dar uma palmada a uma criança que morde. Se isso acontecer podemos reconhecer que foi apenas o instinto que entrou em acção quando nos sentimos atacados e nem sempre é fácil controlar esse impulso mas é importante sabermos que esse instinto não é a forma mais certa de resolver a situação. Nestes casos podemos simplesmente afastar a boca da criança de nós e dar-lhe espaço para que ela manifeste a sua frustração de outro modo, esperneando, gritando, chorando, nos casos em que isso for necessário. É muito importante que sejamos capazes de por de lado a parte de nós que se sentiu agredida, ofendida ou ameaçada por aquela dentada e saber que isso não faz do nosso filho uma má criança ou má pessoa, nem que ele não gosta de nós e lembrarmos-nos que é apenas uma reacção instintiva, natural e que irá desaparecendo com o tempo.

E quando isto acontece na escola?

Muitas crianças mordem aos coleguinhas na creche. Aqui é preciso, em primeiro lugar, termos noção de que não há nada de natural em termos uma sala cheia de crianças da mesma idade, todas na mesma fase de desenvolvimento, com necessidades muito semelhantes e poucos adultos que as ajudem a preenchê-las. Então é praticamente impossível que este ambiente não gere tensões. Como em tudo na vida há crianças que são mais ou menos sensíveis a essas tensões e há também crianças que são mais ou menos reactivas. Então uma criança que morde nestes contextos precisa de ser observada com alguma atenção, de modo a percebermos se há alguma forma de evitar a mordidela antes dela acontecer. Quando ela já aconteceu, tudo o resto se aplica também: é preciso criar empatia com a criança que chora e perceber que a criança que mordeu o fez apenas como uma espécie de descarga de tensão, não com maldade ou intenção de magoar, porque uma criança pequena simplesmente ainda não consegue ver as coisas desse modo.

Quanto mais formos capazes de acolher as tensões, com mordidas ou batidas ou não, das nossas crianças mais facilmente também elas serão capazes de aprender a transformá-las e a lidar com elas de forma mais positiva. Mas para isso a criança precisa de um modelo já que só lhes será possível aprenderem a fazê-lo se os adultos à sua volta também forem capazes de lidar com as suas emoções de uma forma mais construtiva e não se limitarem a explodir também com as frustrações do dia-a-dia. E precisam também sobretudo de sentir que as suas emoções podem ser acolhidas e recebidas pelos seus pais, por muito intensas que sejam, pois só assim podem crescer sem ter medo de si próprias e daquilo que podem sentir. E precisam também da ajuda dos pais para aprender a regular essas emoções difíceis e intensas e para perceberem que elas podem acabar por se transformar noutras mais fáceis de acolher, porque sem essa ajuda dos pais que precisam de servir de modelo nesse processo de transformação das emoções, todas as crianças ficam perdidas e desorientadas quando sentem emoções mais intensas. Essa ajuda pode passar por pegar ao colo uma criança que chora, por lhe dar um abraço ou simplesmente por ficar ao pé dela, mostrando que não temos medo daquela emoção e que é possível ficar ali, presente, enquanto ela a manifesta. O contacto físico, sobretudo com crianças mais pequenas, é uma forma muito eficaz de diminuir a activação fisiológica e de ajudar a criança a lidar com as emoções difíceis e a transformá-las mas, para isso, é preciso que a criança aceite esse contacto, não adianta abraçar à força uma criança que chora e esperneia porque aí ela irá sentir esse abraço apenas como uma espécie de prisão, vai sentir que a estão a conter à força. Então, se a criança não está ainda pronta para aceitar o nosso colo ou abraço é preciso esperar um pouco, ficando simplesmente ali e mostrando que estamos disponíveis e prontos para a abraçar ou pegar ao colo quando ela nos der um sinal de que já irá aceitá-lo.

E depois, como em tantas outras coisas, é preciso que sejamos capazes de confiar nos nossos filhos, saber que estes comportamentos mais agressivos não são nenhuma prova da sua má formação ou má natureza, são apenas prova que os seus instintos estão a funcionar e de que temos que ser capazes de esperar que a natureza vá fazendo o seu trabalho. Para que uma criança aprenda a controlar os seus impulsos - algo que até os adultos, por vezes, têm dificuldade de fazer - é preciso que se desenvolvam algumas partes do cérebro que servem para controlar as zonas que estão mais ligadas aos instintos e à emoção. Essa zona, o cortéx pré-frontal começa a ser desenvolvido na infância mas só completa o seu desenvolvimento por volta dos 25 anos de vida, se encontrar as condições certas para isso. Porque, em muitos casos, na verdade este desenvolvimento nem chega a ser completo. Então para este desenvolvimento acontecer de forma harmoniosa é preciso que a criança viva num ambiente que lhe permita fazê-lo, isso significa que ela precisa de se sentir segura, acolhida e protegida pelos seus pais e pelos adultos importantes na sua vida.

Sabemos cada vez mais que quando as crianças são sujeitas a estados de tensão ou stress durante demasiado tempo, sobretudo nos primeiros anos de vida, estes estados acabam por inibir o desenvolvimento de algumas áreas do cérebro, como o cortéx pre-frontal. E também sabemos que isto poderá estar na base de vários perturbações de comportamento ou de desenvolvimento, como por por exemplo o défice de atenção e a hiperactividade de que tanto de fala hoje em dia, como já expliquei aqui. Só através deste desenvolvimento é que a criança pode aprender realmente a controlar os seus impulsos em situações de stress, porque é esta zona do cérebro que lhe permite ter algum controlo sobre as partes mais primitivas. Então, precisamos de confiar nos nossos filhos, saber que a natureza está a fazer o seu trabalho mas que esse trabalho é lento e que para a ajudarmos da melhor forma possível tudo o que precisamos de fazer é criar um ambiente de amor e de segurança.


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Crescer com o coração macio

A entrada na escola é um tema sobre o qual já falei aqui e aqui mas é também um tema que, sobretudo nesta altura do ano, gera sempre muitas questões, dúvidas ansiedades e também alguns mal entendidos.

Por isso e depois de ver este pequeno vídeo do psicólogo canadiano Gordon Neufeld, fiquei com vontade de falar sobre algumas das questões que acredito estarem na origem destes mal-entendidos quando falamos de crianças pequenas e da entrada na escola.

A idade da criança e a adaptação à escola

Muitas pessoas defendem que será melhor a criança entrar na creche mais cedo porque assim se habitua mais facilmente. Até poderá ser verdade que um bebé se habitua mais depressa à creche do que uma criança de 3 ou 4 anos, até porque ainda não tem tanta noção das rotinas e ainda não criou   muitos hábitos, mas isto não quer dizer que isso seja o melhor para a criança. Somos capazes de nos habituar a muitas coisas que não são necessariamente boas para nós. Uma criança pequena precisa de criar ligações seguras acima de tudo e, para que as ligações sejam seguras, é necessário que a criança sinta que as suas necessidades são respeitadas e atendidas e, nos primeiros tempos de vida, essas necessidades passam muito pelo contacto físico frequente e pela resposta rápida ao choro. Numa sala onde podem existir 7 ou 8 bebés com as mesmas necessidades e apenas duas pessoas adultas, é claro que nem sempre será possível dar-lhes essa resposta de que precisam. ´

É verdade que os bebés até podem chorar menos quando ficam na creche do que uma criança de 3 ou 4 anos mas isto não quer dizer que isso seja bom para eles. Na verdade, algo que costuma baralhar um pouco os pais, sobretudo nos primeiros dias de creche, é o facto dos bebés ou crianças pequenas, ficarem aparentemente bem quando são deixados e começarem a chorar assim que os pais os vão buscar, e chorarem mesmo muito por vezes ao colo dos pais, apesar das educadoras garantirem que eles estiveram bem-dispostos e sem choro o dia inteiro. Isto acontece porque as crianças não se sentiam suficientemente seguras para chorar na presença da educadora - ou porque ainda não a conhecem bem nem o sítio onde estão, ou simplesmente porque existem demasiados meninos para que possa ser criada uma relação de confiança ou porque a educadora não lê os sinais da criança e não lhes dá uma resposta suficiente para que esta se sinta segura. Então, assim que os pais chegam, a criança volta a sentir-se segura e pode descarregar toda aquela tensão que tinha guardado. Isto significa que, mesmo sem chorar, ela esteve o dia todo em alerta e tensa, sem se sentir segura e protegida o suficiente para poder protestar. Mesmo os bebés mais pequenos são capazes de guardar esta tensão sem a manifestar quando não se sentem seguros, é exactamente isto que acontece também quando os bebés são deixados a chorar para aprenderem a dormir sozinhos: existem estudos que mostram que os seus níveis de cortisol - uma hormona cuja quantidade aumenta em situações de stress ou ansiedade - continua com níveis elevados mesmo quando eles já deixaram de manifestar o seu desconforto. Porque protestar sem ser ouvido ou atendido é algo que consome muita energia e coloca a criança ou o bebé numa posição vulnerável. O choro é algo que desregula as funções do organismo, que deixa a criança num estado de alerta que leva a um estado de sobre-activação que consome muita energia e altera mesmo algumas funções no seu organismo e os bebés e as crianças pequenas têm muita dificuldade em regular os seus estados sem a ajuda dos adultos a quem estão ligados. Por isso os bebés aprendem rapidamente quando é que chorar não serve para nada porque não há nenhum adulto por perto que os possa ajudar a regular os seus estados e, nestes casos, o seu instinto faz com que passem a suprimir esta resposta que, quando se sentem seguros, surge naturalmente de uma forma espontânea.
Este choro acontece com muita frequência, quando os pais os vão buscar depois de um dia inteiro na creche, mesmo com crianças um pouco mais velhinhas e mostra que, apesar da criança ter estado o dia inteiro sem chorar, esteve a acumular alguma tensão que precisa de ser descarregada com as pessoas com quem ela se sente segura. Então isto mostra claramente que a criança sente que o ambiente da creche não é seguro o suficiente e que passar lá o dia inteiro representa claramente um desafio e uma situação de tensão para si. Isto acontece por muito boas que sejam as creches e por muito bem intencionadas que sejam as pessoas que lá trabalham porque uma criança pequena precisa mesmo de uma relação muito mais individualizada do que aquela que é possível nestes locais.
Na verdade, este choro até nem é o pior sinal. É sinal de que, apesar de tudo, a criança ainda se sente segura com os pais e ainda procura o seu conforto e a sua ajuda para libertar essa tensão. Mais graves são os casos em que a criança quase fica indiferente à chegada dos pais e continua a brincar como se eles nem estivessem ali. Isto pode significar que a criança já acumulou tanta tensão e que já lhe foi tão difícil estar sem eles o dia inteiro que acabou por precisar de se desligar desses sentimentos e dessa parte de si que lhe diz que deveria procurar a segurança da ligação com os pais.

A questão do choro 

Outra coisa importante de que Neufeld fala e para a qual chama a atenção é a quantidade de vezes com que confundimos o facto de uma criança não chorar com algo de bom para si ou para o seu desenvolvimento quando, na verdade, isto pode ser mesmo muito mau sinal. Este autor trabalhou muitos anos com jovens e crianças delinquentes e faz sempre questão de frisar que, uma das marcas dessas crianças ou jovens, é justamente a incapacidade de chorar quando alguma coisa de mal acontece.

O choro é uma resposta natural e relativamente rápida quando a criança está em contacto com as suas emoções e se sente frustrada com alguma coisa. É importante sermos capazes de acolher esse choro e até de reconhecer a sua importância, porque mostra que a criança confia em nós o suficiente para se expressar e para demonstrar o que está a sentir. Uma criança pequena que não chora nunca é uma criança que já aprendeu a defender-se dos seus sentimentos, já aprendeu que é preferível não mostrar o que sente e não deixar que as suas emoções ocorram espontaneamente, porque não tem a certeza de ter alguém que a ajude a lidar com elas quando estas se tornam demasiado intensas. Quando uma criança chora, se ninguém a ajudar a lidar com o que sente ou se a criança já se sentia assoberbada por outros motivos, por exemplo se está cansada, com sono ou com fome, é muito fácil que a criança entre num estado de descontrolo emocional e fisiológico. E esse descontrolo é muito duro de sentir além de que os instintos de preservação da criança a fazem sentir que o deve evitar, pelas consequências nocivas que poderá ter. Então, se a criança nunca tem ajuda para lidar com as suas emoções mais difíceis, para evitar esse descontrolo, ela vai aprender a ignorar o mais possível essas emoções e por isso deixa de as expressar.

Então quando pensamos que, para uma criança de 3 ou 4 anos que está a começar a escola aquilo que lhe estamos a pedir, na verdade, não é nada natural, o mais saudável até é mesmo que ela chore e proteste e mostre o seu desconforto, pelo menos algumas vezes, durante o processo de adaptação. Se a criança for mais velha, se já conhece bem a escola ou o educador isto é facilitado e esses protestos podem ser mais reduzidos. Mas, a verdade, é que uma criança pequena tem um instinto que lhe diz que deve procurar ficar perto daqueles a quem se sente ligada, com quem se sente segura e em sítios que já conhece. Muitas vezes se diz que devemos ensinar as crianças a não falar com estranhos mas uma criança saudável não fala assim tão facilmente com estranhos. Uma criança saudável sabe que o seu instinto lhe diz que deve ficar perto dos seus pais ou das pessoas a quem se sente ligada. Claro que existem crianças mais extrovertidas e outras mais introvertidas mas, a verdade, é que o mais natural para uma criança de 2 ou 3 anos é mesmo que o seu primeiro instinto seja o de não querer falar com estranhos. Então é ainda mais natural que esta também não queira ser deixada aos cuidados de estranhos, ainda por cima num sítio estranho e o dia todo. Por isso os protestos e até o choro são naturais nestes casos. O que podemos e devemos fazer será ajudar a criança a lidar com esse choro e tentar perceber se ele faz apenas parte da adaptação ou se é sinal de um sofrimento mais profundo que pode mostrar que a criança não estará mesmo preparada para ficar naquela escola.

Quando o meu filho entrou para o jardim infantil, aos 3 anos, chorou um pouco algumas vezes e o que fazíamos era ficar com ele na sala, ajudando-o a familiarizar-se com o sítio e com as pessoas até que ele se sentisse um pouquinho mais confortável e parasse de chorar. É muito importante que sejam os pais a fazer esta transição porque são eles as pessoas com quem a criança se sente segura, por isso é com eles que ela deve aprender a conhecer o espaço e as pessoas para que depois possa sentir-se segura também com essas pessoas. Os pais precisam de fazer uma espécie de transferência do apego e precisam de confiar também nas pessoas e mostrar aos filhos que também eles podem confiar naquelas pessoas novas. Uma imagem marcante desta adaptação do meu filho à escola foi quando, numa dessas primeiras vezes em que ele chorou um pouco, uma auxiliar veio e perguntou-me se lhe podia pegar ao colo, eu acedi e vi que ele se agarrou ao pescoço dela, deixando ainda cair umas lágrimas ao mesmo tempo que a abraçava em busca de conforto. Nesse momento percebi que ele já confiava nela, que a ligação estava criada e que, a partir daí, tudo seria mais fácil. Pouco depois, saí da sala e ele veio dizer-me adeus da janela, ainda ao colo dela, mas já sem choro nenhum e com um ar muito mais tranquilo. Então é mesmo importante que sejamos capazes de dar tempo à criança para que esta ligação se estabeleça, mesmo com algum choro à mistura, porque só assim é que ela poderá ganhar a segurança necessária para começar a sentir-se minimamente confortável nessa nova rotina.

O equívoco da socialização 

Outra questão muito importante, que também é mencionada no vídeo e que também dá origem a muitos mal entendidos é a da socialização. Tal como diz Neufeld, é verdade que as crianças se podem tornar mais sociáveis quando vão para a creche e passam o dia com outras crianças. O que acontece nestes casos é que as crianças que estão habituadas a estar todo o dia com outras podem mostrar uma maior facilidade na interacção com os pares e um à vontade maior que pode ser facilmente confundido com segurança. Mas, na verdade, na maioria destes casos estas crianças ficam muito à vontade com as outras crianças mas acabam por ficar mais afastadas dos adultos.

Quando o meu filho entrou na escola, lembro-me que não estava muito habituado a estar com outros miúdos e por isso os adultos eram a sua referência, era a estes que procurava a maior parte do tempo e mostrava mais interesse em estabelecer relações e em falar e comunicar com eles do que com as outras crianças. Mas a verdade é que isto acabava por vezes por ser confundido com alguma insegurança, porque temos essa tendência para achar que é positivo as crianças serem capazes de brincar espontaneamente umas com as outras sem procurar os adultos, mas isso não é verdade.

Uma criança de 2, 3 ou 4 anos que chega a um sítio onde não conhece ninguém e que quer ficar perto dos pais é muitas vezes rotulada de tímida ou insegura quando tudo o que essa criança está a demonstrar é que ainda não desligou essa parte do instinto que lhe diz que deve procurar manter-se perto das pessoas com quem tem uma ligação de apego segura. Então precisamos mesmo de começar a distinguir o que é uma timidez natural e que serve apenas o instinto da criança da verdadeira insegurança.

Em situações sociais há muitas vezes a tendência de colocar as crianças em grupo, esperando que brinquem umas com as outras e que fiquem afastadas dos adultos mas, para uma criança segura, é bom que os adultos ainda sejam uma referência e é bom que elas sintam vontade de estar perto dos adultos e de participarem no seu mundo em vez de ficarem apenas isoladas com as outras crianças. 

Todas as crianças têm um instinto que lhes diz que devem procurar estabelecer ligações seguras com os adultos mais importantes ou mais presentes nas suas vidas. Mas, para isso acontecer é preciso que esses adultos estejam disponíveis, presentes e que tenham verdadeiramente vontade e possibilidade de estar com essa criança, de lhe dar atenção e de passar tempo com ela. Quanto mais pequena for a criança maior terá de ser esse tempo que passam com ela e mais exclusiva precisa de ser a atenção que lhe dedicam. Então, numa escola com muitas crianças numa sala, nem sempre é possível que os adultos estabeleçam essa ligação com cada uma das crianças que têm ao seu cuidado. E, quando a criança não encontra nenhum adulto disponível para construir uma ligação segura, volta-se para as outras crianças. Acontece que as outras crianças não podem ser uma base de segurança tão grande como um adulto, porque não são capazes de a ajudar a lidar bom com as suas emoções e porque são muito mais centradas em si mesmas e capazes de se magoar umas às outras com muito mais facilidade. Então isto quer dizer que as crianças que estão demasiado voltadas para os pares acabam por precisar de se proteger muito mais das suas emoções e por isso precisam se ficar mais afastadas daquilo que sentem e de o demonstrar menos. Mas, nestes casos, as crianças também ficam mais ansiosas porque sabem que não têm todo o apoio de que necessitam para se poderem sentir verdadeiramente seguras.

E aqui estão criadas as bases para muitos dos problemas de indisciplina de que tanto se falam hoje em dia nas escolas. Porque quando os adultos deixam de ser uma referência eles também deixam de ser modelos e as crianças ou jovens deixam de querer agradar-lhes, o mais importante passa a ser agradar aos pares e assim os adultos perdem uma grande capacidade de as influenciar ou de educar. Além disso, se uma criança precisa de estar mais protegida e mais distanciada das suas próprias emoções também passa a ser mais difícil chegar ao seu coração e estabelecer uma ligação com ela. E porque só podemos educar aqueles que, de algum modo, se sentem ligados a nós, então fica mesmo difícil conseguir orientar estas crianças que perderam essa ligação connosco e todo o trabalho dos adultos fica cada vez mais dificultado porque estas crianças passam a querer agradar, em primeiro lugar, aos seus pares e não aos adultos. 

Por vezes os pais pensam que precisam de proteger os filhos do mundo que, por vezes é cruel, e por isso precisam de permitir que elas fiquem como que endurecidas e assim será bom que não chorem por tudo e por nada. Mas isto acontece apenas porque eles próprios se sentem feridos e magoados e aprenderam a não confiar no que sentem e a não se deixarem ficar vulneráveis porque, no fundo, sentem que não podem confiar verdadeiramente nos outros. Mas esta não é de todo a forma de criar crianças mais felizes. Uma criança feliz é uma criança a quem é permitido confiar em si própria e nos outros, porque uma criança que aprende que não pode confiar nos outros, também aprende que não pode confiar nos seus instintos e nos seus próprios sentimentos. Para criar crianças felizes precisamos de lhes permitir que cresçam com aquilo a que Neufeld chama um coração macio: um coração de alguém que sabe que pode ligar-se aos outros e que pode confiar e entregar-se à construção de ligações seguras. Para isso precisamos de as ensinar que podem confiar em nós, em primeiro lugar e depois em si próprias, na vida e nas pessoas que as rodeiam. 

Lembro-me que, quando o meu filho mais velho era bebé houve alguém que me perguntou se eu não tinha medo que ele sentisse demasiado a minha falta quando, um dia precisasse de o deixar com alguém. Essa pessoa julgava que era preciso habituar os filhos, logo desde bebés, a estarem com outras pessoas para não sentirem tanto a falta das mães e é muitas vezes esta também a lógica de quem acha que é melhor irem mais cedo para a creche. Mas a verdade é que há estudos que mostram que, até mesmo nos casos trágicos em que as crianças perdem uma mãe ou um pai, é muito mais fácil lidar com essa perda se a ligação que tinham com ele era segura. Porque uma criança que estabelece uma ligação segura com alguém é uma criança que cresce a sentir-se amada, respeitada e protegida e isso faz com que seja capaz de lidar com todas as emoções, até mesmo a emoção mais difícil de perder uma das suas figuras de referência.

Então isto quer dizer que uma criança que cresceu com esta segurança de sentir amada e respeitada, e que aprendeu a lidar com as suas emoções terá também muito mais ferramentas para lidar com a entrada na escola, por muito ameaçadora que esta lhe possa parecer, do que uma criança que nunca teve oportunidade de aprender a lidar com os desafios desse modo. Por isso uma criança de 3 ou 4 anos que chora quando entra na escola não é necessariamente uma criança insegura ou frágil mas sim uma criança que ainda tem a capacidade de demonstrar aquilo que está a sentir e que ainda acredita que vale a pena procurar os adultos para lidar com as suas emoções.

Então precisamos mesmo de perceber que devemos preocupar-nos é com aquelas crianças que não choram nunca e que já não procuram os adultos mesmo nas situações mais difíceis. Precisamos de saber que não há maior dor do que aprendermos logo desde pequeninos a suprimir as emoções e a fechar o coração a partes de nós que aprendemos a deixar escondidas, porque isso faz-nos crescer com a sensação de que existe algo defeituoso dentro de nós, ou algo perigoso em que não podemos tocar. E a única forma de sermos verdadeiramente felizes é sendo capazes de abraçar todas as nossas partes, sabendo que todas são igualmente dignas de amor e respeito e sabendo que não há nenhum lugar dentro de nós que seja tão escuro que não tenhamos coragem de lá entrar. 

sexta-feira, 28 de julho de 2017

A minha história de parto

 Cada vez se fala mais em violência obstétrica e na importância de criarmos condições para que, no momento do parto, tudo possa correr da melhor forma para o bebé e para a mãe. Quando pensamos em violência obstétrica temos tendência para pensar em maus tratos ou em negligência mas acontece que a violência nem sempre tem de acontecer de uma forma expressiva e agressiva para ser violência. Existe, muitas vezes, uma violência mais subtil e passiva que continua a ser violência apenas porque faz parte de uma visão do ser humano, neste caso da mulher e do parto e do bebé recém-nascido que é violenta, violenta no sentido de não considerar todas as suas necessidades e sensibilidades e violenta no sentido de não reconhecer a importância de tratar este momento com toda a delicadeza que ele merece. Uma violência que, por vezes, acontece não por má vontade mas simplesmente por ignorância de alguns aspectos que envolvem o momento do parto.
Então, é importante falarmos claramente sobre isso. E foi depois de ler este texto da Joana Silva, do blog Just Natural Please, que tomei consciência de que precisamos mesmo de falar sobre isto, porque se não falarmos e se não tivermos coragem de reflectir em conjunto sobre tudo o que passa as coisas nunca irão mudar. Hesitei sempre em escrever sobre isto porque é algo intimo e pessoal mas, a verdade, é que é preciso que partilhemos e que falemos muito para que as coisas possam mudar e para que essa mudança aconteça de forma mais rápida.

Então, aquilo que aconteceu comigo foi também uma forma de violência obstétrica, embora inicialmente tenha sido envolta em simpatia que a tornou mais difícil de identificar.
A minha história começou quando, às 40 semanas de gravidez, por volta das 2 da manhã, senti que me rebentaram as águas e decidi ir para o hospital passado pouco tempo. Enquanto estive nas urgências, na verdade, não tenho queixas e tudo correu bem e senti-me sempre respeitada. Da mesma forma, é preciso também dizer que senti sempre muito bem tratada durante todo  internamento do pós-parto, onde senti que estava a verdadeiramente a ser cuidada. O médico que me atendeu nas urgências explicou que me iria internar apenas para ser monitorizada porque não havia nenhum sinal de contracções mas o facto das águas terem rebentado poderia aumentar o risco de infecções. Quando perguntei quanto tempo teria de ficar internada ele disse-me que era impossível dizer porque poderia até levar dias para que o parto se desencadeasse de forma natural. Falou-se na possibilidade de fazer uma indução mas foi sempre muito claro que isto só aconteceria se eu pedisse e que poderia ficar vários dias à espera desde que continuasse tudo bem com o bebé, como parecia ser o caso.

Acabei então por ir para um quarto por volta das 7 da manhã e e ao meio dia comecei a ter contracções. Para espanto da enfermeira que me ligou ao ctg estas começaram muito rapidamente a tornar-se mais fortes e seguidas. Desci então para o bloco de partos, já com o meu marido que entretanto chegou. Até aqui tudo corria bem e bastante depressa. Fui examinada apenas duas ou três vezes e as enfermeiras ficavam sempre espantadas com a rapidez com que estava a acontecer a dilatação. Houve uma altura em que me sentia com quebras de tensão quando as contracções ficavam mais fortes, porque estava há muitas horas sem comer e tinha dormido muito pouco mas uma enfermeira trouxe-me um sumo de fruta que me deu logo mais energia e resolveu esse problema.

Então, ao fim talvez, de umas três horas de ter começado a ter contracções estava já na sala de parto e foi aqui que tudo se complicou. As contracções eram muito seguidas e intensas e muito rapidamente deixou de haver qualquer intervalo entre elas. A certa altura lembro-me que uma enfermeira me perguntou se eu tinha feito o curso de preparação para o parto e eu disse que não e parece que foi aqui que tudo começou a descambar. Não fiz curso porque considerei que tinha lido o suficiente sobre o tema e estava confiante, achava eu, na minha capacidade de parir. Mas a enfermeira aqui ficou preocupada por achar que eu não tinha aprendido a respirar então começou a querer ensinar-me como fazê-lo. Mas eu não queria aprender a respirar de nenhuma maneira específica, queria apenas que me deixassem em paz e à vontade. A certa altura lembro-me que alguém me disse que tinha de respirar bem porque se não não chegava oxigénio ao bebé. Hoje, olhando para trás, isto parece-me um absurdo porque obviamente que em nenhum momento eu deixei de respirar mas é claro que tinha uma respiração alterada. Antigamente havia quem defendesse que uma forma de respirar própria poderia ajudar as mulheres a controlarem a dor mas também já há muito quem diga que isso é totalmente irrelevante e que se deve deixar a mulher respirar como quiser. Na verdade, acho que essas respirações que se aprendem têm um efeito placebo e servem apenas para que a mulher acredite que pode controlar alguma coisa, mas o que eu queria naquele momento era mesmo não ter de controlar nada. Não estava com muito medo da dor. 

A certa altura a mesma enfermeira, acho eu - na verdade não estava a reparar muito bem com quem é que estava a falar - perguntou se eu queria experimentar o gás, explicou-me o que era e pareceu-me inofensivo por isso resolvi tentar. Mas aquilo não fazia efeito nenhum e ela explicava-me que não fazia efeito porque eu não estava a respirar correctamente, que era preciso por a máscara na boca e respirar não sei quando e não sei como para inspirar bem o gás no momento certo e sentir alívio. E ela já me dizia que se zangava comigo se eu não respirasse bem e lembro-me de ter um momento em que pensei que só me apetecia atirar-lhe com a máscara à cabeça.
Depois a certa altura houve também uma enfermeira, não sei se a mesma ou outra, que começou a perguntar-me em que posição é que eu queria ter o bebé. E eu não tinha vontade de lhe responder, ela insistiu, insitiu até que eu disse talvez de cócoras mas  que não sabia. Mais uma vez tudo o que queria era que me deixassem em paz e não me fizessem falar. Queria apenas que me deixassem mexer à vontade e na altura logo veria qual seria a melhor posição.

Neste caso a enfermeira estava a ser bem intencionada e realmente queria que tudo corresse como eu tinha planeado. Mas o que eu tinha planeado era justamente que não queria ter planos. Foi por isso que nunca cheguei a escrever o meu plano de parto porque, ingenuamente, acreditei que, na altura saberia o que fazer e seria capaz de o fazer.

Entretanto havia um rádio a tocar com música que não me dizia nada e até me estava a aborrecer mas não conseguia queixar-me disso. Estava naquele estado a que muitas mulheres chamam a partolândia, um estado em que estamos completamente inundadas de hormonas, que servem para atenuar a dor e que também nos põem num modo de funcionar puramente instintivo. Por isso muitos médicos, como Michelle Odent, por exemplo, defendem que o ideal é não estimular nada o lado racional da mulher durante o parto, para que essas hormonas possam fazer o seu trabalho é importante não fazer a mulher pensar, nem falar, é importante que o local seja relativamente escuro e que tudo se faça para que a mulher se sinta segura e possa activar o seu instinto, que sabe exactamente aquilo que é preciso em cada momento. Afinal de contas parir é algo mais animal do que racional.


E desde as primeiras contracções que eu ia emitindo uma espécie de gritos de cada vez que tinha uma contracção. Digo uma espécie porque não eram bem gritos, era algo que vinha bem mais de dentro, era uma vocalização instintiva que me ajudava a lidar com a dor e torná-la bem mais suportável. Não sei porquê nem de onde vinham aquelas vocalizações mas sei que na altura era tudo o que o meu corpo me pedia para fazer, para além de alguns movimentos que também iam ajudando um pouco. Quem me conhece sabe que não sou de gritar, já tive três cólicas renais e nunca gritei, já desmaiei de dor,  já chorei, já vomitei até por causa das dores mas nunca gritei porque, nesses casos, sabia que não me servia de nada, mas aqui sentia mesmo um alívio grande sempre que fazia esses sons.

Então quando as contracções passaram a ser sempre seguidas e mais intensas, naturalmente estes gritos também aumentaram de tom, creio eu. E, a partir de certa altura, comecei a ficar muito consciente de que aquelas vocalizações pareciam incomodar as pessoas, parecia-me a mim que todos à minha volta achavam que eu estava a ficar descontrolada e que isso não era bom. E foi precisamente neste momento que entrou o médico anestesista que nunca deveria ter entrado naquela sala. Lembro-me bem dele, era um rapaz novo com ar de quem estava ali há pouco tempo e de quem queria resolver as dores do mundo e a quem parecia completamente absurdo eu estar ali a sofrer quando ele me podia ajudar. Entrou e perguntou se eu não queria epidural, eu disse que não e ele insistiu, perguntou porquê,  e quis saber de que é que eu tinha medo. Eu ainda disse que tinha medo que aquilo complicasse as coisas e atrasasse tudo. Ele disse que não ia atrasar nada, que só ia deixar de sentir as dores mas ia continuar a sentir tudo o resto e podia fazer tudo na mesma, mas sem dor. Eu perguntei se seria mesmo assim, ele disse que sim. Eu ainda hesitei e perguntei se ele achava mesmo que não ia trazer nenhuma complicação e lembro-me perfeitamente da resposta porque foi aqui que cedi: ele disse que todas as pessoas naquela sala acreditavam que era mesmo a melhor ajuda naquele momento. Então eu cedi, disse que sim, que nesse caso queria. O meu marido diz que me perguntou duas ou três vezes se eu tinha mesmo a certeza que queria mas já nem me lembro disso. Só me lembro que a seguir me começaram a dizer que tinha de ficar muito quieta para levar a injecção e eu não conseguia ficar quieta porque todo o meu corpo me pedia para me mexer. Nesta fase eu já tinha a dilatação completa e estava no período expulsivo. O meu marido também conta que houve uma enfermeira que ainda disse que já não valia a pena mas ninguém a ouviu. Lembro-me que foi preciso agarrarem-me para me darem a injecção e foram precisas todas as pessoas da sala para me segurarem as pernas enquanto eu tentava mexer-me e gritava “mas ele já quer sair, ele quer sair.”  

Mas, assim que me deram a epidural, deixei de sentir as dores e tudo o resto. Perdi toda a sensibilidade nas pernas e em todos os músculos da cintura para baixo. Tive de ficar deitada porque as minhas pernas pareciam mortas e quando me diziam que tinha de fazer força não o conseguia fazer porque não sentia absolutamente nada. E por isso um parto que estava quase no final ainda demorou mais um bom bocado e foi preciso vir um médico para fazer a episiotomia e usar ventosas porque para puxar o bebé porque eu já não era capaz.

A certa altura lembro-me que todos me gritavam para fazer força e eu fazia mas não nos músculos certos e diziam-me que não era na cara que precisava de fazer força e eu voltava a tentar. Às tantas, com todos a ralharem e eu sem saber mais o que fazer, o meu marido disse qualquer coisa do género vamos lá ter calma e o médico só lhe gritou “calma, não, calma não, que esse bebé agora tem mesmo de sair que já está a demorar tempo demais.”

Esse médico, ao contrário de todos os outros, foi sempre frio e distante. Nunca me explicou o que estava a fazer, nem porque é que o fazia. Na verdade ele estava ali a dirigir tudo mas foi sempre uma outra médica, em formação, que fez tudo, a quem ele ia dando ordens e explicando as coisas como se ela estivesse a mexer num boneco e não numa pessoa real, que estava ali a ouvir tudo e que era também uma parte do processo. No final, quando perguntei quantos pontos tinha levado, até me respondeu ligeiramente irritado que as senhoras querem saber o número de pontos mas que ali não se contavam os pontos.

Quando o meu filho nasceu, por ter demorado tanto tempo no período expulsivo penso eu, estava roxo e só me lembro de o ver ser levado para outra sala onde ainda ficou um bocado para recuperar. Só passado um bocado é que a enfermeira disse ao meu marido que podia ir lá vê-lo mas ele também não pode pegar-lhe nessa altura.

Quando o trouxeram, passado talvez uma meia hora, já vinha vestido e limpo e eu fiquei com um sentimento de culpa do tamanho do mundo por ter deixado que o levassem, por ter aceitado a maldita epidural, por não ter sido capaz de fazer força, por não ter tido sequer consciência do momento em que nasceu.
Com a epidural perdi as dores mas perdi também toda a consciência do meu corpo da cintura para baixo e a minha capacidade de ter um papel activo naquele momento tão importante. Mas mais do que isso, só mais tarde percebi, que me senti também a perder a ligação que tinha com o meu filho e que estava tão presente até essa altura. Senti-me como se o tivesse traído porque ele continua a fazer o papel dele mas eu já não era capaz de fazer o meu.

O meu primeiro parto tinha sido uma cesariana porque o bebé não tinha dado a volta e, agora, com um parto natural, a frustração de não estar com ele logo nos primeiros momentos e essa sensação horrível de o ver ser tirado de dentro de mim e logo levado para longe, era igual mas ainda com a agravante da culpa de sentir que agora era eu que tinha falhado.

Na altura senti que a culpa era mesmo toda minha porque não tinha sido capaz de dizer que não à epidural. Mas agora, olhando para trás, sinto que deveria ter sido protegida dessa pressão e sinto-me zangada com o médico que pressionou mas também com todas as outras pessoas que não impediram que isso tivesse acontecido. Na altura fiquei também zangada com o meu marido que não me impediu de levar a epidural mas hoje em dia reconheço que ele também estava num papel difícil e ingrato porque também tinha o direito de estar nervoso, uma vez que também era ele que estava prestes a tornar-se pai e realmente não podia tomar decisões sobre algo que só eu é que sentia.

Por isso é que acho importante que falemos honestamente sobre estas coisas. Porque os profissionais precisam de saber que é importante confiarem mais nas mulheres e em todo o processo de parto. Porque senti que o que falhou no meu caso foi mesmo isso: a confiança de que tudo estava a desenrolar-se como devia. Esta confiança acabou por desaparecer de mim porque não a senti nas pessoas à minha volta. E é isso que sinto que falta: tratarmos o parto como um evento natural e normal que deve ser encarado com toda a normalidade excepto nos casos em que haja complicações.

Uma das coisas em que pensei foi na possibilidade de ter um parto em casa. Eu nasci em casa e sempre acreditei que esta é uma possibilidade válida nos casos em que não há complicações. Mas, ironicamente, uma das razões que me levou ao hospital foi pensar que queria poder gritar à vontade e as horas que fosse preciso sem ter os vizinhos a bater-me à porta ás 3 da manhã. Pensei que escolhendo um hospital com fama de se dedicar a partos mais humanizados poderia confiar e entregar-me à vontade às pessoas que o fizessem. Fui ingénua e hoje o que faria diferente seria ter uma doula que me pudesse proteger mesmo das boas intenções. Mas, na verdade, gostaria que não fosse preciso ir para o hospital com alguém para me defender. E que também não fosse preciso pensar em ficar em casa apenas para estar protegida dessas intervenções desnecessárias.

Então o que eu gostava mesmo era que passássemos a acreditar mais no corpo da mulher e a compreender melhor que uma mulher a parir precisa apenas de se sentir segura e de um ambiente tranquilo, com o mínimo de intervenções onde tudo se possa desenrolar. Os médicos precisam de aprender a confiar na natureza e a saberem que, neste caso, o ideal é mesmo que não sejam necessários.

Acredito que o parto é um momento importante na vida de qualquer mulher mas também e ainda mais para o bebé. Na verdade tive muita sorte do meu parto não ter deixado grandes sequelas físicas para além de me ter obrigado a passar uma semana de cama totalmente incapaz de fazer o que quer que fosse.  Mas as sequelas mais importantes muitas vezes são aquelas que não se vêem. E a verdade é que acredito que um parto complicado pode influenciar todo o puerpério negativamente, com uma mãe mais nervosa e insegura mas também o bebé.

Para que a transição se faça da forma mais suave possível para o bebé é fundamental que haja o contacto pele com pele logo a seguir ao nascimento e é fundamental que o bebé seja deixado em paz, livre de intervenções e que tenha todo o tempo para se habituar a estar cá fora, antes de ser pesado, medido e etc. Um bebé que é recebido sem estes cuidados, a quem nem sequer é permitido que fique junto da mãe, o único corpo que conhece, nos primeiros tempos de vida, terá todas as probabilidades de ser um bebé mais ansioso, mais nervoso, um bebé mais reactivo e mais sensível, para além de todas as complicações e dificuldades que isto pode trazer à amamentação que, no meu caso, felizmente não aconteceram. E se juntarmos a um bebé reactivo e sensível uma mãe que se sente ainda traumatizada, deprimida, nervosa, agitada ou culpada porque o parto não correu como devia, então é claro que aumentamos muito as probabilidades de que tudo comece a correr mal. Porque o parto é um momento tão importante tem um impacto também muito grande na estrutura psicológica da mulher e, quando as coisas não correm como devia, é muito fácil que surjam traumas que podem deixar marcas profundas. No meu caso, lembro-me bem de ter ficado ainda vários dias num estado de alerta que nunca me lembro de ter conhecido antes, como se fosse impossível relaxar porque todo o meu organismo tinha entrado num modo de defesa e protecção. E claro que esta não é a melhor forma de nos ligarmos a um recém-nascido que, ainda por cima, é altamente influenciável e permeável às emoções da mãe.

Gordon Neufeld diz que a hipersensibilidade é a marca de um nascimento que teve demasiadas intervenções. E temos cada vez mais bebés hipersensíveis, bebés mais reactivos, que choram mais e são mais difíceis de acalmar, bebés também com mais dificuldade para dormir ou mamar e bebés que são mais desafiantes para os pais. Acredito que uma parentalidade com  o apego em mente pode servir para corrigir ou diminuir muitas destas marcas mas, se a mãe também está fragilizada, traumatizada e em alerta porque o parto não correu bem então torna-se mais difícil ler eficazmente os sinais do bebé e ser uma fonte de segurança e conforto para ele.  E se o parto também não a ajudou a acreditar em si e nas suas capacidades, isto pode fazê-la sentir-se menos capaz de lidar com um bebé que ainda por cima é mais sensível.

Então precisamos de saber receber os bebés neste mundo com toda a tranquilidade que eles merecem e precisam e para isso precisamos de re-aprender a confiar na mulher, no seu corpo e nas suas capacidades. E reconhecer que, se a ciência e a medicina nos trouxeram muitas vantagens, há momentos em que é muito bom que saibamos que pô-las de lado e respeitar a natureza. Por isso acho que é importante falarmos, debatermos e expormos as nossas experiências e angústias, para que as coisas possam realmente mudar e foi por isso que decidi também partilhar a minha experiência, porque precisamos mesmo de várias vozes a falar disto e a pedir as mudanças que são necessárias.