sexta-feira, 28 de julho de 2017

A minha história de parto

 Cada vez se fala mais em violência obstétrica e na importância de criarmos condições para que, no momento do parto, tudo possa correr da melhor forma para o bebé e para a mãe. Quando pensamos em violência obstétrica temos tendência para pensar em maus tratos ou em negligência mas acontece que a violência nem sempre tem de acontecer de uma forma expressiva e agressiva para ser violência. Existe, muitas vezes, uma violência mais subtil e passiva que continua a ser violência apenas porque faz parte de uma visão do ser humano, neste caso da mulher e do parto e do bebé recém-nascido que é violenta, violenta no sentido de não considerar todas as suas necessidades e sensibilidades e violenta no sentido de não reconhecer a importância de tratar este momento com toda a delicadeza que ele merece. Uma violência que, por vezes, acontece não por má vontade mas simplesmente por ignorância de alguns aspectos que envolvem o momento do parto.
Então, é importante falarmos claramente sobre isso. E foi depois de ler este texto da Joana Silva, do blog Just Natural Please, que tomei consciência de que precisamos mesmo de falar sobre isto, porque se não falarmos e se não tivermos coragem de reflectir em conjunto sobre tudo o que passa as coisas nunca irão mudar. Hesitei sempre em escrever sobre isto porque é algo intimo e pessoal mas, a verdade, é que é preciso que partilhemos e que falemos muito para que as coisas possam mudar e para que essa mudança aconteça de forma mais rápida.

Então, aquilo que aconteceu comigo foi também uma forma de violência obstétrica, embora inicialmente tenha sido envolta em simpatia que a tornou mais difícil de identificar.
A minha história começou quando, às 40 semanas de gravidez, por volta das 2 da manhã, senti que me rebentaram as águas e decidi ir para o hospital passado pouco tempo. Enquanto estive nas urgências, na verdade, não tenho queixas e tudo correu bem e senti-me sempre respeitada. Da mesma forma, é preciso também dizer que senti sempre muito bem tratada durante todo  internamento do pós-parto, onde senti que estava a verdadeiramente a ser cuidada. O médico que me atendeu nas urgências explicou que me iria internar apenas para ser monitorizada porque não havia nenhum sinal de contracções mas o facto das águas terem rebentado poderia aumentar o risco de infecções. Quando perguntei quanto tempo teria de ficar internada ele disse-me que era impossível dizer porque poderia até levar dias para que o parto se desencadeasse de forma natural. Falou-se na possibilidade de fazer uma indução mas foi sempre muito claro que isto só aconteceria se eu pedisse e que poderia ficar vários dias à espera desde que continuasse tudo bem com o bebé, como parecia ser o caso.

Acabei então por ir para um quarto por volta das 7 da manhã e e ao meio dia comecei a ter contracções. Para espanto da enfermeira que me ligou ao ctg estas começaram muito rapidamente a tornar-se mais fortes e seguidas. Desci então para o bloco de partos, já com o meu marido que entretanto chegou. Até aqui tudo corria bem e bastante depressa. Fui examinada apenas duas ou três vezes e as enfermeiras ficavam sempre espantadas com a rapidez com que estava a acontecer a dilatação. Houve uma altura em que me sentia com quebras de tensão quando as contracções ficavam mais fortes, porque estava há muitas horas sem comer e tinha dormido muito pouco mas uma enfermeira trouxe-me um sumo de fruta que me deu logo mais energia e resolveu esse problema.

Então, ao fim talvez, de umas três horas de ter começado a ter contracções estava já na sala de parto e foi aqui que tudo se complicou. As contracções eram muito seguidas e intensas e muito rapidamente deixou de haver qualquer intervalo entre elas. A certa altura lembro-me que uma enfermeira me perguntou se eu tinha feito o curso de preparação para o parto e eu disse que não e parece que foi aqui que tudo começou a descambar. Não fiz curso porque considerei que tinha lido o suficiente sobre o tema e estava confiante, achava eu, na minha capacidade de parir. Mas a enfermeira aqui ficou preocupada por achar que eu não tinha aprendido a respirar então começou a querer ensinar-me como fazê-lo. Mas eu não queria aprender a respirar de nenhuma maneira específica, queria apenas que me deixassem em paz e à vontade. A certa altura lembro-me que alguém me disse que tinha de respirar bem porque se não não chegava oxigénio ao bebé. Hoje, olhando para trás, isto parece-me um absurdo porque obviamente que em nenhum momento eu deixei de respirar mas é claro que tinha uma respiração alterada. Antigamente havia quem defendesse que uma forma de respirar própria poderia ajudar as mulheres a controlarem a dor mas também já há muito quem diga que isso é totalmente irrelevante e que se deve deixar a mulher respirar como quiser. Na verdade, acho que essas respirações que se aprendem têm um efeito placebo e servem apenas para que a mulher acredite que pode controlar alguma coisa, mas o que eu queria naquele momento era mesmo não ter de controlar nada. Não estava com muito medo da dor. 

A certa altura a mesma enfermeira, acho eu - na verdade não estava a reparar muito bem com quem é que estava a falar - perguntou se eu queria experimentar o gás, explicou-me o que era e pareceu-me inofensivo por isso resolvi tentar. Mas aquilo não fazia efeito nenhum e ela explicava-me que não fazia efeito porque eu não estava a respirar correctamente, que era preciso por a máscara na boca e respirar não sei quando e não sei como para inspirar bem o gás no momento certo e sentir alívio. E ela já me dizia que se zangava comigo se eu não respirasse bem e lembro-me de ter um momento em que pensei que só me apetecia atirar-lhe com a máscara à cabeça.
Depois a certa altura houve também uma enfermeira, não sei se a mesma ou outra, que começou a perguntar-me em que posição é que eu queria ter o bebé. E eu não tinha vontade de lhe responder, ela insistiu, insitiu até que eu disse talvez de cócoras mas  que não sabia. Mais uma vez tudo o que queria era que me deixassem em paz e não me fizessem falar. Queria apenas que me deixassem mexer à vontade e na altura logo veria qual seria a melhor posição.

Neste caso a enfermeira estava a ser bem intencionada e realmente queria que tudo corresse como eu tinha planeado. Mas o que eu tinha planeado era justamente que não queria ter planos. Foi por isso que nunca cheguei a escrever o meu plano de parto porque, ingenuamente, acreditei que, na altura saberia o que fazer e seria capaz de o fazer.

Entretanto havia um rádio a tocar com música que não me dizia nada e até me estava a aborrecer mas não conseguia queixar-me disso. Estava naquele estado a que muitas mulheres chamam a partolândia, um estado em que estamos completamente inundadas de hormonas, que servem para atenuar a dor e que também nos põem num modo de funcionar puramente instintivo. Por isso muitos médicos, como Michelle Odent, por exemplo, defendem que o ideal é não estimular nada o lado racional da mulher durante o parto, para que essas hormonas possam fazer o seu trabalho é importante não fazer a mulher pensar, nem falar, é importante que o local seja relativamente escuro e que tudo se faça para que a mulher se sinta segura e possa activar o seu instinto, que sabe exactamente aquilo que é preciso em cada momento. Afinal de contas parir é algo mais animal do que racional.


E desde as primeiras contracções que eu ia emitindo uma espécie de gritos de cada vez que tinha uma contracção. Digo uma espécie porque não eram bem gritos, era algo que vinha bem mais de dentro, era uma vocalização instintiva que me ajudava a lidar com a dor e torná-la bem mais suportável. Não sei porquê nem de onde vinham aquelas vocalizações mas sei que na altura era tudo o que o meu corpo me pedia para fazer, para além de alguns movimentos que também iam ajudando um pouco. Quem me conhece sabe que não sou de gritar, já tive três cólicas renais e nunca gritei, já desmaiei de dor,  já chorei, já vomitei até por causa das dores mas nunca gritei porque, nesses casos, sabia que não me servia de nada, mas aqui sentia mesmo um alívio grande sempre que fazia esses sons.

Então quando as contracções passaram a ser sempre seguidas e mais intensas, naturalmente estes gritos também aumentaram de tom, creio eu. E, a partir de certa altura, comecei a ficar muito consciente de que aquelas vocalizações pareciam incomodar as pessoas, parecia-me a mim que todos à minha volta achavam que eu estava a ficar descontrolada e que isso não era bom. E foi precisamente neste momento que entrou o médico anestesista que nunca deveria ter entrado naquela sala. Lembro-me bem dele, era um rapaz novo com ar de quem estava ali há pouco tempo e de quem queria resolver as dores do mundo e a quem parecia completamente absurdo eu estar ali a sofrer quando ele me podia ajudar. Entrou e perguntou se eu não queria epidural, eu disse que não e ele insistiu, perguntou porquê,  e quis saber de que é que eu tinha medo. Eu ainda disse que tinha medo que aquilo complicasse as coisas e atrasasse tudo. Ele disse que não ia atrasar nada, que só ia deixar de sentir as dores mas ia continuar a sentir tudo o resto e podia fazer tudo na mesma, mas sem dor. Eu perguntei se seria mesmo assim, ele disse que sim. Eu ainda hesitei e perguntei se ele achava mesmo que não ia trazer nenhuma complicação e lembro-me perfeitamente da resposta porque foi aqui que cedi: ele disse que todas as pessoas naquela sala acreditavam que era mesmo a melhor ajuda naquele momento. Então eu cedi, disse que sim, que nesse caso queria. O meu marido diz que me perguntou duas ou três vezes se eu tinha mesmo a certeza que queria mas já nem me lembro disso. Só me lembro que a seguir me começaram a dizer que tinha de ficar muito quieta para levar a injecção e eu não conseguia ficar quieta porque todo o meu corpo me pedia para me mexer. Nesta fase eu já tinha a dilatação completa e estava no período expulsivo. O meu marido também conta que houve uma enfermeira que ainda disse que já não valia a pena mas ninguém a ouviu. Lembro-me que foi preciso agarrarem-me para me darem a injecção e foram precisas todas as pessoas da sala para me segurarem as pernas enquanto eu tentava mexer-me e gritava “mas ele já quer sair, ele quer sair.”  

Mas, assim que me deram a epidural, deixei de sentir as dores e tudo o resto. Perdi toda a sensibilidade nas pernas e em todos os músculos da cintura para baixo. Tive de ficar deitada porque as minhas pernas pareciam mortas e quando me diziam que tinha de fazer força não o conseguia fazer porque não sentia absolutamente nada. E por isso um parto que estava quase no final ainda demorou mais um bom bocado e foi preciso vir um médico para fazer a episiotomia e usar ventosas porque para puxar o bebé porque eu já não era capaz.

A certa altura lembro-me que todos me gritavam para fazer força e eu fazia mas não nos músculos certos e diziam-me que não era na cara que precisava de fazer força e eu voltava a tentar. Às tantas, com todos a ralharem e eu sem saber mais o que fazer, o meu marido disse qualquer coisa do género vamos lá ter calma e o médico só lhe gritou “calma, não, calma não, que esse bebé agora tem mesmo de sair que já está a demorar tempo demais.”

Esse médico, ao contrário de todos os outros, foi sempre frio e distante. Nunca me explicou o que estava a fazer, nem porque é que o fazia. Na verdade ele estava ali a dirigir tudo mas foi sempre uma outra médica, em formação, que fez tudo, a quem ele ia dando ordens e explicando as coisas como se ela estivesse a mexer num boneco e não numa pessoa real, que estava ali a ouvir tudo e que era também uma parte do processo. No final, quando perguntei quantos pontos tinha levado, até me respondeu ligeiramente irritado que as senhoras querem saber o número de pontos mas que ali não se contavam os pontos.

Quando o meu filho nasceu, por ter demorado tanto tempo no período expulsivo penso eu, estava roxo e só me lembro de o ver ser levado para outra sala onde ainda ficou um bocado para recuperar. Só passado um bocado é que a enfermeira disse ao meu marido que podia ir lá vê-lo mas ele também não pode pegar-lhe nessa altura.

Quando o trouxeram, passado talvez uma meia hora, já vinha vestido e limpo e eu fiquei com um sentimento de culpa do tamanho do mundo por ter deixado que o levassem, por ter aceitado a maldita epidural, por não ter sido capaz de fazer força, por não ter tido sequer consciência do momento em que nasceu.
Com a epidural perdi as dores mas perdi também toda a consciência do meu corpo da cintura para baixo e a minha capacidade de ter um papel activo naquele momento tão importante. Mas mais do que isso, só mais tarde percebi, que me senti também a perder a ligação que tinha com o meu filho e que estava tão presente até essa altura. Senti-me como se o tivesse traído porque ele continua a fazer o papel dele mas eu já não era capaz de fazer o meu.

O meu primeiro parto tinha sido uma cesariana porque o bebé não tinha dado a volta e, agora, com um parto natural, a frustração de não estar com ele logo nos primeiros momentos e essa sensação horrível de o ver ser tirado de dentro de mim e logo levado para longe, era igual mas ainda com a agravante da culpa de sentir que agora era eu que tinha falhado.

Na altura senti que a culpa era mesmo toda minha porque não tinha sido capaz de dizer que não à epidural. Mas agora, olhando para trás, sinto que deveria ter sido protegida dessa pressão e sinto-me zangada com o médico que pressionou mas também com todas as outras pessoas que não impediram que isso tivesse acontecido. Na altura fiquei também zangada com o meu marido que não me impediu de levar a epidural mas hoje em dia reconheço que ele também estava num papel difícil e ingrato porque também tinha o direito de estar nervoso, uma vez que também era ele que estava prestes a tornar-se pai e realmente não podia tomar decisões sobre algo que só eu é que sentia.

Por isso é que acho importante que falemos honestamente sobre estas coisas. Porque os profissionais precisam de saber que é importante confiarem mais nas mulheres e em todo o processo de parto. Porque senti que o que falhou no meu caso foi mesmo isso: a confiança de que tudo estava a desenrolar-se como devia. Esta confiança acabou por desaparecer de mim porque não a senti nas pessoas à minha volta. E é isso que sinto que falta: tratarmos o parto como um evento natural e normal que deve ser encarado com toda a normalidade excepto nos casos em que haja complicações.

Uma das coisas em que pensei foi na possibilidade de ter um parto em casa. Eu nasci em casa e sempre acreditei que esta é uma possibilidade válida nos casos em que não há complicações. Mas, ironicamente, uma das razões que me levou ao hospital foi pensar que queria poder gritar à vontade e as horas que fosse preciso sem ter os vizinhos a bater-me à porta ás 3 da manhã. Pensei que escolhendo um hospital com fama de se dedicar a partos mais humanizados poderia confiar e entregar-me à vontade às pessoas que o fizessem. Fui ingénua e hoje o que faria diferente seria ter uma doula que me pudesse proteger mesmo das boas intenções. Mas, na verdade, gostaria que não fosse preciso ir para o hospital com alguém para me defender. E que também não fosse preciso pensar em ficar em casa apenas para estar protegida dessas intervenções desnecessárias.

Então o que eu gostava mesmo era que passássemos a acreditar mais no corpo da mulher e a compreender melhor que uma mulher a parir precisa apenas de se sentir segura e de um ambiente tranquilo, com o mínimo de intervenções onde tudo se possa desenrolar. Os médicos precisam de aprender a confiar na natureza e a saberem que, neste caso, o ideal é mesmo que não sejam necessários.

Acredito que o parto é um momento importante na vida de qualquer mulher mas também e ainda mais para o bebé. Na verdade tive muita sorte do meu parto não ter deixado grandes sequelas físicas para além de me ter obrigado a passar uma semana de cama totalmente incapaz de fazer o que quer que fosse.  Mas as sequelas mais importantes muitas vezes são aquelas que não se vêem. E a verdade é que acredito que um parto complicado pode influenciar todo o puerpério negativamente, com uma mãe mais nervosa e insegura mas também o bebé.

Para que a transição se faça da forma mais suave possível para o bebé é fundamental que haja o contacto pele com pele logo a seguir ao nascimento e é fundamental que o bebé seja deixado em paz, livre de intervenções e que tenha todo o tempo para se habituar a estar cá fora, antes de ser pesado, medido e etc. Um bebé que é recebido sem estes cuidados, a quem nem sequer é permitido que fique junto da mãe, o único corpo que conhece, nos primeiros tempos de vida, terá todas as probabilidades de ser um bebé mais ansioso, mais nervoso, um bebé mais reactivo e mais sensível, para além de todas as complicações e dificuldades que isto pode trazer à amamentação que, no meu caso, felizmente não aconteceram. E se juntarmos a um bebé reactivo e sensível uma mãe que se sente ainda traumatizada, deprimida, nervosa, agitada ou culpada porque o parto não correu como devia, então é claro que aumentamos muito as probabilidades de que tudo comece a correr mal. Porque o parto é um momento tão importante tem um impacto também muito grande na estrutura psicológica da mulher e, quando as coisas não correm como devia, é muito fácil que surjam traumas que podem deixar marcas profundas. No meu caso, lembro-me bem de ter ficado ainda vários dias num estado de alerta que nunca me lembro de ter conhecido antes, como se fosse impossível relaxar porque todo o meu organismo tinha entrado num modo de defesa e protecção. E claro que esta não é a melhor forma de nos ligarmos a um recém-nascido que, ainda por cima, é altamente influenciável e permeável às emoções da mãe.

Gordon Neufeld diz que a hipersensibilidade é a marca de um nascimento que teve demasiadas intervenções. E temos cada vez mais bebés hipersensíveis, bebés mais reactivos, que choram mais e são mais difíceis de acalmar, bebés também com mais dificuldade para dormir ou mamar e bebés que são mais desafiantes para os pais. Acredito que uma parentalidade com  o apego em mente pode servir para corrigir ou diminuir muitas destas marcas mas, se a mãe também está fragilizada, traumatizada e em alerta porque o parto não correu bem então torna-se mais difícil ler eficazmente os sinais do bebé e ser uma fonte de segurança e conforto para ele.  E se o parto também não a ajudou a acreditar em si e nas suas capacidades, isto pode fazê-la sentir-se menos capaz de lidar com um bebé que ainda por cima é mais sensível.

Então precisamos de saber receber os bebés neste mundo com toda a tranquilidade que eles merecem e precisam e para isso precisamos de re-aprender a confiar na mulher, no seu corpo e nas suas capacidades. E reconhecer que, se a ciência e a medicina nos trouxeram muitas vantagens, há momentos em que é muito bom que saibamos que pô-las de lado e respeitar a natureza. Por isso acho que é importante falarmos, debatermos e expormos as nossas experiências e angústias, para que as coisas possam realmente mudar e foi por isso que decidi também partilhar a minha experiência, porque precisamos mesmo de várias vozes a falar disto e a pedir as mudanças que são necessárias. 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Dormir como um bebé

Quando temos um bebé uma das primeiras perguntas que ouvimos é se dorme bem e entre pais recentes este é também um dos temas de conversa mais frequentes. E, quando temos um bebé que acorda muitas vezes, a tendência é para acreditarmos que haverá algo de errado, principalmente quando já tem alguns meses e esse padrão se mantém. E esta é também uma das causas mais frequentes para os pais de bebés pequenos procurarem ajuda. 
Então há várias coisas que precisamos de considerar quando falamos do sono dos bebés. 
A primeira é que é importante saber que é muito natural que um bebé de meses acorde várias vezes por noite e é perfeitamente natural que as crianças comecem a ser capazes de dormir uma noite inteira seguida apenas por volta dos dois ou três anos de idade. Ao contrário do que muitas vezes se sugere é isso que quer dizer na realidade dormir como um bebé: acordar algumas vezes de noite. É verdade que existem bebés que dormem várias horas seguidas desde os primeiros meses e que conseguem passar uma noite inteira sem acordar antes de fazerem um ano mas, na verdade, as estatísticas indicam que estes não passam de pequena minoria e que cerca de 86% dos bebés com menos de ano acordam algumas vezes por noite.

Porque é que isto acontece? 

Nos primeiros meses o bebé acorda porque precisa mesmo de mamar e é fundamental que o faça não só para se alimentar porque ainda é muito pequeno para passar várias horas sem alimento e, se isto acontecer, pode dar origem a uma perigosa baixa de açúcar no sangue, mas também porque a própria mãe precisa desse estímulo para regular a sua produção de leite. É nas mamadas da noite que a mãe segrega mais prolactina, uma hormona que influencia a produção de leite, por isso estas são muito importantes nos primeiros tempos para manter a produção de leite. Quando alguém sugere que se dê um biberão ao bebé durante a noite para que a mãe possa descansar e dormir toda a noite seguida, por muita boa que seja a intenção, a verdade é que isto pode prejudicar a produção dessa hormona e por em causa a quantidade de leite que a mãe produz.

Mas, a partir dos 4, 5 meses de idade, o organismo do bebé começa a ser capaz de passar mais horas sem alimento, sem correr o risco de entrar em hipoglicemia. Acontece que os bebés têm um padrão de sono diferente do dos adultos: os seus ciclos de sono são mais curtos que os nossos e, sabendo que é mais fácil despertarmos quando estamos na fase de transição para um ciclo de sono diferente, significa que os bebés têm mais probabilidades de que isto aconteça mais vezes. 

James McKenna um investigador dedicado a estudar e compreender o sono dos bebés acredita que esta tendência que os bebés têm para despertar mais facilmente funciona como uma protecção contra o síndroma da morte súbita. Quando os bebés entram em sono profundo ficam mais vulneráveis a paragens respiratórias que podem acontecer devido à imaturidade do seu sistema respiratório. Segundo este autor dormir junto da mãe também pode ser uma protecção contra a morte súbita precisamente porque ajuda a regularizar a respiração. 

Por outro lado os bebés mais pequenos também ainda não regularizaram a sua produção de cortisol. Esta é uma hormona que, entre outras funções importantes, ajuda a regular os nossos ciclos de sono. Nos adultos (quando tudo funciona como deveria) os níveis de cortisol atingem a sua quantidade mínima quando nos encontramos em sono profundo e ficam no seu máximo, de manhã, mesmo antes de estarmos prontos para despertar. Nos bebés isto ainda não acontece e esta hormona flutua em quantidades mais irregulares e algumas investigações demonstram que um padrão mais definido nos ritmos de cortisol só começa a surgir por volta dos 9 meses. Isto quer dizer que é perfeitamente natural que um bebé fique completamente desperto e pronto para brincar a meio da noite, para grande  angústia dos pais. Por outro lado também sabemos que, nas crianças tal como nos adultos, a produção de cortisol é alterada pelo stress que faz com que esta hormona seja segregada em maiores quantidades, o que significa que uma criança agitada ou ansiosa por algum motivo (tal como um adulto) também terá probabilidades de ter um padrão de sono alterado. 

O que podemos fazer? 

A verdade é que existem algumas coisas que podemos fazer para ajudar um bebé a dormir melhor mas não há nada que possamos fazer para o ensinar a dormir. Tal como não se ensina a comer, a fazer xixi ou cocó também não se pode ensinar a dormir ao contrário do que tanta gente diz. 

Para ajudar um bebé a dormir é importante ter em conta que o cortisol, que regula o sono, também tem um papel importante na resposta de stress. Então, tudo o que contribua para deixar o bebé agitado irá aumentar a produção de cortisol o que, por sua vez, irá dificultar o sono. Por isso é importante que o final do dia seja o mais tranquilo possível para que o bebé possa começar a acalmar. Sabe-se que as crianças pequenas que passam demasiadas horas na creche começam a aumentar os seus níveis de cortisol em vez destes diminuírem, como seria natural, ao final do dia. 
Por outro lado, tudo o que sejam luzes fortes ou barulhos demasiados altos ou estimulantes também irão afectar a produção de melatonina, outra hormona que tem um papel fundamental no sono. Em particular as luzes de ecrãs de televisão, computadores ou telemóveis, parecem enganar o cérebro levando-o a acreditar que ainda é dia e alterar a sua produção de melatonina dificultando o sono. 

Então na verdade o que podemos fazer é compreender que existe um determinado tipo de ambiente que facilita o sono mas não podemos fazer muito mais se não criá-lo, o melhor possível.

Um aspecto fundamental para qualquer pessoa adormecer é a segurança, então é muito importante que o bebé se sinta seguro para conseguir dormir e não há lugar em  que um bebé ou criança pequena se sinta mais seguro que o colo da mãe ou do pai. 

Com os bebés mais pequenos o movimento rítmico, como o que fazemos ao embalar, também ajudar muito a adormecer porque estimula zonas no cérebro que facilitam uma resposta de relaxamento por parte do bebé. 

Mas, na verdade, em vez de nos preocuparmos tanto com tudo o que podemos fazer para levar o bebé a dormir mais e melhor precisamos mesmo é que compreender como é que nós, mães e pais, podemos descansar quando temos um bebé que acorda com frequência de noite. 

Quase sempre o foco está no bebé e naquilo que é preciso fazer para o mudar quando na verdade o foco deveria estar também na mãe e no pai e na forma como podem adaptar-se a essa nova realidade de ter um bebé que acorda com frequência. É preciso que aprendamos a confiar nos nossos filhos e que saibamos que os acordares nocturnos são normais e naturais. O que não é natural é termos um bebé de meses e precisarmos de nos levantar cedo no dia seguinte para passar o dia todo no trabalho. O ritmo das nossas vidas é que não tem nada de natural mas os bebés ainda não percebem nada de horários nem de trabalho nem deste ritmo tão pouco natural que vivemos hoje por isso o seu sono mantém-se como sempre foi desde há séculos quando tudo era feito de maneira diferente.

Então precisamos de perguntar o que é que podemos fazer para ajudar os pais a descansar mais quando têm um bebé que acorda muito de noite e não o que é podemos fazer para conseguir que o bebé durma a noite toda. Precisamos de mudar o foco e compreender que o problema não está no bebé mas na forma como organizamos a vida e nas pressões que criamos à volta dos pais e mães recentes.

Sabemos que quando o cérebro está em grande transformação, durante os dois primeiros anos de vida, tudo o que fazemos tem muito mais impacto. E sabemos hoje em dia também que é importante que os pais sejam capazes e estejam disponíveis para responder às necessidades dos filhos se querem criar com eles um tipo de apego seguro, que por sua vez, é fundamental para que a criança possa crescer feliz e confiante. Então em vez de perdermos tanto tempo a tentar mudar os bebés precisamos de perceber o que podemos mudar em nós para viver melhor com um bebé que acorda muito. 

Uma das coisas que ajuda a descansar, ao contrário do que tantas vezes se pensa, é a amamentação. Primeiro porque é muito mais fácil dar mama do que andar a fazer biberões a meio da noite, depois porque o leite da mama tem substâncias que ajudam a induzir o sono e por um bebé na mama é uma das formas mais fáceis de o adormecer, quase sempre. Além disso a amamentação também promove na mãe a libertação de hormonas que ajudam a relaxar e dormir mais facilmente.
Outra coisa que pode ajudar muito é partilhar a cama com o bebé.  Em alguns casos os bebés passam mesmo a dormir melhor quando dormem junto dos pais mas, mesmo que isso não aconteça, os pais também podem descansar melhor quando têm o bebé na cama. O que é importante para não alterar muito a produção de melatonina e de cortisol, tanto no bebé como na mãe, é que haja o menor número de estímulos possível durante os despertares. Para isso é importante não acender luzes e fazer o menor número de movimentos possível. Se a  mãe ou o pai precisam de sair da cama para tirar o bebé do berço ou, pior ainda, se precisam de ir para outro quarto, já vão ficar muito mais despertos e poderão ter mais dificuldade para voltar a adormecer ou, mesmo que adormeçam rapidamente outra vez, irão demorar mais tempo para voltar a entrar num sono mais profundo. Dormir junto da mãe ou do pai também ajuda o bebé a não precisar de ficar muito desperto porque os pais estão logo ali e podem acordar assim que este começa a movimentar-se mais por isso ele não chega a ter de chorar para chamar a atenção e será também mais fácil que volte a adormecer. Na verdade muitas mãe que dormem com os filhos contam que há uma espécie de sintonia entre ambos e que a mãe acorda muitas vezes uns segundos antes do filho, como se os seus ciclos de sono, estivessem completamente sintonizados. A amamentação também facilita muito este processo porque é mais fácil o bebé adormecer na mama e a esta também permite à mãe segregar hormonas que também a ajudam a estar mais relaxada e a ser capaz de dormir melhor.

Por outro lado uma mãe que possa ficar em casa com o filho também tem possibilidade de aproveitar para dormir um bocadinho quando o bebé dorme de dia ou poderá não precisar de se levantar tão cedo de manhã. É muito bom que as mulheres hoje em dia tenham a possibilidade de seguir uma carreira e claro que esta tem um papel importante para muitas mães mas, a verdade, é que não é natural que um bebé pequeno tenha de passar o dia inteiro longe da mãe assim como também não é natural que uma mãe de um bebé pequeno tenha de passar o dia inteiro a trabalhar. Então aquilo que está errado não é o facto dos bebés acordarem muito de noite, o que está errado é que a mãe não possa ficar em casa para aproveitar as sestas diurnas do bebé para dormir também um pouco. Assim como também não é natural que as mães vivam tão isoladas como acontece hoje em dia, sem ninguém que possa ficar uns minutos com o bebé para a mãe descansar se for preciso.

O que está errado não é o sono dos bebés que acordam muito mas sim a forma como a sociedade lida com isso que está ligada à forma como vemos os bebés e as mães. Precisamos de entender que os bebés precisam de estar a maior parte do tempo com a mãe, pelo menos durante o seu primeiro ano de vida e precisamos de entender que a mãe também precisa de estar com o bebé durante a maior parte do tempo. E negarmos isto é negar a natureza dos bebés mas também a das mães. Uma mãe também não está preparada para estar todo o dia longe do seu bebé durante os primeiros meses da vida deste, não sem sofrimento ou ansiedade.

Então o mais importante quando falamos de sono, assim como em tantas outras coisas, é aprendermos a confiar nos bebés e não termos medo de lhes dar o que precisam. Tantos pais e mães constatam que os filhos adormecem melhor no colo, na mama ou nas suas camas mas ficam com medo de lhes dar esse conforto. Acredito que caminhamos cada vez mais para uma mudança de paradigma no que toca à visão sobre o desenvolvimento infantil: se antes a grande preocupação era com a independência que a criança precisava de atingir, agora começamos a perceber que é preciso facilitar a dependência. Porque é natural que um bebé ou criança sejam dependentes e é importante que essa dependência seja aceite e acarinhada e até encorajada em muitos aspectos. Só assim é que podemos dar origem a adulto verdadeiramente autónomo. Prefiro dizer autónomo e não independente, porque a verdade é que todos somos dependentes uns dos outros e aquilo que a ciência cada vez mais descobre é que é fundamental que sejamos capazes de reconhecer essa interdependência para nos sentirmos parte de um todo e podermos ser verdadeiramente felizes. A sensação de isolamento está ligada à tristeza e a capacidade de nos sentirmos parte de um todo é importante para sermos capazes de dar um significado à nossa vida. Então precisamos de não ter medo de alimentar nos nossos filhos uma dependência saudável que lhes permita confiar e acreditar nos outros. Quando temos consciência que somos apenas uma parte de um todo e quando somos capazes de nos ligar a todos os que nos rodeiam e ao mundo à nossa volta sem medo de ser magoados ou de sofrer aumentamos muito as nossas probabilidades de estar bem e de sermos felizes. 

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Castigos e consequências - educar com o coração macio

Hoje em dia, felizmente, começam a surgir cada vez mais pessoas com consciência de que tanto os castigos como as palmadas são desnecessários na educação das crianças e, mais do que isso, podem mesmo ser nocivos mas acredito que ainda é importante explicar o porquê desta visão.  

Em primeiro lugar  precisamos de compreender que o cérebro humano é bastante moldável, sobretudo nos primeiros anos de vida - em que se encontra numa fase muito activa de desenvolvimento - e que as relações que formamos são uma das principais influências para a sua formação. Sabemos hoje que o cérebro de uma criança mal tratada ou negligenciada se desenvolve de forma muito diferente do cérebro de uma criança que tenha uma boa relação com os seus pais: algumas estruturas cerebrais, como o hipocampo ou certas zonas do córtex, por exemplo, desenvolvem-se melhor nas crianças que têm uma boa ligação com os seus pais ou aquilo a que chamamos um apego seguro. Então isto quer dizer que, tudo o que fizermos com os nossos filhos, sobretudo nos seus primeiros anos irá contribuir para moldar o seu cérebro e o seu sistema nervoso o que, por sua vez, irá também contribuir para definir a forma como eles se irão relacionar com o outros, com o mundo e consigo mesmos. 

Quando a criança nasce ela está totalmente predisposta para estabelecer uma ligação com os seus pais e activa aquilo que podemos chamar de instinto de apego. Acontece que sempre que nos ligamos profundamente a alguém também ficamos vulneráveis à forma como essa pessoa lida connosco e é muito mais fácil sermos magoados por alguém de quem gostamos simplesmente porque nos importa aquilo que a pessoa pensa e sente por nós. Porque quando gostamos de alguém tudo o que mais queremos é que essa pessoa goste de nós também. E, se enquanto adultos é possível perceber que, mesmo quando alguém nos está a tratar mal não quer dizer que não goste de nós, para uma criança pequena isto é mesmo impossível. 

Muitas vezes as pessoas que são contra os castigos ou palmadas dão exemplos de situações em que um adulto castiga outro adulto porque quebrou uma regra ou fez algo de que o primeiro não gostou. Como por exemplo uma mulher que impediria o marido de ver televisão durante uma semana porque ele tinha chegado a casa muito tarde uma certa noite, sem sequer avisar. Estes exemplos até podem servir para se ver um pouco o ridículo de certas atitudes mas, na verdade, não compreendem a questão fundamental: é que uma criança não é um adulto. E, para quem acha que se deve castigar ou bater fica muito fácil dizer que os adultos já não precisam de ser educados e as crianças sim. E é verdade que uma criança ainda precisa de aprender certas coisas que um adulto já deveria saber.  E, se acredito que as crianças têm o direito de ser tão respeitadas como os adultos, também acredito que não podemos lidar com elas da mesma forma com que lidamos com os adultos. Porque é verdade que precisamos de educar, de ensinar e de orientar as crianças e isto é importante para o seu bom desenvolvimento mas, mais importante que isso neste caso, porque as crianças não têm a mesma compreensão e a mesma capacidade de defesa de um adulto. Quando tratamos mal uma criança os estragos são bem maiores do que quando tratamos mal um adulto porque, além de todo o seu cérebro ainda estar em construção, uma criança simplesmente não consegue perceber que quando lhe gritamos, batemos ou castigamos o estamos a fazer porque gostamos delas e queremos o seu bem. 

E quando somos repetidamente magoados - e não há maior dor do que acreditar que aqueles de quem gostamos e precisamos não gostam de nós - precisamos de começar a criar defesas que nos ajudem a deixar de sentir essa dor. E a melhor defesa é deixar de sentir que precisamos tanto dos outros, a melhor defesa é acreditar que não precisamos de nos sentir amados ou acolhidos porque assim deixamos de sentir essa dor que acontece sempre que acreditamos que as pessoas importantes na nossa vida afinal não gostam de nós. 

E se essa defesa precisar de ser activada muitas vezes então essa criança vai crescer como um adulto distante dos sentimentos - porque foram eles a fonte do seu sofrimento que precisou de ser como que desligada ou reprimida - mas também distante dos outros. E isso quer dizer que será uma criança muito mais difícil de educar ou de guiar porque quando ela desliga esse instinto básico e fundamental que lhe diz que deve construir uma ligação com os seus pais, também desliga a parte que lhes quer agradar e a parte que sabe que se deve deixar guiar. E quando isto acontece com os pais, que são a primeiras pessoas com quem aprendemos a ler o mundo e a vida, também acontecerá muito mais facilmente com os outros adultos. 

E depois, no fundo, é apenas uma questão de grau: se a dor foi muito forte e muito repetida, significa que esse desligar também tem de ser grande; se foi um pouco menos intensa ou aconteceu  menos vezes, pode haver apenas um desligar parcial que funciona como uma espécie de muralha que pode ser activada sempre que a criança ou adulto se sentir em perigo. E o perigo pode vir de qualquer sinal de rejeição mas pode vir também do medo de criar uma ligação verdadeira, porque afinal, as relações não são completamente seguras. 

Castigos diferentes com o mesmo resultado 

Se castigamos uma criança fazendo-a ficar sozinha alguns momentos porque se portou mal - e este é o castigo que costuma ser mais usado com crianças pequenas - aquilo que lhe estamos a transmitir, aquilo que ela é capaz de entender, é que não gostamos dela naquele momento. Aquilo que dizemos a uma criança quando lhe recusamos que fique perto de nós é que não é digna de estar connosco naquele momento, que não somos capazes de aceitar a sua presença. E isto dói muito a uma criança que ainda não tem maturidade para perceber que os pais podem estar zangados naquele momento mas, ao mesmo tempo, gostam muito dela. Porque para as crianças o mundo é apenas a preto e branco, só a partir dos 5, 6 anos de idade é que uma criança começa a ser capaz de perceber que uma pessoa pode ter duas emoções contraditórias e que existe muito cinzento na vida mas, para isto acontecer, o desenvolvimento tem de estar a correr bem e, na verdade, existem muitos adultos que ainda vêem o mundo sempre a preto e branco. 

Com as crianças mais velhas, ou adolescentes, os castigos costumam passar mais por lhes retirar coisas de que gostam ou que são importantes para elas, como o direito de sair com amigos, por exemplo. Mas, na verdade, isto acaba por ter o mesmo efeito porque aquilo que a criança sente é que os pais, conhecendo um pouco do seu mundo interno, o estão a usar contra si. É como se os pais conhecessem os seus pontos fracos e usam-nos para a atingir. Então isto também magoa bastante. Para além do facto de que não é grande aprendizagem para um jovem ou criança passar a fazer algo apenas porque tem medo das consequências caso não o faça, a verdade, é que magoa saber que alguém nos conhece bem, sabe aquilo de que gostamos e que é importante para nós e o usa para nos atingir ou magoar. E se um adolescente já poderá ter alguma maturidade para perceber que existem sentimentos contraditórios e que a zanga dos pais não quer dizer que eles não o amam, continua a ser um facto que se tornou vulnerável ao dar-se a conhecer e mostrar os seus gostos e foi magoado pelas pessoas que, supostamente, o deveriam apoiar e compreender. E magoa sempre sentirmos que nos expusemos, que nos abrimos e nos tornámos vulneráveis com alguém que, depois, usa isso contra nós. 

E, e castigar magoa, então bater tem um efeito ainda mais negativo, mas com o mesmo mecanismo e de que já falei aqui

Em muitos modelos de psicologia positiva recomenda-se que deixemos a criança sentir as consequências dos seus actos em vez de castigar, como forma dela aprender. Se, em alguns casos específicos, isto pode ser adequado em muitos poderá ser muito parecido com uma espécie de castigo e ter exactamente o mesmo efeito. Porque uma criança nem sempre tem a capacidade de prever as consequências para o seu comportamento mas nós temos, então se a deixamos sofrê-las sem fazer nada isso também pode ser sentido como uma espécie de abandono. 
Por exemplo, se a criança não quer vestir o casaco para sair mas nós sabemos que, depois de algum tempo na rua vai começar a sentir frio, pode ser pedagógico deixá-la sentir esse frio alguns instantes mas, levar o casaco para lho dar quando isto acontecer. Se deixamos a criança simplesmente ficar com frio porque não quisemos levar-lhe o casaco, aí isto será muito parecido com um castigo porque nos desobedeceu e é uma espécie de abandono deixá-la lidar sozinha com essa consequência. 


Então o que podemos fazer? 

Acredito naquilo que defende Gordon Neufeld: a meta de qualquer processo educativo deverá ser criar crianças que possam tornar-se em adultos com o coração macio (em português costumamos dizer coração mole mas esta expressão tem geralmente um sentido menos positivo); porque é só através desse coração macio que os nossos ensinamentos podem passar. Uma criança com o coração macio é uma criança que não foi excessivamente magoada e que, por isso, não tem medo de ser vulnerável. E não há maior vulnerabilidade que entregar-se de alma e coração a outro ser. E é isso que faz uma criança saudável e é esse o segredo de tornar fácil a educação dos nossos filhos: não termos receio de que eles se entreguem a nós por completo sendo que, para isso, não podemos nós também ter receio de nos entregar a eles com todo o coração. 

Então precisamos de estar muito atentos aos seus sentimentos e de sabermos manter uma liderança sempre com estes em mente. E precisamos de ser capazes de reparar a nossa relação com ela sempre que esta for posta em causa, principalmente quando isto acontece algum comportamento que não gostaríamos de ter tido.
Precisamos de mostrar que, dê lá por onde der estamos presentes, atentos e prontos para responder às suas necessidades. 
Precisamos de mostrar que as conhecemos, compreendemos e respeitamos e que somos capazes de acolher os seus sentimentos. 
Precisamos de mostrar que, para nós, aquela relação também é preciosa, tão preciosa que faremos tudo para preservar e cuidar o melhor possível. 
Precisamos de mostrar que vemos os seus sentimentos e que somos capazes de os acolher e aceitar mesmo nas alturas em que não aceitamos o seu comportamento ou nas alturas em que queremos mostrar-lhes um caminho diferente a seguir. 
Precisamos que confiem em nós e para isso precisamos de nos tornar de confiança, de mostrar que estamos presentes, disponíveis e que também nós podemos ser vulneráveis na relação. 

Porque uma criança que se entrega é uma criança que confia e uma criança que confia é uma criança que se deixa orientar, que se deixa guiar. E, ao mesmo tempo, é uma criança calma, tranquila porque o seu instinto lhe diz que está tudo certo. Porque é este instinto que lhe diz que deve procurar uma figura para lhe servir de modelo e de guia, que a faça sentir-se amada mas também protegida, segura. E uma criança que confia é também uma criança que não tem medo de estabelecer relações e também uma criança que não tem medo de sentir. E, ao mesmo tempo, é também uma criança que não tem medo de aprender, de arriscar, de viver porque sabe que encontrará sempre o conforto de se sentir amada, acolhida, protegida por aqueles que são mais importantes para si, mesmo nas situações mais difíceis. 

E uma criança que não tem medo de amar nem de ser amada é uma criança que se torna num adulto capaz de criar verdadeiramente um mundo melhor. Porque um adulto que não tem medo de sentir, nem tem medo de se ligar aos outros, é um adulto mais capaz de sentir empatia e um adulto muito menos capaz de provocar sofrimento. Na verdade, acredito que, se todos fossemos capazes de manter sempre um coração macio o mundo seria um lugar muito mais agradável com relações muito mais harmoniosas e felizes e onde todos seríamos mais capazes de nos respeitar uns aos outros. 

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Curso de Mindfulness para Pais

O próximo curso de Mindfulness para Pais começa dia 13 de Maio e vai acontecer em 4 sábados seguidos, das 10h às 12h, no Espaço Vida, em Lisboa. Para saber mais envie-nos um e-mail para inforvida@gmail.com


sexta-feira, 3 de março de 2017

Independência e coração

Hoje em dia, nas sociedades ocidentais, acho  que vivemos um bocado obcecados com a ideia de que as crianças devem ser independentes e muitas vezes parece que a meta de todos os métodos educativos deve ser esta independência que muitas vezes se defende que quanto mais cedo acontecer melhor será.

Primeiro acho que é importante lembrar que nas sociedades orientais –menos individualistas e em que as crianças são educadas mais para fazerem parte do todo – esta preocupação não existe ou, pelo menos, não estará tão presente.

Será essa talvez uma das razões pelas quais no Japão, por exemplo, é perfeitamente natural e normal que um bebé durma no quarto dos pais e, mais tarde, até no quarto dos avós que muitas vezes também moram com os filhos e netos. Apesar de não ser este o tema deste artigo vale a pena mencionar que alguns investigadores apontam justamente esta normalidade de os bebés dormirem acompanhados como um dos fatores de proteção contra o síndroma da morte súbita que é praticamente inexistente no Japão, sendo que este termo nem sequer existe em japonês. 

É importante perceber que é a criança deve ser educada para ter alguma autonomia, no sentido de ter espaço para se descobrir a si mesma enquanto pessoa e enquanto indivíduo com gostos, motivações e emoções próprias mas também é importante que sejamos capazes de distinguir esta autonomia ou este auto-conhecimento desta questão da independência. Porque ninguém é verdadeiramente independente e é bom que o saibamos e que não tenhamos medo de o reconhecer. Todos precisamos dos outros e as crianças, sobretudo nos seus primeiros anos de vida, precisam mesmo de se sentir parte de um todo e de se sentirem dependentes dos seus pais para que possam fazer com toda a segurança esse caminho de auto-descoberta que acontece com toda a naturalidade se lhe dermos a segurança necessária para tal.

A criança precisa de não ter medo de si própria, dos seus sentimentos para que se possa descobrir. Também precisa de saber que será aceite mesmo que descubra e demonstre partes de si mais assustadoras ou menos positivas. Precisa de sentir que tem o apoio total e o amor incondicional dos pais para não ter medo de confiar nos seus sentimentos, nas suas emoções e para não ter medo de expor aquilo que sente e aquilo que vai descobrindo ao logo de todo esse processo de crescimento. 

Mas, para que este apoio aconteça e para que a criança se sinta incondicionalmente amada a sua dependência inicial precisa de ser respeitada e acolhida. E precisamos de compreender que um bebé e uma criança pequena são seres fusionais por natureza e isso está certo, porque quando essa fusão deixar de ser necessária a natureza da criança irá encarregar-se de o mostrar.

Em muitos casos hoje em dia vive-se uma verdadeira ambivalência no que concerne ao desenvolvimento desta independência e acredito que ela surge por causa de um desconhecimento profundo daquilo que são as necessidades primárias de uma criança: ainda há dias observava o pai de uma criança com cerca de 3 anos que não a deixava brincar fora de um tapete almofadado; a criança estava a brincar com outra a empurrar um carro para trás e para a frente e, cada vez que punha literalmente um pé fora do tapete, o pai começava a dizer-lhe que não podia, que tinha de brincar no tapete. Fazia-o com ternura e paciência mas não lhe dava espaço para descobrir que o mundo não é todo almofadado e que podemos cair e magoar-nos muitas vezes mas que tudo isso faz parte do crescimento e que os nossos pais vão estar cá não para nos impedir de cair mas para nos darem um lugar seguro onde chorar depois disso acontecer. Muitas vezes vejo crianças que querem correr, ou querem saltar a quem os pais agarram imediatamente a mão e dizem que não podem fazê-lo porque se podem magoar. Algumas dessas crianças são precisamente as mesmas que foram ensinadas a dormir sozinhas no quarto desde poucos meses de idade porque tinham se aprender a dormir sem ajudas para se tornarem independentes. Será que não vemos aqui as enormes contradições que existem?

Se por um lado queremos crianças independentes desde cedo, com coisas em que é muito natural que elas não sejam capazes de fazer – como dormir sozinho em bebé, ou regular as suas próprias emoções com crianças pequenas – por outro lado não lhes damos espaço para explorar essa independência justamente onde ela deve mais naturalmente acontecer: na exploração corporal e espacial, que é tão importante para o desenvolvimento da motricidade mas não só; porque é nestas brincadeiras em que a criança se afasta um pouco dos pais e em que experimenta correr ou fazer algo mais arriscado que nunca tinha feito que ela tem espaço para descobrir os seus limites, as suas capacidades, as suas motivações e até a sua coragem ou a sua possibilidade de existir afastada dos pais e por si própria naqueles momentos.

Mas precisamos também de começar por reconhecer que as crianças são seres dependentes por natureza. Precisamos de saber que as crianças nascem com um instinto básico: o de se apegarem aos seus principais cuidadores e esse apego implica dependência. E isso significa que uma criança que se estabelece esta relação de apego tem que sentir que essa dependência é aceite, compreendida e acolhida. Cito muitas vezes o Gordon Neufeld, psicólogo canadiano, porque ele construiu o modelo de desenvolvimento infantil mais completo que conheço e que gira sempre em torno deste conceito de apego. E, para Neufeld, é essencial que a criança saiba que pode depender dos pais assim como é fundamental que os pais saibam que podem cuidar dela para que esta relação aconteça da forma mais harmoniosa e para que a criança tenha verdadeiramente espaço para crescer e para se desenvolver com toda a maturidade em cada fase da sua vida.

Mas, para isso acontecer os pais não podem ter medo de alimentar essa dependência nos seus aspectos saudáveis, ao mesmo tempo que não podem ter medo de saber que são eles os responsáveis por guiar e orientar os filhos.

Hoje em dia também temos algum receio da noção de hierarquia e parece haver uma certa tendência para pensar que, quanto queremos respeitar os nossos filhos e dar-lhe espaço para se descobrirem enquanto pessoas e indivíduos precisamos de deixar de lado a hierarquia e de os aceitar como iguais. Mas os filhos não são iguais a nós, uma criança não é um adulto em miniatura, apesar de muito adultos serem crianças grandes. As crianças têm necessidades diferentes das dos adultos e uma necessidade fundamental é a de se sentirem guiadas, cuidadas, orientadas. Porque só assim podem manter o seu instinto de apego que é justamente o que lhes permite sentirem-se seguras. Ao mesmo tempo que também facilita muito a tarefa dos pais porque as torna mais fáceis de orientar.

Para Neufeld o grande propósito da educação é permitir que a criança cresça sem precisar de se defender demasiado, mantendo um coração aberto. As crianças são seres frágeis, justamente por causa dessa sua necessidade de se sentirem seguras e protegidas pelos pais, as palavras e o comportamento destes têm um impacto enorme sobre os seus sentimentos. É mais fácil ferir uma criança do que um adulto e quando uma criança é ferida isto também tem mais peso do que num adulto.

Porque a criança nasce totalmente predisposta a estabelecer esta relação de apego e porque precisa de preservar esse instinto que lhe diz que são os adultos que cuidam de si as pessoas mais indicadas para a proteger e manter segura, ela irá usar tudo aquilo que for preciso para se defender e proteger esse instinto, mesmo que isso implique ignorar os seus próprios sentimentos. E assim o coração começa a fechar-se aos poucos, porque quando ignoramos os nossos sentimentos também não podemos ligar aos dos outros. E podemos mesmo afirmar que esta será a razão principal para tantos problemas que acontecem no mundo hoje em dia: a incapacidade de ter em conta os sentimentos dos outros, a falta de empatia que acontece quando o nosso coração já se fechou demasiado.

Acontece que este instinto de apego também torna a criança vulnerável porque a faz querer ligar às outras pessoas e faz com que precise de se sentir importante para aqueles que são importantes para si. E se essa vulnerabilidade for demasiado grande para que a criança a possa suportar então este instinto terá mesmo que ser ignorado e desligado. E aí temos uma criança com o coração completamente fechado e a quem já muito dificilmente conseguiremos chegar.

E só uma criança com o coração aberto é que pode ser facilmente orientada. Só uma criança com o coração aberto é que não tem medo de se explorar e de reconhecer e de aceitar os seus próprios sentimentos e de aprender a lidar também com os dos outros.

E o mundo precisa de mais crianças com o coração aberto porque só essas é que se podem tornar em adultos verdadeiramente maduros e capazes de levar uma vida preenchida e feliz mas também em harmonia com os outros.

Ainda há dias, na escola do meu filho, um colega lhe bateu com um balde na cabeça que deixou uma feridazinha e alguém lhe dizia que tinha de aprender a bater de volta para se defender. Mas a melhor defesa não é sermos capazes de atacar quem nos ataca, a melhor defesa é aprendermos a lidar com o que sentimos quando alguém nos fere e sermos capazes de acolher a nossa própria zanga, tristeza ou o que for mais adequado nessa altura. E isso só se pode aprender com um adulto de quem não tenhamos medo de depender e que não tenha medo de estar presente e de acolher esses nossos sentimentos.

Não precisamos de ensinar nenhuma criança a bater porque isso elas até já sabem por instinto, precisamos é de lhes dar espaço para não terem medo de ser feridas, para não terem medo de sentir e de manter o seu coração aberto mesmo depois de terem sido magoadas. Precisamos de lhe as ensinar que podem ser vulneráveis porque estaremos cá para as ajudar a lidar com essa vulnerabilidade. E isso só se consegue se estivermos também de coração aberto na nossa relação com elas, se também não tivermos medo de ser vulneráveis e se assumirmos que ter um filho nos coloca na posição mais vulnerável do mundo, porque ser pai ou mãe de alguém tem tanto de maravilhoso como de perigoso. Numa entrevista ouvi uma vez dizer o Ricardo Araújo Pereira que um dia olhou para as filhas e percebeu o enorme potencial de sofrimento que havia ali, porque ser pai ou mãe é mesmo isso: quanto tudo corre bem é maravilhoso, quando corre mal pode ser muito doloroso. Então precisamos também de aceitar essa vulnerabilidade em nós e de, mesmo com ela, não termos medo de assumir a liderança porque aquilo que mais facilmente fecha o coração de uma criança é não se sentir segura, protegida por quem deveria cuidar de si e isto tanto acontece quando as forçamos a fazer aquilo que ainda não conseguem fazer sozinhas como quando nos demitimos do papel de líderes e orientadores e as deixamos totalmente entregues a si mesmas nessa auto-descoberta que, só por si, já pode ser tão assustadora. 

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Mindfulness para Pais - apresentação do livro no Lisbon Yoga Festival

Este fim de semana fui falar um pouco do meu último livro aos participantes do Lisbon Yoga Festival. Partilho aqui o vídeo dessa apresentação e das perguntas no final.


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Obediência, liberdade e consciência

Hoje em dia fala-se cada vez em educação e em parentalidade e acredito que começamos a ganhar cada vez mais consciência de que existem formas diferentes de educar do que aquelas que conhecíamos e tomávamos como certas até agora. 
Nestes debates surge muitas vezes uma questão que é realmente importante e que me parece que nem sempre é bem compreendida: a questão da obediência. Por um lado temos pessoas que defendem que os filhos precisam de obedecer aos pais porque isso faz parte da boa educação e é essencial para o seu bom desenvolvimento, por outro temos aqueles que acham que a obediência faz parte dos modelos educativos ultrapassados e compromete até a capacidade da criança se descobrir a si própria e às suas vontades. Acredito que a verdade está algures no meio destas duas abordagens. 

Então vamos por partes. 

1. Conformismo  (de que já falei aqui)

Há alguns estudos interessantes que mostram como o ser humano tem necessidade de se sentir incluído num grupo. Nos anos 50, Asch fez umas experiências sobre conformismo social que ficaram célebres. (ver aqui vídeo) Nestas experiências havia um sujeito que estava numa sala com várias pessoas sem saber que estas estavam combinadas com os investigadores. Estas pessoas viam uma série de linhas e tinham que dizer, em voz alta, qual é que era igual à primeira que era mostrada. A resposta era óbvia mas tinha sido combinado que dariam todas a resposta errada. A grande maioria das pessoas que participou na experiência, começava por dar a resposta certa mas, ao fim de pouco tempo, acabava também por dar a resposta errada apenas para estar de acordo com os outros. Também acontece que a pessoa se chegava mesmo a convencer que o grupo estava certo. Um aspecto interessante desta experiência é que, se a pessoa tivesse um aliado, que desse também a resposta certa, na grande maioria dos casos, esta já seria capaz de manter a resposta certa.

Uma outra experiência ainda mais extrema foi pensada por Stanley Migram e levada a cabo, com várias pessoas de diferentes idades e estratos sociais nos anos 60 e 70. Nesta experiência os voluntários estavam numa sala com um examinador enquanto viam através de um vidro uma terceira pessoa que acreditavam ser também um voluntário. Era-lhes dito que estavam a participar num estudo sobre a forma de aprendizagem da outra pessoa e iam fazer-lhe algumas perguntas. Cada vez que a pessoa errava a resposta o analisador dizia ao voluntário para dar um choque à pessoa. E a voltagem dos choques ia sempre aumentando. Uma chocante maioria de 65% das pessoas, quando a ordem era dada pelo analisador, era capaz de dar choques até aos 450 voltes-  uma voltagem que poderia provocar a morte - mesmo quando a pessoa do outro lado gritava e se contorcia com dores. (ver aqui o vídeo)

Estas eram pessoas normais e há quem use os resultados destas experiências para explicar o que aconteceu no tempo dos nazis, por exemplo, em que pessoas aparentemente normais foram capazes de cometer os actos mais repugnantes. Porque estas experiências mostram como estamos dispostos a ignorar a nossa consciência e os nossos valores em nome deste sentimento de pertença e de integração. E mostram também que, se não estamos habituados a valorizar o que sentimos e a ser responsáveis pelas nossas acções é muito mais fácil desresponsabilizarmos-nos dos nossos actos e fazermos coisas que podem prejudicar os outros, desde que sintamos que a culpa não é nossa.

 E mostram também que, se não estamos habituados a valorizar o que sentimos a ser responsáveis pelas nossas acções é muito mais mais fácil desresponsabilizarmos-nos dos nossos actos e fazermos coisas que podem prejudicar os outros, desde que sintamos que a culpa não é nossa.


Estes estudos são por vezes citados pelas pessoas que defendem que não devemos querer crianças obedientes a qualquer custo. Acontece que é muito diferente obedecer a um pai ou uma mãe ou obedecer a um estranho. E porque é que é diferente? Porque são mecanismos completamente diferentes aqueles que estão em jogo nestes dois casos.

2. A questão do apego

Quando alguém obedece a um estranho ou a um grupo está a fazê-lo porque quer sentir-se parte desse grupo, precisa de sentir que pertence aquele grupo mesmo que para isso tenha de passar por cima das suas próprias crenças ou convicções. Ora isto acontece (como já expliquei aqui) muito provavelmente porque essa pessoa não teve durante o seu desenvolvimento uma boa noção de pertença, de acolhimento e de aceitação. Por isso não cresceu com a capacidade de defender os seus valores e sentimentos nestas situações até porque, a maior parte das vezes, não é fácil terem consciência deles. Assim, procurar este sentimento de pertença a um grupo é a forma de preencher essa ferida que ficou da infância. E estas feridas podem ser tão facilmente originadas por uma educação demasiado autoritária como por uma educação em que não haja autoridade absolutamente nenhuma.

Quando uma criança obedece a um pai ou uma mãe o ideal é que o faça justamente pelo motivo oposto: porque sabe que pertence e que é aceite e acolhida por aquelas pessoas.
Então aquilo que é importante é distinguir a obediência que vem do medo daquela que surge naturalmente apenas porque confiamos nos nossos pais. 
Talvez a palavra obediência seja demasiado forte e com algumas conotações negativas por isso, na verdade, podemos dizer que não queremos que os nossos filhos nos obedeçam mas que confiem em nós e se deixam orientar nos casos em que é necessário que o façam. 

Gordon Neufeld é um psicólogo Canadiano que gosto sempre de citar porque penso que construiu o modelo que mais facilmente nos ajuda a compreender todo o desenvolvimento infantil. O modelo deste autor gira, todo ele, em torno do conceito de apego. Neufeld explica que a criança nasce com um instinto natural para criar uma ligação de apego com as figuras que cuidam de si, que geralmente são os pais. E é com base neste instinto que devemos encarar toda a nossa ligação com a criança.

Então aquilo que é essencial é perguntarmos sempre, em relação a todas as nossas práticas parentais, até que ponto é que elas favorecem ou prejudicam este instinto. Porque se este instinto for posto em causa o que acontece é que quebramos a nossa ligação com a criança e isso irá limitar muito todas as nossas possibilidades de a orientarmos, guiarmos ou de nos fazermos ouvir. Sempre que magoamos a criança, sempre que não a respeitamos ou ignoramos esse instinto acabamos por ferir os seus sentimentos e, se isto acontece demasiadas vezes, a sua única protecção será fechar-se a esse instinto que lhe diz que deveria ligar-se a nós para não voltar a ser ferida. E sempre que isto acontece será muito mais difícil chegar ao coração dessa criança e por isso mesmo será também muito mais difícil que ela se deixe guiar. 

Porque o instinto de apego da criança também lhe diz que precisa de confiar nos seus pais e confiar implicar acreditar no que eles lhe dizem e pedem para fazer. É só a partir desse instinto que podemos fazer com que as crianças nos oiçam de verdade e confiem em nós o suficiente para fazerem o que lhes pedimos mesmo que isso não lhes agrade muito. 

E é importante perceber também que é através deste instinto que a criança pode encontrar a sua tranquilidade. A criança precisa de sentir que os seus pais são capazes de a proteger e orientar. Precisa de sentir que está em boas mãos para se sentir segura e isto implica aceitar que os pais sabem mais que ela e que por isso têm maior capacidade de fazer boas escolhas. Uma criança que não confie nos pais ou que não se sinta orientada por estes também não se se sente protegida e por isso será uma criança ansiosa. Porque a sua natureza lhes diz que precisam de encontrar protecção, para que a criança possa verdadeiramente descansar ela tem mesmo de confiar nos pais e de se sentir ligada a eles. Se isto não acontecer ela estará sempre num estado de alerta, de procura, de busca em que todo o seu organismo lhe diz que não pode descansar, não pode relaxar porque não é seguro fazê-lo. Isto não significa que essas crianças nunca questionem os pais, antes pelo contrário até: se sentem seguras e aceites é muito natural que não tenham receio de questionar, de resistir e de por em causa o que os pais dizem ou fazem mas também é verdade que sabem bem que a última palavra que vale é mesmo a dos pais, especialmente nas coisas que são verdadeiramente importantes. 

Então é importante percebermos que não podemos abdicar do nosso papel de guias se queremos que os nossos filho possam verdadeiramente descansar. Mas também é fundamental que saibamos que guiar nunca poderá ser forçar e é preciso que nos lembremos sempre que a única forma de guiar com eficácia é através do coração. Por isso precisamos de estar disponíveis para ouvir, escutar e acolher de verdade os sentimentos dos nossos filhos. 

3. Espaço para a auto-descoberta

E é importante também que saibamos que o facto de termos a obrigação de guiar os nossos filhos não nos dá o direito de passar por cima dos seus sentimentos e do seu direito de se descobrirem a si próprios como pessoas com gostos e opiniões próprias que podem ser muito diferentes das nossas. 
Por isso precisamos de guiar e orientar apenas naquilo em que é fundamental que o façamos mas sempre com espaço para que a criança, por um lado se manifeste acerca das nossas orientações - o que inclui acolhermos o seu choro, protestos, zangas como manifestações legítimas e autênticas daquilo que a criança está a sentir - por outro lado, dar-lhe espaço para fazer as suas próprias escolhas sempre que isso for possível nos casos em que sintamos que é válido fazê-lo. 

Precisamos também de dar aos nossos filhos algo que hoje em dia falta muito: espaço para brincar livremente porque é nesta brincadeira, livre que as crianças podem descobrir o seu corpo, as suas preferências e tantas outras coisas importantes sobre si próprias e sobre o mundo. 

E esta auto-descoberta só pode surgir se a criança se sentir segura, se sentir que pode explorar à vontade tudo aquilo que sente porque os pais estarão presentes para a ajudar a dar um significado mesmo aos sentimentos mais difíceis. 

Outro aspecto importante para a auto-descoberta passa pela nossa capacidade de espelhar o que a criança nos mostra: de sermos empáticos com os seus sentimentos e receptivos para com todas as suas manifestações. As crianças aprendem a ver-se através dos nossos olhos e quanto mais livre de julgamentos for esse olhar mais libertas elas ficam para descobrir quem verdadeiramente são, livres dos rótulos que tantas vezes é tão fácil colarmos-lhes mesmo sem querer. 

Com tudo isto ficará mais fácil para os nossos filhos descobrirem-se a si próprios e com essa descoberta de uma identidade autêntica e genuína será muito mais fácil crescerem como pessoas que são capazes de saber quem são, o que sentem e o que defendem mesmo nas situações mais difíceis. 

4. A empatia 

Outro aspecto essencial em relação ao estudo em que as pessoas davam choques eléctricos mesmo nos casos em que a outra pessoa gritava e se contorcia com dores é a questão da empatia. Precisamos que as crianças cresçam capazes de sentir empatia e de se colocarem no lugar do outro se queremos evitar que aconteçam novamente situações como as que a segunda grande guerra originou. Então a melhor forma de garantirmos que as crianças mantêm essa capacidade é cuidarmos mais uma vez do seu instinto de apego para que não se sintam feridas, para que não precisem de fechar o coração e de ter medo de sentir empatia e compaixão pelos outros.

Para sentir empatia precisamos, primeiro de não ter medo do que sentimos. Só assim podemos ser capazes de não ter medo de deixar também entrar os sentimentos dos outros, mesmo quando são fortes, pesados e difíceis de enfrentar. A única maneira de garantirmos isso nos nossos filhos é respeitando os sentimentos deles e algo que é fundamental que respeitemos é essa necessidade de sentirem seguros e protegidos por nós enquanto são crianças. 

5. A questão da liberdade

Alguns apologistas da parentalidade consciente criticam os pais que querem que as crianças obedeçam em nome da sua liberdade individual que não deve ser posta em causa desta forma.

Mas a maior liberdade que uma criança poderá ter é a de se sentir protegida e segura com as suas figuras de apego. É isto que lhe dá toda a liberdade necessária para não ter medo de descobrir o mundo e a si mesma. Para não ter medo de explorar dentro e fora de si própria porque sabe que, aconteça o que acontecer, descubra o que descobrir, os seus pais estarão presentes e serão capazes dea acolher, de a ajudar a dar sentido ao que descobriu e de a ajudar a assimilar e ultrapassar todas as descobertas difíceis sempre que for necessário.
A maior liberdade que uma criança pode ter é a de sentir que pode descansar nos braços dos seus pais e que pode sempre ser acolhida por eles seja qual for a situação em que se encontre. A liberdade de os saber sempre presentes e prontos para fazerem aquilo que lhes parece melhor e mais importante para o seu desenvolvimento. A liberdade de crescer a sentir-se amada, apreciada, acolhida e a sentir que pertence de verdade aquela família.

6. A questão da contra vontade 

Gordon Neufeld fala muito de um conceito importante na sua teoria: o da contra-vontade. Esta é uma tendência que a criança tem para se manifestar contra tudo aquilo que sente como sendo uma coerção por parte dos adultos ou de alguém mais forte que ela.

Esta contra vontade, explica Neufeld, surge porque a vontade da criança ainda é muito frágil e precisa de ser protegida para se poder desenvolver. Ele diz que esta é uma espécie de vedação que serve para proteger a plantinha que começa a surgir com as primeiras vontades da criança em desenvolvimento. 
Por isso é que por volta dos dois anos as crianças têm geralmente alguma tendência para responderem não a tudo e para se manifestarem contra tudo o que sentem que lhes querem impor, fazendo birras com mais frequência: porque nesta idade a vontade da criança começa ainda a despontar; aos dois anos as crianças começam a descobrir o mundo e a si próprias e começam a descobrir que têm preferências e opiniões e sentimentos mais fortes em relação a algumas coisas.
Mas isto nesta fase, ainda é tão frágil que a criança fica muito sensível a qualquer acção do adulto, que vê como muito mais forte e que poderia facilmente impor a sua vontade. Por isso reage muito fortemente a tudo o que possa ser sentido como a mais leve imposição.

Então precisamos de respeitar e compreender esta contra-vontade. Compreender também que, regra geral, quanto mais a criança se opõe e reage contra o adulto, mais fraca é a forma como sente a sua própria vontade, por isso precisa de a proteger.

7. A comunidade e o indivíduo 

Nas sociedades ocidentais temos cada vez um tipo de educação que procura promover o individualismo e a independência e há quase uma espécie de obsessão colectiva com a independência das crianças. Mas, a verdade, é que neste tipo de educação acaba muitas vezes por falhar a compreensão de que todos nós precisamos de nos sentir parte de um todo e quanto mais negarmos essa parte em nós mais fácil será a criança crescer com essa espécie de falha e ter necessidade de a procurar nos grupos fora da família, fazendo tudo o que for preciso para se sentir aceite por eles. 

Uma família onde seja valorizada a interdependência e reconhecida a dependência da criança, sobretudo nos seus primeiros anos, será uma família que terá mais hipóteses de criar crianças que se sintam integradas, reconhecidas e que, por isso mesmo, não terão tanta necessidade de se sentir aceites fora da família. O que, por sua vez, lhes permitirá mais facilmente manter os seus valores e fazer valer os seus pontos de vista em todas as situações de grupo. 

8. Conclusão 

O mais saudável para o desenvolvimento da criança não será um tipo de educação em que nunca nada é imposto porque isto poderá ser facilmente sentido pela criança como um vazio de apego, para usar a expressão de Neufeld. Este vazio de apego acontece quando a criança não se sente suficientemente protegida ou acolhida por aquelas que seriam as suas figuras de referência e de apego principal e poderá estar na origem de vários problemas de desenvolvimento, nomeadamente a
ansiedade que é tão comum nas crianças hoje em dia.

Mas uma educação em que tudo é imposto e em que se quer que a criança obedeça sem questionar também não será saudável pela mesma razão: porque põe também em causa o instinto de apego da criança ao fazê-la sentir que a sua natureza não é respeitada ou acolhida.

Aquilo que precisamos de fazer será encontrar algures o caminho do meio em que somos capazes de nos posicionar perante a criança sem receios de sentir que somos a sua figura de referência, somos alguém que é mais velho, mais capaz, que está mais avançado no caminho da vida e que por isso poderá fazer mais facilmente determinadas escolhas importantes mas, ao mesmo tempo, saber que precisamos de ter abertura suficiente para não sobrecarregar o seu espírito, a sua natureza e as suas vontades, dando-lhes tempo e espaço para que se manifestem e acolhendo-as o melhor possível, livres de julgamentos e com todo o nosso coração.