quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Apego, separações, trauma e crimes violentos

Estamos numa altura do ano em que milhares de crianças voltam à escola e em que outras tantas estão a começar pela primeira vez este percurso. E isto traz muitas vezes lágrimas e protestos aos filhos e muitas angústias aos pais. Muitas vezes essas lágrimas são encaradas com naturalidade e fazem-nos crer até que elas são parte essencial do processo de adaptação.

Outras vezes também há quem diga que para evitar essas lágrimas é importante que a criança vá o mais cedo possível para a escola, porque quanto mais cedo se fizer essa adaptação mais facilmente ela acontece.

Também há quem defenda que os pais não podem ficar na sala e que têm que se despedir rapidamente para não prolongarem o sofrimento das crianças.

Mas nenhuma destas afirmações é verdade e todas elas têm por base um grande desconhecimento daquilo que é o funcionamento de um instinto básico e fundamental para o desenvolvimento da criança: o instinto de apego. 

Na verdade temos todos, enquanto sociedade, um grande desconhecimento da forma como este mecanismo funciona e das suas implicações para o desenvolvimento das crianças e da forma como podermos educá-las. No meu livro Mindfulness para Pais, explico de uma forma mais aprofundada a importância deste conceito e a forma como toda a nossa personalidade se molda à volta deste instinto e em função dele. E a forma como é importante compreendermos e reconhecermos a nossa própria história para sermos capazes de respeitar, proteger e nutrir este instinto também nos nossos filhos.

Já foi há mais de 60 anos que Bowlby chamou a atenção para o facto das crianças terem este instinto básico que as leva a estabelecer uma relação única e intensa com a pessoa que cuida delas e foi também ele que observou, pela primeira vez, a forma como a ausência dessa pessoa influenciava o comportamento das crianças. Foi através do trabalho de Bowlby que a presença dos pais passou a ser permitida nos hospitais, por exemplo, quando as crianças precisavam de ser internadas. Antes disso pensava-se que esta presença só servia para atrapalhar os médicos e enfermeiros e até prejudicar o tratamento.

O trabalho dele também foi muito importante para começar a mudar a política das instituições de acolhimento que passaram a reconhecer que era essencial para as crianças ter a possibilidade de estabelecer uma relação preferencial com um adulto cuidador. Porque, como explico no meu livro, as crianças a quem isto não era permitido não tinham um desenvolvimento normal e até apresentavam uma taxa de mortalidade muito superior ao que seria esperado.

Mas, mesmo que tenha havido uma grande evolução na forma como entendemos as crianças, ainda assim continua a haver um desconhecimento geral do impacto que tem este instinto em que tudo o que fazemos com as nossas crianças incluindo a entrada na escola. 

Há pouco tempo vi um um novo vídeo de uma criança que esteve separada dos pais pelas políticas do Donald Trump em relação aos imigrantes, de que já falei aqui. Este vídeo demonstra bem como este desconhecimento pode ser prejudicial e como é importante educar os pais e a sociedade em geral para a importância deste instinto de apego e para a forma como ele se manifesta e para as consequências que existem quando ele não é respeitado. 

Em primeiro lugar é óbvio que, se este instinto fosse compreendido e respeitado este tipo de políticas nunca existiria. Mas depois é preciso perceber o que acontece quando se separa uma criança pequena dos pais. Uma criança pequena está programada para se manter perto dos seus pais e em sítios familiares. Todas as crianças saudáveis, quando são pequenas, mostram alguma relutância em falar com estranhos, em estar ao colo deles ou em ser tocadas ou abraçadas por pessoas estranhas. Podem demonstrar isto de forma mais ou menos intensa, mas é natural e saudável que o demonstrem, ao contrário daquilo que tantas vezes nos dizem. Porque uma criança pequena não sobreviveria sem os seus pais a natureza certificou-se que isto estava bem incutido nos seus genes e na sua programação inata. Por isso instinto é mesmo a palavra certa: porque não é aprendido, nem pensado, nem adquirido. Todos os bebés nascem com um instinto básico de estabelecer relações com as pessoas que cuidam se de si. E há vários indícios que o demonstram: como a preferência que todos os bebés têm por caras humanas, como a capacidade de o recém nascido reconhecer o cheiro do leite da sua mãe, como o sorriso que surge entre as 6 e as 8 semanas e começa por ser dirigido a qualquer pessoa mas que, com o tempo, passa a aparecer apenas com as pessoas a quem o bebé se sente ligado, ou a necessidade de colo que todos os bebés demonstram com maior ou menor intensidade, isto para dar apenas alguns exemplos.

Então, este instinto faz com o que o bebé e a criança procurem aprofundar a relação com os seus pais, ou com as pessoas que cuidam de si ao mesmo tempo que também lhe diz que é mais seguro manter-se em sítios que sejam familiares e conhecidos. 

Por isso sempre que a criança está num sítio desconhecido é activado o seu sistema de alerta e a única forma de desligar esse sistema de alerta é através da presença dos pais, ou de outra pessoa com quem haja uma relação de apego, que faz com que a criança se sinta segura novamente. 

Então isto quer dizer que, na ausência de uma figura de apego para a criança, esse estado de alerta que acontece num sítio novo ou desconhecido, não irá desaparecer. Mas ninguém aguenta ficar em estado de alerta durante muito tempo, porque isto tem um custo demasiado elevado para o organismo. Este estado provoca uma série de alterações fisiológicas que podem provocar danos quando são mantidas por demasiado tempo, como acontecia no caso desses bebés em instituições, que morriam mesmo por não terem com quem estabelecer relações.

Então, uma forma de lidar com isto é desligar esse alarme, como mecanismo de defesa. Mas a única forma de desligar o alarme é desligar também o instinto de apego, que é a origem do alarme neste caso. 

Esse vídeo (que pode ser visto aqui ) mostra um rapaz de 3 anos que esteve separado da mãe durante alguns meses bem como a sua irmã bebé. A irmã bebé está ao colo do pai e não parece mostrar grande interesse em estar ao colo dele, como se não o reconhecesse. Mas com o rapaz de quatro anos o que se passa é ainda mais impressionante: a mãe chora e quer agarrá-lo para o beijar, mas o rapaz recusa-se a deixá-la agarrá-lo e afasta-se fugindo dela. Isto deixa a mãe desesperada e sem compreender bem o que se passa com ele.

Há um filme de 1952 que se tornou histórico e mostra uma criança de 2 anos que foi internada num hospital, durante oito dias sem a presença dos pais que só podiam visitá-la, durante uma ou duas horas por dia. A pequena Laura nesse vídeo mostrou justamente o que acontece nestes casos: primeiro há o desespero da criança que sente esse estado de alarme e não pode fazer nada para o neutralizar porque não tem a presença dos pais, depois a criança entra numa espécie de conformismo que começa com uma atitude de tristeza e de apatia em que a criança está como que a desligar-se dessa parte de si própria e depois disso pode até portar-se como se não se tivesse passado nada e voltar a parecer alegre e até com um certo grau de tranquilidade. Se a ausência não for demasiado grande, a criança pode voltar a mostrar interesse em estar com os pais e volta a ficar desesperada quando eles partem, era o que acontecia com a pequena Laura. Mas, ao final de uma semana no hospital, quando os pais finalmente vêm buscá-la para voltar para casa o que se vê é a pequena Laura a andar atrás dos pais, sem procurar o contacto físico com eles e sem sequer se mostrar muito interessada em voltar para casa ou em estar com eles. Isto quer dizer que ela já tinha desligado completamente esse instinto e por isso já não mostrava nenhum interesse em estar com pais. E foi justamente isso que aconteceu também com este outro menino do vídeo. 

Porque é que é importante que os pais saibam isto ? 

Primeiro porque isso ajuda a que percebam que a criança não está simplesmente zangada e pode nem sequer estar consciente de que desligou essa parte de si. Isto pode ajudar também os pais a que não se sintam tão frustrados ou impacientes ou inseguros, quando a separação não foi da sua responsabilidade ou quando não tiveram como evitá-la.

Depois porque compreendendo isto também nos permite dar tempo à criança para ser capaz de reactivar esse instinto, nos casos em que lhe é possível aprender a deixar de ter medo de voltar a confiar nos adultos. Ou, nos casos em que as coisas tenham sido mais graves e mais intensas, compreender que isto é um verdadeiro trauma e que pode ser precisa ajuda profissional para lidar com ele.

Quando um pai ou mãe não compreendem aquilo que se passa com os filhos, a sua própria frustração pode fazer com que se tornem mais impacientes com eles ou que pensem que eles precisam de uma atitude mais dura ou firme e, na realidade, isto pode ajudar ainda mais a acentuar esse trauma e a piorar a situação.

Bowlby falava também de algumas experiências feitas com macacos, de que já falei aqui em que os macaquinhos eram separados das suas mães e apresentavam algumas alterações no seu sistema de resposta ao stress, tornando-se mais receosos, desconfiados e contidos nas suas explorações mesmo depois de terem sido novamente reunidos com as mães. E, nestes casos, aquilo que se verificou foi que o fazia a diferença na forma como os macacos pareciam ter ficado afectados por esta ausência era o comportamento da mãe quando voltavam a estar juntos: quando as mães eram capazes de aceitar e de acolher as suas manifestações de insegurança e as suas modificações de comportamento, estes apresentavam menos alterações do que quando as mães pareciam esperar que eles se portassem como se não se tivesse passado nada. Podemos extrapolar isto para os seres humanos. Neste caso, é claro que não é essencial termos um conhecimento da forma como o instinto de apego foi afectado pela separação, mas este conhecimento pode ser importante para nos ajudar a sentir mais confiança para saber o que precisamos de fazer para ajudar a criança a ultrapassar o trauma. 

Na verdade há outra caso da actualidade que também toca neste tema e que também demonstra como é importante o reconhecimento deste mecanismo e da forma como ele influencia todo o comportamento futuro da criança. O caso que tem sido tão falado da filha adoptiva que matou a mãe que a adoptou. Este caso tem chocado a opinião pública e há uma certa incompreensão geral de como é que uma criança que foi acolhida com tanto amor pode ter depois ter feito uma coisa destas à mulher que a acolheu. E nestes casos há uma certa tendência para pensar que existe algum tipo de maldade inerente que terá vindo com os genes ou coisa parecida naquela pessoa e que nada do que se tivesse passado com ela faria diferença.

Mas não acredito nisto. Acredito que a mãe que a adoptou o tenha feito com a melhor das intenções e que tenha sido uma excelente mãe. Na verdade não sei quase nada sobre a história de ambas, apenas aquilo que foi possível ler na comunicação social e que não diz quase nada sobre o lado mais íntimo ou pessoal das suas histórias, como é natural. Mas, mesmo partindo do princípio que a mãe dela tenha sido excelente, amorosa e boa cuidadora há um aspecto essencial nesta história que é facto daquela mulher ter sido adoptada aos cinco ou aos nove anos (já li as duas versões) e de ter vivido por isso os seus primeiros anos numa instituição. Isto quer dizer que há toda uma história por trás, que não faço ideia de qual tenha sido, mas que não pode ser ignorada. E tenho a certeza que essa história terá muita negligência ou maus tratos pelo meio. E essa negligência não tem necessariamente de estar ligada a maus tratos ou a fome nem a nenhum tipo de miséria material. Basta que em bebé, nos seus primeiros tempos de vida, não tenha havido um adulto de referência que a fizesse sentir-se segura e que a ensinasse a amar. Porque o apego é um instinto é verdade, é a partir dele que aprendemos a amar, mas para isso é preciso que esse instinto não precise de ser desligado, é preciso que sejamos capazes de continuar a dar-lhe ouvidos, é preciso que ele não seja uma fonte de sofrimento e de alerta e que não seja constantemente posto em causa. Só assim, é que através desse instinto podemos aprender a amar. E só se aprendemos a amar se tivermos sido amados.  E se isso não for aprendido nos primeiros anos da infância é possível que nunca venha a sê-lo. 

Por isso é que é importante que tenhamos um conhecimento informado sobre o apego e os seus mecanismos e é importante que saibamos reconhecer quando é importante pedir ajuda se alguma coisa acontece que possa perturbar este mecanismo de forma demasiado intensa. 

Porque sem este conhecimento o amor pode não ser suficiente para ajudarmos os nossos filhos a crescer com toda a confiança e segurança de que eles precisam. Com este conhecimento talvez esta mãe adoptiva pudesse ter ajudado a filha a  lidar com o trauma que certamente viveu nos seus primeiros tempos de vida. Sem este conhecimento a mãe emigrante do rapazinho de quatro anos pode pensar que o seu filho ficou simplesmente zangado ou até mal educado com o tempo de separação que viveu e pode acreditar que precisa de ser apenas mais dura com ele para que volte a ser um rapazinho mais afável e simpático, o que provavelmente só fará com que ele se afaste ainda mais. Sem este conhecimento podemos também pensar que para por os nossos filhos na escola é preciso deixá-los chorar ou que quanto mais cedo forem melhor será. 

Porque sem este conhecimento não percebemos que é natural que eles fiquem em alerta num sítio estranho com pessoas desconhecidas e que somos nós as únicas pessoas que podem ajudá-los a sair deste estado de alerta. 

É a primeira vez na história que entregamos os nossos filhos aos cuidados de estranhos, em sítios desconhecidos diariamente. E fazemos isto sem a mínima consciência do impacto que poderá ter e da forma como é anti-natural o que lhes estamos a pedir. Então a única forma de tornarmos isto menos prejudicial é pensar que eles estão programados para ficar com pessoas com quem se sentem seguros e isto só acontece se elas forem conhecidas e em sítios familiares. Por isso temos de ficar com eles e ser os agentes de transferência desse instinto: fazer com que os adultos que vão ficar com eles deixem de ser estranhos, mostrando que podem confiar neles. A forma de fazer isto naturalmente é deixando que nos vejam a interagir e conversar com eles, mostrando que gostamos e confiamos neles. porque os nossos filhos, quando tudo está certo, também estão programados para nos imitar e seguir o que fazemos. 

Compreender este mecanismo também nos ajuda a perceber que quando uma criança pequena desata a chorar quando os pais a vão buscar à creche por exemplo, significa que está a descarregar todo aquele stress e estado de alerta que sentiu durante o dia com as pessoas com quem se sente segura e que isto mostra, por um lado, que a creche ainda não é um local seguro e por outro que apesar de tudo também ainda não é tão ameaçador que a tenha obrigado a desligar esse instinto de vez. 

Compreender o instinto de apego também é importante para uma mãe ou um pai que precisam de se ausentar por alguns dias quando têm uma criança pequena. Porque nos permite ver com outras luz todas as alterações de comportamento que irão com certeza surgir com a nossa volta. E permite-nos também ter a capacidade de o ajudar a lidar o melhor possível com tudo que possa ter surgido nessa ausência.

É à luz deste mecanismo que também precisamos de olhar para os castigos e as palmadas para conseguirmos compreender as suas verdadeiras consequências, como já expliquei aqui

Porque é através deste instinto de apego e da sua compreensão que parte a nossa capacidade de criar filhos verdadeiramente resilientes e capazes de enfrentar os desafios. Porque este instinto é a verdadeira base da nossa força interior e o ponto até que somos capazes de o preservar e manter intacto é também o que faz toda a diferença na nossa capacidade de lidar com as adversidades e até de tirar partido delas ou de nos tornarmos simplesmente vítimas das circunstâncias. É a capacidade de amar que nos torna humanos, é o amor que dá sentido à vida e é só a partir dele que podemos construir vidas verdadeiramente felizes e realizadas. Mas sem este instinto de apego não podemos aprender a amar. Sem este instinto não somos capazes de nos tornar verdadeiramente humanos. 

Não acredito em pessoas más que tiveram infâncias boas. É verdade que existem algumas perturbações neurológicas que não têm nada a ver com infância da pessoa. O autismo, por exemplo, durante muito tempo pensou-se que tinha a ver com a frieza dos pais e hoje sabe-se que é uma desordem neurológica e uma perturbação na forma como o cérebro se desenvolve embora não se saiba ainda porque é que acontece. Mas a verdade é que estas perturbações na grande maioria das vezes não estão associadas a crimes violentos nem áquilo que chamamos de maldade.

Essa maldade e as pessoas a quem chamamos de psicopatas basicamente são pessoas sem a capacidade de amar e isto só pode acontecer numa pessoa que nunca se sentiu amada. E é preciso percebermos que, para uma criança, ser amada ou sentir-se amada são duas coisas diferentes. Todos os pais amam os filhos mas nem sempre sabemos demonstrá-lo da melhor maneira.

Este meu livro serve também para nos ajudar a perceber a melhor forma de comunicar esse amor aos nossos filhos e a melhor forma de sermos capazes de proteger e honrar esse instinto de apego tão importante que podemos mesmo dizer que forma a pedra basilar da nossa humanidade, porque, como também explico no livro, é à sua volta que toda a nossa personalidade se forma e é a forma como ele nos estrutura que também defina a nossa maneira de estar no mundo e de nos relacionarmos com os outros e até connosco próprios.  



segunda-feira, 25 de junho de 2018

Crianças separadas dos pais e política de coração fechado

Nas notícias ultimamente o mundo tem assistido em choque ao que os E.U.A têm vindo a fazer com a sua política de imigração que separa pais e crianças, pequenas ou grandes.  Muitos psicólogos, pediatras e investigadores nas áreas do apego e do stress têm-se manifestado contra a gravidade desta política e aproveitado para tentar explicar a gravidade e o impacto que podem ter este tipo de situações, como se pode ler neste artigo, da conhecida Psychology Today, assinado por quarenta investigadores desta área.


É muito importante percebermos as consequências deste tipo de políticas porque se é chocante  para todos ver uma criança a chorar porque está num sítio estranho, ameaçador sem os seus pais é muito importante que percebamos que, infelizmente, as consequências de um trauma deste tipo não irão acabar quando a criança voltar a estar com os pais e podem mesmo prolongar-se por toda a sua vida.

Já há algum tempo que vários investigadores e teóricos do desenvolvimento defendem que, para uma criança, é mais importante a necessidade de se sentir ligada a um adulto que cuide de si do que a própria necessidade de alimento que, até aos anos 50 se acreditava ser a mais importante. Isto faz  todo o sentido se pensarmos que, para um bebé humano se alimentar ele precisa de ter uma ligação com um adulto que se preocupe e se importe consigo o suficiente para lhe dar esse alimento com a frequência necessária e também precisa de manter essa ligação para ter alguém que cuide das suas necessidades físicas mais básicas, como manter-se limpo, quente e num ambiente protegido.

Por isso todo o instinto dos bebés e crianças lhes diz que precisam de estabelecer essa ligação que acontece com as pessoas que cuidam de si durante a maior parte do tempo. E esse mesmo instinto também lhes diz que, sobretudo em situações de perigo, é a essas pessoas que precisa de recorrer e que são essas pessoas as responsáveis por manterem a sua integridade física e por lhe darem o sentimento de conforto e de protecção de que necessita. Se, por algum motivo, a criança ou o bebé sente essa ligação ameaçada ou se sente que alguma coisa do exterior o pode estar a colocar em perigo todo o seu organismo entra num estado de alerta que, se se prolongar por muito tempo, se torna naquilo a que chamamos o stress tóxico, que causa vários prejuízos à sua saúde e que prejudica e limita muito todo o seu desenvolvimento neurológico e cerebral.

É também este instinto de apego que diz às crianças que quando estão em sítios estranhos devem procurar a protecção dos seus pais, para se sentirem seguras. E é isso que qualquer criança saudável demonstra claramente no seu primeiro dia de escola ou em tantas outras situações estranhas: que quer ficar junto daqueles com que se sente segura e a quem está mais ligada.

O que é que acontece às crianças em situações tão traumáticas como esta?

Aquilo que pode ser observado nestes casos é que uma criança saudável e segura começa  por protestar com todas as suas forças, activando o seu instinto de apego, na tentativa de fazer com que os seus pais a oiçam e respondam aos seus protestos fazendo-a sentir-se novamente protegida. O choro é um mecanismo que tem como finalidade fazer com que os pais reajam e respondam à situação, preenchendo assim as necessidades da criança.

Mas, se não há uma resposta a esse choro, então ele não está a cumprir a sua finalidade. Por isso, com o tempo esses protestos vão diminuindo de intensidade e, se esta situação se prolongar, acabam mesmo por desaparecer. O que não quer dizer que desapareça o estado de alerta. De um ponto de vista fisiológico a criança pode continuar num estado de alerta e de activação mas o choro passa a ser um desperdício de energia, se não se obtém resposta, e o organismo, sobretudo em alturas de tensão, precisa de conservar ao máximo essa energia para garantir a sua sobrevivência.

E isto é o que muitas vezes faz com que os adultos pensem que a criança está a aprender a lidar com a situação: o facto do choro, a manifestação mais visível de sofrimento, começar a desaparecer ao final de algum tempo. E, na realidade, a criança até parece tornar-se mais autónoma, independente e pode até dar um falso ar de segurança que pode enganar um olhar menos atento. Isto porque a criança tenta a todo o custo adaptar-se à situação para conseguir sobreviver. Mas esta adaptação tem um custo: ela precisa de se desligar dos seus sinais de alarme. Porque enquanto estes estiverem ligados, com toda a sua intensidade, ela não vai ser capaz de fazer mais nada e isso pode por em perigo a sua sobrevivência. Acontece que a única forma eficaz de desligar esse alarme seria a presença dos pais, que podem trazer de volta o sentimento de segurança. Mas, sem essa presença, já que não há forma de desligar eficazmente esse alarme então, tudo o que resta, é tentar ignorar os seus sinais. Mas para isso a criança também tem de desligar a parte de si que se sente ameaçada e que sabe que precisa de manter essa ligação com os pais. Porque se continuar a estar sempre consciente dessa falta, desse instinto de apego que não está a ser satisfeito mantém-se a frustração que se torna demasiado intensa para lhe permitir lidar com o que quer que seja para além disso. Então, a única forma de uma criança lidar com uma separação demasiado prolongada é desligar a sua consciência dessa parte de si que sabe que precisa de manter a ligação com os pais ou com as suas figuras de apego.

Por isso o que acontece nestes casos, quando a ausência destas figuras foi demasiado dura ou demasiado longa para a criança, é que - quando ela volta a reunir-se com as suas figuras de apego - já há um distanciamento ou um desinteresse da sua parte nesta reunião. Quando a ausência foi difícil mas não tanto que ela precisa de se desligar desses sentimentos o que pode acontecer é que a criança, ao ver o pai ou a mãe, desata num choro intenso como se fosse uma espécie de descarga. Isto acontece muitas vezes quando os pais vão buscar os filhos à creche e é apenas sinal de que aquela ausência foi dura para a criança e de que ela não tinha um ambiente seguro onde pudesse aprender a lidar com essa tensão, mas ainda é relativamente fácil reparar essa situação, porque a criança ainda não se desligou do que está a sentir e ainda o demonstra procurando o colo dos pais para chorar.

Mas, quando a dor dessa ausência foi tão grande que ela precisou de desligar essa parte de si que estava a sofrer com essa ausência, isto quer dizer que não será fácil para a criança reactivar essa parte de si, voltar a abrir o seu coração e voltar a confiar nos pais. Vi um vídeo de um menino da Guatemala, que deveria ter uns quatro ou cinco anos e esteve separado da mãe durante algumas semanas nos E.U.A, por causa desta política. Quando finalmente se reencontraram a mãe chorou e abraçou-o repetindo várias vezes que o amava e que não iriam voltar a separar-se. O menino pareceu deixar sair algumas lágrimas (apenas porque se vê a mãe a limpar-lhe o rosto) mas não abraçou a mãe, não chorou intensamente como ela e não disse nada enquanto era abraçado. Um pouco mais tarde vê-se na filmagem a criança a ser levada pela mão de outra pessoa, com um ar triste mas, ao mesmo tempo, quase apático, enquanto a mãe seguia atrás dele, ainda com um ar emocionado e os olhos cheios de lágrimas. Os jornalistas que filmaram esta cena, comentavam o comportamento da criança dizendo que estava tão bem comportado e tão calmo.

Este pequeno vídeo demonstra bem como a criança foi afectada por esta separação: ela foi tão dura que ele já nem conseguia abrir o seu coração para chorar por tudo o que tinha passado. Já não conseguia sentir-se suficientemente seguro para chorar, nem sequer com a própria mãe. Já não conseguia sequer lembrar-se de que esse seu instinto de apego existia e por isso já quase lhe era indiferente estar com a mãe ou com um estranho. Se assim não fosse ele não se deixaria levar calmamente pela mão por outra pessoa enquanto a mãe caminhava atrás de si, por exemplo. É possível que com o tempo, se mãe for capaz de acolher a ferida enorme daquela criança, ela consiga reparar um pouco a situação. Mas não há dúvidas de que aquele menino foi seriamente abalado na sua capacidade de confiar nos outros, no mundo e em si próprio. E a verdade é que, se não tivermos consciência do enorme impacto que este tipo de separação pode ter numa criança, pode ser muito difícil também para os pais lidar com todas as alterações de comportamento que irão com certeza surgir. O que, por sua vez, só irá servir para acentuar ainda mais todos os efeitos do trauma.

Estudos com macacos bebés, de que já falei aqui, mostram como a ausência da mãe, mesmo quando tudo o resto se mantém, cria uma fragilidade que pode fazer com que as crias passem a ter maior dificuldade em lidar com os desafios e com o stress ao longo da vida.

Investigações feitas na Finlândia também demonstraram isto: durante a segunda guerra mundial houve varias crianças que foram separadas dos pais. Investigações posteriores mostraram que as crianças que foram levadas para longe da família, sofreram mais danos na sua saúde mental, do que aquelas que ficaram e tiveram de enfrentar todos os horrores e dificuldades da guerra. A grande diferença nestes casos é que as que ficaram, até podem ter passado mais dificuldades materiais e ter sido expostas a situações mais violentas mas tinham o mais importante para conseguir lidar com isso: a relação com os pais. É essa relação o amortecedor mais importante em todas as situações de stress e é dela que precisamos de cuidar antes de tudo o resto. 

A triste ironia desta situação é que o próprio Trump foi com certeza vítima de uma infância em que as suas necessidades de acolhimento, protecção e segurança não foram tidas em conta. Não conheço a história dele mas conheço o suficiente sobre o desenvolvimento humano para perceber que o coração dele também se fechou algures no tempo, não sei se por causa de um trauma muito intenso ou por causa de várias situações traumáticas que se terão repetido com frequência na sua vida. Na verdade é isto o mais comum nestes casos: pode não haver nenhuma situação muito marcante na vida das crianças mas vão existindo várias situações diárias em que a criança se sente negligenciada, não reconhecida, em que vê a sua ligação com as suas figuras de referência ameaçada. Esta ameaça pode ser real, como  no caso destas crianças separadas, ou pode ser apenas uma sensação que a criança tem de que os pais não são capazes de a aceitar como é, ou que não são capazes de a proteger, de a manter segura. E são estas situações que vão deixando marcas tão fundas ao ponto de ser possível observar as diferenças no desenvolvimento cerebral, nos estados de activação fisiológica - sobretudo em situações de desafio - mas, mais importante, na forma de lidar com os outros e  na capacidade de estabelecer boas relações.

É claro que para os pais também é traumático ficar sem os filhos. A grande diferença é que, primeiro, os pais não precisam dos filhos para se sentirem protegidos e, segundo, o seu organismo já não está em desenvolvimento. As crianças ainda estão em formação, por isso, tudo o que acontece, sobretudo nos primeiros anos de vida, tem um impacto muito maior do que nos adultos e determina a forma como o seu organismo se desenvolve e a sua personalidade se molda.

Uma criança que cresceu sem ter oportunidade de confiar nos outros é também uma criança que cresce sem perceber que é essa a nossa maior riqueza: a relação que temos e construímos com as outras pessoas. Por isso é muito fácil que essa criança se torne num adulto narcisista e materialista em que as pessoas são vistas apenas como meios para atingir um fim. Porque algures na sua história essa criança foi forçada a fechar o seu coração aos sentimentos e a desvalorizar todo o tipo de relacionamentos.

Por isso é mesmo tristemente irónico que este tipo de políticas, acabem por dar origem a pessoas como Donald Trump, ou a pessoas que o apoiam, numa espécie de ciclo vicioso que pode continuar para sempre se não tivermos consciência dos seus efeitos. Porque a única forma de construirmos um mundo justo é percebermos que precisamos de respeitar as crianças de hoje. Porque uma criança que é obrigada a fechar o seu coração será um adulto com muita dificuldade de o abrir. E um adulto que não abre o coração é um adulto que não sente empatia e sem ela fica muito difícil deixar-se tocar pelo sofrimento dos outros, principalmente quando este colide com os seus próprios interesses egoístas. 

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Bullies, emoções e stress

Na escola do meu filho, esta semana, falámos de bullying. Este é um fenómeno cada vez mais presente nas escolas e na vida dos nossos filhos, infelizmente, por isso é importante compreendê-lo. Uma das coisas em que acredito cada vez mais é que o mais importante não é tanto ficarmos focados em como é que as crianças devem lidar com isto mas em como é que nós, adultos, podemos fazer com que isto deixe de acontecer. Somos nós, adultos que precisamos de compreender e de encontrar estratégias para lidar com estas coisas quando elas acontecem e não propriamente as crianças. Na verdade, acredito que, se nós, enquanto adultos, soubermos cumprir o nosso papel e tivermos a consciência e a segurança necessária para o fazer, estas situações não acontecerão com tanta facilidade e passo a explicar porquê. 

A educação emocional e o stress tóxico

A questão da educação emocional surge muitas vezes quando se fala neste tema, como se fosse uma forma de o resolvermos.
Hoje fala-se cada vez mais em inteligência emocional e há uma certa tendência para acharmos que, assim como as outras inteligências são treinadas na escola, também esta poderia ser se houvesse abertura por parte dos professores e outros responsáveis para construir programas mais vocacionados para as emoções. Na verdade, a Psicologia Positiva veio demonstrar que a inteligência emocional é bem mais importante para o sucesso do que aquele tipo de inteligência mais racional ou intelectual que é medida pelo Q.I.

E uma boa parte da inteligência emocional passa por sermos capazes de identificar o que sentimos, na altura em que o sentimos e por sermos capazes de dar nomes aos nossos sentimentos. Há estudos que demonstram que o simples facto de aprendemos a nomear o que sentimos nos ajuda a lidar melhor com as emoções e a ser mais capazes de enfrentar os desafios e de lidar com as emoções mais intensas e difíceis.

Então, seguindo esta lógica, é natural que pensemos que será útil ensinar as crianças a reconhecer e a nomear aquilo que sentem. Só que há um problema nesta lógica: para entrarmos em contacto, de verdade, com as nossas emoções precisamos - todos, adultos e crianças - de nos sentir em segurança. Se uma criança se sente insegura ou ameaçada de algum modo, ela entra num modo defensivo que bloqueia o acesso às suas emoções e sentimentos. 

Quando nos sentimos inseguros ou ameaçados entra em funcionamento o nosso sistema nervoso simpático que liga a resposta de luta ou fuga que, por sua vez, desliga a nossa capacidade de entrar em contacto com os sentimentos ou emoções mais profundas porque esta é uma resposta de emergência que nos coloca num estado de alerta em que ficamos muito mais focados em encontrar soluções imediatas para as potenciais ameaças que possam surgir. E, neste estado de alerta não é possível entrar em contacto com emoções mais intensas ou profundas porque elas podem funcionar como uma espécie de bloqueio: quando sentimos muita tristeza, frustração ou medo ficamos sem vontade de lidar com mais nada e com muito menos capacidade de lidar com os desafios. Por isso a natureza certificou-se de que o nosso sistema de resposta ao stress desliga a capacidade de sentir estas emoções, porque, em situações de emergência, não podemos dar-nos ao luxo de ficar paralisados pela tristeza ou frustração já que precisamos de reagir e de responder às ameaças que possam surgir. 

Acontece que as crianças, por natureza, são seres dependentes. As crianças nascem com um instinto de apego, que lhes diz que precisam de manter uma boa ligação com, pelo menos um adulto capaz de as acolher e respeitar, para poderem sentir-se seguras.  Então sempre que uma criança sente que essa ligação não existe ou que ela está em perigo isto dá origem a sentimentos muito intensos de angústia, de frustração e de medo que são difíceis de enfrentar. Se estes sentimentos surgem repetidamente, como acontece quando a criança se sente frequentemente rejeitada, magoada ou negligenciada pelas pessoas que cuidam dela, então ela passa a estar constantemente exposta ao que podemos chamar stress tóxico que, por sua vez, a faz ficar de forma quase constante num estado de alerta. Este estado de alerta faz com que ela se desligue desses sentimentos de tristeza ou medo mas também faz com que ela se desligue do seu instinto de apego, porque este está a ser uma fonte constante de sofrimento. Assim, a criança passa a viver num modo defensivo permanente que pode ser observado em vários comportamentos associados à ansiedade. Embora, nos casos mais graves, essa ansiedade já nem se veja porque já foi também ela desligada porque era tão grande que a criança precisou de activar o estado seguinte que está associado a uma resposta de congelamento que, algumas vezes, pode ser confundido até com uma falsa independência ou autonomia. (Explico de forma mais aprofundada estas questões no meu livro, Mindfulness para Pais, sobretudo no capítulo
dedicado à teoria Polivaga).

Infelizmente vivemos numa sociedade em que as crianças são expostas a uma separação das suas figuras de apego muito maior do que aquela com que estão preparadas para lidar, porque passam muitas horas na escola e porque, muitas vezes, os métodos de disciplinar e de educar também acabam por estimular esse sentimento de separação, como já expliquei neste artigo e também neste.

Isto quer dizer que, nas escolas, o mais frequente é que as crianças, sobretudo as mais novas, estejam nesse estado de alarme e de defesa que já não lhes permite entrar em contacto com o que estão a sentir, porque passam o dia longe dos pais e, na maior parte dos casos, não há um outro adulto que possa ser uma figura de apego ou que possa estabelecer com elas uma relação segura.

Então, na verdade, as escolas, tal como funcionam nos nossos dias, não são o melhor sítio para falar de educação emocional porque não adianta falar de emoções a uma criança que não se sente segura o suficiente para as vivenciar. É importante falar sobre emoções com as crianças, sim, mas só faz sentido fazê-lo no contexto de uma relação segura, em que a criança não tenha receio de abrir o coração e de olhar de verdade para dentro de si e para o que possa sentir. E isto, infelizmente, é difícil de acontecer na maioria das nossas escolas, por várias razões mas também porque o número de alunos é quase sempre demasiado elevado para que os adultos possam ter verdadeira disponibilidade para construir essas relações com eles.

O desenvolvimento do cérebro e as emoções

Outra coisa que é essencial para uma verdadeira educação emocional é que a criança se torne capaz de reflectir sobre aquilo que sente. Na verdade é isto que nos distingue dos animais: eles também têm emoções mas não são capazes (tanto quanto sabemos) de pensar sobre elas. As crianças também têm, desde que nascem a capacidade de sentir as suas emoções mas, só com o tempo é que vão aprendendo a reflectir sobre elas.

Mas, para que isto seja possível, é preciso que se desenvolva uma parte específica do nosso cérebro: o cortex-pré-frontal, que é característico dos seres humanos e que é também a última parte do cérebro a desenvolver-se. Esta zona do cérebro só começa o seu desenvolvimento a partir dos seis anos de idade e acredita-se que continua até cerca dos vinte e quatro ou vinte cinco anos de idade. Na verdade, há muitos adultos que ainda não desenvolveram bem essa zona. Porque para que esta  se desenvolva da melhor forma a criança não pode ser demasiado exposta aos tais níveis de stress tóxico que já se sabe que prejudicam o desenvolvimento de algumas áreas do cérebro, nomeadamente desta. Na verdade, a natureza é sábia e o desenvolvimento desta zona não é crucial para a nossa sobrevivência. Por isso, quando a criança é exposta a demasiado stress é como se o seu organismo precisasse de conservar toda a sua energia para enfrentar as ameaças e não sobrasse a energia necessária para o desenvolvimento de tudo o que não seja essencial à vida.

A única forma desta zona desenvolver todo o seu potencial é através desse sentimento de segurança que se gera quando a criança se sente segura e acolhida pelas suas figuras de apego. É só através desse relacionamento que ela poderá realmente aprender a lidar com as emoções e a pensar sobre elas e é isso que irá permitir um bom desenvolvimento desta zona que, por sua vez, também irá facilitar esta tarefa.

Sabe-se até, como  já expliquei aqui e aqui que um fraco desenvolvimento desta zona pode estar na origem de uma condição cada vez mais comum: o défice de atenção.

Se queremos ajudar a criança a pensar sobre as suas emoções sem nos preocuparmos com as condições físicas para que ela o possa fazer - que dependem da segurança das suas ligações com as figuras de apego - é o mesmo que começar a fazer uma casa pelo telhado: não há nenhuma base para sustentar o que queremos transmitir-lhes. 

A personalidade do Bully 

Gordon Neufeld de quem falo muito aqui porque a teoria que ele construiu é realmente o modelo de desenvolvimento mais completo que conheço, fala também do bullying e do tipo de crianças que o faz. Ele explica que o que está na base deste tipo de comportamento é aquilo a que ele chama o instinto alfa. Este instinto alfa existe em todos nós, mas pode ser um pouco mais forte em algumas pessoas do que noutras. Este instinto está ligado a uma noção de hierarquia que nos faz estar atentos às fragilidades dos outros e adoptar uma postura de dominância quando as identificamos. Neufeld fala numa hierarquia natural, numa dança que acontece naturalmente: no nosso dia-a-dia de adultos, vamos alternando entre uma posição de dependência e de dominância, consoante as situações. Isto quando tudo está bem, quando existem problemas pode acontecer que se gere uma rigidez em que, por vezes, acabamos por ficar presos num ou noutro papel. Este é o caso dos bullies que vivem nesta rigidez e acabam por ficar presos na posição de dominância.

Numa relação de educação, entre pais e filhos ou alunos e professores é muito importante que os pais permaneçam na posição alfa, e os filhos fiquem na posição de dependência, pelo menos durante a maior parte do tempo, porque só assim é que será possível orientá-los e só assim é que eles podem descansar de verdade. Porque estar sempre na posição alfa é muito cansativo, então, se queremos que as crianças descansem e relaxem de verdade é essencial que elas sejam capazes de assumir o seu papel de dependentes connosco e que estejamos preparados para assumir o nosso papel de guias. Hoje em dia há muito quem diga que devemos encarar as crianças como nossos iguais, mas isto não é verdade. As crianças precisam de se sentir cuidadas e protegidas e não podem senti-lo se nos colocarmos ao mesmo nível que elas. 

Elas precisam de sentir que nós, enquanto pais, somos capazes de assumir o controlo e só assim é que elas podem descansar de verdade. Neufeld tem uma expressão muito bonita que diz que precisamos de fazer com que as crianças descansem no nosso amor. E uma criança só descansa quando se sente protegida. Se não se sentir segura e protegida ela está sempre em modo de alerta, com toda a activação do sistema simpático que impede um verdadeiro descanso e que está relacionada com tantos problemas de ansiedade que vemos nas crianças de hoje em dia.


Então, quando uma criança não se sente protegida, uma das defesas que ela tem é justamente activar esse instinto alfa e é aqui que surgem aquelas crianças que geralmente chamamos mandonas ou pequenos tiranos. Aqui a criança está a tentar assumir o controlo, porque sente que ninguém está a ser capaz de cuidar de si como deveria. Acontece que, quando este instinto alfa está activo mas existe um desenvolvimento saudável, ele surge associado à vontade de cuidar dos mais fracos. Este instinto traz consigo uma maior facilidade em identificar as fragilidades e as necessidades dos outros, justamente para que sejamos mais capazes de as preencher. É isto que deve acontecer entre irmãos, por exemplo, quando existe essa tal hierarquia natural e é também uma das razões pelas quais é mais fácil e mais tranquilo muitas vezes para as crianças relacionarem-se com crianças de outras idades do que com crianças da mesma idade: porque quando este instinto se activa naturalmente, um passa a dominante e o outro a dependente e tudo funciona com harmonia e quando isto não acontece há mais tensão e competitividade. É graças a este instinto que as crianças mais velhas têm naturalmente vontade de cuidar e proteger as mais novas e também é este instinto que nos faz a nós, adultos, querer cuidar das crianças e de todos os que identificamos como mais frágeis do que nós. Acontece que estar sempre na posição de cuidador é muito cansativo por isso é importante que também saibamos deixar-nos cuidar e isso só se aprende se, na infância, isto tiver sido fácil para nós. Se na nossa infância era muito difícil confiarmos nos nossos pais ou nos adultos que cuidavam de nós então podemos ficar sempre com  dificuldade de adoptar esse papel de dependência, que está associado a uma grande dificuldade de relaxar de verdade e pode estar na origem de vários problemas de ansiedade.

Mas, o que acontece no caso dos bullies é que, apesar de terem este instinto alfa muito activo, eles já estão desligados dos seus sentimentos e por isso não conseguem juntar a este instinto essa motivação para cuidar e proteger os outros quando identificam as suas fragilidades. Por isso eles ficam atentos aos seus pontos fracos mas não para cuidar ou proteger e sim para dominar e explorar essas fraquezas a seu favor. Por isto Neufeld explica que a pior coisa que podemos fazer com um Bully é dizer-lhe que nos magoou, porque isso só lhe chama ainda mais a atenção para as nossas fragilidades e só o faz sentir-se ainda mais no controlo, dando-lhe cada vez mais vontade de nos manipular. 

É verdade que os bullies também precisam de ser ajudados mas para os ajudar a prioridade é mesmo criar uma ponte com alguém, com um adulto que se importe de verdade com a criança e que seja capaz de lhe transmitir isso mesmo e que lhe dê um espaço em que ela possa aprender a voltar a confiar. E isto não é fácil nem rápido mas é a única forma de fazer com que voltem a entrar em contacto com os seus sentimentos e também com que lhes seja possível sair deste estado de dominância.

Para as vítimas o mais importante é exactamente o mesmo: é garantir que existe alguém com quem se sentem seguras, em quem podem confiar e que as possa ajudar a lidar com que sentem. A protecção mais importante é mesmo esta: garantir que existe pelo menos um adulto que se importa e com quem a criança se sente segura. E para que essa segurança exista é fundamental também que não tenhamos medo de acolher os sentimentos deles: de frustração, de tristeza, de medo e todos os que possam surgir. É muito importante que eles saibam que esses são sentimentos normais, que também fazem parte da vida e é fundamental que cresçam com essa segurança de que é possível viver esses sentimentos sem lutar com eles e que é possível passar por toda a tristeza, por todo o medo e toda a frustração e ainda ser feliz e ter uma vida boa. Porque só assim é que poderão crescer sem ter medo de si próprios ou daquilo que sentem.

Então volto ao que escrevi no início deste texto: a melhor protecção para o bullying, aquilo que é mais importante, é que os adultos saibam exactamente o seu lugar na vida das crianças e que não tenham medo de o assumir. Porque se os adultos souberem o seu lugar e como este é importante, estas situações não acontecem ou, pelo menos, tornam-se muito mais fáceis de resolver.

Aquilo que as nossas crianças precisam é, em primeiro lugar, é de pais com mais tempo, mais disponibilidade e mais segurança no seu papel de pais. E depois, nas escolas, precisamos também de adultos que saibam assumir um papel de liderança e que saibam como são importantes. Numa escola primária, por exemplo, o mais frequente é que os professores não estejam nos recreios e que as auxiliares estejam por lá apenas a vigiar. E é nos recreios que estas coisas acontecem. E os recreios são um lugar de enorme sofrimento para muitas crianças. Mas muitas vezes achamos que o melhor é deixá-los entregues a si mesmos e acreditamos que estamos a fomentar autonomia quando os deixamos resolver sozinhos os seus conflitos e problemas. Mas isto não é verdade. A verdadeira autonomia vem de não termos medo do que sentimos e de não termos medo de lidar com as emoções e isto só acontece se nos sentirmos seguros e para essa segurança existir as crianças precisam de adultos presentes, atentos e disponíveis. E, para isso, os adultos no recreio não podem servir só para resolver problemas e muito menos para castigar, precisam de encontrar uma maneira de fazer com que as crianças os encarem como referências e isso só é possível se forem capazes de gostar verdadeiramente delas e de mostrar que estão presentes e que querem fazer parte das suas vidas.

Se os adultos estiverem presentes e disponíveis de verdade não são precisos castigos, porque as crianças se importam com os que eles dizem e os encaram como modelos. Se não houver esta ligação os castigos não servem de nada e até pioram toda a situação. 

Quando uma criança se dirige a um adulto, numa escola, para falar de algo que sente ou que lhe fizeram não podemos desvalorizar isso dizendo que não se fazem queixinhas. Temos de estar presentes ser capazes de ouvir e de intervir se necessário. Porque só assim garantimos o nosso lugar no coração delas e só assim elas se sentirão seguras o suficiente para serem capazes de nos tomar como modelos e de entrarem em contacto com os seus próprios sentimentos, o suficiente, para não magoar os outros e para não se magoarem a si próprias. Não podemos menosprezar o nosso papel nas suas vidas e não podemos esquecer-nos que a verdadeira autonomia se constrói com base na dependência que também tem o seu papel no desenvolvimento e precisa de ser reconhecida. E se queremos de verdade ajudar os nossos filhos e alunos não podemos esquecer-nos de manter sempre aberto o caminho do nosso coração para o deles.

Quando os nossos filhos são a vítima 

Quando os nossos filhos são vítimas de bullying, quando sabemos que foram magoados e sofreram com isso é muito fácil ficarmos revoltados aflitos mas também nós temos de aprender a lidar com isto e saber que, desde que eles encontrem sempre o seu caminho para o nosso coração, não existe nenhuma emoção com que não possam aprender a lidar, desde que nós também estejamos dispostos a lidar com as nossas. Mais do que ficarmos preocupados em ensiná-los a defender-se ou pensarmos no que eles devem dizer, fazer e nas estratégias que podem usar para lidar com quem lhes faz isto o mais importante é pensarmos que enquanto eles tiverem em nós uma base de segurança, o mundo será sempre muito menos assustador. E para que essa base exista é preciso termos tempo para os escutar e é fundamental que sejamos capazes de ser empáticos com o que sentem.

Enquanto formos capazes de manter uma ponte entre o nosso coração e o deles será sempre muito mais fácil que eles encontrem a sua coragem para lidar com este tipo de situações e que se mantenham sempre fieis a si mesmos e às suas emoções, sem medo de as sentir. E isto é tudo o que podemos fazer pelos nossos filhos na verdade: não podemos poupá-los ao sofrimento nem às angústias de ter que lidar com os outros mas podemos dar-lhes uma base sólida e segura onde podem sempre voltar e descansar. Descansar de verdade, no nosso amor, no nosso coração e nos nossos braços. E é nesse descanso que eles irão encontrar a sua capacidade de lidar com os desafios e de enfrentar o medo, a tristeza e a frustração que tantas vezes fazem parte da vida. Aprender a não ter medo do que sentimos é provavelmente o aspecto mais importante de qualquer educação emocional. E só podemos aprender a não ter medo dos nossos sentimentos mais intensos se houver alguém que já tenha feito esse mesmo percurso, que já tenha lidado com esses mesmos sentimentos e que nos ajude a passar por eles, de mãos dadas sempre que for necessário, percebendo que nada de mal acontece no final. 

segunda-feira, 12 de março de 2018

Ecrãs, dopamina, prazer e relações humanas

Há dias precisei de ir a uma urgência hospitalar com um dos meus filhos e não pude deixar de reparar  com tristeza na quantidade de crianças que esperavam nessa urgência com os olhos pegados a um ecrã de telemóvel ou um tablet, isto para além da televisão na sala de espera ligada num desses canais em que é possível ver desenhos animados 24 horas por dia. A maior parte dessas crianças tinha menos de três anos e muitas não tinham sequer um. 
Há poucos dias li também um artigo que falava da forma como os conteúdos digitais são cada vez mais pensados para fomentar o seu uso o mais possível e até para criarem alguma dependência. E a realidade é que temos cada vez mais adolescentes e até crianças verdadeiramente viciadas em ecrãs. 
A esmagadora maioria dos pediatras hoje em dia afirma que as crianças com menos de dois anos não devem ter nenhum contacto com ecrãs. 

Então é preciso termos noção das consequências que traz este uso, sobretudo durante os primeiros anos de vida em que o cérebro está em formação.


A culpa é da dopamina...


Aqui é importante distinguir a internet e os jogos da televisão, porque, apesar de tudo existem diferenças e o potencial de criar dependência é um pouco maior nos primeiros. Isto porque quando navegamos pela net, quando usamos uma rede social ou quando jogamos um jogo é muito mais fácil provocar no nosso cérebro aquilo que podemos chamar uma injecção de dopamina. A dopamina é um neurotransmissor que está associado às sensações de prazer e que tem um papel muito importante em todos os comportamentos de dependência. Sempre que recebemos um gosto em alguma fotografia do facebook, sempre que alguém nos começa a seguir no instagram por exemplo, recebemos um pequeno incremento de dopamina, o que está ligado a uma sensação de prazer. Isto acontece também sempre que estamos a jogar um jogo, de cada vez que conseguimos atingir um determinado objectivo. Tudo nas redes sociais é pensado para potenciar ao máximo essas injecções de dopamina e nos jogos todos os barulhinhos e cores que aparecem cada vez que conseguimos atingir um dos objectivos do jogo serve também para alimentar essa rede de dopamina no cérebro que faz com que queiramos receber cada vez mais esta estimulação. 

Quantidades ainda maiores de dopamina são libertadas por drogas como a cocaína, por exemplo e estão relacionadas com a dificuldade em deixar o seu consumo. Porque a dopamina é uma substância que está ligada ao prazer, a sua falta está ligada à sentimentos de depressão, que pode surgir se não conseguirmos produzir dopamina suficiente. E, no caso das dependências, a falta daquele objecto que provocava o aumento de dopamina no cérebro está ligada às várias sensações de sofrimento intenso que podem surgir.

....Mas não só 

Acontece que, sempre que produzimos dopamina desta forma, podemos dizer que estamos a dar origem a um sentimento de gratificação vazio. Da mesma forma que o açúcar são calorias vazias de nutrientes, a dopamina que produzimos através da realidade virtual também é uma gratificação vazia. Vazia porque não está ligada a nenhum sentimento de crescimento nem de realização pessoal, não nos ajuda a crescer, nem a estarmos mais ligados aos outros e por isso torna-se uma gratificação vazia. E tal como o açúcar nos dá um pico de energia que não é sustentável e que acaba por fazer com o que o organismo depois tenha uma quebra ainda maior nos seus níveis de energia, a insulina desta forma tem um efeito semelhante: pode levar a picos que não se mantêm por muito tempo e que depois levam a uma quebra ainda maior desses níveis. Criando assim um ciclo em que depois, o organismo tem necessidade de receber novamente uma grande quantidade de dopamina para poder voltar a sentir esse pico.
E esta é uma das razões pelas quais pode ser tão perigosa. Já existem investigações que demonstram que o tempo passado nas redes sociais pode estar ligado a sentimentos de depressão e de tristeza e uma das razões pelas quais isto pode acontecer pode justamente ter a haver com o facto de que quando ficamos dependentes desta dopamina produzida virtualmente podemos deixar de saber produzi-la com a vida real. E, quando isto acontece torna-se muito difícil atingirmos algum tipo de satisfação pessoal.

A dopamina também está muito ligada aquilo a que Panksepp chama o sistema de busca que, por sua vez, está ligado a um sentimento de prazer e de realização pessoal e está na base de um sentimento de entusiasmo pela vida. Este circuito activa-se sempre que estamos à procura de informação, sempre que aprendemos algo, ou simplesmente quando estamos a ter um comportamento que nos motiva a seguir em alguma direcção. Então este sistema tem um papel fundamental na nossa capacidade de nos sentirmos satisfeitos e realizados com a vida e tem também um papel fundamental em qualquer aprendizagem e por isso é muito importante mantê-lo estimulado e activo se queremos que as crianças tenham gosto e prazer em aprender. Acontece que quando navegamos na Internet, ou numa rede social, também acabamos por activar este sistema de busca e por isso libertamos a tal dopamina mas, se isto não for usado de forma construtiva, acabamos por estar a activar este sistema de uma forma fútil e por isso torna-se muito menos satisfatória e o prazer que provoca tem uma duração muito mais curta, o que quer dizer que acabamos por precisar de reforçar muitas vezes essas doses e isto pode levar ao tal comportamento de dependência. Isto é verdade também para os adultos mas é especialmente grave para as crianças que ainda têm o cérebro em formação e que, por isso, acabam muito mais facilmente por desenvolver esses comportamentos de dependência e, de certo modo, podem mais facilmente esquecer-se que existem outras formas mais saudáveis e duradouras de produzir dopamina. 

Nos primeiros anos de vida, aprendemos a produzir dopamina sobretudo através da nossa relação com as pessoas mais importantes, quando tudo corre bem com estas ligações. Se as pessoas mais importantes da nossa vida não estiverem verdadeiramente presentes e disponíveis nos primeiros tempos de vida, pode ser mais difícil o bebé ou a criança pequena terem toda a segurança necessária para serem capazes de sentir verdadeiramente prazer nas relações e assim a produção de dopamina pode ficar comprometida. E, se o nosso organismo não aprender a produzi-la nos primeiros anos, torna-se muito mais difícil fazê-lo mais tarde. Esta é uma das substâncias que o bebé produz sempre que sorri para a mãe e a mãe lhe sorri de volta, por exemplo. À medida que vamos crescendo podemos aprender a produzi-la com todas as pequenas conquistas e aprendizagens que vamos fazendo sobre nós como aprender a saltar, a correr e a subir para o escorrega no parque infantil mas também sobre o mundo. Mas também aqui, é preciso que haja adultos que nos fazem sentir seguros pois só assim teremos a coragem de partir para essas conquistas e aprendizagens e de experimentar esse prazer que elas podem dar-nos. A segurança é essencial para manter intactos o instinto e a vontade de aprender nas crianças, porque aprender é ao mesmo tempo partir para o mundo e deixá-lo entrar em nós e isto pode ser bastante arriscado. Por isso é essencial que saibamos que existe uma base de segurança para quando tudo corre mal.

Quando não há essa segurança nos primeiros anos de vida, o organismo da criança vive inundado de hormonas ligadas à resposta de stress e tem muito mais dificuldade em produzir substâncias ligadas ao prazer, como a dopamina. Isto quer dizer que, mais tarde, a pessoa terá muito mais necessidade de procurar prazer em substâncias externas ou em comportamentos de dependência porque precisa dessas doses de dopamina e nunca aprendeu a produzi-las de uma forma saudável e sustentável. Sabe-se hoje que este é um dos mecanismos que estará na base de todas as dependências, e foi mesmo esse o tema do primeiro artigo deste blog:aqui

A televisão e a falta de dopamina 

Aqui também é que encontramos uma diferença importante entre a televisão e a internet: é que a televisão não activa da mesma forma o sistema de busca porque nos coloca numa posição um pouco mais passiva e, por isso, acaba por não estimular tanto a produção de dopamina o que faz com que o mecanismo que provoca dependência neste caso não seja tão intenso. 

Mas, a televisão tem outros perigos importantes, sobretudo para as crianças mais pequenas. H. Durante os primeiros dois anos de vida o cérebro das crianças está na sua fase mais intensa de crescimento, são anos em que se perdem e constroem milhares de ligações neuronais, quando o cérebro passa por aquilo a que, em inglês se chama prunning, que podemos traduzir como aparar. E as ligações que são perdidas ou construídas dependem quase exclusivamente das experiências que a criança vive durante esse tempo e, sobretudo, da qualidade das ligações que ela vai formando. Porque as crianças dependem dessa ligação para se manter vivas, já que um bebé humano é um ser totalmente indefeso e dependente e os seres humanos são animais muito sociais, são provavelmente o animal em que as relações humanas são mais importantes. Por isso os primeiros anos das crianças são totalmente destinados a estabelecer relações  de segurança a perceber como é que estas funcionam. E esta é uma das razões pelas quais a televisão pode ser nociva nesses primeiros anos: porque as desvia dessa tarefa fundamental, porque ver televisão é uma tarefa solitária, mesmo que alguém esteja ao nosso lado a ver connosco, pode levá-las a subverter de algum modo esse instinto que lhe diz que precisam de procurar relações com os adultos e que é através dessas relações que devem procurar entender o mundo.

Existem já vários estudos que demonstram que as crianças que passam mais tempo expostas a programas de televisão durante os primeiros anos de vida podem mesmo apresentar alguns atrasos ao nível da linguagem, mesmo quando são expostas a programas com conteúdos educativos. Um estudo em particular demonstrou muito bem isto quando pôs dois grupos de crianças pequenas em contacto com um programa educativo com uma diferença entre os dois grupos: o primeiro recebia esse conteúdo através da televisão e o segundo via exactamente a mesma coisa, com a mesma pessoa, mas ao vivo. O segundo grupo aprendeu muito mais desses conteúdos, além de que registou uma experiência muito mais positiva da situação. Isto demonstra bem como as crianças estão programadas para aprender em relação e através dessa relação. Então um dos grandes prejuízos que a televisão pode provocar nos primeiros anos de vida, é que pode bloquear esse instinto inato de aprendizagem que as crianças trazem com elas e que mantém activo quando tudo corre bem. E é este instinto que as leva também a activar o tal sistema de busca que, por sua vez, também as faz produzir dopamina, mais uma vez. Então sempre que uma criança mexe num objecto ou anda pelo mundo, nos primeiros tempos da sua vida, ela está a aprender algo, porque é assim que as crianças aprendem: a experimentar, a mexer, a manipular, em movimento e, essa aprendizagem, quando tudo o resto está bem no mundo da criança, pode levar a esse sentimento de prazer que é tão importante para a manter activa, feliz e com um sentimento de realização pessoal.  A televisão, ao colocar a criança num estado completamente passivo, bloqueia esse circuito de aprendizagem e esse modo de busca e, quanto menos a criança o activa, mais difícil será voltar a activá-lo. Por isso é muito natural que o excesso de televisão esteja ligado a várias dificuldades de aprendizagem.  Além de que um excesso de televisão está também ligado a problemas comportamentais e dificuldades várias, justamente porque contribui para fazer com as crianças se tornem mais incapazes de ter prazer nas suas vidas e, consequentemente, de se sentirem felizes.


Usar ecrãs como intermediários nas nossas relações 


Outro aspecto particularmente grave do uso das tecnologias é o que acontece quando as usamos como uma espécie de intermediários entre nós e as crianças, sobretudo para não termos de lidar com aquilo que as crianças estão a sentir ou a manifestar em determinado momento. Acho que foi isto que mais me incomodou na sala de espera dessa urgência: perceber que a sala estava cheia de crianças doentes e que tudo o que uma criança doente precisa é de colo e uma dose extra de carinho,  atenção e paciência por parte dos pais mas a maior parte daqueles pais parecia já não saber dar esse colo sem um ecrã à mistura. 
Não sei onde já ouvi a expressão chupeta digital mas aplica-se muito bem aqui, porque muitas vezes usamos as chupetas justamente para não termos de lidar com o choro ou com os protestos das crianças e, hoje em dia, muitos pais fazem isso com as tecnologias e usam-nas para fazer com as crianças parem de chorar ou de protestar nas mais variadas situações. Isto é particularmente grave porque é essencial que deixemos as crianças sentir o que sentem e que sejamos capazes de acolher as manifestações dos seus sentimentos para que elas possam aprender a lidar com eles e também a não ter medo das suas próprias emoções, já que este medo é uma das maiores fontes de sofrimento para muitos adultos.

Então sempre que pomos um ecrã entre nós e as emoções dos nossos filhos estamos a dizer-lhes que não somos capazes de lidar com aquela emoção que ele está a expressar, que não somos capazes de o acolher e aceitar naquele estado. E isto transmite-lhes uma mensagem muito nociva: que não pode confiar em nós para o ajudar a lidar com aquilo que sente e, aos poucos, isso vai fazendo com eles deixem de confiar em nós, com que deixem de se sentir seguros connosco e isso só fará com a ligação entre nós fique cada vez mais corroída e danificada o que, por sua vez, irá também danificar a própria relação deles com o mundo e também consigo próprios. Porque sem os pais como bússola, como lugar seguro e como fonte de confiança, segurança e estabilidade, todas as crianças ficam perdidas, desorientadas e muito mais difíceis de educar. Então aquilo que parece facilitar-nos tanto a vida durante alguns momentos porque faz com que a criança pare de chorar ou fique entretida enquanto temos algum tempo para nós, a longo prazo, afinal, pode mesmo dificultar-nos muito a nossa vida e a dos nossos filhos também. 



quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Amamentar sem fantasmas

Há pouco tempo fui confrontada com algumas afirmações sobre a amamentação, por parte de um conhecido pediatra português, que me deixaram triste e revoltada com as ideias que este transmitiu. Triste porque, infelizmente, é alguém que tem uma posição que lhe permite influenciar muita gente e revoltada porque as suas afirmações são mesmo ofensivas para tantas mães e mulheres que dão o seu melhor para alimentar os seus filhos com o alimento mais perfeito que existe, sim, porque o leite materno é realmente o alimento mais perfeito que existe mas não só, porque amamentar também é dar conforto, carinho e segurança, ao contrário do que esse senhor afirmou.

Segundo esse pediatra uma mãe que amamenta um filho depois dos doze meses de idade está a prejudicar gravemente a criança porque o faz regredir e o impede de crescer e, segundo os fantasmas que este senhor tem no sótão, uma mãe que amamenta um filho depois dos 12 meses de idade só poderá estar a fazê-lo por razões egoístas e narcisistas, porque as mães hoje em dia têm poucos filhos e por isso recusam-se a ficar com o colo vazio e querem prolongar ao máximo a sensação de ainda terem um bebé. Estas foram as palavras desse senhor que me deixaram triste, revoltada e ofendida.
Triste e revoltada como profissional por saber que nenhuma destas afirmações tem fundamento científico e por ter noção de que ainda há tantos fantasmas destes a meter medo a tantas mães e ofendida, como mãe, por alguém achar que o facto de eu amamentar os meus filhos pode significar que estou a usá-los, de um modo narcisista para preencher alguma das minhas necessidades.

Assim, por estas razões não podia mesmo deixar de dar resposta a estes fantasmas que habitam na cabeça deste médico e, infelizmente, na cabeça de tantas outras pessoas.

O argumento da mãe narcisista 

Primeiro, é verdade que amamentar nos pode trazer uma boa sensação de proximidade com os nossos filhos e que tem alguns aspectos agradáveis. Amamentar um filho, como pegar-lhe ao colo ou dormir com ele pode estar de facto ligado a algumas sensações de prazer, é verdade, mas esse prazer não tem de estar ligado a nenhuma motivação egoísta, na verdade esse prazer que é suposto encontrarmos na nossa relação diária com os filhos, é ele mesmo a garantia de que somos capazes de sacrificar até os nossos próprios interesses para cuidar deles.

Mas, também é verdade que, como todas as mães que amamentam ou amamentaram sabem amamentar um bebé ou criança não é sempre um mar de rosas. Nem sempre nos apetece dar mama quando eles querem mamar, nem sempre nos apetece acordar várias vezes de noite quando eles querem mamar, nem sempre nos apetece estar cem por cento disponíveis como a amamentação exige.

Na verdade qualquer mãe que amamenta um filho está a fazê-lo principalmente porque sabe que isto é mesmo o melhor para ele e nem sequer faz sentido pensar que alguém o faça apenas por razões egoístas porque, para uma mãe egoísta é muito mais fácil dar biberão (e com isto não estou a chamar egoísta a quem o dá) porque a verdade é que o biberão não nos obriga a estar tão presentes e tão disponíveis como a amamentação. Na verdade uma mãe doente, obsessiva e que viva a maternidade de forma doentia usando os filhos para satisfazer as suas necessidades até tem menos probabilidades de amamentar muito tempo. Isto porque amamentar nos põe em contacto com o bebé mas também connosco próprias, amamentar traz-nos de volta ao corpo e isso vem, muitas vezes, acompanhado de um sentimento de vulnerabilidade que pode não ser assim tão fácil de enfrentar. Uma mãe narcisista - como aquelas que, segundo esse senhor, amamentam para além dos doze meses de idade- é alguém que foi muito ferida na sua infância. Uma personalidade narcisista constrói-se através de uma infância em que a pessoa se sentiu bastante negligenciada e uma das consequências dessa negligência é o negar das emoções e, consequentemente, do corpo, porque as emoções se sentem e se expressam através do corpo. Então, uma personalidade narcisista constrói-se através da negação das suas próprias feridas e de uma boa parte das suas próprias emoções e uma característica deste tipo de personalidade é justamente uma certa dificuldade em compreender e criar empatia com os sentimentos dos outros. O que significa que é provável que estas mães tenham também alguma dificuldade em compreender os sentimentos e as necessidades dos filhos e, como tal, também se torna menos provável que tenham a capacidade de aceitar e de acolher as necessidades de segurança, de conforto e de contacto físico que as crianças demonstram não só mas também através da amamentação.

Além disto uma pessoa narcisista é também uma pessoa que já se fechou aos outros e que, como tal, tem medo de criar ligações mais profundas. E a amamentação não é a única forma de uma mãe se ligar a um filho mas é uma forma bastante profunda e eficaz de o fazermos. Por isso uma mãe narcisista terá também mais probabilidades de querer cortar esse modo de se ligar aos filhos.

Uma mãe narcisista terá também muito mais probabilidades de se assustar com todas as emoções cruas que a amamentação traz, sobretudo nos primeiros tempos de pós-parto. Na verdade, para todas as mulheres que tenham algum tipo de fragilidade ou até de doença mental, o pós-parto é um turbilhão de emoções muito duro de enfrentar e a amamentação pode ser uma boa parte desse turbilhão. A amamentação desperta nas mães um misto de sentimentos profundos e muitas vezes contraditórios: o desejo de se ligar ao bebé mas também o cansaço que por vezes representa ter um ser que depende exclusivamente de si para sobreviver. Durante o pós-parto muitas vezes as mães entram em contacto com recordações e sentimentos que nem sabiam que tinham e podem vir à superfície muitos medos, inseguranças e feridas que estavam escondidas. E a amamentação é um bom veículo para que isto aconteça porque nos põe em contacto com o corpo, através do qual tudo isto acaba por se expressar. 

A amamentação também dá um contributo importante para todas as alterações hormonais que acontecem no pós-parto - com o aumento da produção de oxitocina - por exemplo, que podem também fazer com as emoções da mãe fiquem mais volúveis e aumentam o seu sentimento de vulnerabilidade. E isto, mais uma vez, para quem tenha algum tipo de fragilidade, como aconteça no caso de uma mãe narcisista, é ainda mais difícil de suportar.

Então, aquilo que é mais provável acontecer com uma mãe verdadeiramente narcisista é tentar criar um certo distanciamento do bebé - para não se sentir afundar ou descontrolar com todos os sentimentos que ele traz - e, com isso, o primeiro impulso também será muito provavelmente o de rejeitar a amamentação. Porque se torna praticamente insuportável aguentar essa tomada de consciência e esse entrar em contacto com o corpo e com as emoções que a amamentação pode trazer. Por isso, logo aqui, percebemos que não faz sentido afirmar que todas as mães que amamentam um bebé com mais de doze meses têm uma personalidade narcisista ou traços de narcisismo como este médico parece pensar. 

Todas as mães que amamentam sabem como pode ser cansativo dar de mamar e este cansaço não vem só das exigências de cuidar de um bebé e das calorias extra que o nosso corpo precisa de gastar para fabricar o leite mas a verdade é que, quando amamentava os meus filhos em bebés, sentia que muito para além do alimento que lhes estava a dar na forma de leite era como se estivesse também a dar-lhes uma parte qualquer da minha energia. Não consigo dizer isto sem que pareça algo muito esotérico mas acredito que todas as mães que amamentam saibam do que estou a falar: de certo modo é como se aquela relação que estabelecemos com um bebé que mama nos fizesse sentir que estamos também a dar-lhe uma parte de quem somos, como se para além do leite precisássemos de o alimentar com todo o nosso ser porque a relação que se cria, nos primeiros tempos, é mesmo muito simbiótica. E, com o tempo isso vai-se atenuando, mas a amamentação continua a ser sempre um momento em que podemos facilmente restabelecer o vínculo que temos com o nosso filho e em que podemos facilmente sentir que estamos a alimentar a ligação que existe entre nós com toda a importância que hoje sabemos que isso tem para o seu desenvolvimento.

Leite materno como o alimento perfeito

Do ponto de vista da nutrição, sim, é verdade que existem muitos alimentos hoje em dia que podem preencher as necessidades nutricionais das crianças e este é um dos argumentos usados: o facto que, no mundo ocidental as crianças não passam fome e têm muitos outros alimentos à sua disposição. Mas que lógica tem, pergunto eu, dizermos que até aos dois anos, pelo menos, as crianças precisam de consumir produtos lácteos, que são feitos com o leite de outras espécies para preencher as suas necessidades de cálcio, quando podem ter à sua disposição um alimento que não poderia ser mais perfeito?! Porque nenhum outro alimento se modifica em função das necessidades, da idade e até do género das crianças. Hoje em dia sabemos que o leite materno se vai alterando à medida que a criança cresce e as suas necessidades mudam, sabemos também que o leite que as mães produzem para as meninas é diferente do leite que é produzido para os rapazes (parece que o deles é um pouco mais calórico) e sabemos que quando a criança está doente, o organismo da mãe entra em contacto com aquilo que está a provocar essa doença (através da sua saliva ao que parece) e é capaz de começar logo a fabricar anticorpos que são transmitidos no leite e que ajudam a criança a combater essa doença com maior eficácia, visto que o seu sistema imunitário ainda é bastante imaturo até aos dois anos de idade e continua a desenvolver-se até aos seis. Então não existe nenhum outro alimento na natureza que seja realmente tão perfeito como este. Nenhuma fórmula produzida em laboratório pode ter esta eficácia e não é por acaso que as estatísticas mostram que as crianças amamentadas adoecem menos e recuperam mais depressa do que as que não o são.

É preciso dizer aqui também que isto é válido para todos os leites de todas as mulheres. Que o mito do leite fraco, não passa disso mesmo: um mito, em parte alimentado pela indústria das fórmulas. A natureza é muito sábia e o corpo de uma mulher que acabou de ter um bebé faz tudo o que for preciso para fabricar o melhor alimento para o bebé, mesmo no caso de mulheres sub-nutridas. Li em tempos um livro sobre três bebés que nasceram em Auschwitz, em plena segunda guerra mundial, três bebés que sobreviveram até hoje graças justamente ao leite das suas mães que sobreviviam com uma dieta de apenas 300 calorias por dia, muito inferior ao que qualquer pessoa precisa. Mas foi esse leite precisamente que os salvou porque o corpo das suas mães mobilizou todos os seus recursos para o produzir até ao ponto de, pelo menos uma delas, ter ficado com graves problemas nos ossos porque o seu corpo foi buscar todas as reservas de cálcio que conseguiu encontrar para fabricar o leite para aquele bebé. Então, não existe leite fraco e também não existem mulheres que não conseguem ter leite suficiente, excepto no caso de algumas raridades genéticas que, geralmente, também não lhes permitem engravidar. Na verdade, até existem casos de mães que adoptam e conseguem amamentar e também já soube do caso de uma avó que decidiu amamentar o neto depois da mãe deste ter morrido no parto e de um casal de mulheres em que apenas uma estava grávida mas em que a companheira também estava a preparar-se para amamentar a bebé. Podem surgir algumas dificuldades na amamentação, é verdade, mas todas elas podem ser superadas com o devido apoio de alguém bem informado.

Leite materno como alimento para o cérebro


Mas, para além dos inquestionáveis benefícios da amamentação do ponto de vista físico, também já existem estudos que mostram que as crianças amamentadas mais tempo têm até um Q.I. mais elevado e melhores probabilidades de ter sucesso na vida. Isto porque a amamentar não é apenas alimentar o corpo da criança. Na verdade, hoje em dia, sabemos que ao dar resposta às necessidades da criança estamos também a alimentar o seu cérebro, a ajudá-lo a crescer e a desenvolver-se. 

A sucção não nutritiva, que também faz parte da amamentação, também é uma forma de ensinar o bebé a desenvolver os seus próprios mecanismos de regulação do stress e sabemos que isso também tem uma importância muito grande para o desenvolvimento do cérebro, que é prejudicado pelas grandes quantidades de cortisol que são segregadas quando o bebé é sujeito a grandes estados de stress com frequência. E o objecto original para essa sucção não nutritiva é a mama, não a chucha. A chucha foi algo que veio depois e que muitos bebés nem aceitam e que pode também contribuir para prejudicar muito o sucesso da amamentação, sobretudo se é introduzida demasiado cedo. Ao chuchar o bebé aprende a relaxar e treina e fortalece os circuitos neuronais que estão associados a essa sensação de relaxamento. Este é mesmo um dos principais recursos para o bebé se acalmar e é quase o único recurso para um bebé pequenino. É verdade que, com o crescimento, as crianças começam a desenvolver outras estratégias de relaxamento e encontram outras formas de se acalmar mas também é verdade que este continua a ser ainda um importante recurso nos primeiros anos da infância, não é por acaso que tantas crianças têm dificuldade em largar o dedo ou a chucha e por isso é também natural que tantas ainda precisem da mama para adormecer, por exemplo.

E qualquer mãe que amamenta um filho sabe que está a fazê-lo para dar resposta às necessidades dele, não às suas. É preciso ter uma cabeça mesmo muito cheia de fantasmas para afirmar que aquilo que as mulheres sempre fizeram ao longo de toda a sua história é um comportamento doentio ou regressivo.

Um dos argumentos deste médico é que hoje em dia as mulheres só têm um filho, na maior parte dos casos, e por isso ficam demasiado presas a este filho e muito relutantes em deixá-lo crescer e, para prolongarem a sensação de o ter nos braços, prolongam demasiado a amamentação como forma de impedir esse crescimento e o desenvolvimento da sua autonomia.

Então pergunto porque é que, antigamente, quando as mulheres tinham mais filhos e lhes davam de mamar com toda a naturalidade até muito mais tarde do que aquilo que é costume hoje dia, não o faziam por causa das suas próprias necessidades egoístas? Porque antigamente eram obrigadas a fazê-lo visto que não havia tanta comida, imagino que seria essa a resposta. Mas, nesse caso, porque é que isso não representava uma regressão para os filhos? Ou vivíamos numa sociedade de pessoas infantis, pouco desenvolvidas e sem autonomia até aos anos 60 ou 70 quando as fórmulas para bebés foram introduzidas em massa?

Na verdade, até aos anos 60 era muito comum as crianças mamarem até tarde, sobretudo nas zonas mais rurais que também eram a maior parte do país. Foi o aparecimento das fórmulas e a entrada das mulheres no mercado de trabalho que baixou dramaticamente o número de crianças amamentadas, ao ponto de se tornar necessário fazer campanhas de saúde pública para estimular as mães a fazer aquilo que, na verdade, deveria ser o mais natural. Hoje em dia as estatísticas mostram que a esmagadora maioria das mulheres sai do hospital a dar de mamar aos filhos mas, infelizmente, à medida que as crianças crescem e os desafios aumentam esse número vai baixando até que aos, seis meses, já só há uma minoria de bebés a ser amamentado em exclusivo e depois dos doze meses de idade, infelizmente, são mesmo poucas as mães que ainda dão de mamar.

Porque é que, um comportamento que sempre foi natural e que fazia parte daquilo que era esperado e natural para uma mãe foi desaparecendo?

Por vários motivos: a introdução das fórmulas e a entrada das mulheres no mercado de trabalho deram um grande contributo para isto. O facto do parto se ter vindo a tornar cada vez mais intervencionado, também contribuiu porque os bebés precisam de ser deixados em paz e de estar junto do corpo da mãe quando nascem para activar o instinto que os faz procurar a mama. Quando o bebé é demasiado mexido pelos profissionais ou quando não lhe é permitido passar a primeira hora de vida, em paz, tranquilo, junto ao peito da mãe pode não ser capaz de despertar este instinto e com isso podem surgir as primeiras dificuldades no processo de amamentar que podem mesmo acabar por comprometer todo o processo. 

Mas, para além destas razões mais práticas, acredito que, enquanto sociedade também nos temos vindo a afastar cada vez mais corpo e dos instintos e daquilo que é natural. Acabamos por viver muito no mundo da razão e a maternidade, sobretudo nos primeiros tempos, não tem nada de racional e isso pode assustar. Muitas mães, por exemplo, ficam com medo de não conseguir saber exactamente a quantidade de leite que o bebé ingeriu em cada mamada e muitos médicos alimentam isso ao afirmarem que o bebé precisa de x mililitros por dia ou por refeição. Depois, muitas mães, tentam controlar os intervalos entre mamadas de forma rígida para sentirem que podem ter algum controlo racional sobre a situação, o que também pode prejudicar muito todo o processo. A melhor, a única forma de dar de mamar com sucesso, é não olhar para relógios, nem tabelas, nem quantidades. Já vi mães a escreverem num bloco sempre que o bebé acaba de mamar, a que horas mamou, quanto tempo o fez e de que peito mamou. Isto é completamente contrário a tudo o que uma mãe recente precisa. Tudo o que é preciso para o sucesso da amamentação é ligar o instinto e deixar de lado tudo o que é quantificável e mensurável. A mesma coisa quando os médicos querem pesar o bebé todas as semanas e controlar o número de gramas que ele aumenta por dia. Se, em alguns casos, isto até poderá ajudar a controlar alguma situação de saúde mais grave, a verdade é que, na maior parte dos casos, sobretudo em mães de primeira viagem, só contribui para aumentar a ansiedade e tensão à volta da amamentação.

O facto das mães viverem cada vez mais isoladas a fase do pós-parto também contribuiu muito para que se sintam sozinhas e sem apoio para vencer algumas dificuldades que, antigamente, haveria sempre uma mulher mais velha e experiente por perto que poderia ajudar a vencer. Além de que antigamente as mulheres também tinham mais filhos e por isso também havia sempre mais crianças por perto e era mais fácil ir observando a forma como estas eram amamentadas o que ajudava a interiorizar também a naturalidade deste comportamento e alguma informação que poderia torná-lo mais simples. Hoje em dia muitas mulheres nunca viram um bebé a mamar até terem o seu nos braços e não têm ninguém que possa dar-lhes alguma orientação quando se deparam com dúvidas que não sabem como esclarecer.

O argumento da regressão

Outro argumento deste médico era o da regressão: que dar de mamar a uma criança com mais de doze meses significa fazer com que esta entre num comportamento regressivo que pode por em causa o seu desenvolvimento e a sua autonomia.

Não posso deixar de dizer que me parece que esta ideia tem por base uma visão que se baseia numa psicanálise de bolso. A psicanálise é apenas um dos modelos usados em psicologia para nos permitir ter alguma compreensão do processo de desenvolvimento e estruturação da mente humana. Mas é também um modelo antigo e um modelo que, como todos os outros, tem vindo a evoluir e a modificar-se em função dos novos conhecimentos que vão surgindo. Mas é muito fácil alguém pegar em algumas noções básicas de psicanálise mais antiga e acabar por interpretar de uma forma excessivamente limitada e fundamentalista algumas das suas ideias. Então isto é o que acontece quando alguém afirma que amamentar uma criança com mais de doze meses de idade é provocar um estado regressivo que pode limitar o crescimento psicológico dessa criança.

Porque, de acordo com a visão psicanalítica, uma criança que procura a mãe para mamar até pode estar a fazer uma ligeira regressão nesse momento, mas é uma regressão ao serviço do crescimento, porque essa regressão lhe permite encontrar o conforto e a segurança que são necessárias para continuar a crescer e a conhecer o mundo, os que a rodeiam e a si própria. Porque essa regressão é necessária para que, a seguir, a criança possa seguir em frente, com confiança. Porque o crescimento não acontece e não tem de acontecer sempre de uma forma linear. E quando não nos é permitido fazer essas regressões na altura certa, quando precisamos de as fazer, acabamos por precisar de as fazer mais tarde e, geralmente, de forma muito menos adaptativa. É daqui que surgem, muitas vezes, comportamentos menos equilibrados e até disfuncionais como é  o caso de algumas dependências químicas, por exemplo, ou de algumas perturbações mentais.

Então mamar não é só dar alimento mas também dar segurança, conforto e um contacto físico que permitem à criança também aprender a relacionar-se até com o seu próprio corpo porque é através do corpo da mãe que a criança também pode ter oportunidade de aprender a conhecer o seu. E é essencial que as crianças aprendam a crescer de forma segura e que tenham possibilidade de crescer sem medo do seu próprio corpo e sem medo de estabelecer ligações profundas com as pessoas importantes das suas vidas. E é isto que ensinamos a uma criança que mama, que pode confiar e aproximar-se de nós, que pode sentir-se segura no contacto físico com o nosso corpo, que respeitamos as suas necessidades, que lhe damos o espaço necessário para crescer com a segurança de saber que pode sempre voltar a procurar o conforto e a segurança desse contacto todas as vezes que forem necessárias.

E uma criança a quem isto é permitido é uma criança que está pronta para seguir em frente, para crescer e para partir para uma nova etapa do seu desenvolvimento quando for a altura certa. E nessa altura ela saberá mostrar à mãe que está pronta para uma nova fase da relação, que está pronta para procurar esse contacto e esse conforto de uma outra forma e que já não precisa da mama para receber a segurança e o conforto de se sentir amada e acolhida. Porque já é capaz de o fazer de uma outra forma. Mas, para que isso aconteça, temos de confiar e de lhe dar tempo para que ela mesma possa fazer essa descoberta por si e dar-lhe tempo para nos mostrar que está pronta para passar a essa nova fase.

Então, para isso precisamos de nos libertar destes fantasmas e de nos libertar de preconceitos. As mamas existem para alimentar bebés. Ponto. Os nossos filhos não têm culpa que vivamos numa sociedade em que a sexualização excessiva do corpo feminino nos leve a ter tantos fantasmas no sótão que achamos que ver uma mulher a amamentar uma criança de dois, três, quatro ou cinco anos em público é algo de indecente, quase pornográfico. Ao mesmo tempo que essa mesma parte do corpo da mulher é abusivamente usada para tudo em marketing, até para vender carros. Os nossos filhos não têm culpa que nos tenhamos esquecido de uma boa parte dos nossos instintos mas precisam que os recuperemos. Se queremos realmente construir uma sociedade mais equilibrada precisamos de começar por recuperar a nossa capacidade de estar bem com o nosso corpo e com as suas funções naturais e não há modo melhor de ensinar os nossos filhos a fazê-lo do que amamentar sem dar ouvidos a médicos que quase apetece dizer que - em alusão a uma frase antiga da psicanálise que falava na inveja do pénis de que as mulheres poderiam sofrer - parecem sofrer de uma inveja da mama.