sábado, 16 de julho de 2016

Maternidade instintiva e os primeiros tempos de vida

Há dias folheei uma revista sobre gravidez em que um dos artigos falava dos muitos itens supostamente essenciais a comprar quando nos preparamos para ter um filho. De algumas das inutilidades destacadas por esse artigo e vários outros do género aquela que me chama sempre mais a atenção são os aparelhos de intercomunicação, que servem para que o bebé possa ficar sozinho numa divisão e os pais possam ir ouvindo o que se passa. A mim estes aparelhos confesso que me despoletam uma espécie de ódiozinho de estimação porque acredito que simbolizam de certa forma uma grande parte de tudo aquilo que está errado na nossa forma de viver a maternidade hoje em dia. 

Esses aparelhinhos, que já variam muito no seu grau de sofisticação, demonstram que o instinto de qualquer mãe é querer saber o que se passa com o seu bebé a qualquer hora. Demonstram que o instinto de qualquer mãe é saber que os bebés não são criaturas que devam ficar sozinhas em divisões à parte, onde não podemos vê-las e nem sequer ouvi-las facilmente. O problema é que nos achamos muito espertos e racionais, então, em vez de darmos ouvidos a esse instinto inventamos um aparelho qualquer que o substitua. 

E quando começamos a querer substituir o instinto pela razão, neste caso, a tendência é para que toda uma série de outros problemas venham atrás. Porque a maternidade não é racional, não pode nem deve ser racional. Quem no seu juízo perfeito escolheria gerar e cuidar de um bebé, com tudo o que isso implica, se fosse apenas uma escolha racional?! A maternidade é das coisas mais instintivas que existem e é assim que deve ser e, para a vivermos de forma feliz, leve e descontraída é mesmo ao instinto e às emoções que precisamos, mais do que nunca, de estar ligados porque a razão por si só nunca nos dará aquilo de que precisamos, sobretudo nos primeiros meses de vida dos nossos filhos. 

E porque o bebé também tem o seu instinto, que lhe diz que também deverá fazer todos os possíveis para se manter perto dos pais, que lhe diz que é perigoso e inseguro estar sozinho. Porque o bebé ainda não consegue racionalizar, para nós, adultos, é possível pensar que o instinto não está certo porque um bebé pequeno fechado num quarto de uma casa qualquer num berço com grades e todo o conforto e segurança material está livre de qualquer perigo. Mas o bebé ainda só tem o instinto para o guiar, não tem essa possibilidade de racionalizar e saber que o perigo não é real por isso a tendência será para seguir o seu instinto e protestar contra esse abandono sentido. E quando isto acontece muitos supostos especialistas dizem-nos que devemos acalmar o bebé, sim (felizmente já vão sendo menos os que dizem que se deve apenas deixá-lo chorar até se cansar) mas sem lhe pegar ou sem o tirar o quarto, que seria justamente o que ele precisaria. E aqui entramos num terreno que chega a ser quase ridículo em que esperamos que um bebé de meses seja capaz de perceber e de racionalizar que os seus pais estão por perto mas não lhe pegam e não lhe dão o conforto de que precisa porque sabem que ele está seguro e que o perigo que o seu instinto lhe diz que pode existir não é real. E como é que é possível que acreditemos que um bebé pode compreender isto? A única coisa que acontece nestes casos é que o bebé vai deixando também de manifestar o seu instinto e, talvez pior, vai deixando de confiar nele. 

Algumas pessoas defendem que é indiferente que um bebé durma sozinho ou acompanhado desde que os pais respondam quando ele chora e desde que isto esteja de acordo com as suas convicções e escolhas de vida. Na verdade, não acredito nisto. Não acredito que seja benéfico para um bebé de meses dormir sozinho e, mais, não acredito que isto tenha algum benefício para a mãe. Acredito que uma mãe que não quer dormir com o seu bebé é uma mãe que tem medo, medo de estar a fazer algo de errado e de vir a ser criticada, medo de prejudicar o bebé, medo de lhe fazer mal  e, acima de tudo, medo de confiar no seu próprio instinto. 

Porque o instinto de mãe mostra claramente que, nos primeiros meses de maternidade, o mais importante é mantermos-nos perto do bebé. A ciência demonstra que um bebé que está em contacto com o corpo da mãe regula mais facilmente os seus batimentos cardíacos, o ritmo respiratório, a temperatura e, ao que parece até o próprio desenvolvimento cerebral e do sistema nervoso podem aprender com esta espécie de quase fusão com o organismo mais maduro da mãe que o vai influenciando nos seus próprios ritmos. 

O cortisol e o sono nos bebés 


Uma das grandes queixas das mães é o facto dos bebés nascerem muitas vezes com o que se chama sonos trocados. Muitos bebés dormem o dia inteiro e à noite estão despertos e prontos para a brincadeira coisa que leva muitos pais ao desespero. Hoje sabemos que uma das hormonas que tem um papel importante nos ritmos de sono é o cortisol - que também está ligado à resposta de stress. Quando estamos num sono profundo, à noite, os nossos níveis de cortisol estão no seu valor mais baixo e, à medida que nos vamos preparando para despertar os níveis de cortisol vão subindo até encontrarem o seu valor máximo na altura em que acordamos, de manhã. Esta será uma das razões pelas quais nunca sentimos que descansamos tão bem quando alteramos muito os nossos horários de sono: porque os ritmos de cortisol não conseguem acompanhar facilmente essas alterações, principalmente se forem esporádicas e aleatórias, e acabamos por não conseguir descansar tão bem. A mesma coisa pode acontecer por alterações provocavas por estados de stress e tensão que aumentam os níveis de cortisol no organismo e nos impedem de dormir bem. 

Acontece que, hoje se sabe, que os bebés nascem ainda sem um padrão de cortisol definido. Os seus ritmos de cortisol durante os primeiros meses ainda não seguem este padrão estável, como nos adultos e, ao que parece, só começam a ficar mais definidos por volta dos nove meses de idade. Isto quer dizer que é importante que ajudemos os bebés a criar esse padrão para que possam ter um ritmo de sono mais regular. Há especialistas que defendem que os problemas de sono na infância podem levar a problemas de sono na vida adulta. Possivelmente isto estará relacionado com essa incapacidade de estabelecer um rimo regular para a produção de cortisol (e outras hormonas relacionadas com o sono) que se poderá prolongar se o bebé não tiver oportunidade de ir desenvolvendo esses padrões. 

A grande questão aqui é que forçar o bebé a uma situação que vai contra todo o seu instinto - dormir sozinho - só provoca uma elevação destes níveis de cortisol o que, por sua vez, vai dificultar a criação deste ritmo e de um padrão estável. Já há estudos que demonstram que quando se deixa um bebé a chorar para adormecer os seus níveis de cortisol sobem muito e continuam elevados, mesmo depois do bebé parar de chorar. Isto quer dizer que é possível ensinar um bebé a ignorar o seu instinto e a deixar de demonstrar o seu desconforto e tensão, mas a que preço e para quê? 

Pelo contrário, se deixarmos um bebé em contacto com o corpo e com o organismo da mãe ou do pai durante a maior parte do dia, aquilo que provavelmente irá acontecer é que o organismo do bebé se irá deixar como que modelar por este contacto e, assim como os bebés vão adoptando o ritmo respiratório do batimento cardíaco das mães, provavelmente irão também começar a adquirir mais facilmente os seus padrões de cortisol. Então é isto que o instinto de qualquer mãe e que qualquer bebé sabe perfeitamente: é que um bebé pequeno se desenvolve muito melhor e com muito mais facilidade se lhe for permitido esse contacto quase permanente com o corpo e com o organismo de um adulto. Porque um bebé sozinho também consegue respirar e o coração continua a bater mas a verdade é que precisa de despender muito mais energia para o fazer e o que acontece é que o faz a partir de um estado de maior tensão, que não lhe permite ficar tão livre para crescer e para investir em todas as outras tarefas de aprendizagem intensa que fazem parte dos seus primeiros anos de vida. Por isso um bebé a quem este contacto e esta presença são permitidos também se torna um bebé muito mais fácil de criar e de cuidar o que, por sua vez, também liberta a mãe para outras descobertas e para uma maternidade muito mais leve e fluída. 

Ligar para crescer - fundir antes de separar 


E, na verdade, o que acontece é que isto é válido para os dois lados, porque o bebé ganha muito com esta presença mas a mãe também pode ganhar. Porque o facto de ter o bebé junto a si, a mamar por exemplo, ou simplesmente junto ao peito também faz com que se libertem uma série de hormonas , como a já tão conhecida oxitocina a que se chama muitas vezes a hormona do prazer, que estão relacionadas com sentimentos de bem-estar, de tranquilidade e de felicidade. Então uma mãe que se permite seguir o seu instinto também pode viver estes primeiros meses de maternidade de forma muito mais prazeirosa e acredito até que esta é uma das fórmulas mais importantes para prevenir a depressão pós-parto. Culpam-se muitas vezes as hormonas por esta depressão mas, por um lado, estas podem ser produzidas justamente pelo contacto com o bebé e, por outro lado, acredito que esta está muitas vezes relacionada com sentimentos de perda e de incapacidade de cuidar do bebé ou de si própria durante estes primeiros tempos. Então, sem querer simplificar uma coisa que, obviamente é bem mais complexa do que isto e que precisa de ser compreendida de acordo com a história de vida e com as experiências de cada mulher, a verdade é que seguir o instinto e não termos medo de mergulhar completamente nele e na experiência de nos fundirmos com as nossas crias é uma parte muito importante de prevenir esta condição. 

Já se sabe que quando nascemos, é através destas ligações e vínculos intensos que criamos com os nossos pais que aprendemos a segregar certas hormonas que estão relacionadas com o prazer e bem-estar, como a dopamina, por exemplo. Acontece que, se não tivermos a experiência de aprender a produzir por nós mesmos estas hormonas na infância, vamos precisar, mais tarde, de encontrar fontes exteriores que nos levem a produzi-las para que possamos encontrar sentimentos de prazer e satisfação que são essenciais nas nossas vidas. Existe assim já uma teoria muito bem fundamentada que nos explica que esta é justamente a base de todas as dependências - químicas e não só - que podemos ir desenvolvendo ao longo da vida: o sentimento de separação, de abandono e a incapacidade de nos sentirmos verdadeiramente ligados a alguém que está na base da nossa capacidade de produzir todas essas hormonas associadas ao bem-estar e felicidade. (foi sobre isso mesmo o primeiro artigo deste blog). 

Os psicólogos, os pediatras e a sociedade em geral, alertam-nos para os perigos desta fusão. Muitas pessoas bem intencionadas nos dizem que não podemos deixar de cuidar de nós para sermos mães (eu própria o afirmo no meu último livro), outras dizem-nos que não podemos descuidar a vida de casal, ou a profissão para podermos ser felizes. Mas acredito que, nos primeiros tempos, aquilo de que cada mãe precisa é de não ter medo de se fundir com a sua cria, os bebés nascem desse estado de fusão: estavam completamente dependentes e ligados a nós dentro do útero e precisam de tempo para se irem desligando aos poucos. E também nós, mães, precisamos desse tempo, esse desligar tem de ser gradual, instintivo e sem pressas. É verdade que temos de cuidar de nós para sermos boas mães mas acredito que, nos primeiros meses, cuidar de nós é cuidar dos nossos filhos. Mais do que deixá-los com os avós para irmos passear ou a dormir sozinhos para podermos descansar, precisamos de aceitar que, nos primeiros meses de vida, cuidar de nós é justamente não termos medo de seguir o instinto e de nos deixarmos absorver de forma completa e total pelo nosso papel de mãe. Sabendo que, depois aos poucos, a vida se encarregará naturalmente de nos lembrar de todos os outros papeis importantes. Já Winnicott (pediatra muito reconhecido pelas suas teorias do desenvolvimento infantil) dizia que "Não existe tal coisa como um bebé sozinho. Apenas um bebé e a sua mãe." O que isto quer dizer é que, enquanto sociedade, precisamos também de reconhecer que há realmente uma altura em que esta fusão emocional acontece, faz sentido e é necessária. E não precisamos de a temer, de a contrariar ou de fugir dela mas sim de abraçar totalmente esse estado sem medos, sem receios de nos entregarmos totalmente, sabendo que no dia em que começarmos a sair dele tanto nós como os nossos filhos teremos muito mais capacidade para viver de forma plena, feliz e completa. Reconhecendo que primeiro é preciso mesmo fundir para que, depois dessa fusão, com o tempo e de forma natural e gradual, possam sair dois seres novos, diferentes e mais maduros porque não é só o bebé que tem oportunidade de crescer e de aprender com este estado mas para a mãe também pode ser um tempo de transformação, de aprendizagem e de crescimento intenso se permitirmos que tudo flua naturalmente. 

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Lançamento - Mindfulness para Pais

"Não acredito em métodos para treinar crianças e muito menos bebés, não acredito que as crianças precisem de ser treinadas para atingirem comportamentos que fazem parte da sua evolução natural e não acredito que haja um método certo e único para criar crianças felizes. Também não acredito que a grande meta da educação seja criar filhos independentes como tantas vezes se parece pensar. 

Com a ajuda do mindfulness, uma ferramenta de auto-exploração e de crescimento cada vez mais reconhecida, este livro propõe então que façamos uma viagem pelo nosso passado e, ao mesmo tempo, ao futuro dos nossos filhos. Este livro propõe que sejamos capazes de parar para ganharmos noção e assumirmos a responsabilidade do impacto que temos na vida dos nossos filhos. Mas propõe que o façamos com toda a leveza que o mindfulness pode ensinar. Porque, através dele, podemos perceber que temos toda a responsabilidade e nenhuma culpa. É verdade que através do mindfulness podemos aprender a desenvolver uma atitude que nos ajude a criar filhos mais felizes, mais seguros e mais confiantes mas, para o fazermos, muitas vezes precisamos primeiro de criar uma nova relação connosco próprios. 

Espero que este livro possa ser orientador nesse caminho da consciência, nessa viagem ao nosso interior e também ao interior dos nossos filhos. Mas o guia mais importante nesta viagem é o mesmo o nosso coração, o instinto que sabe exactamente do que é precisamos para sarar as nossas feridas e podermos ser os pais que o nossos filhos merecem. 
Na verdade, este livro não é apenas para pais, mas para todos aqueles que trabalham com crianças no dia a dia ou até para todos os adultos, já que algumas sugestões podem aplicar-se a todo o tipo de relacionamentos. E é também para todos aqueles que, já tendo sido filhos, querem encontrar formas de perceber melhor a sua história e de lidar com as suas feridas."

Estes parágrafos são excertos da introdução do meu livro: Mindfulness para Pais, editado pela Manuscrito. E, porque é sempre bom conhecer quem nos lê, deixo aqui o convite, a todos os leitores deste blog, para estarem presentes na sua sessão de lançamento no dia 9 de Junho, na Fnac do Chiado. 


sexta-feira, 8 de abril de 2016

Crianças que batem

Uma das preocupações frequentes dos pais tem que ver com o facto das crianças, geralmente a partir do primeiro ano, mostrarem muitas vezes tendência para bater quando são contrariadas ou quando se sentem frustradas ou zangadas. Este comportamento é perfeitamente natural a partir de um ano e pouco e geralmente dura pelo menos até aos 4, 5 anos, embora possa diminuir de intensidade ou de frequência. Também pode acontecer que em vez de bater a criança empurre, dê pontapés ou morda quem está ao pé ou a pessoa responsável pela sua frustração.

Por vezes os pais pensam que este comportamento só pode ter sido aprendido na escola, com outras crianças, já em que em casa nunca lhes foi dado esse exemplo. Outras vezes, quando as crianças não andam na escola, os pais ficam ainda mais preocupados e intrigados e sem saber como é que a criança aprendeu a fazer isso. A verdade é que bater ou dar pontapés é um comportamento que não precisa de ser aprendido. É um comportamento instintivo que todas as crianças mostram pelo menos de vez em quando


A zanga como uma resposta fisiológica    


Sempre que nos zangamos estamos a despoletar aquilo que se chama a resposta de luta ou fuga que, neste caso, é mais de luta e que significa que o nosso corpo se está a preparar para lidar com uma potencial ameaça. Esta ameaça não precisa de ser real mas o que é certo é que uma parte do nosso cérebro identificou algo como sendo potencialmente perigoso para a nossa sobrevivência ou para a nossa integridade física e, por isso, o corpo prepara-se para lidar com essas ameaças, pondo em marcha uma série de modificações fisiológicas. Isto é uma resposta comum a todos os mamíferos e que está presente desde o nascimento. Acontece que um bebé quando se zanga ainda não tem controlo suficiente para bater por isso só pode chorar e esbracejar ou espernear. Mas, a partir do momento em que a criança começa a ser capaz de exercer algum controlo sobre as suas funções motoras e começa também a perceber que em algum poder sobre o seu meio ambiente, percebe também que é capaz de bater e que, ainda por cima, isso até tem algumas consequências - embora nem sempre as desejadas, mas a criança pequena ainda demora algum tempo até fazer essa ligação. Então, na verdade, bater não é algo pensado ou consciente, no sentido em que a criança não pensa que irá bater para conseguir algo mas é mais um impulso, um instinto que pode ser posto em marcha sempre que ela sente que pode estar a ser posta em causa a sua integridade. E é relativamente fácil para uma criança pequena sentir isso porque esta é uma fase em que ela está a descobrir que tem vontades, gostos e ideias próprias e que tem capacidade de fazer coisas e de agir no mundo. E o seu instinto diz-lhe que deve perseguir essas acções que deve tentar seguir os seus gostos, as suas preferências, afinal esta é uma forma importante de perceber quem é e de se conhecer como pessoa. Mas, ao mesmo tempo, a criança também percebe que há uma vontade mais forte que é a dos pais, ou por vezes, de outras crianças e que essas vontades entram facilmente em choque com as suas. Isto gera uma sensação grande de frustração e de zanga que uma criança ainda não tem grande capacidade de gerir, por isso só lhe resta agir.

O modelo cérebro-mão

Daniel Siegel tem um modelo muito útil que nos ajuda a compreender o funcionamento do cérebro e as diferenças entre o cérebro de um adulto e de uma criança: é o modelo do cérebro-mão. Para o compreender experimente fechar uma das suas mãos com o polegar por dentro dos restantes dedos. Neste modelo o polegar representa o sistema límbico, a zona do cérebro que está ligada ás emoções e que é responsável pelo seu surgimento. Os restantes dedos representam o córtex cerebral, a parte que está ligada ao pensamento mais racional e mais elaborado e que nos pode ajudar a integrar, a estruturar e a processar as emoções. Agora experimente abrir a mão, deixando só o polegar em contacto com a palma. Isto é o que acontece quando nos zangamos: o sistema límbico fica, temporariamente, desligado do córtex cerebral e ficamos a viver as emoções de uma forma muito intensa e, enquanto essa ligação não se restabelecer, torna-se difícil processar as emoções e agir de forma mais controlada. Por isso a expressão que usa muitas vezes - saltou-me a tampa - até é bastante adequada, porque é mesmo o que acontece. Ora as crianças, até aos dois anos, pelo menos, vivem permanentemente sem tampa, porque o seu córtex cerebral ainda não está suficientemente desenvolvido para poderem fazer uso dele e processar racionalmente aquilo que estão a sentir. Este desenvolvimento só começa a partir dos dois anos e, na verdade, sabe-se que só está concluído por volta dos vinte e poucos anos de idade. O que mostra o longo percurso que os nossos filhos ainda têm pela frente para aprenderem a lidar com o que sentem.

O desenvolvimento dos sentimentos mistos 

Gordon Neufeld explica que a forma mais importante e eficaz de fazer com que a criança pare de bater é esperar pelo desenvolvimento daquilo a que ele chama os sentimentos mistos, que não começam a aparecer antes dos 5 anos de idade. Quando nós, adultos, ficamos zangados com alguém, - quando nos zangamos muito com os nossos filhos, por exemplo - aquilo que nos impede de lhes bater é saber que, mesmo zangados, continuamos a gostar muito deles e que não os queremos magoar. Mas uma criança, antes dos cinco anos, ainda não consegue sentir esta dualidade, só sabe que está furiosa naquele momento e não é capaz de sentir as duas coisas ao mesmo tempo. Só a partir dos cinco anos de idade é que córtex cerebral começa a desenvolver-se o suficiente para que a criança comece a ser capaz de sentir estas duas coisas opostas e aparentemente contraditórias ao mesmo tempo: detesto-te neste momento mas sei que gosto muito de ti e não te quero magoar. Então tudo que precisamos de fazer é dar-lhes tempo para chegarem até aqui. E é preciso lembrar que nem todas as crianças chegam ao mesmo tempo às mesmas fases, por isso se uma criança mais velha ainda não consegue lidar com esta ambivalência e tem muita tendência para agredir temos de tentar perceber se ela já chegou realmente a essa fase porque, na verdade, é possível que ainda não tenha chegado. Na verdade, há alguns adultos que ainda não conseguem ver o mundo sem ser a preto e branco, porque não tiveram no seu desenvolvimento as condições ideias para poderem crescer de verdade.

Então como lidar com uma criança que bate? 

Primeiro é importante perceber que ela está apenas a ser criança, não quer dizer que seja má, ou que tenha maus instintos ou sequer que esteja a ser mal educada. Está a fazer aquilo que lhe é mais natural, depois podemos até dizer que não gostamos daquele comportamento e mostrar-lhe formas alternativas de expressar a sua zanga mas sempre sem dar muita importância ao que ela fez. É importante que a criança sinta que não fez nada de errado e que não se passa nada de mal consigo pelo facto de não ser capaz de controlar as suas emoções e os seus impulsos, porque ainda não é realmente suposto que o faça. 

Depois, se a criança nos bateu a nós, como acontece muitas vezes, é importante também sermos capazes de processar os nossos sentimentos e de não levarmos isso como um ataque pessoal. O mesmo acontece quando a criança diz à mãe ou pai que já não gosta deles e isso, por vezes, deixa os pais muito sentidos. Mas é preciso percebermos que a criança, naquele momento, está mesmo sem tampa e a viver emoções muito intensas, de uma forma muito crua e não tem realmente capacidade para se lembrar que, na verdade, gosta muito de nós. Então é importante não nos mostrarmos muito ofendidos e fazermos com que a criança sinta que estamos presentes, que a relação está intacta e que ela pode explodir e ficar sem tampa à vontade, que nós vamos estar com a nossa tampa no sítio para a ajudar a lidar com as emoções.

Também é importante lembrar que a maior fonte de frustrações e de ansiedade para uma criança é sentir que pode estar em risco a sua ligação com os pais. Por isso se respondemos à sua frustração com demasiada rispidez, ou fazendo com que se sinta  mal, estamos só a aumentar a sua tensão e a criar-lhe ainda mais frustração que ela não terá como gerir e que irá precisar de descarregar de alguma forma o que, por sua vez, é muito provável que gere mais agressões. Por isso é fundamental que a criança perceba que a relação está intacta e que o nosso amor é mesmo incondicional. Isto não significa fazer aquilo que ela quer, ou ceder para que não se sinta frustrada, mas significa mostrar que compreendemos a sua zanga e a sua frustração e que, mesmo não gostando que ela bata, percebemos que não é capaz de lidar de outro modo com as suas emoções.

Diz-se muitas vezes que as crianças têm de aprender a regular as emoções, isto é verdade mas, primeiro têm que o fazer de acordo com o seu grau de desenvolvimento e segundo, precisam sempre da ajuda de um adulto para o serem capazes de o fazer. E se nós não formos capazes de gerir a nossa própria frustração, dificilmente poderemos servir de modelo para a criança aprender como o fazer com a sua. Se nós ficamos imediatamente sem tampa quando nos damos conta de que a criança fez algo de que não gostámos, então dificilmente podemos ser um modelo de como ela pode aprender a manter a sua.

Se a criança bateu noutra criança, podemos tentar perceber o que gerou a frustração e dar exemplos à criança de como poderia conseguir o que queria sem precisar de bater. Sem grandes explicações porque as crianças aprendem mais por ver do que com as palavras, podemos encontrar formas de exemplificar o comportamento que ela poderia ter tido nos casos em que isso é possível. Nestes casos também pode ser importante dar atenção à outra criança e ver como se está a sentir. Se percebemos que a outra ficou sentida é importante dar-lhe espaço para expressar isso e para mostrar o que sente mas, ao mesmo tempo, sem que a que bateu se sinta mal por tê-lo feito. Podemos também aproveitar para explicar as consequências mostrando a quem bateu que o outro ficou triste ou sentido mas sempre sem um tom demasiado crítico para o que agrediu, mostrando também ao que ficou mais sentido que a criança que lhe bateu não o fez por não gostar dele mas apenas por não saber lidar com a situação de outro modo. Mas, na verdade, ao mostrarmos preocupação e empatia com o sofrimento da outra criança já estamos a servir de modelo para a forma como gostaríamos que o nosso filho agisse nestas ocasiões, por isso nem serão precisas grandes explicações.

Nos casos em que os pais da outra criança estão presentes e ficam também sentidos com a situação, também pode ser importante falar com eles e mostrar alguma compreensão mas sem deixarmos que isso nos influencie demasiado na forma de lidarmos com os nossos filhos.

Por último é importante percebermos que não é preciso eliminar as frustrações da vida das crianças mas apenas estarmos presentes e termos paciência para as ensinar a lidar com elas da melhor forma. E saber que é fundamental sermos capazes de confiar nos nossos filhos e no seu desenvolvimento, acreditando na sua natureza e sabendo que o nosso papel é orientar mas também dar espaço para que ela possa desenvolver-se com confiança e harmonia. 


segunda-feira, 4 de abril de 2016

Entrevista TSF - Pais e Filhos sobre a entrada na escola

Há umas semanas fui entrevistada para o programa Pais e Filhos, da TSF, sobre as crianças e a entrada na escola. Deixo aqui o link para quem quiser ouvir a entrevista, a partir dos 11 minutos.

http://www.tsf.pt/programa/tsf-pais-e-filhos/emissao/03-abril-2016-5107342.html

E aqui uma parte mais pequenina da entrevista:

http://www.tsf.pt/programa/tsf-pais-e-filhos/emissao/05-04-2016-5109500.html

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Celebrar a conexão - honrar a abelha que existe em nós

Acredito que estamos a viver o início de uma mudança de paradigma em relação à forma como encaramos o ser humano e nosso papel no mundo. Cada vez surgem mais autores e investigadores que defendem que precisamos de reconhecer algo que é inerente à nossa humanidade e fundamental para a nossa sobrevivência enquanto pessoas e enquanto espécie: a nossa interligação e a conexão que existe entre todos. Quando falo nisto gosto muito de usar uma expressão de Jonathan Haidt, um investigador da área da Psicologia Moral, que diz que o homem é parte macaco e parte abelha, para ilustrar o facto de que sem essa capacidade de cooperarmos entre nós e de colaborarmos uns com os outros, nada existiria neste mundo. Basta pensarmos que, apesar de nem sempre o reconhecermos, as nossas sociedades só funcionam com base nessa interligação e nessa interdependência que existe entre todos: precisamos de alguém  que traga a comida até nós, por exemplo, já que a grande maioria de nós não a planta (e mesmo que plantasse ainda precisaria de outras coisas, como material para o fazer, por exemplo), precisamos de quem nos construa as casas, de quem fabrique as nossas roupas e até de quem tome conta dos nossos filhos. Todas as sociedades humanas, quer funcionem melhor ou pior, quer sejam grandes ou pequenas, funcionam com base neste princípio: nenhum ser humano é totalmente independente

Uma definição de mente 

Outro autor que fala bastante nestas questões é Daniel Siegel, psiquiatra e investigador na área do apego e das neurociências que criou uma definição da mente de que também gosto muito e que reflecte esta preocupação com esta conexão ou interligação. Siegel que é também o fundador da área da neurobiologia interpessoal, define a mente como sendo "um processo incorporado e relacional que regula o fluir da energia e da informação". Esta definição salienta, primeiro, o facto de que a mente não se encontra apenas no cérebro mas está por todo o corpo (e até fora dele) e depois o facto de que esta se vai construindo sempre em relação: os nossos relacionamentos mais importantes, sobretudo nos primeiros anos de vida, ajudam a moldar e a esculpir a mente mas, a verdade é que todos os relacionamentos vão influenciando e construindo os nossos processos mentais e o próprio cérebro mas também todo o nosso corpo é influenciado por esse processo. Sempre que estamos a relacionar-nos com alguém os nossos processos mentais influenciam os da outra pessoa e vice-versa. 

Conexão nos bebés

Já se sabe que durante os primeiros anos de vida, sobretudo nos primeiros dois, o cérebro tem muita neuroplasticidade: a capacidade de se moldar ao ambiente e de criar ou perder ligações em função das experiências que vai tendo. Mas sabe-se que esta neuroplasticidade se mantém ao longo de toda a nossa vida e por isso tudo o que vivenciamos e experienciamos acaba por influenciar a nossa mente e o nosso cérebro. E uma das principais influências para todos nós são o tipo de relacionamentos que temos com os outros. Louis Cozzolino, também neurocientista, afirma que, na infância as outras pessoas são o nosso ambiente primário, ou seja, são elas que vão influenciar toda a forma com o nosso cérebro e o nosso sistema nervoso se irão estruturar e funcionar. 
Mas mesmo na idade adulta os relacionamentos continuam a ser tão fundamentais que o facto de nos sentirmos sozinhos ou isolados ao longo da vida aumenta em 50% as probabilidades de sofrermos um ataque cardíaco, dando literalmente razão à expressão de coração partido.

Não existe criatura onde esta interligação seja mais vísível do que nos bebés humanos. Já dizia Winnicot, um pediatra e psicanalista, cujos trabalhos são clássicos do desenvolvimento infantil, que não existe tal coisa como um bebé sozinho. Isto quer dizer que um bebé só pode ser compreendido em relação e existem também autores contemporâneos, como Alan Schore e Ed. Tronick, que salientam a forma como o bebé e a mãe formam uma díade que está em permanente interacção e comunicação, de tal forma que os estados internos de um vão moldando os estados do outro. 

Conexão entre médicos e doentes 

Dan Siegel é psiquiatra e conta que chegou mesmo a desistir, durante algum tempo, do curso de medicina porque via que os professores eram incapazes de honrar esta conexão e não percebiam sequer o impacto que a forma como tratavam os doentes podia ter. Siegel dizia que, sempre que lhes falava dos aspectos emocionais da pessoa, eles respondiam que não valia a pena preocuparem-se com isso porque não era isso que iria fazer diferença na sua capacidade de ajudar a pessoa a tratar a doença. Mas existem cada vez mais provas de que esta visão não poderia estar mais longe da verdade. Na verdade existem até estudos que demonstram que o mesmo medicamento receitado por dois médicos diferentes pode ter um efeito diferente, dependendo da confiança que a pessoa tenha no médico. Outro autor, Norman Cousins, que publicou um livro sobre estas questões já em 1989, chamado Head First, conta um episódio que aconteceu num hospital onde trabalhou durante algum tempo, em que havia um médico bastante carismático e capaz de gerar muito respeito por parte dos doentes. Um dia esse médico estava a fazer a ronda com os alunos, porque era um hospital universitário, e foram ao quarto de uma senhora que tinha sido internada com um problema ligeiro de coração no dia anterior. Viram a senhora e trocaram algumas opiniões mas acabaram por não lhe explicar nada sobre a sua doença e saíram do quarto tendo ficado à porta deste a trocar algumas opiniões sobre os doentes. Ao que parece estiveram algum tempo à porta do quarto da senhora, a falar de uma outra doente que também tinha problemas cardíacos muito mais graves e esse tal médico, a certa altura, terá dito que ela já não tinha hipótese e que era apenas uma questão de horas. A senhora ao ouvir isto terá pensado que estavam a falar de si e, no dia seguinte, morreu mesmo de um problema que, na verdade, tinha muito poucas probabilidades de causar uma morte tão rápida.  Esta é uma história um pouco extrema mas mostra bem o impacto que as nossas crenças e a forma como nos relacionamos com os outros podem ter. É pena que existam ainda tantos médicos que não percebem que precisam de tratar o ser humano por inteiro e não apenas os seus sintomas e que a emoção e toda a relação que constroem com os doentes podem ter um papel tão importante ou até mais importante na cura do que os próprios medicamentos. Infelizmente, pelo menos em portugal, temos um sistema que facilita que as emoções sejam deixadas de lado quando selecciona para os cursos de medicina jovens cuja prioridade durante o ensino secundário terá de ser manter uma capacidade de estudo altamente focada e racional, numa altura em que existem tantas outras descobertas importantes a fazer. 

Acredito que isso contribui também, em parte, para o facto de termos uma classe médica tão fechada a estas evidências e tão voltada para as questões da independência, no que toca ao desenvolvimento infantil, quando o que nos deve preocupar acima de tudo é mesmo a conexão. Ainda ontem alguém comentava comigo que levara o filho de cinco meses a uma consulta de pediatria em que a médica tinha achado que a sua musculatura do tronco estava pouco desenvolvida para a idade. Claro que o primeiro culpado foi logo o excesso de colo e o remédio apontado passava por deixar de atender aos seus sinais e não lhe fazer a vontade sempre que ele demonstrava que queria que lhe pegassem. 

Não podia concordar menos com isto quando todas as investigações mostram que a base uma boa vinculação entre mãe e filho é justamente a prontidão para responder aos seus sinais e para satisfazer as suas necessidades. Nesta idade mãe e filho estão ainda a criar um sistema de comunicação em que é mesmo importante que a mãe esteja disponível para responder aos sinais do filho, para que este possa moldar o seu cérebro no sentido de saber que vale a pena comunicar e que vale a pena estabelecer relações íntimas e de confiança.

Mais conexão é sempre a solução

A verdadeira independência não existe, é um mito, e alguém que diga que não precisa de ninguém só pode ter sido profundamente magoado para deixar de acreditar que vale a pena ligar-se aos outros. Aquilo que queremos é que os nossos filhos sejam autónomos, sim, no sentido de descobrirem a sua própria pessoa e de seguirem o seu próprio caminho mas essa autonomia só faz sentido dentro de reconhecimento dessa conexão, que tem de ser honrada, respeitada e até celebrada

Então não existe colo a mais nem para um bebé de cinco meses nem em nenhuma  outra idade. Todos os problemas de comportamento das crianças e até dos adultos vêm da falta de conexão. Isto é bem exemplificado na questão das dependências de que fala Gabor Maté, que por acaso, foi o tema do primeiro artigo deste blog: criamos dependências de algo, quer sejam comportamentos ou substâncias, porque não aprendemos a encontrar formas de nos sentirmos ligados aos outros de maneira satisfatória e segura. Por isso precisamos de preencher esse vazio e de encontrar algo que nos dê, mesmo que temporariamente, o tal sentimento de pertença que nos falta. 

Um dos autores que mais admiro e que construiu todo um modelo de desenvolvimento com base neste princípio de conexão é Gordon Neufeld. Este autor explica que a resposta para todos os problemas de comportamento ou de ansiedade nas crianças é sempre mais apego, nunca menos, mais apego, tem sempre de ser a resposta. Porque é nesse apego que encontramos a solução. Então quando as mães, por vezes, me dizem que as outras pessoas as criticam porque os filhos são muito apegados a elas, respondo sempre que isto não poderia ser mais errado: não existe apego em excesso, porque simplesmente não existe amor em excesso, tal como não existe conexão em excesso. 

Neufeld explica que temos de honrar a dependência que a criança tem de nós, que é saudável e desejável e que temos de lhe permitir que descanse no nosso amor. Isto quer dizer que a criança tem que sentir sempre essa conexão e para isso temos de encontrar formas de estar verdadeiramente presentes e de reconhecer e honrar a dependência. Porque é esse o verdadeiro caminho para a autonomia e essa autonomia só pode acontecer se vier de dentro, de forma livre e espontânea. Ninguém pode forçar ninguém a querer ser a sua própria pessoa, a querer seguir o seu caminho, se for à força então já não é autónomo. E, para que a vontade de ser autónomo possa surgir a criança tem que estar completamente segura dessa conexão e completamente segura da nossa capacidade de cuidar dela e da nossa disponibilidade para estarmos presentes, com ela. Porque se a criança não estiver completamente segura desse apego, dessa conexão, das duas uma: ou ela desiste de vez e fecha-se quando a dor de não se sentir segura é demasiado grande para suportar, ou ela fica num modo de busca constante, em que precisa repetidamente de provas desse amor, de que essa ligação existe. 

E quando a criança está nesse modo de busca ela não pode descansar, não consegue desactivar o seu sistema nervoso simpático que mantém um estado de alerta constante e cria muita ansiedade, ao mesmo tempo que limita o seu crescimento e impede um desenvolvimento saudável. Então a única forma de desactivar o simpático é dar essa segurança à criança, respeitando que ela precisa de nós e encontrando sempre formas de lhe dar do que aquilo que ela pede, no fundamental e no essencial. Claro que isto não significa que temos que lhes dar chocolate e televisão a toda a hora, antes pelo contrário até, porque também é importante que os nossos filho saibam e sintam que estamos no controlo e que somos capazes e competentes de os orientar e de cuidar deles. Para isso torna-se essencial distinguir as necessidades reais de ligação, de dependência, de conexão daquelas que são mais supérfluas como ter uma nova caixa de legos, por exemplo. 

As crianças precisam de um depósito sempre atestado com o nosso amor, com a nossa presença, a nossa disponibilidade. Porque só assim podem ter energia suficiente para crescerem em direcção a uma autonomia real. 

Então, como diz Neufeld, a resposta para tudo é sempre mais apego, nuca menos, sempre mais apego. E para que esse apego se mantenha temos de estar disponíveis. 

Na verdade até nas relações de casal o apego é importante. A forma como nos relacionamos com o nosso companheiro/a tem tudo a ver com os modelos que interiorizámos na nossa infância. E existem também já terapeutas de casal, como Sue Jonhson,  que trabalham essas relações, com muito sucesso, com base nessa ideia de interdependência entre o casal. Porque um casal feliz e saudável é um casal que honra e reconhece essa dependência, sem perder a sua autonomia. Um casal feliz é um casal em que cada um dos membros sabe ser a sua própria pessoa, não se perde na identidade de casal mas, ao mesmo tempo sabe cuidar do outro e sabe também ser cuidado quando precisa. Num casal feliz e saudável deve existir essa alternância em que um cuida e o outro é cuidado, à medida que cada um vai precisando. E Neufeld diz que, assim como nunca ficaríamos casados com alguém que nos dissesse eu não vou fazer por ti nada que tu não possas fazer sozinho, também os nossos filhos não podem confiar em nós se não estivermos dispostos a fazer coisas por eles. 

Ele dá o exemplo de um estudo em que dividiram os pais em dois grupos: um em que, desde que os filhos começavam a andar se recusavam a dar-lhes colo e outro em que ofereciam sempre colo e diziam que gostavam de dar colo aos filhos mesmo quando estes não pediam. Nos resultados verificou-se que os que queriam sempre dar colo tinham filhos que, na verdade, andavam muito mais a pé do que os outros. 

Então precisamos de não ter medo de nos ligar aos nossos filhos, não ter medo de lhes mostrar que podem mesmo confiar em nós e não ter medo de confiar neles
. Não ter medo de acreditar que, se lhes dermos tudo que eles precisam, se lhes permitirmos mesmo que descansem no nosso amor, a natureza fará o seu trabalho e eles crescerão como seres humanos felizes, saudáveis e autónomos, de verdade. Com a autonomia de se saberem parte de um todo e com a segurança de serem capazes de honrar sempre essa parte que, na verdade, é a mais bonita que todos temos, é a que nos torna verdadeiramente pessoas e que nos permite manter a capacidade de amar, de viver e de sermos verdadeiramente felizes. A parte que nos permite lembrar sempre que somos parte de um todo, que é a mesma que está ligada aos comportamentos mais altruístas e empáticos e que nos permite construir relações verdadeiramente harmoniosas com as pessoas mas até com os animais e com a natureza à nossa volta.

É com vontade de relembrar e de celebrar esta conexão que escrevo todos os textos desse blog e foi com vontade de criar uma espécie de mapa que nos permita fazer uma viagem ao nosso interior, em busca de mais conexão e também ao interior dos nossos filhos, para nos ligarmos cada vez mais a eles, que escrevi o meu segundo livro: Mindfulness para Pais e Filhos que irá ser publicado em breve pela Manuscrito. 

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Quando é que as crianças devem entrar na escola

Uma das perguntas que surge com mais frequência sempre que dou workshops ou palestras sobre parentalidade é a de qual a idade ideal para entrar na escola. Esta é também uma das questões que, mais frequentemente, traz pais à minha consulta: as dificuldades em lidar com a entrada na escola dos filhos e frequentemente também acho que é uma das que mais equívocos tem gerado. 

Gordon Neufeld, um psicólogo canadiano que admiro bastante, construiu um modelo muito completo do desenvolvimento infantil em que explica que o mais importante na vida de qualquer criança é a sua capacidade de estabelecer um apego saudável, seguro e que funcione, primeiro com os pais e depois também com outros adultos importantes na sua vida. E, dentro deste modelo, Neufeld explica que a forma como encaramos hoje em dia a escola e forma como fazemos os nossos filhos vivê-la pode estar a por em perigo essa capacidade que é essencial para que a criança possa crescer e desenvolver-se da melhor forma.

Este é um tema complexo e difícil de resumir num artigo de blog e de que também já falei aqui, mas procurarei descrever algumas ideias chave deste modelo e da forma como podemos usar alguns dos seus pontos mais importantes para criar filhos mais felizes e seguros. 


O conceito de orientação para os pares

Neufeld explica que todas as crianças têm este instinto essencial de se ligarem e apegarem aos adultos que cuidam delas. Esta relação de apego é fundamental e forma a base e a matriz para toda a vida futura da criança e é através dela que a criança terá a capacidade de crescer e de se desenvolver de forma saudável. Então, uma das coisas que precisamos de fazer em primeiro lugar é reconhecer que essa dependência que a criança tem com os pais existe, é saudável e cumpre um papel importante no seu desenvolvimento. Só a partir dessa dependência e só quando esta é reconhecida, aceite e até celebrada é que a criança poderá tornar-se verdadeiramente autónoma. E por autónoma entenda-se o ser uma verdadeira pessoa com uma identidade própria, não propriamente o ser independente, porque na realidade nenhum de nós o é e acredito que a felicidade está, em parte, em sabermos reconhecer essa nossa dependência que nos permite estabelecer relações e cuidar dos outros ao mesmo tempo que nos deixamos cuidar.

Acontece que, quando decidimos que uma criança pequena precisa de passar o dia inteiro na escola, sem nós e, muitas vezes, sem um outro adulto com quem possa construir uma relação de apego, podemos estar a por em causa essa dependência e a interferir drasticamente com os instintos dessa criança.

Neufeld explica que, na maior parte dos casos, antes dos 5 anos de idade a criança não consegue agarrar-se à imagem das suas figuras de apego principais quando está fisicamente separada delas. Pelo menos não por mais que um par de horas. Mas este instinto de apego é muito forte - tão forte que sabemos que no caso de crianças institucionalizadas que nunca tiveram oportunidade de formar um vínculo até diminuem muito as suas probabilidades de sobrevivência – por isso a criança terá de procurar estabelecer essa relação com quem está perto. E, na escola, geralmente quem está mais perto são as outras crianças. Quando a criança se apega aos seus pares isto quer dizer que irá ficar muito mais resistente a formar relações com os adultos, porque as crianças pequenas não têm capacidade de formar relações de apego com muitas pessoas e porque estes apegos passam a competir entre si. Neufeld explica que a relação de apego funciona como um íman e quando activamos um dos seus pólos para atrair um determinado tipo de relação, o outro pólo fica a repelir as relações opostas.

Acontece que o instinto da criança também lhe diz que ela só deve deixar-se orientar pelas pessoas com quem tenha uma relação de apego. Muitas vezes ensinam-se as crianças a não falar com estranhos mas, na verdade, a natureza certifica-se que as crianças não tenham muita vontade de interagir com estranhos através deste instinto de apego: a criança só obedece e só escuta de verdade as pessoas a quem está apegada.

Então, Neufeld explica que esta é uma das causas dos problemas graves de indisciplina que se vêem nas escolas hoje em dia: a partir do momento em que as crianças passam a orientar-se para os pares, passa a ser a opinião destes que importa e passa a ser este comportamento que querem imitar e também passa a ser aos seus pares que querem impressionar. Por isso a opinião dos adultos passa a ser muito menos importante e por isso também passa a ser muito mais difícil que estes se deixem orientar por eles. Podemos ver a gravidade deste problema nos nossos dias se repararmos que, por exemplo, os ídolos dos adolescentes são, hoje, eles próprios adolescentes também. Há uns anos atrás isto não aconteceria tão facilmente e é claro que um adolescente não poderá ser um exemplo de comportamento tão bom como o de um adulto, pelo menos como o de um adulto verdadeiramente desenvolvido.
Para saber mais sobre este tema vale a pena ver a palestra dada por Neufeld, aqui:Why Kids need us more than Friends

Como lidar com isto 

Adiar a entrada na escola - A coisa mais simples que podemos fazer para lidar com isto e para impedir que a tal orientação para os pares aconteça é não termos pressa de colocar os nossos filhos na escola. As crianças precisam mais de estar com adultos, com quem possam estabelecer relações, do que com outras crianças. Neufeld usa uma expressão muito bonita para falara da idade em que acredita que uma criança só está pronta para ir para a escola, ele diz que isto acontece quando ela já nos deu o seu coração. Dar o coração acontece quando a criança diz espontaneamente que nos ama, que gosta de nós e isto mostra que ela está pronta para se agarrar a esse amor mesmo quando está connosco. Mostra que esse amor já é suficientemente real para que possa servir-lhe de bússola, de orientação e de conforto mesmo quando não estamos presentes fisicamente. E, segundo Neufeld, isto dificilmente acontecerá antes dos 5 anos de idade. Antes disso a criança até poderá dizer que nos ama ou que gosta de nós, mas fá-lo-á mais como uma resposta ou por imitação. Quando a criança nos dá o seu coração isto acontece de forma totalmente espontânea e podemos ver que a criança o faz com toda a sua emoção e de uma forma bastante profunda. Então, só nesta altura é que ela estará verdadeiramente pronta para lidar com a escola e com separações diárias mais prolongadas.


Quando não podemos adiar a entrada na escola

Procurar escolas que se centrem no apego – um bom educador sabe que precisa de fazer com que as crianças se liguem a si antes de conseguir fazer o que quer que seja com elas e um bom educador sabe, instintivamente, que esta tem de ser a sua prioridade e que nem vale a pena tentar fazer mais nada enquanto não conseguir criar esta ligação especial com cada uma das crianças que tem ao seu cuidado.

Ajudar a transferir o apego – os pais, como figuras primárias de apego da criança, precisam de fazer a ponte entre a criança e a escola. Quando estamos a falar de bebés, é mais facilmente aceite  que a adaptação à escola seja feita de forma gradual e com poucas horas de cada vez. Mas com crianças mais velhas isto também é muito importante. É importante dar tempo à criança para ir conhecendo a escola e é importante que isto seja feito com a presença dos pais ou avós, quando estes são também uma referência para a criança.
O instinto de apego é também um instinto de proteccção, por isso, ele fica muito mais activo quando a criança está num sítio estranho e o que lhe diz este instinto é que, em situações potencialmente ameaçadoras, ela deve procurar a proteção dos seus pais ou figuras de apego. Por isso, se queremos uma transição suave, é essencial que os pais estejam presentes, algumas horas nos primeiros dias de escola, para que esse sítio possa tornar-se familiar e deixe de activar essa resposta de alarme na criança.
Depois é muito importante que os pais também saibam que a criança vai precisar de estabelecer essa relação de apego com o educador com quem irá ficar todo o dia. E, para que isso aconteça mais facilmente, é importante que eles actuem como uma espécie de ponte: a criança precisa de ver os pais em comunicação com o educador, para sentir que aquela pessoa é segura, precisa de ver que os pais e o educador se dão bem e que existe uma relação entre eles para que o seu instinto lhe diga que é seguro ficar com aquela pessoa e estabelecer uma relação com ela.
Muitos educadores não gostam de ter os pais presentes na sala durante os primeiros dias mas isto pode ser mesmo essencial, com crianças com menos de cinco anos, para que a transição seja feita da melhor forma e para que as crianças tenham verdadeiramente uma oportunidade de estabelecer uma boa relação com eles.
Nenhuma criança gosta de sentir que é deixada sozinha num lugar estranho com estranhos porque isso vai totalmente contra todos seus instintos e pode mesmo por em causa a sua capacidade de se apegar aos adultos que cuidam dela.
Neufeld diz que deveríamos criar rituais em que os pais e educadores pudessem conviver, na presença da criança e que acontecessem com alguma regularidade, para que esta se possa sentir verdadeiramente segura.

Limitar o número de alunos – nenhuma turma de crianças com menos de 5 anos deveria ter um número grande de alunos. Porque é essencial que o educador possa estabelecer relações seguras com cada um e claro que isso será tão mais difícil quanto mais forem os alunos.

Procurar escolas centradas na brincadeira - é essencial que as crianças tenham tempo para brincar livremente antes de começarem a aprender a contar ou escrever. Só assim é que o seu cérebro e a sua curiosidade natural poderão estar preparados para iniciar um período de aprendizagem intelectual que, idealmente, não deverá começar antes dos 6, 7 anos de idade.

Mudar a organização das escolas centrada na idade - na maioria das escolas as crianças estão apenas com crianças da sua idade e, na verdade, Neufeld  explica que isto não tem nada de natural. As crianças da mesma idade têm muito mais tendência para competir umas com as outras e criam muito mais tensão umas nas outras. Se as crianças puderem estar com crianças de várias idades os mais pequenos vão-se juntar naturalmente aos mais velhos e esta poderá até ser uma boa de prevenir o bullying de que tanto de fala hoje em dia. 

Limitar a exposição aos pares – Neufeld diz que as crianças precisam mesmo é de estar com adultos e muitas vezes estamos tão preocupadas em fazê-las socializar que, para além da escola, ainda passamos os fins de semana em festas de anos nessa ânsia de achar que as crianças precisam de conviver com outras crianças quando, na verdade, elas precisam é de estar connosco e com outros adultos significativos nas suas vidas. Se o convívio com os pares fosse uma boa forma de socializar, as crianças de rua e os membros de gangues seriam modelos exemplares de um bom desenvolvimento.
Isto inclui também pensarmos que, nas escolas, é importante que haja muito mais adultos no recreio, por exemplo e é importante que estes interajam com as crianças e não se limitem a intervir em situações de crise.

Manter a presença dos pais na sala- por parte dos educadores pode ser também muito importante manter viva a presença dos pais dentro da escola. Dizer a uma criança que chora porque a mãe nunca mais chega que faça um desenho para lhe dar quando ela vier, por exemplo, ajuda-a a manter o foco na re-união que irá acontecer no final do dia e ajuda-a manter viva a imagem desse amor que sente por ela o suficiente para aguentar a separação. 

Recolher a criança - Neufeld explica que é essencial recolher a criança depois de cada separação, isto serve para restabelecer a ligação e lembrá-la que essa relação de apego existe. É muito importante que o façamos de manhã, depois de a criança acordar - porque o sono também é uma separação - e ao final do dia quando vamos buscá-la à escola ou quando chegamos a casa. Para ajudar a criança a por o foco nessa ligação de apego. A primeira coisa que fazemos deverá ser sempre restabelecer essa ligação: deixar que a criança venha ter connosco, se for na escola, e dar-lhe algum tempo para se reaproximar enquanto mostramos que estamos presentes e totalmente disponíveis. E não ter medo de mostrar que também sentimos muito a falta dela e que também gostávamos de ter passado o dia inteiro juntos. 
Só depois dessa ligação se ter restabelecido é que a criança estará verdadeiramente pronta para ser orientada ou dirigida por nós. 


Existem estudos que mostram que, ao final do dia, os níveis de cortisol na corrente sanguínea de crianças do jardim escola começam a subir (quando deveriam estar a descer) mostrando que estão claramente em stress. 
Aquilo que digo, muitas vezes aos pais, é que colocar uma criança pequena na escola não irá prejudicá-la para o resto da sua vida mas precisamos de ter noção que o que estamos a pedir a essa criança que faça não é nada natural e vai contra todos os seus instintos por isso é muito importante que encontremos formas de tornar essa transição o mais suave possível. 
E sobretudo precisamos de não ter medo de assumir um papel de destaque na vida dos nossos filhos, precisamos de não ter medo que dependam de nós e de lhes mostrar que podem confiar em nós e que podem, como diz Gordon Neufeld, "descansar no nosso amor".