sexta-feira, 28 de abril de 2017

Castigos e consequências - educar com o coração macio

Hoje em dia, felizmente, começam a surgir cada vez mais pessoas com consciência de que tanto os castigos como as palmadas são desnecessários na educação das crianças e, mais do que isso, podem mesmo ser nocivos mas acredito que ainda é importante explicar o porquê desta visão.  

Em primeiro lugar  precisamos de compreender que o cérebro humano é bastante moldável, sobretudo nos primeiros anos de vida - em que se encontra numa fase muito activa de desenvolvimento - e que as relações que formamos são uma das principais influências para a sua formação. Sabemos hoje que o cérebro de uma criança mal tratada ou negligenciada se desenvolve de forma muito diferente do cérebro de uma criança que tenha uma boa relação com os seus pais: algumas estruturas cerebrais, como o hipocampo ou certas zonas do córtex, por exemplo, desenvolvem-se melhor nas crianças que têm uma boa ligação com os seus pais ou aquilo a que chamamos um apego seguro. Então isto quer dizer que, tudo o que fizermos com os nossos filhos, sobretudo nos seus primeiros anos irá contribuir para moldar o seu cérebro e o seu sistema nervoso o que, por sua vez, irá também contribuir para definir a forma como eles se irão relacionar com o outros, com o mundo e consigo mesmos. 

Quando a criança nasce ela está totalmente predisposta para estabelecer uma ligação com os seus pais e activa aquilo que podemos chamar de instinto de apego. Acontece que sempre que nos ligamos profundamente a alguém também ficamos vulneráveis à forma como essa pessoa lida connosco e é muito mais fácil sermos magoados por alguém de quem gostamos simplesmente porque nos importa aquilo que a pessoa pensa e sente por nós. Porque quando gostamos de alguém tudo o que mais queremos é que essa pessoa goste de nós também. E, se enquanto adultos é possível perceber que, mesmo quando alguém nos está a tratar mal não quer dizer que não goste de nós, para uma criança pequena isto é mesmo impossível. 

Muitas vezes as pessoas que são contra os castigos ou palmadas dão exemplos de situações em que um adulto castiga outro adulto porque quebrou uma regra ou fez algo de que o primeiro não gostou. Como por exemplo uma mulher que impediria o marido de ver televisão durante uma semana porque ele tinha chegado a casa muito tarde uma certa noite, sem sequer avisar. Estes exemplos até podem servir para se ver um pouco o ridículo de certas atitudes mas, na verdade, não compreendem a questão fundamental: é que uma criança não é um adulto. E, para quem acha que se deve castigar ou bater fica muito fácil dizer que os adultos já não precisam de ser educados e as crianças sim. E é verdade que uma criança ainda precisa de aprender certas coisas que um adulto já deveria saber.  E, se acredito que as crianças têm o direito de ser tão respeitadas como os adultos, também acredito que não podemos lidar com elas da mesma forma com que lidamos com os adultos. Porque é verdade que precisamos de educar, de ensinar e de orientar as crianças e isto é importante para o seu bom desenvolvimento mas, mais importante que isso neste caso, porque as crianças não têm a mesma compreensão e a mesma capacidade de defesa de um adulto. Quando tratamos mal uma criança os estragos são bem maiores do que quando tratamos mal um adulto porque, além de todo o seu cérebro ainda estar em construção, uma criança simplesmente não consegue perceber que quando lhe gritamos, batemos ou castigamos o estamos a fazer porque gostamos delas e queremos o seu bem. 

E quando somos repetidamente magoados - e não há maior dor do que acreditar que aqueles de quem gostamos e precisamos não gostam de nós - precisamos de começar a criar defesas que nos ajudem a deixar de sentir essa dor. E a melhor defesa é deixar de sentir que precisamos tanto dos outros, a melhor defesa é acreditar que não precisamos de nos sentir amados ou acolhidos porque assim deixamos de sentir essa dor que acontece sempre que acreditamos que as pessoas importantes na nossa vida afinal não gostam de nós. 

E se essa defesa precisar de ser activada muitas vezes então essa criança vai crescer como um adulto distante dos sentimentos - porque foram eles a fonte do seu sofrimento que precisou de ser como que desligada ou reprimida - mas também distante dos outros. E isso quer dizer que será uma criança muito mais difícil de educar ou de guiar porque quando ela desliga esse instinto básico e fundamental que lhe diz que deve construir uma ligação com os seus pais, também desliga a parte que lhes quer agradar e a parte que sabe que se deve deixar guiar. E quando isto acontece com os pais, que são a primeiras pessoas com quem aprendemos a ler o mundo e a vida, também acontecerá muito mais facilmente com os outros adultos. 

E depois, no fundo, é apenas uma questão de grau: se a dor foi muito forte e muito repetida, significa que esse desligar também tem de ser grande; se foi um pouco menos intensa ou aconteceu  menos vezes, pode haver apenas um desligar parcial que funciona como uma espécie de muralha que pode ser activada sempre que a criança ou adulto se sentir em perigo. E o perigo pode vir de qualquer sinal de rejeição mas pode vir também do medo de criar uma ligação verdadeira, porque afinal, as relações não são completamente seguras. 

Castigos diferentes com o mesmo resultado 

Se castigamos uma criança fazendo-a ficar sozinha alguns momentos porque se portou mal - e este é o castigo que costuma ser mais usado com crianças pequenas - aquilo que lhe estamos a transmitir, aquilo que ela é capaz de entender, é que não gostamos dela naquele momento. Aquilo que dizemos a uma criança quando lhe recusamos que fique perto de nós é que não é digna de estar connosco naquele momento, que não somos capazes de aceitar a sua presença. E isto dói muito a uma criança que ainda não tem maturidade para perceber que os pais podem estar zangados naquele momento mas, ao mesmo tempo, gostam muito dela. Porque para as crianças o mundo é apenas a preto e branco, só a partir dos 5, 6 anos de idade é que uma criança começa a ser capaz de perceber que uma pessoa pode ter duas emoções contraditórias e que existe muito cinzento na vida mas, para isto acontecer, o desenvolvimento tem de estar a correr bem e, na verdade, existem muitos adultos que ainda vêem o mundo sempre a preto e branco. 

Com as crianças mais velhas, ou adolescentes, os castigos costumam passar mais por lhes retirar coisas de que gostam ou que são importantes para elas, como o direito de sair com amigos, por exemplo. Mas, na verdade, isto acaba por ter o mesmo efeito porque aquilo que a criança sente é que os pais, conhecendo um pouco do seu mundo interno, o estão a usar contra si. É como se os pais conhecessem os seus pontos fracos e usam-nos para a atingir. Então isto também magoa bastante. Para além do facto de que não é grande aprendizagem para um jovem ou criança passar a fazer algo apenas porque tem medo das consequências caso não o faça, a verdade, é que magoa saber que alguém nos conhece bem, sabe aquilo de que gostamos e que é importante para nós e o usa para nos atingir ou magoar. E se um adolescente já poderá ter alguma maturidade para perceber que existem sentimentos contraditórios e que a zanga dos pais não quer dizer que eles não o amam, continua a ser um facto que se tornou vulnerável ao dar-se a conhecer e mostrar os seus gostos e foi magoado pelas pessoas que, supostamente, o deveriam apoiar e compreender. E magoa sempre sentirmos que nos expusemos, que nos abrimos e nos tornámos vulneráveis com alguém que, depois, usa isso contra nós. 

E, e castigar magoa, então bater tem um efeito ainda mais negativo, mas com o mesmo mecanismo e de que já falei aqui

Em muitos modelos de psicologia positiva recomenda-se que deixemos a criança sentir as consequências dos seus actos em vez de castigar, como forma dela aprender. Se, em alguns casos específicos, isto pode ser adequado em muitos poderá ser muito parecido com uma espécie de castigo e ter exactamente o mesmo efeito. Porque uma criança nem sempre tem a capacidade de prever as consequências para o seu comportamento mas nós temos, então se a deixamos sofrê-las sem fazer nada isso também pode ser sentido como uma espécie de abandono. 
Por exemplo, se a criança não quer vestir o casaco para sair mas nós sabemos que, depois de algum tempo na rua vai começar a sentir frio, pode ser pedagógico deixá-la sentir esse frio alguns instantes mas, levar o casaco para lho dar quando isto acontecer. Se deixamos a criança simplesmente ficar com frio porque não quisemos levar-lhe o casaco, aí isto será muito parecido com um castigo porque nos desobedeceu e é uma espécie de abandono deixá-la lidar sozinha com essa consequência. 


Então o que podemos fazer? 

Acredito naquilo que defende Gordon Neufeld: a meta de qualquer processo educativo deverá ser criar crianças que possam tornar-se em adultos com o coração macio (em português costumamos dizer coração mole mas esta expressão tem geralmente um sentido menos positivo); porque é só através desse coração macio que os nossos ensinamentos podem passar. Uma criança com o coração macio é uma criança que não foi excessivamente magoada e que, por isso, não tem medo de ser vulnerável. E não há maior vulnerabilidade que entregar-se de alma e coração a outro ser. E é isso que faz uma criança saudável e é esse o segredo de tornar fácil a educação dos nossos filhos: não termos receio de que eles se entreguem a nós por completo sendo que, para isso, não podemos nós também ter receio de nos entregar a eles com todo o coração. 

Então precisamos de estar muito atentos aos seus sentimentos e de sabermos manter uma liderança sempre com estes em mente. E precisamos de ser capazes de reparar a nossa relação com ela sempre que esta for posta em causa, principalmente quando isto acontece algum comportamento que não gostaríamos de ter tido.
Precisamos de mostrar que, dê lá por onde der estamos presentes, atentos e prontos para responder às suas necessidades. 
Precisamos de mostrar que as conhecemos, compreendemos e respeitamos e que somos capazes de acolher os seus sentimentos. 
Precisamos de mostrar que, para nós, aquela relação também é preciosa, tão preciosa que faremos tudo para preservar e cuidar o melhor possível. 
Precisamos de mostrar que vemos os seus sentimentos e que somos capazes de os acolher e aceitar mesmo nas alturas em que não aceitamos o seu comportamento ou nas alturas em que queremos mostrar-lhes um caminho diferente a seguir. 
Precisamos que confiem em nós e para isso precisamos de nos tornar de confiança, de mostrar que estamos presentes, disponíveis e que também nós podemos ser vulneráveis na relação. 

Porque uma criança que se entrega é uma criança que confia e uma criança que confia é uma criança que se deixa orientar, que se deixa guiar. E, ao mesmo tempo, é uma criança calma, tranquila porque o seu instinto lhe diz que está tudo certo. Porque é este instinto que lhe diz que deve procurar uma figura para lhe servir de modelo e de guia, que a faça sentir-se amada mas também protegida, segura. E uma criança que confia é também uma criança que não tem medo de estabelecer relações e também uma criança que não tem medo de sentir. E, ao mesmo tempo, é também uma criança que não tem medo de aprender, de arriscar, de viver porque sabe que encontrará sempre o conforto de se sentir amada, acolhida, protegida por aqueles que são mais importantes para si, mesmo nas situações mais difíceis. 

E uma criança que não tem medo de amar nem de ser amada é uma criança que se torna num adulto capaz de criar verdadeiramente um mundo melhor. Porque um adulto que não tem medo de sentir, nem tem medo de se ligar aos outros, é um adulto mais capaz de sentir empatia e um adulto muito menos capaz de provocar sofrimento. Na verdade, acredito que, se todos fossemos capazes de manter sempre um coração macio o mundo seria um lugar muito mais agradável com relações muito mais harmoniosas e felizes e onde todos seríamos mais capazes de nos respeitar uns aos outros. 

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Curso de Mindfulness para Pais

O próximo curso de Mindfulness para Pais começa dia 13 de Maio e vai acontecer em 4 sábados seguidos, das 10h às 12h, no Espaço Vida, em Lisboa. Para saber mais envie-nos um e-mail para inforvida@gmail.com


sexta-feira, 3 de março de 2017

Independência e coração

Hoje em dia, nas sociedades ocidentais, acho  que vivemos um bocado obcecados com a ideia de que as crianças devem ser independentes e muitas vezes parece que a meta de todos os métodos educativos deve ser esta independência que muitas vezes se defende que quanto mais cedo acontecer melhor será.

Primeiro acho que é importante lembrar que nas sociedades orientais –menos individualistas e em que as crianças são educadas mais para fazerem parte do todo – esta preocupação não existe ou, pelo menos, não estará tão presente.

Será essa talvez uma das razões pelas quais no Japão, por exemplo, é perfeitamente natural e normal que um bebé durma no quarto dos pais e, mais tarde, até no quarto dos avós que muitas vezes também moram com os filhos e netos. Apesar de não ser este o tema deste artigo vale a pena mencionar que alguns investigadores apontam justamente esta normalidade de os bebés dormirem acompanhados como um dos fatores de proteção contra o síndroma da morte súbita que é praticamente inexistente no Japão, sendo que este termo nem sequer existe em japonês. 

É importante perceber que é a criança deve ser educada para ter alguma autonomia, no sentido de ter espaço para se descobrir a si mesma enquanto pessoa e enquanto indivíduo com gostos, motivações e emoções próprias mas também é importante que sejamos capazes de distinguir esta autonomia ou este auto-conhecimento desta questão da independência. Porque ninguém é verdadeiramente independente e é bom que o saibamos e que não tenhamos medo de o reconhecer. Todos precisamos dos outros e as crianças, sobretudo nos seus primeiros anos de vida, precisam mesmo de se sentir parte de um todo e de se sentirem dependentes dos seus pais para que possam fazer com toda a segurança esse caminho de auto-descoberta que acontece com toda a naturalidade se lhe dermos a segurança necessária para tal.

A criança precisa de não ter medo de si própria, dos seus sentimentos para que se possa descobrir. Também precisa de saber que será aceite mesmo que descubra e demonstre partes de si mais assustadoras ou menos positivas. Precisa de sentir que tem o apoio total e o amor incondicional dos pais para não ter medo de confiar nos seus sentimentos, nas suas emoções e para não ter medo de expor aquilo que sente e aquilo que vai descobrindo ao logo de todo esse processo de crescimento. 

Mas, para que este apoio aconteça e para que a criança se sinta incondicionalmente amada a sua dependência inicial precisa de ser respeitada e acolhida. E precisamos de compreender que um bebé e uma criança pequena são seres fusionais por natureza e isso está certo, porque quando essa fusão deixar de ser necessária a natureza da criança irá encarregar-se de o mostrar.

Em muitos casos hoje em dia vive-se uma verdadeira ambivalência no que concerne ao desenvolvimento desta independência e acredito que ela surge por causa de um desconhecimento profundo daquilo que são as necessidades primárias de uma criança: ainda há dias observava o pai de uma criança com cerca de 3 anos que não a deixava brincar fora de um tapete almofadado; a criança estava a brincar com outra a empurrar um carro para trás e para a frente e, cada vez que punha literalmente um pé fora do tapete, o pai começava a dizer-lhe que não podia, que tinha de brincar no tapete. Fazia-o com ternura e paciência mas não lhe dava espaço para descobrir que o mundo não é todo almofadado e que podemos cair e magoar-nos muitas vezes mas que tudo isso faz parte do crescimento e que os nossos pais vão estar cá não para nos impedir de cair mas para nos darem um lugar seguro onde chorar depois disso acontecer. Muitas vezes vejo crianças que querem correr, ou querem saltar a quem os pais agarram imediatamente a mão e dizem que não podem fazê-lo porque se podem magoar. Algumas dessas crianças são precisamente as mesmas que foram ensinadas a dormir sozinhas no quarto desde poucos meses de idade porque tinham se aprender a dormir sem ajudas para se tornarem independentes. Será que não vemos aqui as enormes contradições que existem?

Se por um lado queremos crianças independentes desde cedo, com coisas em que é muito natural que elas não sejam capazes de fazer – como dormir sozinho em bebé, ou regular as suas próprias emoções com crianças pequenas – por outro lado não lhes damos espaço para explorar essa independência justamente onde ela deve mais naturalmente acontecer: na exploração corporal e espacial, que é tão importante para o desenvolvimento da motricidade mas não só; porque é nestas brincadeiras em que a criança se afasta um pouco dos pais e em que experimenta correr ou fazer algo mais arriscado que nunca tinha feito que ela tem espaço para descobrir os seus limites, as suas capacidades, as suas motivações e até a sua coragem ou a sua possibilidade de existir afastada dos pais e por si própria naqueles momentos.

Mas precisamos também de começar por reconhecer que as crianças são seres dependentes por natureza. Precisamos de saber que as crianças nascem com um instinto básico: o de se apegarem aos seus principais cuidadores e esse apego implica dependência. E isso significa que uma criança que se estabelece esta relação de apego tem que sentir que essa dependência é aceite, compreendida e acolhida. Cito muitas vezes o Gordon Neufeld, psicólogo canadiano, porque ele construiu o modelo de desenvolvimento infantil mais completo que conheço e que gira sempre em torno deste conceito de apego. E, para Neufeld, é essencial que a criança saiba que pode depender dos pais assim como é fundamental que os pais saibam que podem cuidar dela para que esta relação aconteça da forma mais harmoniosa e para que a criança tenha verdadeiramente espaço para crescer e para se desenvolver com toda a maturidade em cada fase da sua vida.

Mas, para isso acontecer os pais não podem ter medo de alimentar essa dependência nos seus aspectos saudáveis, ao mesmo tempo que não podem ter medo de saber que são eles os responsáveis por guiar e orientar os filhos.

Hoje em dia também temos algum receio da noção de hierarquia e parece haver uma certa tendência para pensar que, quanto queremos respeitar os nossos filhos e dar-lhe espaço para se descobrirem enquanto pessoas e indivíduos precisamos de deixar de lado a hierarquia e de os aceitar como iguais. Mas os filhos não são iguais a nós, uma criança não é um adulto em miniatura, apesar de muito adultos serem crianças grandes. As crianças têm necessidades diferentes das dos adultos e uma necessidade fundamental é a de se sentirem guiadas, cuidadas, orientadas. Porque só assim podem manter o seu instinto de apego que é justamente o que lhes permite sentirem-se seguras. Ao mesmo tempo que também facilita muito a tarefa dos pais porque as torna mais fáceis de orientar.

Para Neufeld o grande propósito da educação é permitir que a criança cresça sem precisar de se defender demasiado, mantendo um coração aberto. As crianças são seres frágeis, justamente por causa dessa sua necessidade de se sentirem seguras e protegidas pelos pais, as palavras e o comportamento destes têm um impacto enorme sobre os seus sentimentos. É mais fácil ferir uma criança do que um adulto e quando uma criança é ferida isto também tem mais peso do que num adulto.

Porque a criança nasce totalmente predisposta a estabelecer esta relação de apego e porque precisa de preservar esse instinto que lhe diz que são os adultos que cuidam de si as pessoas mais indicadas para a proteger e manter segura, ela irá usar tudo aquilo que for preciso para se defender e proteger esse instinto, mesmo que isso implique ignorar os seus próprios sentimentos. E assim o coração começa a fechar-se aos poucos, porque quando ignoramos os nossos sentimentos também não podemos ligar aos dos outros. E podemos mesmo afirmar que esta será a razão principal para tantos problemas que acontecem no mundo hoje em dia: a incapacidade de ter em conta os sentimentos dos outros, a falta de empatia que acontece quando o nosso coração já se fechou demasiado.

Acontece que este instinto de apego também torna a criança vulnerável porque a faz querer ligar às outras pessoas e faz com que precise de se sentir importante para aqueles que são importantes para si. E se essa vulnerabilidade for demasiado grande para que a criança a possa suportar então este instinto terá mesmo que ser ignorado e desligado. E aí temos uma criança com o coração completamente fechado e a quem já muito dificilmente conseguiremos chegar.

E só uma criança com o coração aberto é que pode ser facilmente orientada. Só uma criança com o coração aberto é que não tem medo de se explorar e de reconhecer e de aceitar os seus próprios sentimentos e de aprender a lidar também com os dos outros.

E o mundo precisa de mais crianças com o coração aberto porque só essas é que se podem tornar em adultos verdadeiramente maduros e capazes de levar uma vida preenchida e feliz mas também em harmonia com os outros.

Ainda há dias, na escola do meu filho, um colega lhe bateu com um balde na cabeça que deixou uma feridazinha e alguém lhe dizia que tinha de aprender a bater de volta para se defender. Mas a melhor defesa não é sermos capazes de atacar quem nos ataca, a melhor defesa é aprendermos a lidar com o que sentimos quando alguém nos fere e sermos capazes de acolher a nossa própria zanga, tristeza ou o que for mais adequado nessa altura. E isso só se pode aprender com um adulto de quem não tenhamos medo de depender e que não tenha medo de estar presente e de acolher esses nossos sentimentos.

Não precisamos de ensinar nenhuma criança a bater porque isso elas até já sabem por instinto, precisamos é de lhes dar espaço para não terem medo de ser feridas, para não terem medo de sentir e de manter o seu coração aberto mesmo depois de terem sido magoadas. Precisamos de lhe as ensinar que podem ser vulneráveis porque estaremos cá para as ajudar a lidar com essa vulnerabilidade. E isso só se consegue se estivermos também de coração aberto na nossa relação com elas, se também não tivermos medo de ser vulneráveis e se assumirmos que ter um filho nos coloca na posição mais vulnerável do mundo, porque ser pai ou mãe de alguém tem tanto de maravilhoso como de perigoso. Numa entrevista ouvi uma vez dizer o Ricardo Araújo Pereira que um dia olhou para as filhas e percebeu o enorme potencial de sofrimento que havia ali, porque ser pai ou mãe é mesmo isso: quanto tudo corre bem é maravilhoso, quando corre mal pode ser muito doloroso. Então precisamos também de aceitar essa vulnerabilidade em nós e de, mesmo com ela, não termos medo de assumir a liderança porque aquilo que mais facilmente fecha o coração de uma criança é não se sentir segura, protegida por quem deveria cuidar de si e isto tanto acontece quando as forçamos a fazer aquilo que ainda não conseguem fazer sozinhas como quando nos demitimos do papel de líderes e orientadores e as deixamos totalmente entregues a si mesmas nessa auto-descoberta que, só por si, já pode ser tão assustadora. 

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Mindfulness para Pais - apresentação do livro no Lisbon Yoga Festival

Este fim de semana fui falar um pouco do meu último livro aos participantes do Lisbon Yoga Festival. Partilho aqui o vídeo dessa apresentação e das perguntas no final.


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Obediência, liberdade e consciência

Hoje em dia fala-se cada vez em educação e em parentalidade e acredito que começamos a ganhar cada vez mais consciência de que existem formas diferentes de educar do que aquelas que conhecíamos e tomávamos como certas até agora. 
Nestes debates surge muitas vezes uma questão que é realmente importante e que me parece que nem sempre é bem compreendida: a questão da obediência. Por um lado temos pessoas que defendem que os filhos precisam de obedecer aos pais porque isso faz parte da boa educação e é essencial para o seu bom desenvolvimento, por outro temos aqueles que acham que a obediência faz parte dos modelos educativos ultrapassados e compromete até a capacidade da criança se descobrir a si própria e às suas vontades. Acredito que a verdade está algures no meio destas duas abordagens. 

Então vamos por partes. 

1. Conformismo  (de que já falei aqui)

Há alguns estudos interessantes que mostram como o ser humano tem necessidade de se sentir incluído num grupo. Nos anos 50, Asch fez umas experiências sobre conformismo social que ficaram célebres. (ver aqui vídeo) Nestas experiências havia um sujeito que estava numa sala com várias pessoas sem saber que estas estavam combinadas com os investigadores. Estas pessoas viam uma série de linhas e tinham que dizer, em voz alta, qual é que era igual à primeira que era mostrada. A resposta era óbvia mas tinha sido combinado que dariam todas a resposta errada. A grande maioria das pessoas que participou na experiência, começava por dar a resposta certa mas, ao fim de pouco tempo, acabava também por dar a resposta errada apenas para estar de acordo com os outros. Também acontece que a pessoa se chegava mesmo a convencer que o grupo estava certo. Um aspecto interessante desta experiência é que, se a pessoa tivesse um aliado, que desse também a resposta certa, na grande maioria dos casos, esta já seria capaz de manter a resposta certa.

Uma outra experiência ainda mais extrema foi pensada por Stanley Migram e levada a cabo, com várias pessoas de diferentes idades e estratos sociais nos anos 60 e 70. Nesta experiência os voluntários estavam numa sala com um examinador enquanto viam através de um vidro uma terceira pessoa que acreditavam ser também um voluntário. Era-lhes dito que estavam a participar num estudo sobre a forma de aprendizagem da outra pessoa e iam fazer-lhe algumas perguntas. Cada vez que a pessoa errava a resposta o analisador dizia ao voluntário para dar um choque à pessoa. E a voltagem dos choques ia sempre aumentando. Uma chocante maioria de 65% das pessoas, quando a ordem era dada pelo analisador, era capaz de dar choques até aos 450 voltes-  uma voltagem que poderia provocar a morte - mesmo quando a pessoa do outro lado gritava e se contorcia com dores. (ver aqui o vídeo)

Estas eram pessoas normais e há quem use os resultados destas experiências para explicar o que aconteceu no tempo dos nazis, por exemplo, em que pessoas aparentemente normais foram capazes de cometer os actos mais repugnantes. Porque estas experiências mostram como estamos dispostos a ignorar a nossa consciência e os nossos valores em nome deste sentimento de pertença e de integração. E mostram também que, se não estamos habituados a valorizar o que sentimos e a ser responsáveis pelas nossas acções é muito mais fácil desresponsabilizarmos-nos dos nossos actos e fazermos coisas que podem prejudicar os outros, desde que sintamos que a culpa não é nossa.

 E mostram também que, se não estamos habituados a valorizar o que sentimos a ser responsáveis pelas nossas acções é muito mais mais fácil desresponsabilizarmos-nos dos nossos actos e fazermos coisas que podem prejudicar os outros, desde que sintamos que a culpa não é nossa.


Estes estudos são por vezes citados pelas pessoas que defendem que não devemos querer crianças obedientes a qualquer custo. Acontece que é muito diferente obedecer a um pai ou uma mãe ou obedecer a um estranho. E porque é que é diferente? Porque são mecanismos completamente diferentes aqueles que estão em jogo nestes dois casos.

2. A questão do apego

Quando alguém obedece a um estranho ou a um grupo está a fazê-lo porque quer sentir-se parte desse grupo, precisa de sentir que pertence aquele grupo mesmo que para isso tenha de passar por cima das suas próprias crenças ou convicções. Ora isto acontece (como já expliquei aqui) muito provavelmente porque essa pessoa não teve durante o seu desenvolvimento uma boa noção de pertença, de acolhimento e de aceitação. Por isso não cresceu com a capacidade de defender os seus valores e sentimentos nestas situações até porque, a maior parte das vezes, não é fácil terem consciência deles. Assim, procurar este sentimento de pertença a um grupo é a forma de preencher essa ferida que ficou da infância. E estas feridas podem ser tão facilmente originadas por uma educação demasiado autoritária como por uma educação em que não haja autoridade absolutamente nenhuma.

Quando uma criança obedece a um pai ou uma mãe o ideal é que o faça justamente pelo motivo oposto: porque sabe que pertence e que é aceite e acolhida por aquelas pessoas.
Então aquilo que é importante é distinguir a obediência que vem do medo daquela que surge naturalmente apenas porque confiamos nos nossos pais. 
Talvez a palavra obediência seja demasiado forte e com algumas conotações negativas por isso, na verdade, podemos dizer que não queremos que os nossos filhos nos obedeçam mas que confiem em nós e se deixam orientar nos casos em que é necessário que o façam. 

Gordon Neufeld é um psicólogo Canadiano que gosto sempre de citar porque penso que construiu o modelo que mais facilmente nos ajuda a compreender todo o desenvolvimento infantil. O modelo deste autor gira, todo ele, em torno do conceito de apego. Neufeld explica que a criança nasce com um instinto natural para criar uma ligação de apego com as figuras que cuidam de si, que geralmente são os pais. E é com base neste instinto que devemos encarar toda a nossa ligação com a criança.

Então aquilo que é essencial é perguntarmos sempre, em relação a todas as nossas práticas parentais, até que ponto é que elas favorecem ou prejudicam este instinto. Porque se este instinto for posto em causa o que acontece é que quebramos a nossa ligação com a criança e isso irá limitar muito todas as nossas possibilidades de a orientarmos, guiarmos ou de nos fazermos ouvir. Sempre que magoamos a criança, sempre que não a respeitamos ou ignoramos esse instinto acabamos por ferir os seus sentimentos e, se isto acontece demasiadas vezes, a sua única protecção será fechar-se a esse instinto que lhe diz que deveria ligar-se a nós para não voltar a ser ferida. E sempre que isto acontece será muito mais difícil chegar ao coração dessa criança e por isso mesmo será também muito mais difícil que ela se deixe guiar. 

Porque o instinto de apego da criança também lhe diz que precisa de confiar nos seus pais e confiar implicar acreditar no que eles lhe dizem e pedem para fazer. É só a partir desse instinto que podemos fazer com que as crianças nos oiçam de verdade e confiem em nós o suficiente para fazerem o que lhes pedimos mesmo que isso não lhes agrade muito. 

E é importante perceber também que é através deste instinto que a criança pode encontrar a sua tranquilidade. A criança precisa de sentir que os seus pais são capazes de a proteger e orientar. Precisa de sentir que está em boas mãos para se sentir segura e isto implica aceitar que os pais sabem mais que ela e que por isso têm maior capacidade de fazer boas escolhas. Uma criança que não confie nos pais ou que não se sinta orientada por estes também não se se sente protegida e por isso será uma criança ansiosa. Porque a sua natureza lhes diz que precisam de encontrar protecção, para que a criança possa verdadeiramente descansar ela tem mesmo de confiar nos pais e de se sentir ligada a eles. Se isto não acontecer ela estará sempre num estado de alerta, de procura, de busca em que todo o seu organismo lhe diz que não pode descansar, não pode relaxar porque não é seguro fazê-lo. Isto não significa que essas crianças nunca questionem os pais, antes pelo contrário até: se sentem seguras e aceites é muito natural que não tenham receio de questionar, de resistir e de por em causa o que os pais dizem ou fazem mas também é verdade que sabem bem que a última palavra que vale é mesmo a dos pais, especialmente nas coisas que são verdadeiramente importantes. 

Então é importante percebermos que não podemos abdicar do nosso papel de guias se queremos que os nossos filho possam verdadeiramente descansar. Mas também é fundamental que saibamos que guiar nunca poderá ser forçar e é preciso que nos lembremos sempre que a única forma de guiar com eficácia é através do coração. Por isso precisamos de estar disponíveis para ouvir, escutar e acolher de verdade os sentimentos dos nossos filhos. 

3. Espaço para a auto-descoberta

E é importante também que saibamos que o facto de termos a obrigação de guiar os nossos filhos não nos dá o direito de passar por cima dos seus sentimentos e do seu direito de se descobrirem a si próprios como pessoas com gostos e opiniões próprias que podem ser muito diferentes das nossas. 
Por isso precisamos de guiar e orientar apenas naquilo em que é fundamental que o façamos mas sempre com espaço para que a criança, por um lado se manifeste acerca das nossas orientações - o que inclui acolhermos o seu choro, protestos, zangas como manifestações legítimas e autênticas daquilo que a criança está a sentir - por outro lado, dar-lhe espaço para fazer as suas próprias escolhas sempre que isso for possível nos casos em que sintamos que é válido fazê-lo. 

Precisamos também de dar aos nossos filhos algo que hoje em dia falta muito: espaço para brincar livremente porque é nesta brincadeira, livre que as crianças podem descobrir o seu corpo, as suas preferências e tantas outras coisas importantes sobre si próprias e sobre o mundo. 

E esta auto-descoberta só pode surgir se a criança se sentir segura, se sentir que pode explorar à vontade tudo aquilo que sente porque os pais estarão presentes para a ajudar a dar um significado mesmo aos sentimentos mais difíceis. 

Outro aspecto importante para a auto-descoberta passa pela nossa capacidade de espelhar o que a criança nos mostra: de sermos empáticos com os seus sentimentos e receptivos para com todas as suas manifestações. As crianças aprendem a ver-se através dos nossos olhos e quanto mais livre de julgamentos for esse olhar mais libertas elas ficam para descobrir quem verdadeiramente são, livres dos rótulos que tantas vezes é tão fácil colarmos-lhes mesmo sem querer. 

Com tudo isto ficará mais fácil para os nossos filhos descobrirem-se a si próprios e com essa descoberta de uma identidade autêntica e genuína será muito mais fácil crescerem como pessoas que são capazes de saber quem são, o que sentem e o que defendem mesmo nas situações mais difíceis. 

4. A empatia 

Outro aspecto essencial em relação ao estudo em que as pessoas davam choques eléctricos mesmo nos casos em que a outra pessoa gritava e se contorcia com dores é a questão da empatia. Precisamos que as crianças cresçam capazes de sentir empatia e de se colocarem no lugar do outro se queremos evitar que aconteçam novamente situações como as que a segunda grande guerra originou. Então a melhor forma de garantirmos que as crianças mantêm essa capacidade é cuidarmos mais uma vez do seu instinto de apego para que não se sintam feridas, para que não precisem de fechar o coração e de ter medo de sentir empatia e compaixão pelos outros.

Para sentir empatia precisamos, primeiro de não ter medo do que sentimos. Só assim podemos ser capazes de não ter medo de deixar também entrar os sentimentos dos outros, mesmo quando são fortes, pesados e difíceis de enfrentar. A única maneira de garantirmos isso nos nossos filhos é respeitando os sentimentos deles e algo que é fundamental que respeitemos é essa necessidade de sentirem seguros e protegidos por nós enquanto são crianças. 

5. A questão da liberdade

Alguns apologistas da parentalidade consciente criticam os pais que querem que as crianças obedeçam em nome da sua liberdade individual que não deve ser posta em causa desta forma.

Mas a maior liberdade que uma criança poderá ter é a de se sentir protegida e segura com as suas figuras de apego. É isto que lhe dá toda a liberdade necessária para não ter medo de descobrir o mundo e a si mesma. Para não ter medo de explorar dentro e fora de si própria porque sabe que, aconteça o que acontecer, descubra o que descobrir, os seus pais estarão presentes e serão capazes dea acolher, de a ajudar a dar sentido ao que descobriu e de a ajudar a assimilar e ultrapassar todas as descobertas difíceis sempre que for necessário.
A maior liberdade que uma criança pode ter é a de sentir que pode descansar nos braços dos seus pais e que pode sempre ser acolhida por eles seja qual for a situação em que se encontre. A liberdade de os saber sempre presentes e prontos para fazerem aquilo que lhes parece melhor e mais importante para o seu desenvolvimento. A liberdade de crescer a sentir-se amada, apreciada, acolhida e a sentir que pertence de verdade aquela família.

6. A questão da contra vontade 

Gordon Neufeld fala muito de um conceito importante na sua teoria: o da contra-vontade. Esta é uma tendência que a criança tem para se manifestar contra tudo aquilo que sente como sendo uma coerção por parte dos adultos ou de alguém mais forte que ela.

Esta contra vontade, explica Neufeld, surge porque a vontade da criança ainda é muito frágil e precisa de ser protegida para se poder desenvolver. Ele diz que esta é uma espécie de vedação que serve para proteger a plantinha que começa a surgir com as primeiras vontades da criança em desenvolvimento. 
Por isso é que por volta dos dois anos as crianças têm geralmente alguma tendência para responderem não a tudo e para se manifestarem contra tudo o que sentem que lhes querem impor, fazendo birras com mais frequência: porque nesta idade a vontade da criança começa ainda a despontar; aos dois anos as crianças começam a descobrir o mundo e a si próprias e começam a descobrir que têm preferências e opiniões e sentimentos mais fortes em relação a algumas coisas.
Mas isto nesta fase, ainda é tão frágil que a criança fica muito sensível a qualquer acção do adulto, que vê como muito mais forte e que poderia facilmente impor a sua vontade. Por isso reage muito fortemente a tudo o que possa ser sentido como a mais leve imposição.

Então precisamos de respeitar e compreender esta contra-vontade. Compreender também que, regra geral, quanto mais a criança se opõe e reage contra o adulto, mais fraca é a forma como sente a sua própria vontade, por isso precisa de a proteger.

7. A comunidade e o indivíduo 

Nas sociedades ocidentais temos cada vez um tipo de educação que procura promover o individualismo e a independência e há quase uma espécie de obsessão colectiva com a independência das crianças. Mas, a verdade, é que neste tipo de educação acaba muitas vezes por falhar a compreensão de que todos nós precisamos de nos sentir parte de um todo e quanto mais negarmos essa parte em nós mais fácil será a criança crescer com essa espécie de falha e ter necessidade de a procurar nos grupos fora da família, fazendo tudo o que for preciso para se sentir aceite por eles. 

Uma família onde seja valorizada a interdependência e reconhecida a dependência da criança, sobretudo nos seus primeiros anos, será uma família que terá mais hipóteses de criar crianças que se sintam integradas, reconhecidas e que, por isso mesmo, não terão tanta necessidade de se sentir aceites fora da família. O que, por sua vez, lhes permitirá mais facilmente manter os seus valores e fazer valer os seus pontos de vista em todas as situações de grupo. 

8. Conclusão 

O mais saudável para o desenvolvimento da criança não será um tipo de educação em que nunca nada é imposto porque isto poderá ser facilmente sentido pela criança como um vazio de apego, para usar a expressão de Neufeld. Este vazio de apego acontece quando a criança não se sente suficientemente protegida ou acolhida por aquelas que seriam as suas figuras de referência e de apego principal e poderá estar na origem de vários problemas de desenvolvimento, nomeadamente a
ansiedade que é tão comum nas crianças hoje em dia.

Mas uma educação em que tudo é imposto e em que se quer que a criança obedeça sem questionar também não será saudável pela mesma razão: porque põe também em causa o instinto de apego da criança ao fazê-la sentir que a sua natureza não é respeitada ou acolhida.

Aquilo que precisamos de fazer será encontrar algures o caminho do meio em que somos capazes de nos posicionar perante a criança sem receios de sentir que somos a sua figura de referência, somos alguém que é mais velho, mais capaz, que está mais avançado no caminho da vida e que por isso poderá fazer mais facilmente determinadas escolhas importantes mas, ao mesmo tempo, saber que precisamos de ter abertura suficiente para não sobrecarregar o seu espírito, a sua natureza e as suas vontades, dando-lhes tempo e espaço para que se manifestem e acolhendo-as o melhor possível, livres de julgamentos e com todo o nosso coração. 





sábado, 16 de julho de 2016

Maternidade instintiva e os primeiros tempos de vida

Há dias folheei uma revista sobre gravidez em que um dos artigos falava dos muitos itens supostamente essenciais a comprar quando nos preparamos para ter um filho. De algumas das inutilidades destacadas por esse artigo e vários outros do género aquela que me chama sempre mais a atenção são os aparelhos de intercomunicação, que servem para que o bebé possa ficar sozinho numa divisão e os pais possam ir ouvindo o que se passa. A mim estes aparelhos confesso que me despoletam uma espécie de ódiozinho de estimação porque acredito que simbolizam de certa forma uma grande parte de tudo aquilo que está errado na nossa forma de viver a maternidade hoje em dia. 

Esses aparelhinhos, que já variam muito no seu grau de sofisticação, demonstram que o instinto de qualquer mãe é querer saber o que se passa com o seu bebé a qualquer hora. Demonstram que o instinto de qualquer mãe é saber que os bebés não são criaturas que devam ficar sozinhas em divisões à parte, onde não podemos vê-las e nem sequer ouvi-las facilmente. O problema é que nos achamos muito espertos e racionais, então, em vez de darmos ouvidos a esse instinto inventamos um aparelho qualquer que o substitua. 

E quando começamos a querer substituir o instinto pela razão, neste caso, a tendência é para que toda uma série de outros problemas venham atrás. Porque a maternidade não é racional, não pode nem deve ser racional. Quem no seu juízo perfeito escolheria gerar e cuidar de um bebé, com tudo o que isso implica, se fosse apenas uma escolha racional?! A maternidade é das coisas mais instintivas que existem e é assim que deve ser e, para a vivermos de forma feliz, leve e descontraída é mesmo ao instinto e às emoções que precisamos, mais do que nunca, de estar ligados porque a razão por si só nunca nos dará aquilo de que precisamos, sobretudo nos primeiros meses de vida dos nossos filhos. 

E porque o bebé também tem o seu instinto, que lhe diz que também deverá fazer todos os possíveis para se manter perto dos pais, que lhe diz que é perigoso e inseguro estar sozinho. Porque o bebé ainda não consegue racionalizar, para nós, adultos, é possível pensar que o instinto não está certo porque um bebé pequeno fechado num quarto de uma casa qualquer num berço com grades e todo o conforto e segurança material está livre de qualquer perigo. Mas o bebé ainda só tem o instinto para o guiar, não tem essa possibilidade de racionalizar e saber que o perigo não é real por isso a tendência será para seguir o seu instinto e protestar contra esse abandono sentido. E quando isto acontece muitos supostos especialistas dizem-nos que devemos acalmar o bebé, sim (felizmente já vão sendo menos os que dizem que se deve apenas deixá-lo chorar até se cansar) mas sem lhe pegar ou sem o tirar o quarto, que seria justamente o que ele precisaria. E aqui entramos num terreno que chega a ser quase ridículo em que esperamos que um bebé de meses seja capaz de perceber e de racionalizar que os seus pais estão por perto mas não lhe pegam e não lhe dão o conforto de que precisa porque sabem que ele está seguro e que o perigo que o seu instinto lhe diz que pode existir não é real. E como é que é possível que acreditemos que um bebé pode compreender isto? A única coisa que acontece nestes casos é que o bebé vai deixando também de manifestar o seu instinto e, talvez pior, vai deixando de confiar nele. 

Algumas pessoas defendem que é indiferente que um bebé durma sozinho ou acompanhado desde que os pais respondam quando ele chora e desde que isto esteja de acordo com as suas convicções e escolhas de vida. Na verdade, não acredito nisto. Não acredito que seja benéfico para um bebé de meses dormir sozinho e, mais, não acredito que isto tenha algum benefício para a mãe. Acredito que uma mãe que não quer dormir com o seu bebé é uma mãe que tem medo, medo de estar a fazer algo de errado e de vir a ser criticada, medo de prejudicar o bebé, medo de lhe fazer mal  e, acima de tudo, medo de confiar no seu próprio instinto. 

Porque o instinto de mãe mostra claramente que, nos primeiros meses de maternidade, o mais importante é mantermos-nos perto do bebé. A ciência demonstra que um bebé que está em contacto com o corpo da mãe regula mais facilmente os seus batimentos cardíacos, o ritmo respiratório, a temperatura e, ao que parece até o próprio desenvolvimento cerebral e do sistema nervoso podem aprender com esta espécie de quase fusão com o organismo mais maduro da mãe que o vai influenciando nos seus próprios ritmos. 

O cortisol e o sono nos bebés 


Uma das grandes queixas das mães é o facto dos bebés nascerem muitas vezes com o que se chama sonos trocados. Muitos bebés dormem o dia inteiro e à noite estão despertos e prontos para a brincadeira coisa que leva muitos pais ao desespero. Hoje sabemos que uma das hormonas que tem um papel importante nos ritmos de sono é o cortisol - que também está ligado à resposta de stress. Quando estamos num sono profundo, à noite, os nossos níveis de cortisol estão no seu valor mais baixo e, à medida que nos vamos preparando para despertar os níveis de cortisol vão subindo até encontrarem o seu valor máximo na altura em que acordamos, de manhã. Esta será uma das razões pelas quais nunca sentimos que descansamos tão bem quando alteramos muito os nossos horários de sono: porque os ritmos de cortisol não conseguem acompanhar facilmente essas alterações, principalmente se forem esporádicas e aleatórias, e acabamos por não conseguir descansar tão bem. A mesma coisa pode acontecer por alterações provocavas por estados de stress e tensão que aumentam os níveis de cortisol no organismo e nos impedem de dormir bem. 

Acontece que, hoje se sabe, que os bebés nascem ainda sem um padrão de cortisol definido. Os seus ritmos de cortisol durante os primeiros meses ainda não seguem este padrão estável, como nos adultos e, ao que parece, só começam a ficar mais definidos por volta dos nove meses de idade. Isto quer dizer que é importante que ajudemos os bebés a criar esse padrão para que possam ter um ritmo de sono mais regular. Há especialistas que defendem que os problemas de sono na infância podem levar a problemas de sono na vida adulta. Possivelmente isto estará relacionado com essa incapacidade de estabelecer um rimo regular para a produção de cortisol (e outras hormonas relacionadas com o sono) que se poderá prolongar se o bebé não tiver oportunidade de ir desenvolvendo esses padrões. 

A grande questão aqui é que forçar o bebé a uma situação que vai contra todo o seu instinto - dormir sozinho - só provoca uma elevação destes níveis de cortisol o que, por sua vez, vai dificultar a criação deste ritmo e de um padrão estável. Já há estudos que demonstram que quando se deixa um bebé a chorar para adormecer os seus níveis de cortisol sobem muito e continuam elevados, mesmo depois do bebé parar de chorar. Isto quer dizer que é possível ensinar um bebé a ignorar o seu instinto e a deixar de demonstrar o seu desconforto e tensão, mas a que preço e para quê? 

Pelo contrário, se deixarmos um bebé em contacto com o corpo e com o organismo da mãe ou do pai durante a maior parte do dia, aquilo que provavelmente irá acontecer é que o organismo do bebé se irá deixar como que modelar por este contacto e, assim como os bebés vão adoptando o ritmo respiratório do batimento cardíaco das mães, provavelmente irão também começar a adquirir mais facilmente os seus padrões de cortisol. Então é isto que o instinto de qualquer mãe e que qualquer bebé sabe perfeitamente: é que um bebé pequeno se desenvolve muito melhor e com muito mais facilidade se lhe for permitido esse contacto quase permanente com o corpo e com o organismo de um adulto. Porque um bebé sozinho também consegue respirar e o coração continua a bater mas a verdade é que precisa de despender muito mais energia para o fazer e o que acontece é que o faz a partir de um estado de maior tensão, que não lhe permite ficar tão livre para crescer e para investir em todas as outras tarefas de aprendizagem intensa que fazem parte dos seus primeiros anos de vida. Por isso um bebé a quem este contacto e esta presença são permitidos também se torna um bebé muito mais fácil de criar e de cuidar o que, por sua vez, também liberta a mãe para outras descobertas e para uma maternidade muito mais leve e fluída. 

Ligar para crescer - fundir antes de separar 


E, na verdade, o que acontece é que isto é válido para os dois lados, porque o bebé ganha muito com esta presença mas a mãe também pode ganhar. Porque o facto de ter o bebé junto a si, a mamar por exemplo, ou simplesmente junto ao peito também faz com que se libertem uma série de hormonas , como a já tão conhecida oxitocina a que se chama muitas vezes a hormona do prazer, que estão relacionadas com sentimentos de bem-estar, de tranquilidade e de felicidade. Então uma mãe que se permite seguir o seu instinto também pode viver estes primeiros meses de maternidade de forma muito mais prazeirosa e acredito até que esta é uma das fórmulas mais importantes para prevenir a depressão pós-parto. Culpam-se muitas vezes as hormonas por esta depressão mas, por um lado, estas podem ser produzidas justamente pelo contacto com o bebé e, por outro lado, acredito que esta está muitas vezes relacionada com sentimentos de perda e de incapacidade de cuidar do bebé ou de si própria durante estes primeiros tempos. Então, sem querer simplificar uma coisa que, obviamente é bem mais complexa do que isto e que precisa de ser compreendida de acordo com a história de vida e com as experiências de cada mulher, a verdade é que seguir o instinto e não termos medo de mergulhar completamente nele e na experiência de nos fundirmos com as nossas crias é uma parte muito importante de prevenir esta condição. 

Já se sabe que quando nascemos, é através destas ligações e vínculos intensos que criamos com os nossos pais que aprendemos a segregar certas hormonas que estão relacionadas com o prazer e bem-estar, como a dopamina, por exemplo. Acontece que, se não tivermos a experiência de aprender a produzir por nós mesmos estas hormonas na infância, vamos precisar, mais tarde, de encontrar fontes exteriores que nos levem a produzi-las para que possamos encontrar sentimentos de prazer e satisfação que são essenciais nas nossas vidas. Existe assim já uma teoria muito bem fundamentada que nos explica que esta é justamente a base de todas as dependências - químicas e não só - que podemos ir desenvolvendo ao longo da vida: o sentimento de separação, de abandono e a incapacidade de nos sentirmos verdadeiramente ligados a alguém que está na base da nossa capacidade de produzir todas essas hormonas associadas ao bem-estar e felicidade. (foi sobre isso mesmo o primeiro artigo deste blog). 

Os psicólogos, os pediatras e a sociedade em geral, alertam-nos para os perigos desta fusão. Muitas pessoas bem intencionadas nos dizem que não podemos deixar de cuidar de nós para sermos mães (eu própria o afirmo no meu último livro), outras dizem-nos que não podemos descuidar a vida de casal, ou a profissão para podermos ser felizes. Mas acredito que, nos primeiros tempos, aquilo de que cada mãe precisa é de não ter medo de se fundir com a sua cria, os bebés nascem desse estado de fusão: estavam completamente dependentes e ligados a nós dentro do útero e precisam de tempo para se irem desligando aos poucos. E também nós, mães, precisamos desse tempo, esse desligar tem de ser gradual, instintivo e sem pressas. É verdade que temos de cuidar de nós para sermos boas mães mas acredito que, nos primeiros meses, cuidar de nós é cuidar dos nossos filhos. Mais do que deixá-los com os avós para irmos passear ou a dormir sozinhos para podermos descansar, precisamos de aceitar que, nos primeiros meses de vida, cuidar de nós é justamente não termos medo de seguir o instinto e de nos deixarmos absorver de forma completa e total pelo nosso papel de mãe. Sabendo que, depois aos poucos, a vida se encarregará naturalmente de nos lembrar de todos os outros papeis importantes. Já Winnicott (pediatra muito reconhecido pelas suas teorias do desenvolvimento infantil) dizia que "Não existe tal coisa como um bebé sozinho. Apenas um bebé e a sua mãe." O que isto quer dizer é que, enquanto sociedade, precisamos também de reconhecer que há realmente uma altura em que esta fusão emocional acontece, faz sentido e é necessária. E não precisamos de a temer, de a contrariar ou de fugir dela mas sim de abraçar totalmente esse estado sem medos, sem receios de nos entregarmos totalmente, sabendo que no dia em que começarmos a sair dele tanto nós como os nossos filhos teremos muito mais capacidade para viver de forma plena, feliz e completa. Reconhecendo que primeiro é preciso mesmo fundir para que, depois dessa fusão, com o tempo e de forma natural e gradual, possam sair dois seres novos, diferentes e mais maduros porque não é só o bebé que tem oportunidade de crescer e de aprender com este estado mas para a mãe também pode ser um tempo de transformação, de aprendizagem e de crescimento intenso se permitirmos que tudo flua naturalmente.