sexta-feira, 17 de julho de 2020

Direitos das crianças em tempos de pandemia


As crianças têm sido a camada da população mais sacrificada com esta pandemia. Não por causa do vírus que já se sabe que é maioritariamente irrelevante neste grupo etário mas por causa das medidas sanitárias que têm sido tomadas, sem grande consideração pelo seu bem-estar.
Mesmo depois de já todos termos voltado ao trabalho há algum tempo, as crianças do primeiro ciclo continuaram sem escola presencial que terá, no total, uma interrupção de mais de seis meses e os parques infantis continuam fechados.
Sabemos que passar tempo ao ar livre é fundamental para a saúde física e mental de crianças e adultos e também sabemos que, nas cidades hoje em dia é mais difícil para os pais passarem algum tempo na rua com as crianças se não tiverem um parque infantil para elas brincarem e conviverem com outras crianças, algo que também é fundamental para o seu bom desenvolvimento. 

É na brincadeira livre que as crianças crescem, aprendem e se desenvolvem e esta brincadeira é ainda mais fundamental em tempos de stress porque é também uma das poucas formas naturais e adequadas que as crianças têm de se libertar do stress e tensão que este período inevitavelmente traz. Se brincar é sempre importante para o desenvolvimento das crianças, neste momento podemos dizer que é mesmo urgente e fundamental para que esta situação não lhes cause muitos danos. 
Uma investigação sobre o impacto da covid-19 em espanha concluiu precisamente que as crianças que não puderam sair diariamente de casa foram as mais afectadas pela pandemia, ao nível da saúde mental. 
Por isso, mesmo sabendo que as crianças podem e devem brincar mesmo fora dos parques infantis (que, infelizmente em portugal até são bastante pobres e um pouco desajustados das suas necessidades reais) consideramos que o facto dos parques continuarem fechados transmite aos pais, crianças e à população em geral a ideia de que ainda é perigoso brincar fora de casa, mesmo quando já sabemos que ao ar livre a probabilidade de haver contágio é sempre mais reduzida. 

As crianças foram sacrificadas também com a escola on-line tendo passado largas horas em frente ao ecrã quando todos os especialistas são unânimes a afirmar que isto é não é nada bom para o seu desenvolvimento, com prejuízos diversos ao nível da saúde mental e física: como obesidade, défice de atenção, hiperactividade e dificuldade de controlo dos impulsos entre os mais comuns. Sendo que estes estão também associados a uma série de problemas de comportamento e de relacionamento com os pares e com os adultos. 
E mesmo quando já existem tantos estudos que demonstram que ler em papel ou em formato digital tem efeitos muito diferentes: assimilamos pior o conteúdo quando lemos em formato digital, além de que a leitura digital nos traz uma visão muito mais superficial porque se torna muito mais difícil manter o foco, uma vez que a nossa atenção compete constantemente com outros estímulos. Também sabemos que esta incapacidade de manter o foco - que os ecrãs provocam e alimentam - está associada a sentimentos de agitação, ansiedade e depressão, para além de dificultar muito a aprendizagem.

Depois de tudo isto, em Setembro, as crianças poderão finalmente voltar à escola mas com novas regras impostas o que irá trazer outras dificuldades e consequências que já se fazem sentir para algumas e em que precisamos também de pensar.
Não podemos adoptar medidas sem pensar bem em todas as consequências e no custo que estas terão. Se algumas medidas terão um custo insignificante, existem muitas que podem ter um custo demasiado elevado para os benefícios que acarretam. Porque uma criança não é adulto em miniatura e tem necessidades muito específicas e bem diferentes que precisam de ser levadas em conta. 

Uma dessas medidas que já se faz sentir na vida de muitas crianças em creches e jardins-de-infância é a proibição da entrada dos pais.
Permitir a entrada dos pais na escola, quando vão deixar ou buscar os filhos não é um mero capricho. Como já expliquei aqui. Uma criança que entra num lugar novo fica sempre num certo estado de alerta, principalmente quando essa entrada implica a separação das suas figuras de apego, as suas referências. A única forma de desactivar esse estado de alerta é justamente através do contacto com as figuras de apego que geralmente são os pai. E enquanto ele não for desactivado, a criança simplesmente não está disponível para estabelecer novas relações seguras que, por sua vez, são essenciais para que o seu dia na escola seja vivido da melhor forma e até para que consiga aprender realmente. Isto é muito importante em todo o processo de adaptação dos mais novos, que pode durar dias, semanas ou até meses e que acontece sempre outra vez depois de um período de afastamento. Mas também dos mais velhos depois de tudo o que aconteceu este ano, com um período de afastamento tão prolongado e carregado de tensão por vários motivos. Permitir a entrada dos pais na escola é fundamental para que esta não se torne um mundo completamente estranho e separado da família em que a criança nunca se sentirá realmente segura.

É muito importante que os pais possam ver diariamente os professores e educadores e que sejam eles a entregar-lhes a criança porque é isso que lhes permite fazer a ponte. O instinto da criança diz-lhes que não devem ficar com estranhos, que devem procurar sempre as pessoas com quem se sentem seguras. Então para que os professores deixem de ser estranhos para elas é preciso que os pais façam essa ponte que lhes mostrar que podem construir uma ligação com aquela pessoa e isso faz-se de forma simples, falando com a pessoa, mostrando que ela é de confiança e que já temos uma relação com ela.

As máscaras usadas pelos adultos, sobretudo nos mais novos, também não facilitam este processo. Porque as expressões faciais são uma parte fundamental da comunicação não verbal e daquilo que nos faz ou não sentir segurança na presença da outra pessoa. Stephen Porges usa o termo neurocepção para falar de um mecanismo inconsciente que nos faz avaliar constantemente a segurança do ambiente externo e interno e essa avaliação passa em grande parte pela comunicação não verbal. Essa comunicação não é apenas facial, também passa pelos olhos, ao tom de voz e à prosódia do discurso, coisas que a máscara ainda nos permite perceber mas que podem ser insuficientes para uma criança pequena e que até dificultam um pouco a comunicação mesmo nas mais velhas e nos adultos. Sem ver totalmente a cara da pessoa com quem nos relacionamos é bem mais difícil recolher essas pistas de segurança e quando nem sequer conhecemos essa pessoa, como irá acontecer na adaptação à escola de muitas crianças, então isto fica mesmo impossível. Por isso mesmo nos países que recomendam o uso de máscara, em muitos já está a ser recomendado aos professores e educadores que retirem as máscaras sempre que puderem ficar a um metro e meio de distância das crianças, até porque a máscara também dificulta muitas vezes a compreensão daquilo que os professores dizem. 
As crianças mais pequenas ainda não têm um grande desenvolvimento do seu hemisfério esquerdo que começa apenas aos dois anos de idade, o que quer dizer que estão ainda mais dependentes da comunicação não verbal, que é interpretada pelo hemisfério direito, para se relacionarem e  sentirem seguras. Mas, mesmo nos mais velhos, começa hoje cada vez mais a saber-se que o hemisfério direito tem um papel fundamental no sentimento de bem-estar, equilíbrio e segurança que está, em grande parte associado à capacidade de estarmos em contacto com as mensagens do nosso próprio corpo. Quando nos focamos apenas na comunicação oral, algo que é forçado pelo uso continuo de máscaras, estamos a estimular o uso do hemisfério esquerdo em detrimento do direito, algo que sabemos estar bastante mais associado a sentimentos de agitação, ansiedade e até de depressão.
Sabendo que nas crianças, sobretudo as mais pequenas, o hemisfério direito ainda tem um papel dominante, então, deixá-las o dia inteiro, aos cuidados de um educador com máscara é dificultar muito o seu sentimento de segurança. 

As nossas creches e jardins de infância já têm demasiadas crianças para o número de adultos presente e isto já dificulta a ligação e esse sentimento de segurança que a criança precisa de ter com os adultos que cuidam de si. Quando juntamos a isto a grande dificuldade de ler o rosto que as máscaras provocam estamos a criar uma dificuldade enorme da criança se ligar ao adulto e, consequentemente, de se sentir segura com ele e na escola. Se a criança não se sente ligada a um adulto que cuida dela, irá passar todo o seu dia num estado de alerta que, poderá ter consequências muito graves para o seu desenvolvimento, para o seu comportamento e até para as capacidades cognitivas e de aprendizagem, bem como para a sua saúde.

Uma investigação bastante extensa que em que participaram cerca de 17000 sujeitos, sobre experiências adversas na infância mostra bem como o stress tóxico que estas provocam está ligado a uma série de complicações de saúde na vida adulta: como a obesidade, diabetes tipo II, desordens de ansiedade e depressão e até problemas cardiovasculares, a principal causa de morte na sociedade ocidental.

Se pensarmos que, apesar de terem tido mais tempo com os pais, este tempo de confinamento e ausência de escola pode ter sido vivido com muitas dificuldades em muitas casas em que os pais ficaram sem emprego ou viram o seu modo de vida afectado, em casais em que as dificuldades de relacionamento aumentaram pela convivência forçada, em situações em que os pais tinham de trabalhar com crianças pequenas em casa sem terem como prestar-lhes atenção ou tratar delas em condições. Tudo isto a juntar a uma crise económica e social sem precedentes diz-nos que, mais do que nunca teremos crianças provavelmente muito ansiosas na escola, crianças com várias dificuldades e problemas emocionais para gerir. O que quer dizer que, para estas crianças, será ainda mais importante que a escola se torne um lugar seguro. Para isso não podem existir regras demasiado rígidas que se sobreponham ao seu bem-estar.

A diminuição dos intervalos e as medidas de distanciamento entre crianças também são nefastas e sem sentido. Quando sabemos que ao ar livre a probabilidade de transmissão é muito menor e que a socialização com os pares é um aspecto importantíssimo da escola, não faz qualquer sentido dificultar o convívio e a proximidade entre as crianças. 

A desinfecção constante também transmite uma mensagem continua de perigo e cria mais tensão do que os benefícios que pode trazer que, na verdade, nem são muitos porque já se sabe que os desinfectantes à base de álcool matam também as bactérias boas que são essenciais para a nossa saúde e equilíbrio. E a sociedade de pediatria francesa, que aliás se tem mostrado também bastante preocupada com estas medidas, já emitiu um comunicado às escolas a afirmar que a lavagem mais frequente das mãos com água e sabão é suficiente como medida de segurança nas escolas. 

Não podemos deixar que as medidas sanitárias se sobreponham à necessidade de preservar a saúde mental das nossas crianças e jovens. Porque se o fizermos teremos com certeza em mãos uma outra pandemia no campo da saúde mental com resultados bem dramáticos e duradouros. 

A maior protecção que podemos dar a uma criança, como mostram todos os estudos sobre vinculação, é dar-lhe a possibilidade de construir uma relação segura com os adultos, isto é realmente o mais importante e a melhor prevenção que poderá existir para a sua saúde mental. Mas essa relação pode ficar ameaçada se os adultos na vida dessa criança insistem em tratá-la como um ameaçador agente infeccioso. Como um pequeno transportador de vírus que pode ser responsável pela morte dos avós ou de outras pessoas queridas e que por isso tem de ser travado e doutrinado para se manter longe dos colegas, para se desinfectar bem, para usar máscara a partir dos 10 anos, etc. Porque ao fazê-lo deixamos de ser nós os adultos como figuras de protecção, quando passamos a responsabilidade de se manter segura - e mais ainda de manter os outros seguros - para os ombros de uma criança estamos a dar-lhe um peso que ela não tem como carregar. E esse peso terá um custo, um custo que virá mais tarde sob a forma de dificuldades e até de patologias várias, como demonstrou tão bem o tal estudo das ACEs (adverse childhood experiences). E na verdade, Portugal, neste momento está entre os países do mundo que têm adoptado medidas mais rígidas com as crianças. 
Então temos que deixar que as crianças sejam crianças, não temos o direito de as pressionar com o nosso medo e de as impedir de serem apenas crianças. Não temos o direito de as impedir de brincar, de as prender em casa, de fechar parques infantis e escolas mas também não temos o direito de as mandar para a escola com uma série de regras absurdas e rígidas que só lhes colocam tensão e mais peso nos ombros e com uma série de adultos de rosto tapado cujas expressões nem sequer conseguem desvendar facilmente.
Se sentimos que precisamos de tomar medidas para travar esta pandemia e se precisamos de viver com elas durante bastante tempo para proteger alguns grupos de risco também precisamos de sentir que temos de proteger as crianças e que essa responsabilidade deve ser assumida única e exclusivamente pelos adultos, deixando que as crianças continuem a ser  apenas crianças se queremos realmente dar-lhes oportunidade de se desenvolverem saudáveis. Porque um ou dois anos na vida de uma criança não valem o mesmo que na vida de um adulto e podem bem mais facilmente deixar marcas permanentes que teremos muita dificuldade em apagar mais tarde. 


quinta-feira, 21 de maio de 2020

Saúde e relacionamentos

Aquilo que nos torna pessoas são as nossas relações. Aquilo que nos define enquanto espécie é a grande necessidade que temos de estabelecer ligações desde o primeiro momento de vida e a forma como precisamos delas para nos desenvolvermos. 

Estudos feitos com crianças que viveram em situações trágicas como os conhecidos orfanatos da Roménia mostraram bem como, sem a possibilidade de estabelecer ligações as crianças ficavam com problemas de desenvolvimento em todos os níveis: cognitivos, motores e emocionais e até uma estatura abaixo da média. E havia um grande número delas que, mesmo com alimento suficiente e boas condições materiais e de higiene nem sequer chegava a sobreviver. Faillure to thrive foi o nome dado pelos investigadores a esse fenómeno muito observado nessas instituições em que o organismo das crianças simplesmente não conseguia sobreviver ao stress de não ter alguém com quem pudesse construir uma ligação. No caso daquelas a quem era permitido contactar com outras crianças verificou-se que algumas chegaram a criar uma língua própria que só elas entendiam, preenchendo essa necessidade desesperada que tinham de se ligar alguém mesmo que fosse apenas outra criança. 

A conhecida experiência da cara parada ou Still face experiment no seu nome original e todas as investigações tão importantes do seu autor, Ed. Tronick, também demonstram muito bem como é fundamental responder aos bebés e crianças para o seu bom desenvolvimento e como eles o esperam e dependem disso desde os seus primeiros dias. 


Estudos com macaquinhos sacrificados nos anos 50 também mostraram bem a importância do toque e a forma como ele é prioritário até em relação ao próprio alimento. 


Uma investigação da Sue Jonhson, terapeuta de casal, também mostra como o simples facto de termos uma pessoa que amamos a segurar-nos a mão durante um procedimento doloroso diminui bastante o stress e até a própria sensação de dor. 

Ainda há dias comecei a ler um livro de um médico que na sua introdução diz que a solidão é uma causa de morte tão grande como a obesidade e os diabetes. E sabe-se que o sentimento de solidão aumenta em cerca de cinquenta por cento a probabilidade de se sofrer um ataque cardíaco, dando um significado mais literal à expressão de coração partido. Sabe-se também que depois de um episódio de enfarte um dos aspectos mais determinantes para a sobrevivência é a qualidade dos relacionamentos da pessoa. 

Também já foi demonstrado que o sentimento de rejeição activa no cérebro exactamente as mesmas zonas que a dor física, mostrando como este sentimento tem também um papel importante na nossa sobrevivência. Porque evoluímos enquanto espécie com base nessa mesma dependência. Foi o facto de sermos capazes de colaborar que nos permitiu dividir o cuidado com as crias, construir abrigos melhores, armazenar alimentos e tudo o resto que teve um papel fundamental para a nossa sobrevivência. 

Descrevo isto tudo apenas para que nos lembremos daquilo que nos torna pessoas e nos faz crescer e viver bem e com saúde: os relacionamentos. 

Então não podemos esquecer-nos disto nos momentos de crise como o que estamos a viver. É verdade que podemos manter boas relações com algum distanciamento das pessoas que não estão no nosso círculo mais íntimo, também é verdade que podemos usar os ecrãs de vez em quando para as alimentar e também é verdade que, enquanto adultos ou crianças mais crescidas conseguimos criar boas ligações mesmo com uma parte do rosto tapada pelas máscaras porque já conseguimos relacionar-nos mais com base nas palavras e outro tipo de gestos. 

Mas precisamos de nos lembrar que não podemos alimentar ligações apenas e sempre com ecrãs pelo meio, muito menos nas crianças. O ensino à distância não faz sentido para uma criança e faz muito pouco para um jovem. As crianças aprendem quando conseguem sentir-se ligadas aos adultos que ensinam e é muito mais difícil fazer isso através de um ecrã, além de que nem sequer é positivo para o seu desenvolvimento cerebral o uso excessivo de ecrãs, como já expliquei aqui

Mas, mesmo para os adultos a presença física de alguém é insubstituível. Quando estamos com alguém ao pé de nós, a conversar de forma mais íntima e presente, há uma sincronização dos ritmos e um mundo de micro-expressões faciais, que são muito mais difíceis de interpretar num ecrã e que dão ás duas pessoas um sentimento de segurança que , por sua vez, activa o seu circuito social, responsável pelo estado de equilíbrio e sensação de bem-estar e saúde. 

E quando falamos de crianças também é verdade que é possível estabelecer uma ligação com elas mesmo com máscara posta - com crianças mais crescidas não tanto com bebés - mas é muito mais difícil porque ainda não estão tão treinadas a ler as nossas expressões e os seus circuitos sociais são menos desenvolvidos. E se isto até pode funcionar com uma criança calma, equilibrada e com um adulto com quem já exista uma boa ligação, fica tudo muito mais difícil quando a criança está tensa o que acontece muito facilmente quando estão sem os pais.  

E esperar que uma criança fique tranquila sem contacto físico, sem toque, é simplesmente não perceber mesmo nada das suas necessidades, sobretudo para as mais pequenas mas também, ainda que em menor escala, para as mais velhas. 

Ao mesmo tempo também temos pessoas nos hospitais a serem submetidas a cirurgias difíceis e arriscadas e que estão completamente sozinhas. Compreendo que a entrada cada pessoa nova no hospital se torna um novo possível foco de infecção. Mas também sei que essa entrada poderá ter um papel fundamental na recuperação de doenças difíceis e de situações potencialmente traumáticas. Sei que também é arriscado deixarmos sozinhas pessoas que estão a ser tratadas por problemas de saúde graves e assustadores, porque esse sentimento de solidão irá activar no seu organismo uma carga de stress tóxico que poderá eventualmente ser tão letal como o vírus do qual estão a ser protegidas. 

Também me custa muito saber de recém-nascidos que estiveram separados quinze dias das suas mães: para serem protegidos de um vírus arriscam-se a uma vida inteira de traumas causados por essa separação que se sabe que pode ter efeitos destruidores no seu sistema de resposta ao stress, na amamentação e na criação de um vínculo do qual depende toda a organização e estrutura mental da criança. 

Todas estas medidas têm algo em comum: uma visão redutora e limitada do que é a saúde e o não reconhecimento da importância da saúde mental que é construída, em boa parte, através das ligações que criamos. 

Por isso gostava de ver estas questões importantes a entrarem também nas equações. Quando tentamos proteger-nos do vírus gostava que o fizéssemos com a noção de que é também importante para a nossa saúde proteger as relações e libertar-nos do medo que nos faz, neste momento, ver cada um dos outros como um potencial perigo para a nossa saúde. Nunca ouvi dizer tantas vezes que estamos todos juntos mas, a verdade, é que nunca estivemos tão separados. Separados pelo medo que os outros nos infectem, separados pelo medo que os outros não levem isto suficientemente a sério ou separados pelo medo que o levem demasiado a sério. 

Então precisamos de nos juntar naquilo que nos torna mais humanos: o reconhecimento de que todos precisamos uns dos outros para sobreviver, para estar bem e para ser felizes. 

E precisamos que isto comece a pesar tanto nas decisões como as estatísticas que mostram tão bem o lado racional da humanidade mas que falham redondamente naquilo que é mais importante: as emoções. Porque se este lado racional nos trouxe conquistas maravilhosas e fantásticas que melhoraram muito a nossa qualidade de vida a verdade é que também nos afastou daquilo que nos faz felizes: as emoções. 

Um livro muito bom do psiquiatra Ian Mcgilchrist - the master and his emissary - explica como o mundo ocidental valoriza excessivamente as funções do hemisfério esquerdo. E nunca como agora isso foi tão claro para mim. Quando achamos que não há problema em pedir a adultos e crianças que se distanciem e usem máscaras estamos a valorizar demasiado a racionalidade e a deixar completamente de lado todas as funções do hemisfério direito, que é justamente o que analisa a comunicação não verbal e está mais ligado às emoções. Acontece que esta valorização excessiva do hemisfério esquerdo, com todos os benefícios importantes que nos trouxe, como o conhecimento científico, também tem uma responsabilidade importante no crescente mal estar, ansiedade e depressão que se vêem hoje em dia. É através do hemisfério direito que nos ligamos ao corpo e às emoções. E é só através do contacto com estas que podemos ser felizes e ter vidas preenchidas.


O hemisfério esquerdo permite-nos fazer coisas muito importantes, como dar nomes ao que sentimos e perceber porque acontece. Mas sem o direito ficamos vazios, reduzidos apenas ao intelecto podemos conquistar muitas coisas mas sem amor a vida não faz sentido.



Precisamos de encontrar um equilíbrio que nos permita perceber que se queremos viver bem, não apenas sobreviver, controlar o vírus não pode ser a nossa única preocupação.



Precisamos de ter noção que uma boa parte da comunicação acontece de forma não verbal. E quando alguém usa máscara e se distancia aquilo que o nosso organismo lê é um sinal de perigo.

Não sou contra o uso da máscara em situações específicas, como transportes públicos por exemplo. Mas precisamos de não as normalizar demasiado sob pena de anularmos e desvalorizarmos completamente o nosso hemisfério direito, anulando também tudo o que nos torna humanos e nos permite ser felizes.



E se isto é válido para os adultos, é ainda mais importante para as crianças em que o cérebro ainda está a organizar-se de formas que se irão tornar permanentes.

E sobretudo não podemos distancia-nos um dos outros e continuar a encarar todos como potenciais transmissores de vírus perigosos sob pena de vermos gravemente afectada a nossa saúde mental. 

Não acredito que esta crise nos traga muitas coisas boas, porque durante uma crise tudo o que queremos é sobreviver. Mas gostava muito que, no futuro, começássemos a ser mais capazes de valorizar as emoções e as relações como o património mais importante da humanidade e aquele que precisa mais de ser protegido e valorizado e que percebêssemos que não se pode falar de saúde física sem pensar na mental e sem pensar nas emoções e nas relações porque elas fazem parte de um todo inseparável que não pode ser analisado separadamente. Mesmo que seja impossível pô-las no microscópio como já fazemos com os vírus. 



quinta-feira, 9 de abril de 2020

Aprender a brincar

Neste momento as escolas estão-se a preparar para um terceiro período virtual mas, infelizmente, não acredito que esta seja a melhor opção.
Já têm sido muito faladas as dificuldades que isto apresenta às famílias com a gestão do teletrabalho, ou em famílias com vários filhos e poucos computadores ou a desigualdade também provocada pela inexistência de computadores em tantas casas.
Mas, para além de tudo isto que são questões importantes, também existem outras que têm sido menos debatidas mas que considero igualmente importantes.

Não acredito que o estudo através de um ecrã seja a melhor forma de aprender, sobretudo para os mais novos em que o cérebro ainda está em formação.

Sabemos já há algum tempo que o conteúdo de tudo o que vamos aprendendo muda a estrutura do nosso cérebro, construindo novas sinapses e redes neuronais em função das aprendizagens feitas. Mas, o que estamos mais recentemente a aprender é que a forma como aprendemos também molda o nosso cérebro tanto ou até mais do que conteúdo.

Já existem vários estudos que demonstram que ler o mesmo texto num ecrã ou no papel não tem o mesmo resultado. Em experiências feitas para avaliar isto verificou-se que as pessoas que liam no papel tinham mais facilidade em assimilar os conteúdos e perceber aquilo que estavam a ler do que aquelas que liam num ecrã. 

Sempre que lemos alguma coisa num ecrã, com ligação à internet a nossa mente precisa de fazer avaliações constantes, sobre toda a restante informação que não pára de chegar e que pode não ter nada a ver com o conteúdo do texto. Mas mesmo que a informação seja relevante para o conteúdo - como acontece quando os textos têm mais links, por exemplo -  a nossa capacidade de assimilação e concentração torna-se ainda mais reduzida. Isto acontece porque a nossa mente precisa de avaliar, primeiro se aquela informação é ou não relevante e depois se devemos ou não abrir o link. Isto pode parecer pouco mas a verdade é que para o fazermos precisamos de abrir outras partes da nossa atenção que quebram a concentração necessária e fundamental para assimilar um texto e pensar sobre ele de forma mais aprofundada. Por isso alguns estudos também demonstram que quanto mais rico, do ponto de vista digital, for o texto ou a informação transmitida menor será a nossa capacidade de a assimilar, ao contrário daquilo que tantas vezes temos tendência para pensar. Há uma tendência natural para pensarmos que um vídeo no youtube por exemplo é uma boa forma de fazer as crianças aprenderem algo sobre determinado tema. É verdade que um vídeo capta mais facilmente a atenção do que um texto, e um vídeo mais rico com mais música, cor e movimento chama mais a atenção do que outro mais pobre. Acontece que chamar a atenção não é exactamente o mesmo que aprender. E a forma com os ecrãs captam a nossa atenção deixa-nos num estado de semi-passividade que, na verdade, é contrário aquilo que é preciso para sermos capazes de aprender a pensar e não apenas meros receptores de conteúdos. Quando vemos um vídeo a nossa mente fica ocupada a avaliar todas as outras informações que não param de chegar e sobra menos espaço para se focar verdadeiramente naquele tema. Por isso hoje em dia temos é fácil termos acesso a muita informação mas esta acaba por ser superficial na maior parte das vezes.

Quando estamos a ler um livro, essas distracções não existem e por isso a nossa mente fica livre para se focar verdadeiramente no tema que está a ser tratado e acaba por ser capaz de memorizar e assimilar a informação de forma mais completa, ao mesmo tempo que temos mais capacidade para reflectir de forma mais profunda sobre aquele tema.

Mas, talvez até mais importante do que isto, é o que acontece quando estamos a ler no papel: a nossa mente está a aprender a manter o foco e isto também está associado a uma maior capacidade de gerir a nossa atenção o que, por sua vez, está associado a um maior bem-estar e satisfação. Quando estamos online existem constantemente distracções, a nossa capacidade de foco fica muito mais limitada, saltitamos constantemente de uma informação para outra e isto faz com que o cérebro perca a sua capacidade de se manter focado o que, por sua vez, está associado a muitos problemas de ansiedade e a um sentimento de agitação e mal estar constante.

Um dos grandes benefícios da meditação é justamente treinar essa capacidade de manter o foco e é esta capacidade que é responsável por uma boa parte dos sentimentos de bem-estar e tranquilidade que a meditação pode trazer. E isto é precisamente o oposto daquilo que acontece sempre que estamos online, em que, mesmo que estejamos a ler um texto ou a tentar aprender alguma coisa, a nossa mente tem de fazer essas avaliações permanentes que reduzem um pouco a sua capacidade de manter o foco. E quanto mais tempo passarmos a fazê-lo mais difícil se torna manter esse foco, mesmo quando já não estamos online.

Se isto é verdade para adultos, será ainda mais importante pensar nos efeitos que isto poderá ter nas crianças que estão ainda em fase de aprendizagem e formação e em que todas as experiências têm um um impacto ainda maior na formação do seu cérebro. 
Por isso não acredito que manter a aprendizagem através da internet seja o mais acertado para as nossas crianças neste momento.
Até porque quando falamos de crianças precisamos de saber que elas não aprendem unicamente com processos de reflexão, a ler ou a estudar. As crianças precisam de aprender a brincar, a mexer, a experienciar e isto tudo é muito mais difícil de fazer através de um ecrã. Além de que existe uma componente fundamental na aprendizagem que os ecrãs também não facilitam: a relação. As crianças aprendem sobretudo em relação. As crianças aprendem melhor quando gostam dos professores e quando os professores gostam delas e é mais difícil transmitir isso através de um ecrã.

Quando lemos um livro, porque a nossa mente fica mais focada e silenciada, também conseguimos criar uma proximidade emocional com o conteúdo mais facilmente do que num ecrã. E isto também é essencial na aprendizagem. Aprendemos melhor aquilo que nos toca do ponto de vista emocional. Memorizamos melhor as coisas que nos emocionam. As emoções transformam o cérebro e ajudam a desenvolvê-lo. As crianças aprendem essencialmente em relação. Estudos com crianças pequenas constataram que quando o mesmo conteúdo era transmitido pela mesma pessoa ao vivo ou através de um ecrã os resultados eram bastante diferentes: as crianças aprendiam muito melhor ao vivo. Da mesma forma também sabemos que as crianças pequenas que passam muito tempo a ver televisão têm mais dificuldades de linguagem, mesmo que até vejam programas educativos.

Por tudo isto, não acredito que a escola seja uma prioridade neste momento. 

Brincar é o mais importante 

O mais importante nesta altura é darmos aos nossos filhos um sentimento de segurança, através da relação que temos com eles. Se sentimos que fazer alguns exercícios escolares com eles nos ajuda a manter essa relação e é positivo para ambos, óptimo, podemos fazê-lo claro mas se, pelo contrário, como tantas vezes acontece, isso só servir para criar tensão e conflitos, então a aprendizagem formal da escola pode mesmo ficar para segundo plano. Até porque é muito difícil aprender quando estamos com medo ou ansiosos.

Acredito que, neste momento, a nossas prioridades precisam de ser apenas duas: preservar a relação que temos com as nossas crianças e deixá-las brincar. 

Porque é que a brincadeira livre é tão importante neste momento? Porque é através dela que as crianças podem processar muito daquilo que estão a sentir e a viver. Através da brincadeira as crianças encontram formas criativas e importantes de libertar a tensão e de descarregar os medos que possam estar a sentir. E encontram formas de integrar e processar tudo o que estão a viver. Por isso, neste momento, mais do que nunca precisamos é de criar espaço e dar-lhes tempo para brincar. Para brincarem livremente, sem interferências e sem julgamentos da nossa parte. Isto é válido tanto para os mais pequenos como para os mais novos e até para adolescentes e adultos. Com estes últimos as brincadeiras serão diferentes, mas é importante também que encontrem espaços de liberdade que lhes permitam entrar em contacto e assimilar tudo o que estão a sentir. Isto pode acontecer quando ouvimos música que nos ajuda a chorar e a libertar a tristeza, por exemplo, ou quando pintamos ou desenhamos para quem gosta de o fazer, ou quando dançamos ou qualquer outra coisa que nos faça sentir que somos capazes de trazer o foco para o presente, de entrar em contacto com as nossas emoções e de libertar o que estamos a sentir. E para as crianças a forma principal de fazer isto é brincar.

Por isso, neste momento, mais do que qualquer outra coisa é de brincar que precisam os nossos filhos. E criar as condições para a brincadeira aconteça tem de ser a nossa prioridade.


Condições para brincar 

É impossível obrigar alguém a brincar mas podemos criar condições para que a brincadeira surja espontaneamente e existem algumas condições essenciais para isso: primeiro as necessidades têm de estar satisfeitas e a necessidade mais importante é a da nossa presença, de se sentirem ligados a nós, depois precisam também de se sentir seguras porque é impossível brincar quando estamos em estado de alerta e depois é preciso que haja diariamente bastante tempo livre de ecrãs.

Neste momento é provável que seja mais difícil esses momentos de brincadeira acontecerem de forma espontânea porque as crianças podem estar mais alarmadas e inseguras, por isso temos de os preservar ainda mais. Para isso neste momento não acho que devamos estar preocupados com estudos e com escolas, porque essa preocupação traz mais uma carga de tensão que se irá juntar a todas aquelas com que já temos de lidar neste momento.

Além disso uma criança segura e com tempo para brincar, também é uma criança que tem  uma disponibilidade natural para aprender de forma mais livre. E as crianças aprendem a brincar também. Uma criança mais tranquila e mais segura, com tempo e espaço para brincar, também é uma criança que mantém a sua curiosidade natural que é um ingrediente essencial para que a verdadeira aprendizagem aconteça. E também é uma criança mais capaz de se sentar a ler um livro, por exemplo que, neste momento, me parece uma aprendizagem mais útil e positiva do que a dos conteúdos formais da escola.

Acho que pode ser útil manter o contacto com as escolas, que podem ir sugerindo alguns exercícios pontualmente mas, sobretudo, para manter a relação entre as crianças e com os professores. As crianças aprendem sobretudo em relação e são estas relações que, neste momento, mais do que tudo importa preservar. Muito mais do que fazer trabalhos de matemática ou português ou estudo do meio. São elas que alimentam de verdade o cérebro. Tudo o resto é secundário e pode ficar para segundo plano neste momento. Até porque se formos capazes de alimentar bem as nossas crianças, neste momento, com a relação que temos com elas e esses momentos fundamentais de brincadeira livre ao longo do dia, de certeza que mais facilmente elas conseguirão aprender todo o conteúdo académico  que ficou para trás quando for necessário fazê-lo. 

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Paradoxos do isolamento

Aquilo que está a ser pedido à maioria de nós neste momento deixa-nos numa espécie de paradoxo fisiológico: por um lado é-nos incutido um sentimento de medo - que aliás a comunicação social tem feito um bom trabalho de manter com a sua contagem diária de mortos e infectados - medo de ficar doente, de ver os nossos entes queridos doentes ou de causar doença nos outros mas medo também da cura com toda a desestruturação que ela está a provocar nas nossas vidas; por outro lado é-nos pedido que não façamos nada com esse medo e que nos limitemos a ficar em casa, o mais quietos possível. Isto deixa-nos um pouco sem saída do ponto de vista fisiológico porque, sempre que o nosso sistema de alarme é activado, o que acontece quando sentimos medo ou quando existe esta sensação de que há uma ameaça presente de forma constante temos duas hipóteses: ou activamos a resposta de luta-ou-fuga, através do nosso sistema nervoso simpático ou activamos a resposta de congelamento, comandada pelo nervo vago dorsal. Acontece que, a primeira resposta, a mais adaptativa e natural para lidar com as ameaças, aquela que partilhamos com todos os mamíferos é a de luta ou fuga. Mas, neste momento, não podemos lutar nem fugir por isso se este é o nosso mecanismo de resposta principal é bem provável que nos sintamos muito frustrados, zangados, revoltados e com um certo sentimento de desorientação ou de agitação permanente porque não temos como fazer aquilo que o nosso organismo nos está a pedir. 

Mas quando a resposta de luta ou fuga se mantém activa demasiado tempo sem que isso produza nenhum resultado, há uma probabilidade de que passemos a activar a resposta de congelamento. Isto acontece sobretudo quando na nossa história precisámos de recorrer muitas vezes a este mecanismo, que acaba por tornar-se o nosso primeiro meio de resposta. Este é o caso de pessoas com história de trauma profundo na infância. Esta resposta activa um mecanismo de defesa que temos em comum com os répteis que se limitam a fingir-se de mortos quando uma presa os ataca até que a ameaça desapareça. Mas nós não somos répteis por isso esta resposta tem um custo muito elevado para os seres humanos que não podem usar este mecanismo por muito tempo, já que o seu organismo precisa de manter níveis de oxigénio e temperatura mais constantes. Por isso este mecanismo só é activado em situações extremas e tem um custo muito grande para o nosso organismo. Uma das suas consequências, do ponto de vista psicológico, é um sentimento de impotência, daquilo a que se chama a desesperança aprendida: a sensação de que nada do que façamos importa ou faz diferença no mundo e isto vem associado a sentimentos de tristeza profunda ou de dissociação - que vem muitas vezes associada a uma sensação de vazio, ou de que não estamos bem aqui, no nosso corpo, uma incapacidade grande de estarmos presentes com a nossa experiência em cada momento, um sentimento de que precisamos de fugir e, se não o podemos fazer em corpo, tentamos fazê-lo em mente. É o que relatam muitas pessoas que sofreram maus tratos profundos quando dizem que o corpo estava ali mas a cabeça já não. Esta é uma defesa adaptativa na medida em que nos permite sobreviver, mas esta sobrevivência vem com um custo muito elevado: a perda do prazer na vida, o medo de lidar com as emoções, a necessidade de fecharmos certas partes de nós mesmos e a dificuldade de criarmos ligações seguras e significativas que nos preencham de verdade.

 A forma como usamos estes mecanismos de resposta não depende da nossa vontade, isto acontece de forma automática e inconsciente e a maioria das vezes nem nos damos conta de que estamos a activá-los.

Acontece que a forma principal de desactivarmos o nosso estado de alarme é através da co-regulação. A co-regulação é mesmo a estratégia principal de sobrevivência da nossa espécie. E, neste momento, também nos está a ser pedido que nos distanciemos dos outros. 

Mas o nosso sistema nervoso está programado para se regular através dos relacionamentos. Precisamos de ver as outras pessoas, de olhar nos olhos delas e de as tocar também para nos sentirmos seguros. É verdade que o mundo virtual de hoje facilita um pouco as ligações, mesmo nesta altura de isolamento, mas também é verdade que podemos cair facilmente no perigo de achar que elas substituem tudo e isso não é verdade. Mesmo numa videochamada falta-nos muita informação não verbal importante que influencia a forma como comunicamos e como nos sentimos. E a forma como lidamos com isso  depende do nosso perfil.

Existe um grupo de pessoas a que podemos chamar reactivas, alguns autores falam de pessoas sensíveis ou no caso das crianças, há quem fale das crianças orquídeas, que são pessoas em que de certa forma o sistema nervoso tem mais dificuldade em excluir os estímulos internos e externos. Estas pessoas processam constantemente um maior número de informações e geralmente de forma mais intensa. Então este grupo que se estima que será cerca de 20% da população, será provavelmente aquele que tem maior dificuldade com este tipo de comunicação. Isto porque, por um lado estão mais habituadas a receber e a processar uma série de informações subtis que faltam nas videochamadas e sentindo essa ausência fica-lhes mais difícil comunicar, por outro lado porque ao processarem mais estímulos do meio ambiente também lhes é mais difícil desligarem-se do sítio onde estão que terá estímulos muito diferentes daqueles que a outra pessoa experimenta o que pode contribuir para uma certa des-sincronia na conversa. Porque nas conversas importantes aquilo que acontece é que criamos uma certa sincronia entre as pessoas, uma sincronia do ponto de vista fisiológico que pode ser observada exteriormente nos gestos que é comum serem parecidos, nas expressões faciais em que uma pessoa espelha a emoção da outra ou na postura corporal que também adopta certas semelhanças quando essa sincronia acontece. Claro que é possível conseguir também alguma sincronia com uma videochamada, menos com um telefonema porque nos falta informação importante quando não vemos o rosto de alguém, mas a verdade é que pode ser um pouco mais difícil. E a verdade também é que isto não tem o mesmo grau de facilidade ou dificuldade para todas as pessoas o que pode ter a ver com algumas características pessoais mas também com a nossa história. Para uma pessoa que não está muito habituada a ser ouvida e acolhida de verdade e que, por isso mesmo, tem sempre uma atitude mais defensiva com os outros a comunicação online torna-se mais difícil porque há sempre um medo inconsciente de que o outro não seja verdadeiramente capaz de acolher a nossa dor e se esse medo também se manifesta mesmo na presença física das outras pessoas, é ainda mais provável que ele tome conta da nossa comunicação quando essa presença não existe. Porque quando já há alguma tendência para nos sentirmos sozinhos e incompreendidos, mesmo na presença dos outros, é natural que isto se intensifique quando nem sequer temos essa presença, como se o nosso corpo confirmasse que essa solidão é real.

Para pessoas com apego do tipo ambivalente, pessoas que na infância tiveram mães que nem sempre foram capazes de responder às suas necessidades esse medo de não se ser acolhido ou compreendido é uma constante, ainda que nem sempre tenham consciência disto. Estas pessoas têm na sua história uma experiência de sentir que os outros não sabem ou não conseguem ou não querem dar resposta às suas necessidades, por isso quando falam com alguém, inconscientemente, também esperam que as outras pessoas não sejam capazes de preencher verdadeiramente as suas necessidades. E é ainda mais fácil que isto se manifeste quando essa comunicação se faz através de um ecrã. É também nestas pessoas que esta experiência de isolamento pode estar mais associada a estados de ansiedade e agitação que vêm do reviver dessas experiências de infância em que se sentiram em perigo por não verem as suas necessidades bem acolhidas ou preenchidas. Porque para uma criança não há ameaça maior do que sentir que os seus pais podem não ser capazes de as proteger ou de preencher as suas necessidades de afecto e de reconhecimento. Isto é tão assustador que acaba por ser mais fácil a criança interiorizar que é ela que tem o problema ou os defeitos que não permitem que os outros gostem de si e, por isso, neste caso a experiência de isolamento pode acentuar ainda mais isso, porque, por muito que de um ponto de vista racional se saiba que as outras pessoas não nos procuram porque não podem, de um ponto de vista mais inconsciente isto vem confirmar o medo de que elas simplesmente não queiram estar connosco ou que não se importem com as nossas necessidades e não queiram saber dos nossos medos.

As pessoas caracterizadas por um apego do tipo evitante são pessoas que têm uma certa tendência para desvalorizar as emoções, porque na sua infância estas nunca foram bem acolhidas ou valorizadas. Por isso nestes casos há muitas vezes uma tendência excessiva para racionalizar e, nestes casos, pode ser muito fácil cair na ilusão de que a comunicação virtual substitui perfeitamente a real porque é mais provável que nem haja consciência desse vazio que existe pela incapacidade de se entrar em contacto com as próprias emoções.  Nestas pessoas o isolamento poderá estar mais associado a um sentimento de incapacidade e de tristeza profunda como se confirmasse aquilo que elas, no fundo sempre souberam: que estão sozinhas porque ninguém gosta verdadeiramente delas, porque não são dignas de amor. Nestes casos é mais provável que surja também o tal sentimento de desesperança aprendida, de que nada do que façamos importa.

Por fim, para as pessoas do tipo desorganizado, pessoas que sofreram traumas profundos na infância, a comunicação online pode ser ainda mais desorientadora por causa dos paradoxos com que as confronta.
Então, na verdade as pessoas que podem usufruir melhor deste tipo de comunicação são justamente as que menos precisam, porque são pessoas mais seguras, com melhores experiências de acolhimento e reconhecimento que, por isso mesmo, também desenvolveram mais capacidades de auto-regulação. 

Ao escrever isto quero apenas chamar a atenção para o facto de que nos está a ser pedido algo realmente difícil e que é natural que isso tenha custos elevados. E uma das formas importantes de preservarmos a nossa saúde mental começa por sermos capazes de acolher aquilo que estamos a sentir, passa por sermos capazes de nomear as nossas emoções e também por sermos capazes de dar um significado aquilo que estamos a viver.

Acredito que, por um lado, seria mais fácil, menos confuso e desorientador se nos pedissem para agir e não apenas para ficar parados à espera que o perigo passe. Se nos pedissem para agir de forma concreta, reforçando o apoio às vítimas com algum tipo de voluntariado, por exemplo, ou de outras formas que pudessem ajudar-nos a dar algum uso ao estado de alarme que estamos todos a sentir. Não posso ter a certeza de que isto seria o mais eficaz no combate ao vírus, nem sei exactamente em que moldes o poderíamos fazer mas sei que poderia ser mais fácil do ponto de vista emocional para muitas pessoas

Mas talvez o mais importante neste momento seja mesmo darmos voz ao sentimento de desorientação que é muito natural que várias pessoas estejam neste momento a sentir e perceber que ele tem uma razão fisiológica para existir. E saber que precisamos de o encarar e de libertar toda a tristeza que vem com todas as frustrações desta nova realidade em vez de tentarmos disfarçá-la ou ignorá-la com as mil e uma actividades tentadoras que chegam aos nossos e-mails e telemóveis todos os dias. Precisamos de fazer as pazes com essa tristeza e de saber que, neste momento, ela é mesmo o mais natural perante todas as perdas que estamos a vivenciar: de liberdade, de relacionamentos, de dinheiro e de saúde. Porque enquanto não encararmos e nomearmos esta tristeza também será muito mais difícil encontrar alguma coisa de positivo nisto tudo e dar um significado a tudo o que estamos a viver. 

E também é preciso que tenhamos consciência de que, se estas perdas se mantiverem por um tempo demasiado longo é muito provável que, a partir de certa altura, elas superem os ganhos que podemos obter com esta situação. Porque a saúde mental é uma parte inseparável da saúde física e ficarmos isolados durante demasiado tempo também pode matar-nos de muitas formas diferentes. 

quinta-feira, 19 de março de 2020

Manter os filhos seguros em tempos de isolamento

Estamos a viver tempos muito difíceis e desafiadores. Não adianta negar isto, nem romantizá-lo. Sim, é difícil ficar fechado em casa, com crianças ou sem elas. Sobretudo para quem já vivia em situações mais frágeis e para todos aqueles que, neste momento, têm a sua sobrevivência em risco, pela insegurança económica que esta crise também gerou.

Fico frustrada quando vejo várias publicações nas redes sociais que falam da quarentena como se fosse só uma questão de aceitar, parar e aproveitar para passar tempo com os filhos e família que vive connosco. Sei que para muitas famílias isto terá um efeito muito perturbador e negativo e também sei que o medo, mesmo depois da situação aguda de doença passar, para muitas pessoas se irá manter por muito tempo, sob a forma de stress pós-traumático ou de qualquer outro tipo de perturbação da ansiedade.

Mas também sei que, neste momento, precisamos de ter esperança e de acreditar que tudo irá correr da melhor forma. 
Acontece que, acredito que para correr da melhor forma a primeira coisa que precisamos de fazer é mesmo aceitar que isto tudo está muito longe de ser perfeito. Só assim podemos sair disto com o mínimo de efeitos traumáticos em nós e nos nossos filhos.
Precisamos de aceitar que talvez a escola fique para trás, ou a música ou a ginástica. Que talvez eles vejam mais horas de televisão do que seria desejável, que talvez não tenhamos vontade de fazer todos os dias as refeições nutritivas e completas que desejávamos fazer e que, mesmo passando muito tempo juntos, talvez não tenhamos assim tanta vontade de brincar e de jogar como pensamos que deveríamos ter. Sobretudo nos primeiros dias, em que ainda estamos a adaptar-nos a esta nova realidade e a lidar com o nosso medo.

Quando estamos com medo não é fácil ter vontade de brincar ou de jogar, nem sequer de pensar em que é que haveremos de fazer para o jantar. Porque o medo activa as partes mais primitivas do nosso cérebro que fazem com que nos preocupemos apenas com a sobrevivência. Por isso é natural que sintamos que não muito espaço dentro de nós para mais nada. 
Então a primeira coisa a fazer é reconhecer esse medo. E o medo, neste momento, não tem necessariamente que vir da doença. O medo pode vir de não sabermos se continuaremos a ter emprego depois disto, se vamos conseguir pagar as contas no final do mês, de não saber como vamos conseguir trabalhar em casa e cuidar dos nossos filhos ao mesmo tempo, de não saber se somos capazes de estar tanto tempo fechados com eles, de não saber como irá ficar a nossa relação com o nosso companheiro ou companheira depois disto, de não saber como iremos cuidar de pais idosos ou familiares mais frágeis que dependam de nós ou simplesmente de vermos tanto medo à nossa volta.

Quando ficamos em alerta desligamos o cortéx-pré-frontal a parte do cérebro que nos permite, pensar, analisar e avaliar as situações com alguma distância. O medo liga as partes mais primitivas por isso também é muito mais fácil gritar e ficarmos zangados quando estamos com medo, porque o nosso organismo já está em estado de alerta e qualquer coisinha irá servir para acentuar ainda mais esse estado. Quando estamos assim é muito fácil que gestos simples e neutros das pessoas que estão perto de nós nos pareçam ameaçadores ou hostis, porque ficamos programados para sobreviver e detectar ameaças e vemos tudo com esse filtro.

E a verdade é que é muito difícil desligar o medo quando somos bombardeados constantemente com informações sobre a doença e sobre quantos morreram e quantos adoeceram. É muito difícil desligar o medo quando o vemos nos olhos de toda a gente e quando podemos senti-lo no ar em todas as curtas deslocações que fazemos. Mas precisamos de ser capazes de aceitar que é natural estar com medo, estamos a viver algo novo, diferente e a mudança só por si é sempre um foco de tensão. Não faz mal ter medo, apesar de todas as publicações que também já li sobre o facto do medo baixar a nossa imunidade. Na verdade isto não é bem assim, o nosso sistema de alarme é mais complexo do que isso e, sim a resposta de alarme altera o funcionamento do sistema imunitário mas isto faz-se sentir mais a longo prazo. De qualquer maneira não faz mal estarmos com medo desde que saibamos acolhê-lo, aceitá-lo e saber que, neste momento, ele é uma resposta natural a tudo o que se está a passar. O que nos faz mal de verdade é negar e não aceitar as nossas emoções. Quando reconhecemos o medo e o aceitamos, paradoxalmente, ele também diminui porque ao fazer isto activamos o tal cortex pré frontal que nos permite criar um distanciamento mínimo da situação que faz com deixemos de estar tão mergulhados nela.

Também não faz mal mostrar aos nossos filhos que estamos com medo, desde que também saibamos mostrar que somos capazes de lidar com esse medo, que ele não nos controla e que continuamos a ser capazes de os acolher, de cuidar deles e de lhes dar segurança.  E sobretudo é importante ajudá-los também a perceber que podem ter medo, que isso não faz mal e é natural. Precisamos de ajudar as crianças a dar um nome ao que sentem mais do que perguntar-lhes o que estão a sentir, sobretudo às mais pequenas. Não adianta muito perguntar a uma criança de quatro ou cinco anos o que está a sentir porque ela não saberá dar-lhe um nome e só ficará ainda mais perdida.
E, nisto do medo, também é importante saber que as crianças não são todas iguais: as mais sensíveis ou reactivas irão senti-lo mais e provavelmente mais cedo. Nas crianças o medo também as torna muito mais explosivas e reactivas e por isso pode dar origem a mais conflitos entre irmãos, por exemplo ou a comportamentos mais agressivos.

Uma das coisas que precisamos de fazer, talvez a mais importante é fazê-los sentir que, apesar de tudo, ainda estamos no controlo, por muito que não o sintamos. Podemos sentir que perdermos o controlo das nossas vidas, das nossas rotinas, do nosso trabalho, das nossas finanças, etc, mas precisamos de sentir que ainda somos capazes de manter o controlo com os nossos filhos. Manter o controlo não quer dizer que nunca gritamos ou que sabemos sempre exactamente o que fazer ou que eles nos obedecem o tempo todo. Manter o controlo neste caso significa que ainda somos capazes de os ajudar a lidar com o que sentem e ainda somos capazes de ser a sua base segura. 

As crianças precisam de se sentir seguras e essa segurança não vem das notícias, não vem das estatísticas, nem da esperança de que haja uma vacina em breve. A segurança das crianças vem de sentirem que os pais são capazes de as proteger. E é isso que temos de as fazer sentir. Não precisamos de mentir, nem de fingir. Só temos de nos lembrar que temos recursos em nós para as proteger de verdade. Esta doença, nesse aspecto, não é diferente de todos os outros perigos que os nossos filhos enfrentam diariamente: não podemos impedi-los de cair e partir a cabeça, nem de apanhar outras doenças, nem sequer de se magoarem a sério um dia. Tudo o que podemos fazer é dar-lhes um colo seguro para chorar quando isto acontecer. E isto continuamos a poder fazer: podemos dar-lhes esse colo para chorarem com saudades dos amigos quando elas apertarem mais, com saudades das brincadeiras, da escola, das corridas, podemos dar-lhes esse colo quando se sentirem com medo de tudo o que está a acontecer. Na verdade as crianças têm uma probabilidade muito reduzida de ter complicações com esta doença, dizem-nos as estatísticas, mas o medo não quer saber de estatísticas porque o medo não é nada racional. E a melhor forma de lidar com o medo, neste caso, também passa pelas lágrimas. As lágrimas por tudo o que pensamos que poderá estar perdido da nossa vida anterior, as lágrimas por tudo aquilo de que sentimos saudades, as lágrimas por tudo aquilo de que estamos a abdicar. Quando choramos o nosso sistema de alerta acaba por se desligar, por isso é tão importante dar espaço para as crianças chorarem, dar-lhes um colo seguro e acolhedor para o fazerem. Porque as lágrimas desligam o nosso sistema nervoso simpático, permitem-nos adaptar à nova realidade e fazer a despedida daquela que já passou.

Dar segurança às crianças não passa obrigatoriamente por dar respostas. Têm circulado muitos vídeos sobre como explicar o corona às crianças mas o mais importante não é elas compreenderem exactamente o que está a acontecer, é confiarem nos pais. O mais importante é sentir que terão sempre esse colo e que o nosso medo não nos impede de falar com elas, de ver o medo delas e de perceber como podemos ajudá-las a encontrar as suas lágrimas e a ficar mais tranquilas.

Tenho visto também muitas publicações a falar da importância de manter uma rotina. Para algumas crianças e adultos isto pode ser importante realmente. E tenho visto muitas pessoas preocupadas com essa rotina. Mas uma rotina não é algo que precisamos de criar desde o primeiro dia, podemos ir criando essa rotina aos poucos, sem stress e sem pressão e adaptando-nos a esta nova realidade. Essa rotina não tem que ser uma reprodução dos horários e tarefas daquilo que fazíamos antes disto acontecer. 

Sinceramente, não acho que a escola precise de ser uma prioridade nestes momentos. Se as crianças gostarem de estudar e isso as ajudar a passar o tempo, óptimo. Mas não precisamos de transformar isto numa prioridade. Temos de nos lembrar que não somos, nem precisamos de ser, professores dos nossos filhos. E se manter as actividades escolares for para nós mais uma fonte de pressão e de tensão e, sobretudo, se ela estiver a por em causa a nossa relação com os filhos por falta de paciência ou de disponibilidade para os ajudarmos, então, aqui é mesmo importante lembrar que ela não precisa de ser prioridade agora. Esta é uma altura excepcional, por isso podemos vivê-la com muitas excepções também. 

Depois também temos de nos lembrar que as actividades online podem ser uma boa ajuda neste momento mas não podem tornar-se o nosso único recurso. E não substituem as outras. Estamos programados para estar com as pessoas, temos uma capacidade chamada neurocepção que nos faz avaliar constantemente o ambiente à nossa volta e também dentro de nós em busca de pistas de segurança. Para isso, uma das coisas que fazemos inconscientemente, é avaliar toda a comunicação não verbal das outras pessoas: o tom de voz, o ritmo do discurso, as expressões, os gestos. Uma zona do corpo que envia muitos sinais são os olhos, sobretudo os músculos pequeninos à volta dos olhos, os chamados pés de galinha, que mostram se estamos realmente relaxados ou não e estamos a ouvir de verdade outra pessoa. Por exemplo, quando estamos a ouvir atentamente alguém há uma tendência universal para levantar um pouco as sobrancelhas, o que, por sua vez, faz com os músculos do ouvido médio se contraiam o que permite que sejamos capazes de extrair melhor a voz humana no meio de outros ruídos. Quando olhamos para alguém que amamos as nossas pupilas dilatam-se e os bebés já reagem a esta dilatação nos olhos das mães. E tudo isto são coisas muito mais difíceis de fazer online, por isso uma video-chamada, apesar de ser melhor que o telefone simplesmente, não tem o mesmo efeito securizante que o contacto real. 


Muitas discussões e mal entendidos entre casais, por exemplo, acontecem no carro, porquê? Porque nestes casos não conseguimos olhar nos olhos um do outro, o que nos põe muito mais facilmente num estado defensivo. Então isto mostra como é importante o contacto visual e como precisamos de contacto real, para nos regularmos. Claro que, quando somos adultos maduros, aprendemos a criar estratégias diferentes de auto-regulação que não dependem tanto dos outros. Mas, a verdade, é que a nossa principal estratégia de sobrevivência enquanto espécie é mesmo a co-regulação e para isto o contacto e a presença física são fundamentais. Por isso é natural que nos sintamos aflitos e em pânico num período de isolamento social. Precisamos de reconhecer isso e fazer as pazes com esta realidade mais do que tentar negá-la criando a ilusão de que podemos usar as relações virtuais para substituir as reais. Se vivemos numa relação conjugal é bom termos noção de que essa pessoa será a nossa principal figura de apego e é através dela que podemos muito mais facilmente co-regular as nossas emoções e é bom que os casais saibam e sintam que, neste momento, é perfeitamente natural que se sintam a precisar muito mais um do outro e que, também por isto, é natural que se sintam também muito mais reactivos e sensíveis a tudo o que a outra pessoa fizer ou disser.

As crianças, sobretudo as mais pequenas ainda não tiveram tempo para desenvolver estratégias de auto-regulação. Por isso precisam mesmo de nós para o fazer, por isso também, é natural que, neste momento pareçam muito mais carentes e necessitadas da nossa atenção e presença e isso não tem nada de errado.

Então para passarmos por isto da melhor forma possível precisamos de saber que o isolamento não tem nada de natural para o ser humano e que não faz mal termos medo, ficarmos assustados e não sabermos como lidar com isto. Precisamos também de saber que não faz mal termos um pouco menos de paciência com os nossos filhos, desde que também sejamos capazes de lhes explicar e mostrar que estamos um pouco tensos mas que somos capazes de os proteger, cuidar e manter seguros. As crianças não precisam de pais perfeitos mas precisam de acreditar que os seus o são. E, para isso, neste caso, temos mesmo de saber que não há fórmulas nem segredos e precisamos apenas de fazer aquilo que sentimos que nos dá mais força para continuar a viver da melhor forma e a cuidar dos nossos filhos. Precisamos também de saber que mais do brincar com amigos, estudar ou fazer conferências online, os nossos filhos precisam de nós e, enquanto estiverem connosco, uma boa parte do seu mundo está mesmo no sítio certo. Enquanto forem capazes de encontrar um caminho para o nosso colo e o brilho nos nossos olhos apenas porque entraram na sala também serão capazes de passar por tudo isto da forma mais serena e tranquila possível. 



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Adultos e crianças numa dança hierárquica

Sempre que falo em hierarquia entre pais e filhos há quem fique incomodado. Mas a hierarquia é algo natural nas relações e essencial entre pais e filhos. A hierarquia acontece naturalmente quando estamos na posição de cuidadores, só podemos cuidar daqueles que estão numa posição de dependentes. E, pela ordem natural das coisas, as crianças dependem dos adultos. Ficar na posição de cuidadores não significa que temos o direito de maltratar, despeitar ou abusar das crianças. Antes pelo contrário até, se estamos na posição de cuidadores sabemos que só podemos cuidar se soubermos respeitar as necessidades das crianças de quem cuidamos.

Mesmo nas relações de casal esta dança entre quem cuida e quem é cuidado tem de existir, a diferença é que, numa relação entre iguais, como é um casal, esta tem de ser mesmo uma dança equilibrada: se for sempre o mesmo a cuidar ou a receber esse cuidado a relação não funciona. Mas numa dança não podem guiar os dois parceiros ao mesmo tempo, um tem de se deixar guiar enquanto o outro guia senão torna-se impossível dançar.

Mas a grande diferença entre uma relação de casal e uma relação entre pais e filhos é que, numa relação de casal, os dois membros (idealmente) já terão amadurecido. Numa relação entre pais e filhos, existe um dos membros que ainda não amadureceu e por isso mesmo ainda não tem capacidade para cuidar do outro e precisa de ser cuidado para que possa desenvolver-se e amadurecer. Não apenas crescer, porque aumentar de idade não significa necessariamente que o amadurecimento aconteceu, este amadurecimento só acontece se encontrar as condições ideais para acontecer. Por isso existem tantas pessoas muito avançadas nos anos mas muito pouco desenvolvidas emocionalmente. Assim como não podemos forçar uma planta a crescer também não podemos forçar uma criança a amadurecer, temos apenas de criar as condições necessárias para que isso se torne possível. E uma dela é que entre pais e filhos, não pode haver alternância. Temos mesmo de ficar na posição de cuidadores o tempo todo. E, se precisamos que alguém cuide de nós de vez em quando, como é natural que aconteça, esse alguém não podem mesmo ser os nossos filhos.

Acontece que, todos temos em nós uma criança que ainda existe e que cresceu, muitas vezes, num ambiente que não era o ideal em que nem sempre foi cuidada da maneira que precisava e quando precisava. Então, quando isto aconteceu com demasiada frequência o que se passa é que passamos a ter dentro de nós uma criança ferida e, se ainda não tratámos dessas feridas elas continuam a existir e a tomar conta de nós sobretudo nos momentos mais difíceis, porque esta criança ficou refém destas necessidades que nunca chegaram a ser preenchidas em alguma altura do seu desenvolvimento e não foi capaz de amadurecer por completo. Claro que podemos fazer com que esse amadurecimento aconteça mais tarde, na vida adulta, através de relações que sirvam para, de certa forma, corrigir aquilo que nos faltou. Mas, se não encontrámos ainda uma forma de fazer essa correcção e de permitir que essa criança cresça aquilo que vejo acontecer muitas vezes é que passamos a educar os nossos filhos a partir dessa criança ferida que existe dentro de nós e não a partir do adulto que até pode funcionar bem a maior parte do tempo mas que acaba por ficar em segundo plano nos momentos mais emotivos, que era justamente quando mais precisávamos que estivesse no controlo.  

Isto vê-se quando temos muita dificuldade em lidar com determinadas situações apenas porque queremos fazer diferente daquilo que os nossos pais fizeram connosco. Por exemplo, sabemos que faz mal à criança comer doces todos os dias mas acabamos por ter medo de lhe dizer que não porque tivemos pais muito autoritários que nunca nos deixavam fazer o que gostávamos.

Sempre que dizemos que não queremos fazer isto ou aquilo com os nossos filhos apenas porque os nossos pais o faziam connosco e era muito doloroso isto significa que, muito provavelmente, esta é uma ferida que ainda não fechou. E quando as nossas feridas não fecham elas podem tornar-se tão presentes que acabam por nos impedir de ver as coisas sem passar pelo seu filtro. Isto quer dizer que acabamos por educar a partir dessas feridas e não a partir das necessidades reais dos nossos filhos.

Na verdade, claro que não há nada de errado com o facto de não querermos repetir um erro que os nossos pais fizeram connosco. E claro que é saudável que queiramos corrigir esses erros que nos fizeram sofrer. Acontece que, quando a nossa única motivação para não fazer algo com os nossos filhos é apenas o facto daquilo nos ter feito sofrer na infância isso pode ser sinal de que não estamos a educar a partir do nosso adulto mas a partir dessa criança ferida.

Quando essa criança ferida nunca foi tratada ou cuidada, quando essas feridas ainda não sararam é difícil ficarmos realmente no papel de cuidadores dos nossos filhos porque existe uma parte demasiado grande de nós que ainda precisa de ser cuidada e que ainda pede muita atenção. E se não estivermos conscientes disto - e é tão mais difícil ter esta consciência quanto maiores forem as feridas -  é muito fácil que as nossas necessidades se misturem com as deles e que não nos sintamos capazes de ficar nesse papel de cuidador e que não nos sintamos confortáveis com esta ideia de que precisa de existir uma superioridade hierárquica entre nós e os nossos filhos. Porque na verdade não é fácil ficar no papel do adulto quando essa criança ferida ainda precisa tanto de ver as suas necessidades preenchidas. E só podemos ficar no papel de cuidadores se estivermos no lugar do adulto.

Uma necessidade só desaparece depois de ser preenchida. Se nunca nos sentimos seguros no papel de dependentes isso quer dizer que não tivemos oportunidade de crescer e amadurecer completamente, quer dizer que ainda existe uma parte de nós que precisa muito de ser cuidada como se fosse criança. E por vezes temos pais que esperam, inconscientemente, que os filhos cuidem dessas suas necessidades porque a sua criança nunca as viu satisfeitas.

Nestes casos então precisamos de ter noção que essa criança ferida em nós precisa sim de ser cuidada, precisa de ser trazida para a luz, de ser vista, aceite e acolhida mas nunca pelos nossos filhos. Os filhos em nós só podem ver o adulto e nunca a criança, muito menos ferida, para se sentirem seguros. Podemos e devemos falar de sentimentos e emoções com os nossos filhos mas sempre a partir do adulto, não daquelas que nos fazem sentir frágeis e a precisar de cuidado. Os nossos filhos precisam de sentir que podem confiar em nós, que podem ser protegidos e seguros por nós e isso dificilmente acontecerá se mostramos demasiado a nossa criança ferida e se eles nos virem como demasiado vulneráveis. Isto acontece quando, por exemplo, dizemos várias vezes aos nossos filhos que o comportamento deles nos magoa. Muitas vezes pensamos que é melhor dizer a um filho que ficámos tristes porque ele nos bateu ou porque nos chamou chatos do que simplesmente ralhar ou reprimir esse comportamento. Nestes casos ralhar ou castigar não são adequados porque a criança está simplesmente a expressar algo que não sabe e não tem ainda capacidade de expressar de outro modo. Mas, a verdade, é que dizer que ficámos tristes ou magoados também não é muito positivo. Porque nos coloca numa posição de fragilidade e vulnerabilidade e faz com que a criança se sinta obrigada a cuidar dos nossos sentimentos. Então, nestes casos, podemos sim dizer que não gostamos que ela bata ou chame nomes, precisamos de acolher o sentimento que está por trás desse comportamento, mostrar que aceitamos a zanga ou a frustração que a levou a fazer isso mas que não gostamos que se porte assim e dar-lhe algumas alternativas mais aceitáveis, isto sobretudo nas crianças mais pequenas. Mas é diferente dizer simplesmente que não gostamos ou mostrar que nos sentimos vulneráveis ou fragilizados por aquele comportamento. E essa diferença pode ser enorme na forma como a criança vai processar a situação. Porque de facto uma criança não tem de se preocupar com os sentimentos dos pais. Isto pode parecer estranho, claro que queremos que eles nos queiram agradar e que a nossa opinião importe mas isso é muito diferente de lhes dar noção de que têm tanto poder sobre nós que conseguem deixar-nos tristes e frágeis. Porque as crianças precisam de acreditar que os pais são uma espécie de super-heróis capazes de aceitar e acolher todas as suas emoções sem se irem abaixo por causa delas. 

Isto é ainda mais importante no caso das crianças mais sensíveis ou reactivas, que têm ainda mais tendência para se colocarem muito rapidamente nesse papel de cuidadores em que nunca queremos que estejam connosco.
Porque isso lhes traz toda a ansiedade de estarem num papel que não é o seu e onde nunca poderão ser bem sucedidos. E toda a ansiedade de precisarem de se colocar num papel em que o seu instinto lhes diz que nunca deveriam estar.

Então,  quando temos dificuldade em lidar com esta noção de hierarquia, pode significar que temos dificuldade em nos colocar no papel de adultos com os nossos filhos. Talvez porque tenhamos medo de os ferir ou magoar. Mas nada magoa mais do que sentirem que ninguém está no leme da relação, que ninguém conduz essa dança em que também é suposto eles dançarem.

E estar no leme da relação significa que precisamos de antecipar as necessidades dos nossos filhos antes mesmo deles terem noção delas. Isto é válido sobretudo para coisas como o sono ou a comida, que têm um peso grande no dia-a-dia e um impacto na relação e nas emoções. Não podemos esperar que filhos pequenos nos digam que estão cansados quando precisam de ir dormir, não devemos dar-lhes o controlo das refeições todas e esperar que sejam eles a tomar a iniciativa sempre que têm fome. Porque isso os coloca no papel de cuidadores e não de dependentes onde é suposto estarem.

Também não ajuda muito quando lhes perguntamos constantemente porque choram, ou o que é que têm e quando mostramos que não percebemos nada do que se passa com eles, sobretudo com os mais pequenos. Porque quando estamos no papel de cuidadores é suposto que tenhamos algum conhecimento sobre quem estamos a cuidar. É suposto também que os pais saibam mais que os filhos sobre as emoções e sobre o que se passa com eles. Temos de ser nós a ajudá-los a dar nome ao que sentem, porque para eles é tudo novo e não o vão descobrir sem a nossa ajuda.

Temos de encontrar o nosso adulto cuidador e, quando estamos no papel de adulto cuidador, somos nós que temos as respostas, não as procuramos nos outros, muito menos naqueles de quem estamos a cuidar. E é importante que passemos para os nossos filhos essa imagem de que sabemos exactamente para onde vamos, mesmo que nem sempre tenhamos certezas disto.

No papel de adulto cuidador também somos capazes de sentir que temos tudo aquilo de que aquela pessoa precisa. Temos tudo o que os nossos filhos precisam para crescer felizes e seguros. Mas se ficamos no papel de criança ferida, é muito mais fácil sentir que não somos suficientes, que não somos capazes, que precisamos de ajuda. E, se transmitimos isso aos nossos filhos eles vão sentir-se inseguros naturalmente e isso também fará com que tenham muito menos vontade de nos obedecer porque como é que podemos seguir alguém que parece não saber o caminho?

E esta questão da obediência que tantas vezes é quase um vilão e algo que não devemos querer também é importante nesta dança entre cuidadores e dependentes. Porque uma criança obedece naturalmente a alguém a quem confia e a quem se sente ligada. Por isso a obediência também é uma medida da qualidade da nossa ligação com os filhos, sim. Claro que haverá crianças com mais tendência para desobedecer e fases da vida delas em que isso também estará mais presente e claro que é saudável que as crianças nos provoquem, desafiem e desobedeçam em certa medida. Mas, a verdade é que a obediência também tem a sua importância. Sim, é preciso que os nossos filhos pensem por eles, sim queremos adultos capazes de questionar e tomar posições mas, também queremos adultos que confiem e que se importem. E obedecer aos pais também é sinal de que se importam com o que os pais pensam. E se se importam significa que a ligação ainda existe.

Só deixamos de nos preocupar com o que os outros pensam quando já não estamos ligados a eles. 

A questão do locus de controlo externo, que acontece nas pessoas que precisam de uma aprovação constante dos outros e vivem em função desse reconhecimento não surge porque elogiámos demais os nossos filhos ou porque os fizemos obedecer em excesso. Isto é uma visão demasiado simplista. Essa busca permanente de reconhecimento acontece quando não tivemos o suficiente na nossa infância, quando não fomos protegidos, quando não nos sentimos seguros, acolhidos e aceites. Aí precisámos justamente de sair desse papel de dependentes e passar mais para o de cuidadores.

Todos os filhos querem agradar aos pais e isso é bom e natural. Sempre foi assim e é bom que continue a ser. Porque essa é também a receita para vivermos em sociedade e para construirmos relações seguras. Claro que é essencial que eles sintam que não precisam de agradar para que continuemos a gostar deles. Mas sabermos que alguém nos ama incondicionalmente ainda nos dá mais vontade de agradar a essa pessoa, ao mesmo tempo que, naturalmente não nos impede de ser quem somos. Mas isto é justamente o que transmitimos muito mais facilmente quando estamos no papel de adultos.

Porque é gostaríamos de estar casados com alguém que não gostasse de nos agradar? que se estivesse nas tintas para o que nos faz felizes?

E, na verdade, as relações de casal não são assim tão diferentes das de pais e filhos. Hoje a ouvir um podcast em que se falava de relacionamentos surgiu a pergunta: porque é precisamos sempre de ter esse sentimento de posse em relação ao outro?

E a resposta é que esse sentimento de posse surge justamente quando a nossa criança ferida sente que precisa da outra pessoa mas não sabe se pode confiar realmente nela. Entre dois adultos que sabem cuidar e ser cuidados esse sentimento de posso dá apenas lugar ao sentimento de que existe algo especial entre os dois que precisa de ser cuidado, protegido. E esse algo especial é uma relação de apego que é a forma natural de nos deixarmos cuidar e ser cuidados. Esse apego de que precisamos na infância para sobreviver e para nos desenvolvermos continua a ser essencial na idade adulta para podermos sentir-nos felizes e desenvolver relações seguras.

Então é importante perguntarmos-nos sempre se estamos a educar a partir do nosso adulto ou a partir da criança ferida. Porque os nossos filhos precisam mesmo do adulto, uma criança não é uma base segura para outra criança. E só nesse papel de adulto é que podemos preencher todas as necessidades para que as crianças que eles são hoje possam realmente crescer e amadurecer e não apenas envelhecer.