sexta-feira, 14 de julho de 2017

Dormir como um bebé

Quando temos um bebé uma das primeiras perguntas que ouvimos é se dorme bem e entre pais recentes este é também um dos temas de conversa mais frequentes. E, quando temos um bebé que acorda muitas vezes, a tendência é para acreditarmos que haverá algo de errado, principalmente quando já tem alguns meses e esse padrão se mantém. E esta é também uma das causas mais frequentes para os pais de bebés pequenos procurarem ajuda. 
Então há várias coisas que precisamos de considerar quando falamos do sono dos bebés. 
A primeira é que é importante saber que é muito natural que um bebé de meses acorde várias vezes por noite e é perfeitamente natural que as crianças comecem a ser capazes de dormir uma noite inteira seguida apenas por volta dos dois ou três anos de idade. Ao contrário do que muitas vezes se sugere é isso que quer dizer na realidade dormir como um bebé: acordar algumas vezes de noite. É verdade que existem bebés que dormem várias horas seguidas desde os primeiros meses e que conseguem passar uma noite inteira sem acordar antes de fazerem um ano mas, na verdade, as estatísticas indicam que estes não passam de pequena minoria e que cerca de 86% dos bebés com menos de ano acordam algumas vezes por noite.

Porque é que isto acontece? 

Nos primeiros meses o bebé acorda porque precisa mesmo de mamar e é fundamental que o faça não só para se alimentar porque ainda é muito pequeno para passar várias horas sem alimento e, se isto acontecer, pode dar origem a uma perigosa baixa de açúcar no sangue, mas também porque a própria mãe precisa desse estímulo para regular a sua produção de leite. É nas mamadas da noite que a mãe segrega mais prolactina, uma hormona que influencia a produção de leite, por isso estas são muito importantes nos primeiros tempos para manter a produção de leite. Quando alguém sugere que se dê um biberão ao bebé durante a noite para que a mãe possa descansar e dormir toda a noite seguida, por muita boa que seja a intenção, a verdade é que isto pode prejudicar a produção dessa hormona e por em causa a quantidade de leite que a mãe produz.

Mas, a partir dos 4, 5 meses de idade, o organismo do bebé começa a ser capaz de passar mais horas sem alimento, sem correr o risco de entrar em hipoglicemia. Acontece que os bebés têm um padrão de sono diferente do dos adultos: os seus ciclos de sono são mais curtos que os nossos e, sabendo que é mais fácil despertarmos quando estamos na fase de transição para um ciclo de sono diferente, significa que os bebés têm mais probabilidades de que isto aconteça mais vezes. 

James McKenna um investigador dedicado a estudar e compreender o sono dos bebés acredita que esta tendência que os bebés têm para despertar mais facilmente funciona como uma protecção contra o síndroma da morte súbita. Quando os bebés entram em sono profundo ficam mais vulneráveis a paragens respiratórias que podem acontecer devido à imaturidade do seu sistema respiratório. Segundo este autor dormir junto da mãe também pode ser uma protecção contra a morte súbita precisamente porque ajuda a regularizar a respiração. 

Por outro lado os bebés mais pequenos também ainda não regularizaram a sua produção de cortisol. Esta é uma hormona que, entre outras funções importantes, ajuda a regular os nossos ciclos de sono. Nos adultos (quando tudo funciona como deveria) os níveis de cortisol atingem a sua quantidade mínima quando nos encontramos em sono profundo e ficam no seu máximo, de manhã, mesmo antes de estarmos prontos para despertar. Nos bebés isto ainda não acontece e esta hormona flutua em quantidades mais irregulares e algumas investigações demonstram que um padrão mais definido nos ritmos de cortisol só começa a surgir por volta dos 9 meses. Isto quer dizer que é perfeitamente natural que um bebé fique completamente desperto e pronto para brincar a meio da noite, para grande  angústia dos pais. Por outro lado também sabemos que, nas crianças tal como nos adultos, a produção de cortisol é alterada pelo stress que faz com que esta hormona seja segregada em maiores quantidades, o que significa que uma criança agitada ou ansiosa por algum motivo (tal como um adulto) também terá probabilidades de ter um padrão de sono alterado. 

O que podemos fazer? 

A verdade é que existem algumas coisas que podemos fazer para ajudar um bebé a dormir melhor mas não há nada que possamos fazer para o ensinar a dormir. Tal como não se ensina a comer, a fazer xixi ou cocó também não se pode ensinar a dormir ao contrário do que tanta gente diz. 

Para ajudar um bebé a dormir é importante ter em conta que o cortisol, que regula o sono, também tem um papel importante na resposta de stress. Então, tudo o que contribua para deixar o bebé agitado irá aumentar a produção de cortisol o que, por sua vez, irá dificultar o sono. Por isso é importante que o final do dia seja o mais tranquilo possível para que o bebé possa começar a acalmar. Sabe-se que as crianças pequenas que passam demasiadas horas na creche começam a aumentar os seus níveis de cortisol em vez destes diminuírem, como seria natural, ao final do dia. 
Por outro lado, tudo o que sejam luzes fortes ou barulhos demasiados altos ou estimulantes também irão afectar a produção de melatonina, outra hormona que tem um papel fundamental no sono. Em particular as luzes de ecrãs de televisão, computadores ou telemóveis, parecem enganar o cérebro levando-o a acreditar que ainda é dia e alterar a sua produção de melatonina dificultando o sono. 

Então na verdade o que podemos fazer é compreender que existe um determinado tipo de ambiente que facilita o sono mas não podemos fazer muito mais se não criá-lo, o melhor possível.

Um aspecto fundamental para qualquer pessoa adormecer é a segurança, então é muito importante que o bebé se sinta seguro para conseguir dormir e não há lugar em  que um bebé ou criança pequena se sinta mais seguro que o colo da mãe ou do pai. 

Com os bebés mais pequenos o movimento rítmico, como o que fazemos ao embalar, também ajudar muito a adormecer porque estimula zonas no cérebro que facilitam uma resposta de relaxamento por parte do bebé. 

Mas, na verdade, em vez de nos preocuparmos tanto com tudo o que podemos fazer para levar o bebé a dormir mais e melhor precisamos mesmo é que compreender como é que nós, mães e pais, podemos descansar quando temos um bebé que acorda com frequência de noite. 

Quase sempre o foco está no bebé e naquilo que é preciso fazer para o mudar quando na verdade o foco deveria estar também na mãe e no pai e na forma como podem adaptar-se a essa nova realidade de ter um bebé que acorda com frequência. É preciso que aprendamos a confiar nos nossos filhos e que saibamos que os acordares nocturnos são normais e naturais. O que não é natural é termos um bebé de meses e precisarmos de nos levantar cedo no dia seguinte para passar o dia todo no trabalho. O ritmo das nossas vidas é que não tem nada de natural mas os bebés ainda não percebem nada de horários nem de trabalho nem deste ritmo tão pouco natural que vivemos hoje por isso o seu sono mantém-se como sempre foi desde há séculos quando tudo era feito de maneira diferente.

Então precisamos de perguntar o que é que podemos fazer para ajudar os pais a descansar mais quando têm um bebé que acorda muito de noite e não o que é podemos fazer para conseguir que o bebé durma a noite toda. Precisamos de mudar o foco e compreender que o problema não está no bebé mas na forma como organizamos a vida e nas pressões que criamos à volta dos pais e mães recentes.

Sabemos que quando o cérebro está em grande transformação, durante os dois primeiros anos de vida, tudo o que fazemos tem muito mais impacto. E sabemos hoje em dia também que é importante que os pais sejam capazes e estejam disponíveis para responder às necessidades dos filhos se querem criar com eles um tipo de apego seguro, que por sua vez, é fundamental para que a criança possa crescer feliz e confiante. Então em vez de perdermos tanto tempo a tentar mudar os bebés precisamos de perceber o que podemos mudar em nós para viver melhor com um bebé que acorda muito. 

Uma das coisas que ajuda a descansar, ao contrário do que tantas vezes se pensa, é a amamentação. Primeiro porque é muito mais fácil dar mama do que andar a fazer biberões a meio da noite, depois porque o leite da mama tem substâncias que ajudam a induzir o sono e por um bebé na mama é uma das formas mais fáceis de o adormecer, quase sempre. Além disso a amamentação também promove na mãe a libertação de hormonas que ajudam a relaxar e dormir mais facilmente.
Outra coisa que pode ajudar muito é partilhar a cama com o bebé.  Em alguns casos os bebés passam mesmo a dormir melhor quando dormem junto dos pais mas, mesmo que isso não aconteça, os pais também podem descansar melhor quando têm o bebé na cama. O que é importante para não alterar muito a produção de melatonina e de cortisol, tanto no bebé como na mãe, é que haja o menor número de estímulos possível durante os despertares. Para isso é importante não acender luzes e fazer o menor número de movimentos possível. Se a  mãe ou o pai precisam de sair da cama para tirar o bebé do berço ou, pior ainda, se precisam de ir para outro quarto, já vão ficar muito mais despertos e poderão ter mais dificuldade para voltar a adormecer ou, mesmo que adormeçam rapidamente outra vez, irão demorar mais tempo para voltar a entrar num sono mais profundo. Dormir junto da mãe ou do pai também ajuda o bebé a não precisar de ficar muito desperto porque os pais estão logo ali e podem acordar assim que este começa a movimentar-se mais por isso ele não chega a ter de chorar para chamar a atenção e será também mais fácil que volte a adormecer. Na verdade muitas mãe que dormem com os filhos contam que há uma espécie de sintonia entre ambos e que a mãe acorda muitas vezes uns segundos antes do filho, como se os seus ciclos de sono, estivessem completamente sintonizados. A amamentação também facilita muito este processo porque é mais fácil o bebé adormecer na mama e a esta também permite à mãe segregar hormonas que também a ajudam a estar mais relaxada e a ser capaz de dormir melhor.

Por outro lado uma mãe que possa ficar em casa com o filho também tem possibilidade de aproveitar para dormir um bocadinho quando o bebé dorme de dia ou poderá não precisar de se levantar tão cedo de manhã. É muito bom que as mulheres hoje em dia tenham a possibilidade de seguir uma carreira e claro que esta tem um papel importante para muitas mães mas, a verdade, é que não é natural que um bebé pequeno tenha de passar o dia inteiro longe da mãe assim como também não é natural que uma mãe de um bebé pequeno tenha de passar o dia inteiro a trabalhar. Então aquilo que está errado não é o facto dos bebés acordarem muito de noite, o que está errado é que a mãe não possa ficar em casa para aproveitar as sestas diurnas do bebé para dormir também um pouco. Assim como também não é natural que as mães vivam tão isoladas como acontece hoje em dia, sem ninguém que possa ficar uns minutos com o bebé para a mãe descansar se for preciso.

O que está errado não é o sono dos bebés que acordam muito mas sim a forma como a sociedade lida com isso que está ligada à forma como vemos os bebés e as mães. Precisamos de entender que os bebés precisam de estar a maior parte do tempo com a mãe, pelo menos durante o seu primeiro ano de vida e precisamos de entender que a mãe também precisa de estar com o bebé durante a maior parte do tempo. E negarmos isto é negar a natureza dos bebés mas também a das mães. Uma mãe também não está preparada para estar todo o dia longe do seu bebé durante os primeiros meses da vida deste, não sem sofrimento ou ansiedade.

Então o mais importante quando falamos de sono, assim como em tantas outras coisas, é aprendermos a confiar nos bebés e não termos medo de lhes dar o que precisam. Tantos pais e mães constatam que os filhos adormecem melhor no colo, na mama ou nas suas camas mas ficam com medo de lhes dar esse conforto. Acredito que caminhamos cada vez mais para uma mudança de paradigma no que toca à visão sobre o desenvolvimento infantil: se antes a grande preocupação era com a independência que a criança precisava de atingir, agora começamos a perceber que é preciso facilitar a dependência. Porque é natural que um bebé ou criança sejam dependentes e é importante que essa dependência seja aceite e acarinhada e até encorajada em muitos aspectos. Só assim é que podemos dar origem a adulto verdadeiramente autónomo. Prefiro dizer autónomo e não independente, porque a verdade é que todos somos dependentes uns dos outros e aquilo que a ciência cada vez mais descobre é que é fundamental que sejamos capazes de reconhecer essa interdependência para nos sentirmos parte de um todo e podermos ser verdadeiramente felizes. A sensação de isolamento está ligada à tristeza e a capacidade de nos sentirmos parte de um todo é importante para sermos capazes de dar um significado à nossa vida. Então precisamos de não ter medo de alimentar nos nossos filhos uma dependência saudável que lhes permita confiar e acreditar nos outros. Quando temos consciência que somos apenas uma parte de um todo e quando somos capazes de nos ligar a todos os que nos rodeiam e ao mundo à nossa volta sem medo de ser magoados ou de sofrer aumentamos muito as nossas probabilidades de estar bem e de sermos felizes.