terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Celebrar a conexão - honrar a abelha que existe em nós

Acredito que estamos a viver o início de uma mudança de paradigma em relação à forma como encaramos o ser humano e nosso papel no mundo. Cada vez surgem mais autores e investigadores que defendem que precisamos de reconhecer algo que é inerente à nossa humanidade e fundamental para a nossa sobrevivência enquanto pessoas e enquanto espécie: a nossa interligação e a conexão que existe entre todos. Quando falo nisto gosto muito de usar uma expressão de Jonathan Haidt, um investigador da área da Psicologia Moral, que diz que o homem é parte macaco e parte abelha, para ilustrar o facto de que sem essa capacidade de cooperarmos entre nós e de colaborarmos uns com os outros, nada existiria neste mundo. Basta pensarmos que, apesar de nem sempre o reconhecermos, as nossas sociedades só funcionam com base nessa interligação e nessa interdependência que existe entre todos: precisamos de alguém  que traga a comida até nós, por exemplo, já que a grande maioria de nós não a planta (e mesmo que plantasse ainda precisaria de outras coisas, como material para o fazer, por exemplo), precisamos de quem nos construa as casas, de quem fabrique as nossas roupas e até de quem tome conta dos nossos filhos. Todas as sociedades humanas, quer funcionem melhor ou pior, quer sejam grandes ou pequenas, funcionam com base neste princípio: nenhum ser humano é totalmente independente

Uma definição de mente 

Outro autor que fala bastante nestas questões é Daniel Siegel, psiquiatra e investigador na área do apego e das neurociências que criou uma definição da mente de que também gosto muito e que reflecte esta preocupação com esta conexão ou interligação. Siegel que é também o fundador da área da neurobiologia interpessoal, define a mente como sendo "um processo incorporado e relacional que regula o fluir da energia e da informação". Esta definição salienta, primeiro, o facto de que a mente não se encontra apenas no cérebro mas está por todo o corpo (e até fora dele) e depois o facto de que esta se vai construindo sempre em relação: os nossos relacionamentos mais importantes, sobretudo nos primeiros anos de vida, ajudam a moldar e a esculpir a mente mas, a verdade é que todos os relacionamentos vão influenciando e construindo os nossos processos mentais e o próprio cérebro mas também todo o nosso corpo é influenciado por esse processo. Sempre que estamos a relacionar-nos com alguém os nossos processos mentais influenciam os da outra pessoa e vice-versa. 

Conexão nos bebés

Já se sabe que durante os primeiros anos de vida, sobretudo nos primeiros dois, o cérebro tem muita neuroplasticidade: a capacidade de se moldar ao ambiente e de criar ou perder ligações em função das experiências que vai tendo. Mas sabe-se que esta neuroplasticidade se mantém ao longo de toda a nossa vida e por isso tudo o que vivenciamos e experienciamos acaba por influenciar a nossa mente e o nosso cérebro. E uma das principais influências para todos nós são o tipo de relacionamentos que temos com os outros. Louis Cozzolino, também neurocientista, afirma que, na infância as outras pessoas são o nosso ambiente primário, ou seja, são elas que vão influenciar toda a forma com o nosso cérebro e o nosso sistema nervoso se irão estruturar e funcionar. 
Mas mesmo na idade adulta os relacionamentos continuam a ser tão fundamentais que o facto de nos sentirmos sozinhos ou isolados ao longo da vida aumenta em 50% as probabilidades de sofrermos um ataque cardíaco, dando literalmente razão à expressão de coração partido.

Não existe criatura onde esta interligação seja mais vísível do que nos bebés humanos. Já dizia Winnicot, um pediatra e psicanalista, cujos trabalhos são clássicos do desenvolvimento infantil, que não existe tal coisa como um bebé sozinho. Isto quer dizer que um bebé só pode ser compreendido em relação e existem também autores contemporâneos, como Alan Schore e Ed. Tronick, que salientam a forma como o bebé e a mãe formam uma díade que está em permanente interacção e comunicação, de tal forma que os estados internos de um vão moldando os estados do outro. 

Conexão entre médicos e doentes 

Dan Siegel é psiquiatra e conta que chegou mesmo a desistir, durante algum tempo, do curso de medicina porque via que os professores eram incapazes de honrar esta conexão e não percebiam sequer o impacto que a forma como tratavam os doentes podia ter. Siegel dizia que, sempre que lhes falava dos aspectos emocionais da pessoa, eles respondiam que não valia a pena preocuparem-se com isso porque não era isso que iria fazer diferença na sua capacidade de ajudar a pessoa a tratar a doença. Mas existem cada vez mais provas de que esta visão não poderia estar mais longe da verdade. Na verdade existem até estudos que demonstram que o mesmo medicamento receitado por dois médicos diferentes pode ter um efeito diferente, dependendo da confiança que a pessoa tenha no médico. Outro autor, Norman Cousins, que publicou um livro sobre estas questões já em 1989, chamado Head First, conta um episódio que aconteceu num hospital onde trabalhou durante algum tempo, em que havia um médico bastante carismático e capaz de gerar muito respeito por parte dos doentes. Um dia esse médico estava a fazer a ronda com os alunos, porque era um hospital universitário, e foram ao quarto de uma senhora que tinha sido internada com um problema ligeiro de coração no dia anterior. Viram a senhora e trocaram algumas opiniões mas acabaram por não lhe explicar nada sobre a sua doença e saíram do quarto tendo ficado à porta deste a trocar algumas opiniões sobre os doentes. Ao que parece estiveram algum tempo à porta do quarto da senhora, a falar de uma outra doente que também tinha problemas cardíacos muito mais graves e esse tal médico, a certa altura, terá dito que ela já não tinha hipótese e que era apenas uma questão de horas. A senhora ao ouvir isto terá pensado que estavam a falar de si e, no dia seguinte, morreu mesmo de um problema que, na verdade, tinha muito poucas probabilidades de causar uma morte tão rápida.  Esta é uma história um pouco extrema mas mostra bem o impacto que as nossas crenças e a forma como nos relacionamos com os outros podem ter. É pena que existam ainda tantos médicos que não percebem que precisam de tratar o ser humano por inteiro e não apenas os seus sintomas e que a emoção e toda a relação que constroem com os doentes podem ter um papel tão importante ou até mais importante na cura do que os próprios medicamentos. Infelizmente, pelo menos em portugal, temos um sistema que facilita que as emoções sejam deixadas de lado quando selecciona para os cursos de medicina jovens cuja prioridade durante o ensino secundário terá de ser manter uma capacidade de estudo altamente focada e racional, numa altura em que existem tantas outras descobertas importantes a fazer. 

Acredito que isso contribui também, em parte, para o facto de termos uma classe médica tão fechada a estas evidências e tão voltada para as questões da independência, no que toca ao desenvolvimento infantil, quando o que nos deve preocupar acima de tudo é mesmo a conexão. Ainda ontem alguém comentava comigo que levara o filho de cinco meses a uma consulta de pediatria em que a médica tinha achado que a sua musculatura do tronco estava pouco desenvolvida para a idade. Claro que o primeiro culpado foi logo o excesso de colo e o remédio apontado passava por deixar de atender aos seus sinais e não lhe fazer a vontade sempre que ele demonstrava que queria que lhe pegassem. 

Não podia concordar menos com isto quando todas as investigações mostram que a base uma boa vinculação entre mãe e filho é justamente a prontidão para responder aos seus sinais e para satisfazer as suas necessidades. Nesta idade mãe e filho estão ainda a criar um sistema de comunicação em que é mesmo importante que a mãe esteja disponível para responder aos sinais do filho, para que este possa moldar o seu cérebro no sentido de saber que vale a pena comunicar e que vale a pena estabelecer relações íntimas e de confiança.

Mais conexão é sempre a solução

A verdadeira independência não existe, é um mito, e alguém que diga que não precisa de ninguém só pode ter sido profundamente magoado para deixar de acreditar que vale a pena ligar-se aos outros. Aquilo que queremos é que os nossos filhos sejam autónomos, sim, no sentido de descobrirem a sua própria pessoa e de seguirem o seu próprio caminho mas essa autonomia só faz sentido dentro de reconhecimento dessa conexão, que tem de ser honrada, respeitada e até celebrada

Então não existe colo a mais nem para um bebé de cinco meses nem em nenhuma  outra idade. Todos os problemas de comportamento das crianças e até dos adultos vêm da falta de conexão. Isto é bem exemplificado na questão das dependências de que fala Gabor Maté, que por acaso, foi o tema do primeiro artigo deste blog: criamos dependências de algo, quer sejam comportamentos ou substâncias, porque não aprendemos a encontrar formas de nos sentirmos ligados aos outros de maneira satisfatória e segura. Por isso precisamos de preencher esse vazio e de encontrar algo que nos dê, mesmo que temporariamente, o tal sentimento de pertença que nos falta. 

Um dos autores que mais admiro e que construiu todo um modelo de desenvolvimento com base neste princípio de conexão é Gordon Neufeld. Este autor explica que a resposta para todos os problemas de comportamento ou de ansiedade nas crianças é sempre mais apego, nunca menos, mais apego, tem sempre de ser a resposta. Porque é nesse apego que encontramos a solução. Então quando as mães, por vezes, me dizem que as outras pessoas as criticam porque os filhos são muito apegados a elas, respondo sempre que isto não poderia ser mais errado: não existe apego em excesso, porque simplesmente não existe amor em excesso, tal como não existe conexão em excesso. 

Neufeld explica que temos de honrar a dependência que a criança tem de nós, que é saudável e desejável e que temos de lhe permitir que descanse no nosso amor. Isto quer dizer que a criança tem que sentir sempre essa conexão e para isso temos de encontrar formas de estar verdadeiramente presentes e de reconhecer e honrar a dependência. Porque é esse o verdadeiro caminho para a autonomia e essa autonomia só pode acontecer se vier de dentro, de forma livre e espontânea. Ninguém pode forçar ninguém a querer ser a sua própria pessoa, a querer seguir o seu caminho, se for à força então já não é autónomo. E, para que a vontade de ser autónomo possa surgir a criança tem que estar completamente segura dessa conexão e completamente segura da nossa capacidade de cuidar dela e da nossa disponibilidade para estarmos presentes, com ela. Porque se a criança não estiver completamente segura desse apego, dessa conexão, das duas uma: ou ela desiste de vez e fecha-se quando a dor de não se sentir segura é demasiado grande para suportar, ou ela fica num modo de busca constante, em que precisa repetidamente de provas desse amor, de que essa ligação existe. 

E quando a criança está nesse modo de busca ela não pode descansar, não consegue desactivar o seu sistema nervoso simpático que mantém um estado de alerta constante e cria muita ansiedade, ao mesmo tempo que limita o seu crescimento e impede um desenvolvimento saudável. Então a única forma de desactivar o simpático é dar essa segurança à criança, respeitando que ela precisa de nós e encontrando sempre formas de lhe dar do que aquilo que ela pede, no fundamental e no essencial. Claro que isto não significa que temos que lhes dar chocolate e televisão a toda a hora, antes pelo contrário até, porque também é importante que os nossos filho saibam e sintam que estamos no controlo e que somos capazes e competentes de os orientar e de cuidar deles. Para isso torna-se essencial distinguir as necessidades reais de ligação, de dependência, de conexão daquelas que são mais supérfluas como ter uma nova caixa de legos, por exemplo. 

As crianças precisam de um depósito sempre atestado com o nosso amor, com a nossa presença, a nossa disponibilidade. Porque só assim podem ter energia suficiente para crescerem em direcção a uma autonomia real. 

Então, como diz Neufeld, a resposta para tudo é sempre mais apego, nuca menos, sempre mais apego. E para que esse apego se mantenha temos de estar disponíveis. 

Na verdade até nas relações de casal o apego é importante. A forma como nos relacionamos com o nosso companheiro/a tem tudo a ver com os modelos que interiorizámos na nossa infância. E existem também já terapeutas de casal, como Sue Jonhson,  que trabalham essas relações, com muito sucesso, com base nessa ideia de interdependência entre o casal. Porque um casal feliz e saudável é um casal que honra e reconhece essa dependência, sem perder a sua autonomia. Um casal feliz é um casal em que cada um dos membros sabe ser a sua própria pessoa, não se perde na identidade de casal mas, ao mesmo tempo sabe cuidar do outro e sabe também ser cuidado quando precisa. Num casal feliz e saudável deve existir essa alternância em que um cuida e o outro é cuidado, à medida que cada um vai precisando. E Neufeld diz que, assim como nunca ficaríamos casados com alguém que nos dissesse eu não vou fazer por ti nada que tu não possas fazer sozinho, também os nossos filhos não podem confiar em nós se não estivermos dispostos a fazer coisas por eles. 

Ele dá o exemplo de um estudo em que dividiram os pais em dois grupos: um em que, desde que os filhos começavam a andar se recusavam a dar-lhes colo e outro em que ofereciam sempre colo e diziam que gostavam de dar colo aos filhos mesmo quando estes não pediam. Nos resultados verificou-se que os que queriam sempre dar colo tinham filhos que, na verdade, andavam muito mais a pé do que os outros. 

Então precisamos de não ter medo de nos ligar aos nossos filhos, não ter medo de lhes mostrar que podem mesmo confiar em nós e não ter medo de confiar neles
. Não ter medo de acreditar que, se lhes dermos tudo que eles precisam, se lhes permitirmos mesmo que descansem no nosso amor, a natureza fará o seu trabalho e eles crescerão como seres humanos felizes, saudáveis e autónomos, de verdade. Com a autonomia de se saberem parte de um todo e com a segurança de serem capazes de honrar sempre essa parte que, na verdade, é a mais bonita que todos temos, é a que nos torna verdadeiramente pessoas e que nos permite manter a capacidade de amar, de viver e de sermos verdadeiramente felizes. A parte que nos permite lembrar sempre que somos parte de um todo, que é a mesma que está ligada aos comportamentos mais altruístas e empáticos e que nos permite construir relações verdadeiramente harmoniosas com as pessoas mas até com os animais e com a natureza à nossa volta.

É com vontade de relembrar e de celebrar esta conexão que escrevo todos os textos desse blog e foi com vontade de criar uma espécie de mapa que nos permita fazer uma viagem ao nosso interior, em busca de mais conexão e também ao interior dos nossos filhos, para nos ligarmos cada vez mais a eles, que escrevi o meu segundo livro: Mindfulness para Pais e Filhos que irá ser publicado em breve pela Manuscrito.