quarta-feira, 21 de maio de 2014

Bebés Interactivos

Quando o meu filho nasceu, algumas pessoas bem intencionadas avisaram-me de que ele iria pegar em tudo o que eu fizesse para perceber aquilo que resultava para chamar a minha atenção e aprenderia rapidamente as estratégias que resultavam para me levar a fazer o que ele queria. Estes quereres geralmente eram encarados como vontades não essenciais que não deveriam ser imediatamente satisfeitas sob pena de se gerar uma espécie de tirano que ficaria a acreditar que tem direito a colo sempre que lhe apeteça ou que o direito de mamar sempre que tem vontade, mesmo que ainda não tenham passado três horas da última mamada, ou o direito de só querer adormecer no colo ou na cama dos pais. E a tudo isto essas pessoas - que, na melhor das intenções, queriam apenas dar-me conselhos que tornassem a minha vida mais fácil e que, ao mesmo tempo, também me ajudassem a educar o meu filho de uma forma supostamente sensata – chamam normalmente as manhas que os bebés aprendem. E, a estas pessoas eu respondi algumas vezes que os bebés não têm manhas simplesmente porque não têm capacidade de perceber que as suas acções influenciam os outros ao ponto de os manipularem conscientemente porque um bebé não tem realmente a capacidade perceber de uma forma concreta que, se exibir o comportamento X os pais terão a reacção Y.
É verdade, sim, que os bebés não têm manhas, têm apenas necessidades mas, também é verdade que, a necessidade de estabelecerem uma ligação é tão forte como a própria necessidade de comer ou dormir e que, por isso mesmo, os bebés usam todos os recursos e estratégias ao seu alcance para tentarem estabelecê-la. 

Então, na realidade, estas pessoas que dizem que um bebé que está habituado a ser pegado ao colo sempre que chora ou a mamar sempre, têm alguma razão quando dizem que este se pode tornar um bebé mais exigente. Esta exigência não tem nada a ver com manipulações nem com choros despropositados ou com faltas de educação. Esta exigência vem simplesmente do facto de que, um bebé que está habituado a ver as suas necessidades respeitadas e respondidas é um bebé que sabe que as suas acções contam, é um bebé que aprende que tem algum poder no mundo, é um bebé que ganha confiança não só naquilo que o seu corpo lhe diz – quando este lhe mostra que algo não está bem – mas também na sua capacidade de alterar aquilo que precisa de ser mudado. Então, se este bebé está habituado a que respondam quando se manifesta é natural que tenha alguma tendência para se manifestar mais vezes. Isto não quer dizer que se torna um bebé que chora com mais frequência. A tendência é para que aconteça justamente o contrário provavelmente por duas razões: primeiro porque a mãe que está habituada a responder mais ao bebé cria uma ligação com este que lhe permite estar mais atenta e consciente das suas necessidades mesmo antes dele chorar e, por outro lado, porque o próprio bebé, ao crescer num ambiente em que sente que as suas necessidades são preenchidas e respeitadas, acabar por se tornar um bebé mais tranquilo e mais capaz de lidar com algum stress que, de vez em quando, possa surgir. 
Os bebés nascem prontos para estabelecer ligações e precisam dessas ligações para se desenvolverem de forma saudável. O trabalho de Ed Tronick mostra como são importantes essas ligações para os bebés e a forma como estas podem alterar a sua percepção do mundo. Este autor e investigador criou uma experiência clássica que já foi aplicada a bebés e crianças um mês de idade até aos 4 anos. Nesta experiência a mãe interage normalmente com o bebé, frente a frente, durante alguns minutos, para depois ficar durante algum tempo com uma cara neutra, ou seja, deixa de responder ao bebé e de reagir aos seus estímulos ficando apenas a olhar para ele com uma expressão neutra. Em apenas dois minutos nestas experiências, as crianças de todas as idades começam por tentar usar todas as suas estratégias para fazer a mãe reagir e, quando não conseguem fazê-lo, entram num estado de desespero e de ansiedade claramente visíveis. (Ver aqui vídeo da experiência)
Ao fim destes dois minutos em que a mãe mantém a expressão neutra, os investigadores pedem-lhe que volte a interagir com o bebé normalmente e, o que se observa é que, os bebés levam ainda algum tempo a recuperarem totalmente do stress causado pela interacção e voltarem a interagir de forma tão livre como a que se podia observar na primeira parte da experiência.
Esta experiência mostra como o facto do bebé se sentir ignorado pela mãe, mesmo num curto espaço de tempo, provoca uma perturbação tão grande no seu comportamento e até alguns danos nas interacções posteriores. 

O Modelo de Regulação Mútua

Com base nestas e noutras investigações, este autor criou aquilo a que chamou o MRM (Mutual Regulation Model ou Modelo de Regulação Mútua) segundo o qual o bebé e a mãe formam uma consciência diádica em que cada um responde e reage aos estímulos do outro. Neste modelo os bebés não são encarados como seres totalmente passivos que estão apenas à mercê da forma como as mães interagem com eles, embora seja o comportamento da mãe que tem de facto o maior peso na interacção. Mas, neste modelo o bebé também tem um papel activo na procura deste estado de ligação com a mãe e usa todas as suas estratégias para o conseguir. Para Ed Tronick a ligação entre a mãe e o bebé é feita daquilo a que chama matches and mismatches – encaixes e desencaixes. Este autor vê a comunicação entre a mãe e o bebé como uma série de pequenos episódios em que ambos procuram estar em sintonia um com o outro mas em que nem sempre isso acontece. Nas observações de Tronick nas relações que eram classificadas como de apego seguro, a mãe e o bebé estavam em sintonia aproximadamente metade do tempo em que interagiam. Isto quer dizer que há sempre períodos de tempo em que a mãe não percebe exactamente aquilo de que o bebé comunica e em que surgem os tais mismatches mas, o que ele também observou, foi que, neste tipo de relação existe uma grande taxa de reparações.
Para que isto fique mais claro podemos pensar num exemplo: a mãe está a brincar com o bebé que está no colo de frente para ela. O bebé faz um som e a mãe imita-o respondendo, o bebé fica satisfeito e faz um sorriso, a mãe fica contente com esse sorriso e sorri também mas, a certa altura, o bebé fica cansado da interacção e volta a cara para o lado, a mãe não percebe que o filho quer parar de brincar durante algum tempo e insiste um pouco. Esta insistência cria o tal estado de mismatch, ou de desencaixe, em que a mãe não percebe exactamente a necessidade do bebé naquela altura e o bebé não se sente verdadeiramente escutado ou acolhido. Isto faz com que o bebé fique mais desconfortável e reaja fazendo uma expressão de desagrado, aqui a mãe percebe que o bebé já não quer brincar mais e deixa-o descansar um pouco, mudando de actividade, mudando-o de posição ou, simplesmente, esperando, que o bebé mostre novamente vontade de interagir. Então, o facto da mãe ter percebido que o bebé estava cansado foi uma reparação nesta interacção, o que quer dizer que, a mãe ensinou ao bebé que é possível passar de um estado em que não estamos sintonizados com as necessidades do outro a um estado de sintonia e, com isto o bebé também aprendeu que é possível passar de um estado de stress a um estado de equilíbrio ou de bem-estar. E nisto a mãe mostrou também ao bebé que está disposta a ouvi-lo e mostrou-lhe que consegue comunicar com sucesso as suas necessidades dando-lhe o conforto de se sentir um agente da sua própria mudança e a capacidade de aprender a regular os seus estados internos. Nas investigações citadas por Tronick, nos casos de apego seguro, na grande maioria dos casos, quando as interacções eram dividas em vários passos, a reparação acontecia no passo logo a seguir ao desencaixe. 


Neste modelo de Regulação Mútua, o bebé precisa da presença da mãe para aprender a regular os seus estados internos e, se tiver que aprender a fazê-lo sozinho, isto acontecerá apenas à custa de muitos prejuízos que podem incluir vários atrasos no desenvolvimento e, em casos mais graves, podem mesmo levar aquilo que em inglês se chama faillure to thrive, que podemos traduzir como falha em desenvolver-se e que era o mecanismo que estava na origem das taxas elevadas de mortalidade em muitos orfanatos, por exemplo. 
Tronick usa o exemplo da regulação da temperatura: por vezes os bebés precisam do contacto com o corpo da mãe ou do pai para regularem a sua temperatura interna. Sem esse contacto o organismo do bebé é obrigado a despender uma parte demasiado grande da sua energia para conseguir essa regulação o que, se ocorrer demasiadas vezes, acabará inevitavelmente por provocar outros danos. Então Tronick diz que um mecanismo muito semelhante existe com a regulação das emoções ou dos sistemas afectivos. Ele usa a teoria dos sistemas para explicar que o bebé é um sistema aberto que tem uma tendência para querer atingir sempre estados de maior complexidade mas que essa complexidade só pode ser atingida através do estabelecimento deste estado de consciência diádica com a mãe. Isto quer dizer que, para o bebé se poder desenvolver de forma óptima e com todas as suas capacidades, precisa que lhe seja possível formar esse estado de consciência com a mãe, através do qual aprende a regular o seu próprio sistema. Isto quer dizer que, se esta possibilidade não lhe for dada, ele terá que voltar todos os seus recursos para a auto-regulação o que, mais uma vez, acabará por levar a um gasto demasiado grande de energia que limita todos os investimentos que pode fazer noutras áreas e pode mesmo chegar a provocar danos graves.

Depressão Materna e interacção com o bebé

O trabalho deste autor passou muito também pela observação e compreensão da forma como as mães que sofrem de depressão interagem com os seus filhos e da forma como esta interacção influencia o seu desenvolvimento. E, uma das suas descobertas é que o facto da mãe estar deprimida, para além de levar ao aparecimento de algumas características típicas do comportamento depressivo no bebé, também pode fazer com que este apresente algumas limitações ao nível cognitivo. Isto pode estar relacionado com as observações de Gabor Maté, médico canadiano, que defende justamente que o défice de atenção está relacionado com a falta de oportunidade para estabelecer um vínculo seguro na infância que provoca alterações ao nível do desenvolvimento do sistema nervoso que, por sua vez, poderão levar ao surgimento desta perturbação. Aquilo que Tronick observou nos seu estudos foi que os bebés que tinham mães deprimidas, para além de apresentarem também alguns sintomas depressivos, mostravam uma menor capacidade de observação de objectos, como se a sua atenção não conseguisse encontrar uma âncora que os fizesse sentir seguros e precisasse de estar constantemente a mudar de um estímulo para o outro.
Este autor explica esta observação com base no facto de que o bebé, ao ser privado do estabelecimento desse estado de consciência dual com a sua mãe, passa a precisar de direccionar todas as suas energias para actividades de auto-regulação que lhe permitam manter alguma estabilidade ao nível fisiológico e afectivo e que limitam a sua capacidade de interagir com o mundo. Por outro lado, este autor também defende que, ao ser privado deste estado de consciência com a mãe, o bebé não tem oportunidade de experimentar estados de consciência mais complexos e que, por isso mesmo, também se tornam mais capazes de absorver o mundo do ponto de vista cognitivo.
Este autor dividia as mães deprimidas entre dois grupos de mães que interagiam de duas formas distintas com os seus bebés: aquelas que tinham um comportamento intrusivo e aquelas que tinham um comportamento de abandono. As que tinham um comportamento intrusivo eram as mães que, no exemplo que demos acima, não respeitavam os sinais do bebé para parar de interagir. Uma mãe intrusiva continuaria a insistir até que o bebé ficasse tão desconfortável que começaria a chorar. Neste exemplo a mãe provavelmente não perceberia porque é que o bebé chorava e acabaria por ficar frustrada com a interacção o que, por sua vez, criaria um ciclo vicioso de mismatches na interacção que se torna difícil de quebrar. As mães intrusivas também tinham maior tendência para se zangarem e falarem de forma ríspida ou mesmo agressiva com o bebé. 
As mães com comportamento de abandono são mães que interagem muito pouco com o bebé, privando-os da oportunidade de estabelecerem qualquer tipo de interacção e de vinculação consigo.
Aquilo que o autor observou foi que estas mães geravam também dois tipos de comportamento diferente nos seus bebés: os bebés de mães com comportamento de abandono eram bebés que mostravam aquilo a que Seligman – pai da Psicologia Positiva – chama de desesperança aprendida (ver artigo sobre este tema), um comportamento em que o bebé entra num estado de apatia em que até pode ter muito poucas manifestações de desconforto mas tem ainda menos expressões de contentamento. No caso das mães intrusivas os bebés pareciam um pouco mais reactivos e apresentavam mais expressões negativas e de desconforto e menos expressões positivas quando comparados com bebés filhos de mães sem depressão.
Os casos de abandono levam à tal desesperança aprendida em que a criança cresce sentindo-se incapaz de confiar em si e com a sensação de que as suas acções não têm nenhum efeito no mundo e num certo estado de apatia e tristeza crónica. No caso da intrusão a criança cresce geralmente com uma sensação de zanga e com uma certa rigidez que se torna crónica e pode mesmo manifestar-se do ponto de visa físico.
Estas diferenças de comportamento já eram visíveis nos bebés com apenas seis meses, demonstrando que, nesta altura, já parece existir um padrão bem definido de comportamento.  
Para este autor o comportamento de abandono tinha um efeito ainda mais grave do que o de intrusão porque, os bebés filhos de mães intrusivas, pelo menos, tinham oportunidade de estabelecer uma ligação com estas mesmo que esta não fosse uma fonte de satisfação durante a maior parte do tempo. 
Então, estas investigações mostram claramente que a forma como as mães interagem com os filhos moldam a forma como estes passam a reagir e a comportar-se.
Este autor defende que o bebé não é apenas um sujeito passivo destas interacções no sentido em que o bebé procura estabelecer relações mas procura também manter o seu equilíbrio fisiológico e emocional e, para que isso aconteça, ele começa a usar as estratégias que estiverem ao seu alcance de acordo com a forma que a sua mãe interage com ele e, desde muito cedo, começam a formar-se então determinados padrões comportamentais que reflectem a forma como aquele bebé está a desenvolver a sua visão do mundo e de si mesmo e a sua capacidade de manter o seu equilíbrio interno, que é fundamental. Nestas investigações Tronick também verificou que havia algumas diferenças entre rapazes e raparigas: os rapazes pareciam ser um pouco mais intensos nas suas demonstrações emocionais e, ao mesmo tempo, tinham uma menor capacidade para se auto-regularem o que acabava por fazer com dependessem mais da presença e da disponibilidade da mãe para o fazerem. Talvez por isso, porque os sentiam mais necessitados, as mães apresentavam uma maior percentagem de tempo em sintonia com os rapazes do que com as raparigas.

Então realmente os bebés a quem nunca ninguém pega ao colo e cujas necessidades são constantemente negligenciadas, como acontece no caso das mães deprimidas, são bebés que, à primeira vista parecem dar menos trabalho. São bebés que até podem chorar muito pouco e que, aos seis meses, já desistiram de pedir colo ou de exigir a presença de um adulto para adormecer, por exemplo. Mas é muito importante termos noção do preço que pagam para isso. E o preço que pagam é a possibilidade de se tornarem adultos felizes, confiantes, preenchidos, seguros do seu lugar no mundo e capazes de lutar por aquilo em que acreditam. O preço que pagam é um crescerem sem nunca sentirem que são verdadeiramente importantes para alguém e, por isso mesmo, sem nunca saberem verdadeiramente onde pertencem neste mundo. E o preço que nós, pais, pagamos por isso, é o preço de ter um filho que nunca nos verá como uma verdadeira fonte de conforto, de prazer e bem-estar. E é o preço também de ter um filho que nunca olhará para nós como alguém em quem pode confiar, como alguém com quem pode descansar. E, é importante também termos noção de que o pouco trabalho que até podem dar estes bebés que não exigem a nossa presença será compensado com todo o trabalho extra que darão à medida que forem crescendo porque serão com toda a certeza crianças que, mais cedo ou mais tarde, apresentarão sempre algum tipo de problema no seu desenvolvimento. 

Referências

Ed Tronick (2007) - The Neurobehavioural and Social-Emotional Development of Infants and Children. Norton 

Gabor Maté (2000) - Scattered - How Attention Deficit Disorder originates and what you can do about it. Plume Books. 

terça-feira, 13 de maio de 2014

Pais culpados

No fim de semana passado fizeram-me um convite simpático para apresentar uma palestra num seminário organizado pela associação de pais da escola Gomes Freire de Andrade, em Oeiras. No final da apresentação, estava presente uma jornalista que deveria ter moderado uma mesa redonda entre os intervenientes mas, como houve alguns atrasos, esse debate acabou por ter de ser encurtado e fiquei sem possibilidades de responder a um tema que essa jornalista trouxe e acerca do qual gostaria de ter dito algumas coisas. Esta jornalista falou naquilo que considerou ser algo muito presente na maioria dos pais da nossa cultura e sociedade: a culpa. Culpa por não terem tempo para estar com os filhos ou por se sentirem responsáveis pelos problemas dos filhos ou por não serem os pais que gostariam de ser. E, de acordo com esta jornalista, esta culpa era responsável por um mal-estar grande e que, na verdade, se eu bem percebi, não teria grande razão nem necessidade de existir.
Para compreendermos melhor o que está aqui em jogo, é preciso primeiro distinguir dois tipos de culpa: a culpa que vem misturada com a vergonha, que nos faz sentir infelizes, indignos e incapazes e que tem um efeito paralisante porque nos faz sentir totalmente incompetentes e incapazes nas nossas funções e a culpa que é apenas um sinal da nossa consciência de que não estamos a agir de acordo com o nossos valores.
Então, no primeiro caso, esta é uma emoção que, realmente, traz mais prejuízos do que benefícios. Esta culpa paralisante que nos faz sentir vergonha de quem somos, a maior parte das vezes, tem a sua origem justamente na nossa infância. Quando os nossos pais nos fazem sentir totalmente desadequados no nosso comportamento surge uma resposta de vergonha, potenciada pela libertação de uma grande quantidade de hormonas, como o cortisol – associado à resposta de luta ou fuga – e que nos dá uma sensação de não sermos dignos de amor, de não sermos dignos de existir. Porque, quando não nos sentimos dignos do amor dos nossos pais a sensação é mesmo de que não somos dignos de existir. E, se isto se repetir muitas vezes na nossa infância, acabam por ficar gravadas estas sensações de não sermos capazes, de não sermos competentes, de não sermos dignos. E, muitas vezes, transferimos isto para os nossos relacionamentos mas também para o trabalho ou outro tipo de tarefas que temos de desempenhar. Então numa relação tão importante como a que temos com os nossos filhos, é natural que, nestes casos, possam também surgir esse tipo de sentimentos de incapacidade e incompetência. A única forma de lidarmos com estes sentimentos sem que eles se tornem verdadeiramente paralisantes é reconhecermos que têm provavelmente mais a ver com os nossos pais e com o que aprendemos com eles do que propriamente com os nossos filhos. E que estamos apenas a projectar ou a reavivar com eles essas aprendizagens da infância porque, quando não tomamos consciência destes padrões que fomos estabelecendo ao longo da vida, o mais provável é que continuem a influenciar a forma como nos relacionamos ao longo da vida e são grandes as probabilidades de que venhamos a reproduzi-los com os nossos filhos. 
No segundo tipo de culpa aquilo que está em causa é o facto de sentirmos que não estamos a viver de acordo com os nossos valores. E, infelizmente, isto é cada vez mais comum nos dias de hoje. Porque todos sentimos que é importante passarmos tempo com os nossos filhos e temos cada vez menos possibilidades de o fazer, porque todos sentimos que é importante cuidarmos da nossa relação com os nossos filhos e também temos cada vez menos possibilidades de o fazer. Uma mãe que tem um filho de meses e precisa de trabalhar o dia todo longe do filho sente-se naturalmente culpada. Mas esta culpa é apenas fruto da sua consciência que lhe diz que não está poder seguir o seu instinto de mãe. Uma mãe que quer pegar no filho ao colo sempre que chora ou dar-lhe mama, ou que quer pô-lo na cama consigo mas que resiste à ideia de o fazer por medo que se torne dependente ou por outros receios que lhe são incutidos muitas vezes pelos especialistas e sociedade em geral, é natural que se sinta culpada porque, em alguma parte de si, sabe que não está a seguir os seus instintos e a ser fiel aos seus valores. 
E, na minha opinião o problema é este: é que cada vez mais somos obrigados a passar por cima dos nossos instintos mais básicos e a separarmos-nos cada vez mais dos nossos filhos. E, nestes casos, a culpa não só é inevitável como até acredito que seja desejável porque é ela que nos pode lembrar de que podemos fazer mais pelos nossos filhos, porque é ela que nos pode fazer lembrar que ao esquecer os nossos filhos estamos a esquecer-nos também de nós e a deixar de lado os nossos valores, os nossos instintos, e a nossa consciência que sabe e que quer fazer melhor.
Então aqui o importante não é eliminar a culpa mas sim perceber de onde é que ela vem e tentar eliminar não o sentimento mas as circunstâncias que o provocam. Nem sempre podemos eliminar directamente essas circunstâncias mas podemos arranjar formas de as contornar para que se torne possível estarmos mais alinhados com os nossos valores. Por exemplo, se não podemos deixar de trabalhar para estar com os nossos filhos, podemos, pelo menos, tentar aproveitar ao máximo todo o tempo que temos com eles.
Por vezes também me sinto culpada quando não tenho toda a paciência que gostaria de ter sempre com o meu filho, ou quando me zango em situações em que acho que não me deveria zangar, ou quando lhe falo alto e sei que não o deveria fazer. Mas, cada vez que sinto esta culpa não acho que ela é que está errada ou que deveria desaparecer. Quando esta culpa aparece sei que ela está presente porque me comportei de uma forma que não condiz com os meus valores, que não está de acordo com os meus instintos nem com aquilo em que acredito. Então a solução não será eliminar esta culpa mas sim pensar que, da próxima vez, espero conseguir estar mais alinhada com esses valores. E, se sinto que fiz mesmo algo que não gostei de fazer, então posso tentar reparar aquilo que fiz, por exemplo, explicando ao meu filho que estava cansada, sem paciência mas que, por baixo de todo esse cansaço e falta de paciência continuava a estar presente todo o amor que tenho por ele. Que, mesmo que fale alto e faça cara feia em alguns momentos, continuo a gostar sempre dele. Porque, para mim, isso é o mais importante: que o meu filho saiba que, por muito pouca paciência que eu tenha ou por muito grande que seja a asneira que ele fez, o amor que sinto por ele não foi minimamente afectado. Porque é quando duvidamos desse amor dos nossos pais, especialmente nos momentos em que se zangam connosco, que surgem os tais sentimentos de vergonha e de incapacidade que podem levar também justamente a essa culpa paralisante e tão nociva quanto desagradável.
Poderia pensar simplesmente que não vale a pena sentir-me culpada porque as minhas acções não são assim tão importantes, porque zangar-me uma vez ou outra ou gritar de vez em quando não faz mal nenhum. Mas faz mal, sim. Faz mal, em primeiro lugar, porque não é quem gosto de ser e faz mal, em segundo lugar, porque não é isso que o meu filho merece. E se o nosso marido ou mulher nos tratassem mal de vez em quando e nos dissessem simplesmente que temos de aguentar porque a vida é assim mesmo e não estamos sempre bem-dispostos? É verdade que é natural perdermos a paciência uns com os outros de vez em quando, é verdade que uma zanga de vez em quando não prejudica assim tanto uma relação. Mas também é verdade que, depois dessa zanga, precisamos sempre de saber que há qualquer coisa que tem de se reparada na relação. Porque quando outro adulto se zanga connosco também precisamos de saber que ele ainda gosta de nós. Porque quando um adulto de quem gostamos se zanga connosco e nos trata mal, esperamos, no mínimo, uma atitude de quem está disposto a fazer alguma reparação para que as coisas possam voltar ao normal. Então é verdade que não é grave zangarmos-nos com os nossos filhos mas, também é verdade que, por uma questão de respeito e de consideração, é importante estarmos dispostos a reparar a relação depois dessa zanga. E a culpa é a forma da nossa consciência nos dizer que essa reparação é precisa, é necessária e importante. 
Outro aspecto desta culpa, segundo esta jornalista, seria o facto dos pais nem sempre terem culpa dos problemas dos filhos, ou seja, se um filho tem problemas, se se porta mal na escola, se escolhe uma vida de delinquência, por exemplo, a culpa nem sempre seria dos pais. Aqui é importante não falarmos em culpa mas sim em responsabilidade e, para mim, a responsabilidade é sempre dos pais, sim. Mas é diferente ser responsável ou ser culpado. Porque ser culpado, neste contexto, implicaria que não quiséssemos fazer melhor e, é claro que cada pai faz o melhor que sabe pelos seus filhos. É verdade que as crianças nascem com temperamentos diferentes e também é verdade que têm algum papel na forma como interagimos com elas mas também é verdade que somos os nós os adultos quem tem verdadeiramente escolha nessas interacções. Por isso, somos nós, verdadeiramente os responsáveis pela forma como elas correm. E somos nós também os responsáveis pelas primeiras experiências mais marcantes dos nossos filhos que ajudarão a moldar todas as outras experiências importantes das suas vidas. Então, somos nós, em grande parte, sim, os responsáveis por todo o seu futuro. Mas isto só é um peso se não sentirmos que fazemos o melhor que podemos. Se sentirmos que todos os dias estamos alinhados com os nossos valores e fazemos o melhor que podemos e sabemos pelos nossos filhos então essa responsabilidade não tem nada a ver com culpa e não se torna nada pesada porque, mesmo que alguma coisa corra mal pelo caminho, sabemos que demos o melhor de nós aos nossos filhos e sabemos que tudo o fizemos foi feito com a consciência de que lhes demos tudo o que podíamos ter dado. E quando damos tudo o que temos não há lugar para culpas paralisantes nem daquelas que nos pesam e incomodam porque, quando damos tudo o que temos, os nossos filhos podem crescer com a consciência de que podem cometer todos os erros do mundo que continuam a ser dignos do nosso amor e, só isso, por si só, acredito que é suficiente para criar um ser humano digno, com valores e respeito e uma relação feliz e harmoniosa com os nossos filhos para toda a vida. E, quando fazemos tudo o que podemos fazer alinhados com os nossos valores e com a nossa consciência, mais do que algo que precisa de ser eliminado, a culpa pode ser mesmo uma boa ajuda e algo que precisamos de ouvir para saber o que é que precisa de ser mudado.