terça-feira, 25 de março de 2014

O mito dos dez minutos

       Ultimamente tenho ouvido algumas pessoas a falarem da importância dos pais passarem algum tempo de qualidade com as crianças. Pessoas que até compreendem a importância da vinculação e do desenvolvimento de um apego seguro e que depois afirmam que os pais devem, diariamente, dedicar pelo menos 10 minutos de disponibilidade total para os seus filhos. Não posso deixar de pensar que isto é uma contradição e fico preocupada quando alguém afirma que, para mudar uma relação que já não está muito bem, esses dez minutos podem fazer toda a diferença. É verdade que dez minutos é melhor do que zero e também é verdade que, em alguns casos, os pais nem dez minutos passam totalmente dedicados aos filhos porque há outras coisas importantes para fazer. Mas, a verdade é que, se as coisas não estiverem bem e se a criança não tiver um apego seguro com os seus pais, não é com esses dez minutos que o vai desenvolver. Sobretudo quando se trata de uma criança pequena.
       A grande tarefa dos primeiros 6 anos de vida das crianças é aprenderem a estabelecer relações. No primeiro ano a criança está mais preocupada com o estabelecimento de um apego seguro com a sua mãe – ou com a pessoa que passa mais tempo a cuidar dela. No segundo começa também a procurar estabelecer uma relação mais profunda com o pai e, a partir do terceiro – sobretudo quando estas duas relações já são seguras – começa a ficar mais disponível para estabelecer relações com avós, tios, primos ou outras pessoas que façam regularmente parte da sua vida. E, a partir dos três anos, a criança começa também a estar mais disponível para se relacionar com os pares e os amigos da mesma idade que começam a tomar aqui alguma importância. Mas, é preciso não esquecer que, durante estes anos – sobretudo nos três primeiros – a relação com os pais continua a ser fundamental e é esta a base para que todas as outras possam surgir: é a partir de um relacionamento seguro com os pais que a criança percebe que as relações interpessoais podem ser uma fonte de prazer e de gratificação e ganha a confiança necessária para estabelecer outras relações. Por outro lado, uma relação segura com os pais também significa que a criança tem um porto seguro, uma base onde sabe que poderá sempre obter o conforto de que necessita quando algum aspecto do mundo lá fora se tornar mais assustador.
            Mas para que esse relacionamento seguro com os pais possa formar-se a criança precisa de tempo, precisa de tempo de qualidade sim, mas precisa também de quantidade. Uma criança pequena precisa de estar com as suas figuras de apego com muita frequência, precisa de ter tempo para interiorizar o amor da mãe e do pai, precisa de saber que eles estão presentes quando ela cai, quando se magoa, ou simplesmente quando tem fome ou está cansada e precisa de um colo para se sentir segura. Uma criança com menos de dois anos não tem noção do tempo e não tem capacidade de perceber que o pai ou a mãe a amam mesmo quando não estão presentes. Durante o segundo ano de vida a criança começa a ganhar alguma noção de que a mãe e o pai existem mesmo quando não os vê mas é preciso tempo para que esta noção fique completamente estabelecida e, antes dos três anos de vida, a criança não tem simplesmente a capacidade de sentir que o pai ou a mãe a amam mesmo quando não estão consigo.

Então para criar esse vínculo precisamos de estar sempre com os nossos filhos?

      Não precisamos de estar sempre mas precisamos de estar a maior parte do tempo, durante os seus primeiros anos. E, acima de tudo, o tempo que estivermos precisamos de estar totalmente disponíveis. Uma mãe de uma criança de um ano, que trabalha e que tem apenas algumas horas do seu tempo para estar com o seu filho de um ou dois anos, não pode dar-se ao luxo de pensar que em apenas dez minutos o compensará por um dia inteiro de ausência. Nestes casos é fundamental que, todo o tempo que a mãe está em casa, esteja disponível para a criança. Isso implica que todas as outras tarefas podem esperar se for necessário. Com uma criança pequena o uso de um porta-bebés pode ser muito útil e importante para restabelecer a ligação e permitir que a mãe faça o que precisa de ser feito. Com uma criança mais velha a solução pode passar por envolver a criança nas tarefas que precisam de ser feitas, por exemplo, pedir-lhe ajuda para fazer o jantar ou para por a mesa, mas sempre de forma a que a criança sinta que não tem de o fazer por obrigação mas que lhe estamos a pedir que o faça porque é uma forma de partilharmos algum tempo juntos.

     Gordon Neufeld, um psicólogo canadiano, explica que, depois de cada separação é necessário restabelecer a ligação, ele fala do acto de recolher a criança que considera essencial sempre que há algum tipo de separação. E, quanto maior for a separação e menor a idade da criança mais tempo será necessário para se restabelecer essa ligação. Ele explica que o sono também é uma separação e dá o exemplo de quando a criança acorda de manhã. Se, em vez de lhe começarmos logo a dar ordens porque tem de se despachar para ir para a escola, planearmos tudo de forma a que a criança acorde ainda com tempo para simplesmente ficarmos um pouco juntos, restabelecendo a ligação tudo se torna mais fácil. Isto pode ser feito apenas ficando na cama com a criança alguns momentos, ou pegando-lho ao colo um bocadinho ou, com crianças mais activas, com pequenas brincadeiras ou falando um pouco com elas de como dormiram e do que irão fazer nesse dia, por exemplo.

      A verdade é que, se um apego seguro nunca foi estabelecido, não é em dez minutos diários que vamos consegui-lo. Mas, se este já existia, torna-se mais fácil reparar a ligação desde que estejamos atentos às mensagens da criança e desde que consigamos perceber de que é que ela necessita para que esta reparação aconteça. E isto poderá variar muito de dia para dia. Alguns dias a criança poderá precisar de muito mais tempo, de muito mais presença e disponibilidade, noutros dias poderá ser um pouco mais fácil. Nalguns dias a criança pode também precisar de mais contacto físico, existem porta-bebés que são indicados justamente para crianças entre os dois e os três anos e que, por vezes, podem ser uma óptima ajuda para restabelecer o contacto.

      Também observo que essas mesmas pessoas que recomendam os tais dez ou quinze minutos de qualidade com os filhos, a maior parte das vezes, não hesitam em dizer que o casal precisa de tempo para namorar e estar junto e em recomendar que os pais passem tempo sozinhos um com o outro, saindo regularmente e até, muitas vezes, passando fins de semana inteiro juntos. Então, como é que podemos achar que, dois adultos que conseguem compreender que cada um tem as suas vidas e obrigações precisem de tanto tempo para manter uma boa relação e que, com uma criança, apenas dez minutos bastem?! Há uma tendência para pensar que é preciso trabalhar para se manter uma relação saudável no casal e que ambos têm de fazer um esforço para se encontrarem, para conversarem e para estarem juntos mas, em relação às crianças, é um dado adquirido que essa relação existe naturalmente e, por isso, não precisamos de nos esforçar para a manter. Pois isto não é de todo verdade: precisamos de nos esforçar também com os nossos filhos, precisamos de estar presentes, sobretudo nos seus primeiros anos, mais até do que com um adulto. Precisamos de nos esforçar sim, não no sentido de trabalhar porque deve ser algo natural e prazeiroso – mas precisamos de nos esforçar para estar presentes e disponíveis. Tal como na relação de casal precisamos de saber que o outro gosta de estar connosco, que gosta de nos ouvir e de nos tocar, também as crianças precisam de saber isso em relação aos pais. E não é com um dia inteiro de separação e dez minutos de qualidade que vão ficar a senti-lo. Se o nosso marido ou mulher chegar a casa, falar dez minutos connosco e depois se for sentar a ver televisão, ou for tratar do jantar ou de algum assunto de trabalho enquanto nos ignora, não nos vamos sentir muito apreciados. Então, mais do que envolver as crianças na nossa rotina, é preciso que elas se sintam a parte mais importante dela.

Como podemos fortalecer o vínculo com os nossos filhos no meio das nossas rotinas diárias? 

Em primeiro lugar, há que estabelecer prioridades e perceber as necessidades dos nossos filhos. Então, se a nossa prioridade é manter uma vinculação segura com os nossos filhos, é preciso termos noção de que haverão muitas outras coisas que terão simplesmente que ficar para depois, como uma casa imaculadamente limpa ou arrumada com crianças pequenas, por exemplo. Por outro lado é preciso também sabermos que as crianças têm necessidades diferentes consoante a idade e que, uma criança com menos de dois anos precisa  mais de uma presença física e mais regular dos seus pais do que uma criança com quatro ou cinco anos.

Até aos 12 meses

No caso de uma criança pequena, o contacto físico é essencial para que essa ligação se dê de forma segura, por isso um pai ou mãe que estejam todo o dia longe do filho, devem esforçar-se por mantê-lo em contacto o máximo de tempo possível quando estiverem juntos, com porta-bebés e cama partilhada, por exemplo. No caso das mães, a amamentação também é uma óptima forma de restabelecer essa ligação.
Nestas idades os porta-bebés podem ser uma ajuda preciosa para permitirem aos pais o desempenhar das suas tarefas mantendo as crianças em contacto consigo.
Esta é uma idade em que é mesmo muito importante que as figuras de apego da criança estejam presentes durante a maior parte do dia, de forma consistente e regular.

Entre os 12 e os 24 meses

Esta altura pode ser uma das mais exigentes para os pais - no que diz respeito ao desempenho de outras tarefas- porque as crianças já andam, por isso, não querem estar presas num porta-bebés durante muito tempo mas, ao mesmo tempo, ainda precisam muito da presença física dos pais. Manter a cama partilhada e a amamentação são duas formas de manter essa ligação e de lhes dar essa segurança de sentirem o corpo dos pais. Nesta fase as crianças começam a querer descobrir o mundo mas ainda precisam muito de o fazer perto dos pais por isso é natural que ainda não sejam capazes de se entreter muito tempo sozinhas. Uma boa forma de estimular o vínculo nesta altura é mesmo fazer essa descoberta do mundo com elas mesmo que isso implique que, por vezes, certas tarefas tenham que ficar para depois.


Entre os 24 e os 36 meses

Nesta fase as crianças ainda precisam muito da presença dos pais embora já comecem a ser capazes de suportar mais facilmente as ausências um pouco mais prolongadas.
As crianças desta idade já começam a ser capazes de verbalizar um pouco mais, por isso começa a tornar-se possível manter a nossa ligação com elas se formos falando enquanto fazemos o jantar, por exemplo, explicando-lhes o que estamos a fazer.
Nesta altura as crianças também já começam a ser capazes de colaborar com coisas muito simples por isso, se temos que fazer o jantar, por exemplo, podemos deixá-las subir para um banco e deitar os legumes na panela, ou fazer outra coisa simples que as faça sentirem-se mais próximas de nós e, ao mesmo tempo, capazes de nos ajudar. 

A partir dos 36 meses

Aqui as crianças já têm uma melhor compreensão do tempo e começam a ser capazes de suportar mais facilmente a ausência dos pais porque já são capazes de interiorizar o amor destes e, ao mesmo tempo, também já começam a perceber como funciona a sua rotina. Se a criança souber que, quando está com os pais, estes estão verdadeiramente disponíveis para si, torna-se muito mais fácil brincar e aprender na sua ausência de forma despreocupada e segura, ao mesmo tempo que fica mais disponível para estabelecer novas ligações. Nesta fase também já se torna mais fácil falar com a criança e, pode ser útil, por exemplo, dizermos-lhe que sentimos a falta dela durante o dia.
Nesta altura a criança também já começa a ser capaz de participar mais activamente na rotina da casa e pedir-lhe ajuda para fazer ou jantar ou por a mesa, enquanto conversamos sobre como foi o dia e o que fizemos pode ser uma boa forma de estimular essa ligação.

É muito importante também, nesta idade e nas outras, reservar algum tempo para simplesmente estar com a criança. Para além de todas as outras tarefas que procuramos fazer sempre que possível mantendo a criança envolvida e por perto, é fundamental termos também algum tempo em que estamos só com a criança. Principalmente quando chegamos a casa, depois de um dia de trabalho, é muito importante que, antes de qualquer outra coisa, tiremos um tempo para restabelecer a ligação com os filhos, para recolher a criança, como diz Gordon Neufeld. Se não fizermos isto logo quando chegamos, tudo o resto será bem mais difícil. E, com crianças pequenas e um afastamento de muitas horas, é natural que elas nos recebam com um certa frieza até, por vezes, quase com uma atitude de desinteresse. Esse é um sinal ainda mais importante a que devemos estar atentos, para lhes darmos o tempo de que elas precisarem para se ligarem a nós outra vez. E fazemos isto simplesmente ficando perto delas, mostrando que estamos disponíveis, atentos e receptivos, o tempo que for preciso. Depois disso então, podemos passar ao resto das coisas que precisamos de fazer mas, sempre, tentando manter a criança por perto e o mais envolvida possível.
A hora de deitar também pode ser uma boa altura para re-afirmar essa ligação. Deve ser sempre uma altura em que damos toda a nossa disponibilidade à criança durante alguns minutos. Podemos adormecê-la no colo (sim, no colo) ou na cama se preferirmos mas, o importante é que a criança se sinta ouvida, escutada, aceite. E, quanto mais segura a criança se sentir, mais fácil será o adormecer. Porque, para dormir precisamos de segurança acima de tudo, mais do que qualquer outra coisa, uma criança para adormecer precisa de se sentir segura para poder largar tudo e abandonar-se ao sono. E, a nossa presença - com toda a disponibilidade física que a criança precisar e toda a disponibilidade emocional também - é que o que pode dar à criança toda a segurança necessária para que a hora de dormir seja uma altura de relaxamento e tranquilidade e não uma altura de medo e de insegurança em que se sente sozinha.
Mesmo com as crianças mais velhas, que já adormeçam sozinhas, a hora de deitar também pode ser uma boa altura para restabelecer ligações e para simplesmente partilhar algum tempo juntos.

Com filhos crescidos


Quando as crianças crescem é muito fácil pensarmos que já não é preciso fazer nada para mantermos a nossa ligação com eles. Mas isto também não é verdade. sobretudo quando começa a aproximar-se a adolescência é fundamental que passemos tempo, regularmente com os nossos filhos. As refeições em família podem ser uma altura importante para falar e restabelecer a ligação mas é muito importante encontrarmos mais tempo para simplesmente estar juntos. As férias podem ser uma excelente oportunidade e, quando existem vários filhos, também pode ser muito importante, tirarmos regularmente um ou dois dias para que cada um deles passe um ou dois dias apenas com o pai ou a mãe, para poder sentir que tem a atenção exclusiva daquele pai ou mãe, durante aquele tempo, para não ter de competir com mais ninguém. Isto pode ser uma forma muito importante até de reparar algumas relações que, por vezes, passam por alguma fase de maior distanciamento.

Em todas as idades uma atitude de aceitação incondicional, de empatia e de acolhimento é fundamental para se estabelecer uma boa ligação com os nossos filhos. E, em todas as idades, o essencial é estarmos atentos às mensagens que os nossos filhos nos transmitem e, mais do que fórmulas como as dos dez minutos diários de qualidade, devemos confiar nos nossos filhos e na forma como sempre nos vão mostrando que precisam de nós de maneiras diferentes ao longo da vida. 

Ao longo de toda a vida dos nossos filhos, incluindo a adolescência, o fundamental é que eles sintam que são uma parte essencial e importante da nossa vida. E, para isso, é preciso muito mais do que dez minutos diários de atenção: é precisa uma disponibilidade constante e uma presença regular na vida deles. 



sábado, 15 de março de 2014

Vídeo - Responder com sensibilidade: terceiro princípio da parentalidade com apego


O terceiro princípio da parentalidade com apego, tal como é definido pela Attachment Parenting International, fala-nos da importância de responder com sensibilidade ao bebé. Este é talvez um dos princípios mais importantes e aquele que, na verdade, acaba por estar na base de todos os outros. As investigações mais recentes da neurofisiologia mostram que estas respostas podem ter um impacto enorme na forma como o bebé irá crescer e na forma como o seu cérebro e o seu sistema nervoso se irão desenvolver.


quinta-feira, 6 de março de 2014

Aprender Sem Limites


Acredito que, como pais, temos o dever de ensinar e de orientar os nossos filhos mas, a verdade, é que também temos muito a aprender com eles, se estivermos disponíveis para o fazer. E, há uns dias, aprendi com o meu filho de dois anos e meio algumas coisas muito importantes. Numa tarde de chuva, estávamos os dois em casa quando resolvi ir para a cozinha fazer umas bolachas, sabendo que ele gosta sempre de me ajudar. Mas, desta vez, em vez de me ajudar estava com mais vontade de brincar com a batedeira ou a máquina dos bolos como lhe chama. É uma batedeira velha que já só raramente uso e, por isso, já o deixei brincar com ela algumas vezes. Mas, desta vez, comecei a pensar que seria chato se ele a estragasse e disse-lhe que não podia brincar com a máquina dos bolos. Ele – que ainda por cima tem andado meio constipado e, por isso, um pouco mais impaciente – começou a chorar e a pedi-la e eu a recusar-me a dar-lha. Durante algum tempo tentei falar com ele dizendo-lhe a máquina não era para brincar. Tentei ser empática e mostrar-lhe que compreendia que ele gostava muito de brincar com a máquina mas que ela não era brinquedo e por isso não lha podia dar. Tentei distraí-lo com outros brinquedos, pedir-lhe para me ajudar com as bolachas, pegá-lo ao colo, enfim, tentei tudo o que costuma resultar e ele continuava lavado em lágrimas. Até que por fim lá resolvi pensar que, a verdade, é que a máquina já não tem muito uso e que se se estragasse não seria assim tão grave, além de que, ele já tem brincado com ela e nunca a estragou, por isso resolvi ceder. Disse-lhe que se era assim tão importante podia brincar com a máquina dos bolos. Ele ficou logo contente e eu, no fundo da minha cabeça, não podia deixar de ouvir aquelas vozinhas que dizem que não se deve ceder depois dele fazer uma birra (não gosto desta palavra mas, por vezes, não consigo evitá-la) e que tinha sido fraca por não conseguir impor-lhe limites (o fantasma dos limites que, infelizmente assombra muitas casas por aí). Mas, o que se passou a seguir mostrou-me como estavam erradas estas vozes. Com a batedeira na mão e o choro já esquecido o meu filho, dirigia-se, feliz da vida, para as tomadas da sala (as únicas que não estão protegidas) de batedeira em punho dizendo que a ia ligar para fazer os bolos na sala. Aí, é claro que tive de intervir e dizer-lhe que nem pensar, que não podia ligar a batedeira na ficha porque era perigoso (tive medo que as varetas a girar o magoassem), que se insistisse em ligá-la tinha que lha tirar e que só podia brincar com ela na cozinha dele, ao pé de mim. Ele olhou para mim, ainda com os olhinhos de choro do episódio anterior e pensei que iríamos recomeçar tudo quando o vi voltar para a cozinha acedendo rapidamente a brincar com a batedeira desligada, ao pé de mim e repetindo algumas vezes que não podia ligar a batedeira na ficha, porque era perigoso e a mãe não deixava porque podia fazer dói-dói.
 
Então, há aprendi várias coisas que aprendi com este episódio:

  1. Que não devemos ter medo de ceder: quando os nossos filhos querem algo que é importante para eles e que não tínhamos percebido que era assim tão importante, não abrimos nenhum precedente grave se lhe dissermos isso mesmo. Se lhes mostrarmos que não fazíamos ideia de que aquilo era assim tão importante para eles naquele momento e os deixarmos fazê-lo (se não houver nenhum risco ou nada de muito fundamental envolvido, é claro).

  1. Que os nossos filhos sabem bem quando falamos a sério. Neste caso, quando eu lhe disse que nem pensasse em ligar a batedeira na ficha, era a segurança dele que estava em jogo e não apenas a minha comodidade, ou o meu interesse em manter a batedeira longe das mãos dele e ele soube distinguir isso perfeitamente. E percebeu que, se no primeiro caso eu não estava assim tão certa das razões porque não devia ceder, no segundo não iria mesmo recuar.

  1. Devemos ser coerentes com as nossas imposições: o meu filho sabia que eu já o tinha deixado brincar com a batedeira por isso sentiu que não era justo que as regras mudassem assim sem mais nem menos e reagiu protestando o melhor que podia contra o que sentiu como uma injustiça.

Esta situação fez-me pensar também em vários aspectos ligados à questão dos limites, algo de que tantas vezes se fala de formas com que nem sempre concordo.

  1. Em primeiro lugar acredito que, os limites que devemos impor são os que são necessários. Neste caso eu tinha que o impedir de ligar a batedeira à ficha, por uma questão de segurança, mas o facto dele brincar com a batedeira era apenas uma comodidade minha.

  1. Mais importante do que a questão dos limites é a nossa ligação á criança. Não precisamos de criar limites apenas porque achamos que as crianças precisam de limites. Os limites já existem na vida diária: tenho que impedir várias vezes o meu filho de fazer coisas que o podem por em perigo, como atravessar a estrada sozinho, trepar ás estantes de casa ou ligar pequenos electrodomésticos nas tomadas eléctricas e esses limites, sim, claro que são necessários. Os outros que tantas pessoas defendem e acham que se devem impor fazem apenas a falta que quisermos que façam, ou seja, há determinadas situações em que eu não quero que o meu filho faça algumas coisas que me incomodam – por exemplo, neste caso queria poupar a batedeira – então, nessas alturas preciso de me questionar sobre o que será mais importante: o bem-estar do meu filho ou as minhas comodidades. Se ter aquele comportamento não for assim tão importante para ele, então podemos negociar ou tentar mostrar-lhe outra coisa para fazer, ou simplesmente dizer-lhe que não quero que o faça. Mas, se percebo que, para ele a importância daquele comportamento é maior que a minha comodidade, então não tem mal nenhum ceder. Não estamos a abrir nenhum precedente grave, nem a tornar os nossos filhos nuns tiranos ou ditadores como tantas pessoas pensam. Pelo contrário, estamos a mostrar-lhes que valorizamos os seus sentimentos, que os respeitamos e que estamos abertos a fazer cedências justamente porque eles são tão importantes para nós. Neste caso, em que eu sei que o meu filho gosta tanto de brincar com a batedeira, porque é que isso deveria ser menos importante do que a minha necessidade de a proteger quando, ainda por cima, já quase nem sequer a uso (porque tenho outra melhor, mas que pensei que se poderia estragar um dia) e quando ele já tem brincado outras vezes com ela sem nunca a ter estragado?


Na verdade, as crianças já encontram limites todos os dias, como os tais que precisamos de impor para a sua segurança e outros que a própria vida se encarrega de trazer. Porque tantas vezes está a chover quando queríamos que estivesse sol, porque nem sempre há morangos ou mirtilos (os preferidos do meu filho) no supermercado, porque nem sempre podemos brincar quando ele quer, etc. Então porquê tanta preocupação com os limites? Porque é mais fácil pensar que é tudo uma questão de regras e de disciplina do que simplesmente confiarmos nos nossos filhos e em nós próprios e sermos simplesmente capazes de ouvir o que nos diz o coração. Porque preferimos acreditar que podemos controlar uma criança com regras e com disciplina do que acreditar que podemos simplesmente chegar ao seu coração e que isso é suficiente para que ela nos dê ouvidos quando é verdadeiramente importante que o faça. Sim, porque acredito que os filhos devem ouvir os pais mas, acima de tudo, devem aprender a ouvir-se a si próprios. E alguém que aprende a ouvir por medo e por discipina ou respeito não é alguém que aprender a ouvir-se. Alguém que aprende a seguir o coração e a ouvir o seu e o dos outros é alguém que sabe perfeitamente como se deve comportar. Uma criança que se sente ouvida, respeitada, acolhida é uma criança que sabe quando é importante ouvir também os seus pais. Mas uma criança que se sente ouvida, respeitada e acolhida, por vezes, também pode ser uma criança que não desiste facilmente e, por isso, ás vezes dá mais trabalho. O meu filho sabia que eu já o tinha deixado brincar com a máquina dos bolos, sabia que eu não estava assim tão certa das razões para não o deixar brincar com ela outra vez e, por isso mesmo, fez valer o seu ponto de vista e não desistiu enquanto não o impôs. E isso é mau? Não acredito que seja, porque quero que ele cresça capaz de fazer valer os seus direitos, quero que ele cresça acreditando que a sua voz conta, que tem valor, que pode ser ouvida.
Quando fiz o meu estágio académico, em escolas primárias do concelho da amadora, onde se encontravam algumas crianças de contextos problemáticos e com vários problemas de comportamento e de integração, lembro-me que alguém um dia comentou que aquelas crianças precisavam era de limites e disciplina e lembro-me de ter pensado que o que elas precisavam era de se sentir amadas. E, hoje em dia, continuo a acreditar nisso: mais do que disciplinar ou limitar os nossos filhos, devemo-nos perguntar se somos capazes de os fazer sentir-se amados, aceites, compreendidos e verdadeiramente acolhidos em tudo aquilo que são. Acredito que é esse o único caminho para criar seres humanos verdadeiramente empáticos e disponíveis para viver com os outros e fazer deste um mundo melhor. Acredito que, na vida daquelas crianças, tal como na vida de tantas outras, o que faria verdadeiramente a diferença seria encontrarem nas suas casas, nos seus pais, um verdadeiro porto seguro, uma relação onde se sentissem verdadeiramente acolhidas, aceites, respeitadas. Limites encontravam elas todos os dias e muitos mais do que a maioria das crianças que vem de famílias mais estáveis: encontravam os limites de não terem quem lhes desse segurança, os limites de não terem uma escola que as aceitasse, os limites de serem obrigadas a passar o dia numa escola de que não gostavam, os limites dos professores que também não as aceitavam ou acolhiam e muitas vezes os limites de nem sequer terem comida em casa. O que estas crianças precisavam não era de mais limites mas sim de abertura, de serem vistas, ouvidas, aceites e verdadeiramente acolhidas, pelos pais, pela escola e até pelos colegas com quem nem sempre conseguiam relacionar-se da melhor forma.