sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A Entrada na Escola

A entrada na escola é um período de grandes mudanças na vida de uma criança e, por vezes, também dos pais. 
Acredito que, antes dos três anos as crianças deveriam passar o seu dia com os pais ou com um adulto que tome conta delas e com quem possam estabelecer uma relação prioritária, o que não é possível numa creche em que existem várias crianças. A grande tarefa dos primeiros anos de vida de uma criança é estabelecer relações. Estabelecer relações com os adultos que cuidam de si. Durante os primeiros dois anos de vida o cérebro das crianças está em grande expansão e transformação e são criadas e perdidas milhares de ligações neuronais. E forma como tudo isto acontece depende das experiências que a criança tenha. Uma criança precisa de desenvolver relações seguras, em que se sinta protegida, ouvida, amada e são estas ligações que irão influenciar toda a forma como se irá desenvolver e estruturar o seu cérebro. As experiências dos primeiros anos de vida, quando são vivenciadas repetidamente, criam determinados padrões de funcionamento cerebral que irão definir e moldar toda forma da criança viver e estar no mundo e de se relacionar com a sua experiência e com as pessoas ao longo de todo a sua vida. Isto pode parecer um pouco assustador mas, de facto, precisamos de ter noção de como são importantes os primeiros anos de vida de uma criança. E uma tarefa fundamental desses primeiros anos é estabelecer relações e, essas relações, precisam de ser estabelecidas principalmente com outros adultos, não com crianças. Porque nesta fase a criança precisa de se sentir protegida, amada, precisa de de sentir acolhida e de ter um espelho e é impossível sentir isto da parte de outra criança pequena. Por isso, nesta fase, as crianças ainda não precisam tanto de estar com outras crianças mas sim com adultos durante a maior parte do seu tempo. E, de preferência com adultos que possam estar disponíveis e atentos durante a maior parte do tempo, o que é muito difícil de conseguir com três ou quatro crianças a cargo, todas da mesma idade e com as mesmas necessidades.
Além disso só a partir dos dois anos de idade é que a criança começa a desenvolver alguma noção de tempo e, só a partir dessa idade, é que começa também a desenvolver alguma capacidade de perceber que a sua mãe volta mesmo quando não está presente. Isto quer dizer que só a partir dessa idade é que a entrada na escola pode não ser uma ameaça tão grande uma vez que a criança pode começar a perceber que não irá ficar para sempre sem a mãe ou o pai. (este tema foi mais desenvolvido aqui)
Mas, na verdade acredito que antes dos três anos a criança não irá recolher nenhuns benefícios da escola. Porque só a partir dessa idade é que o mundo da criança se começa verdadeiramente a expandir e começa a surgir alguma capacidade e interesse em estabelecer relações com outras crianças, embora nesta idade as crianças ainda não formem verdadeiras amizades e não brinquem verdadeiramente em equipa – isto começa a acontecer mais por volta dos quatro anos. É partir desta idade também que a criança começa a ser capaz de interiorizar a imagem da mãe, do pai e/ou de outros adultos significativos da sua vida, o que quer dizer que é capaz de sentir que a mãe gosta de si mesmo quando esta não está presente. Isto é muito importante porque lhe permite que não se sinta abandonada e pode dar-lhe algum conforto nos momentos difíceis. Por outro lado, nesta idade, se a criança teve uma relação relação com os pais e um bom modelo de relacionamentos seguros também já tem a confiança necessária para estabelecer relações com outros adultos e crianças. Também é nesta idade que a criança começa a ser capaz de brincar mais sozinha e de estar no seu mundo sem tanta necessidade de ter a atenção constante de um adulto. E, nesta idade também a criança começa a ter mais curiosidade pelo mundo e ser capaz de experimentar coisas diferentes que a escola pode proporcionar.
Aos três anos, geralmente, a criança também já tem um bom domínio da linguagem e isto é importante porque, por um lado, permite-lhe expressar mais facilmente as suas necessidades mesmo com pessoas que não conhece e, por outro, permite-lhe também compreender melhor o que os pais lhe dizem sobre a escola e também contar aos pais o que lá se passou, ajudando a fazer uma ponte entre a sua vida na família e na escola. 
Ainda assim, não quer dizer que todas as crianças estejam preparadas para ir para a escola aos três anos ou que tenham de o fazer. Na verdade, pode haver crianças que, aos três anos, ainda precisem mais de estar com um adulto que possa estar mais presente e disponível. Por outro lado, se os pais tiverem disponibilidade para proporcionar à criança a variedade de experiências e de relacionamentos que se encontram geralmente na escola, esta também pode não ser necessária.

Formas de tornar mais suave a entrada a criança na escola


Se tomou a decisão de levar o seu filho para a escola pela primeira vez, existem algumas questões que considero importantes e que podem facilitar essa transição levando a uma melhor integração e diminuindo o stress e a ansiedade que tantas vezes surgem nesta altura. 

1. Em primeiro lugar é importante decidir porque é que quer por o seu filho na escola.                 Pensar se ele realmente estará preparado para essa mudança e se será realmente o melhor para ele. Quando as crianças chegam aos três anos há muita pressão social para que entrem na escola mas, embora esta seja uma idade em que a entrada na escola se torna, geralmente, mais fácil não quer dizer que isto seja realmente o melhor para todas as crianças.

2. Depois,  mais do que qualquer modelo educativo ou pedagógico, é fundamental conhecer as pessoas com quem vai deixar o seu filho. E é importante escolher uma escola aberta, onde lhe seja permitido ter este conhecimento. São elas que vão estar com o seu filho uma boa parte do dia. Se tudo correr bem essas pessoas irão também ter um papel importante nas experiências do seu filho e irão ajudar a moldar também a forma como ele se relaciona consigo e com os outros. Um bom educador torna-se um modelo a seguir, por isso pergunte-se se quer aquela pessoa como modelo para o seu filho. Mas, mais importante, pergunte-se se aquela pessoa será capaz de dar afecto e amor ao seu filho, porque é disso que as crianças precisam mais do qualquer coisa e isso é fundamental para estabelecerem uma boa relação com a escola e para que tudo corra bem.
Para mim, quando escolhi a escola do meu filho, o mais importante foi sentir que todas as pessoas que lá estavam – desde professores, directores, a auxiliares – eram pessoas que gostavam verdadeiramente de crianças. Visitei outras escolas onde isso não era tão visível e, para mim, isso é fundamental. Porque quero que o meu filho cresça com pessoas que sabe que gostam dele. Porque essas pessoas serão também o seu espelho.

3. Depois é importante que dê algum tempo à criança para conhecer a escola. As crianças desta idade, geralmente, não gostam de grandes alterações á rotina. Ainda agora começaram a ser capazes de perceber como é que as coisas se organizam e a ter alguma noção de como irá decorrer o seu dia e, de repente, tudo é alterado e estão numa situação completamente nova. Por isso há que tentar minimizar esse impacto. O ideal será que faça algumas visitas à escola e conheçam algumas pessoas antes de lá ficarem um dia inteiro. Depois dessas visitas também ajuda que vá falando com o seu filho sobre a escola, sobre quem ficará com ele e como será.

4. Nos primeiros dias também pode ser importante que os pais estejam presentes, mesmo na sala com a criança, pelo menos durante algum tempo. Muitas vezes os educadores não o permitem porque acham que irá dificultar a habituação da criança. Mas é importante estabelecer uma ponte entre a família e a escola para que a criança não se sinta tão ameaçada e esta poderá ser uma forma de o fazer. Para que isto aconteça o ideal é que o pai ou a mãe tentem brincar na sala com o filho um pouco, que conversem com o educador, com os auxiliares ou outros adultos presentes: se a criança vir que os pais estão à vontade e que gostam desses adultos, mais facilmente se sentirá à vontade para estabelecer uma relação com eles. Num mundo mais natural, viveríamos em comunidades mais pequenas em que as crianças já conheceriam os adultos e crianças com quem passariam o dia. Por isso é importante tentarmos recriar, dentro do que nos for possível, esse ambiente mais comunitário, de aldeia, para que as crianças se sintam seguras e confortáveis e para que a entrada na escola não seja a entrada num mundo novo, distante e completamente separado de tudo o que conheciam até essa altura. Neste sentido é importante questionar-se, antes de decidir a escola, se a política desta tem essa abertura com os pais e se lhe será possível fazê-lo. Certifique-se que a escola que escolheu não vê os pais como intrusos indesejáveis mas sim como parte da escola. Um dos sinais disso é o facto de, muitas escolas, nem deixarem os pais entrar nas instalações, como se não tivessem o direito de lá estar. Na escola do meu filho, podemos entrar em qualquer altura do dia e ir à sala dele e nunca me sentiria confortável se fosse de outro modo.

5. É importante também que tome consciência dos seus sentimentos em relação a esta nova fase da vida do seu filho. Porque esta entrada na escola trará consigo algumas mudanças. Para quem esteve com os filhos até esta altura esta é uma fase de separação que pode não ser fácil. Porque temos medo que os nossos filhos precisem de nós ou, por vezes, temos medo de precisar deles. Também porque vamos  deixar entrar pessoas novas na vida dos nossos filhos e estas serão pessoas que, se tudo correr bem, se tornarão importantes para eles e terão também um papel significativo nas suas vidas. Isso pode também despertar alguns medos ou inseguranças da nossa parte.
Por outro lado, esta mudança na nossa rotina também implica alguma adaptação da nossa parte e nem todos lidam bem com isso.

E esta entrada na escola pode também despertar medos e feridas antigas da nossa parte
. Se a nossa própria entrada na escola ou vida escolar não correu bem, se a escola era uma fonte de desconforto para nós ou de sofrimento, ou se nos sentimos abandonados e mal cuidados quando fomos para a escola é muito natural que essas feridas venham à superfície mesmo que não o façam de uma forma consciente. Por vezes estamos seguros da nossa escolha, sabemos que é o melhor para os nossos filhos, mas há uma sensação de desconforto e de mau estar que nem sabemos bem de onde vem e que pode estar relacionada com estas feridas mal resolvidas. Nestes casos ajuda tomarmos contacto com elas e percebermos que, por essa ter sido a nossa experiência, não quer dizer que seja a dos nossos filhos. e que, o facto de estarmos conscientes desse nosso sofrimento nos pode até tornar mais sensíveis e atentos às experiências do nosso filho, ajudando a torná-las mais positivas.

6. Sobretudo nos primeiros tempos, tente que a criança não fique demasiadas horas na escola. Hoje em dia as crianças passam tempo demais na escola, por isso tente ir buscá-las um pouco mais cedo, sobretudo na fase de adaptação, durante os primeiros meses. Algumas investigações concluiram que as crianças que passavam mais de trinta horas por semana na escola antes dos 4 anos de idade apresentavam comportamentos mais agressivos e níveis mais altos de ansiedade. Existem também estudos que mostram que, no jardim de infância, os níveis de ansiedade – medidos através de hormonas como o cortisol, na corrente sanguínea – vão subindo à medida que se aproxima o final do dia. As crianças, sobretudo as mais pequenas, não devem estar nove ou dez horas por dia na escola, como tantas vezes acontece.

7. Quando o for buscar à escola procure ter um tempo para estar verdadeiramente com o seu filho, a brincar ou conversar, a restabelecer a ligação da forma que for mais adequada. Se não o foi buscar à escola, e só vê ao chegar a casa procure estar com ele antes de fazer o que quer que seja. Sente-se ao pé dele, ou brinque com ele um pouco. Mostre-lhe que ele é verdadeiramente uma prioridade na sua vida.

8. Antes de irem para a escola, procure acordar com tempo para poderem estar um pouco juntos. É muito imporante restabelecer a ligação com a criança quando ela acorda e facilita muito toda a rotina. Tire alguns momentos para se deitar ao lado do seu filho na cama, ou para se sentar com ele no sofá, para estarem simplesmente juntos. Se fizer isto verá que tudo o resto corre com muito mais tranquilidade e harmonia. Não é que a ligação com os nossos filhos se perca quando estamos separados mas, mesmo assim, é importante reforçá-la sempre depois uma separação como dormir, ou passar um dia na escola

9. Esteja atento aos sinais do seu filho ao final do dia, veja se ele está contente, bem-disposto mesmo que esteja cansado. Oiça com muita atenção tudo o que ele lhe conta e lhe diz sobre a escola, mas observe também a sua linguagem corporal quando ele o faz. Esta é melhor forma de saber se tomou a decisão certa.

10. Se o seu filho chora quando o deixa na escola tente perceber porquê. É natural que a criança não queira sair da sua zona de conforto, daquilo a que está habituada, daquilo que conhece. È natural que haja uma certa resistência a separar-se dos pais para ficar com pessoas que mal conhece. Nem todas as crianças lidam com a mudança da mesma forma e nem todas expressam os sentimentos da mesma maneira.
Tente perceber se o choro pára logo ou se continua ao longo do dia e pergunte aos adultos como é que ele esteve.
Tente também perceber o que sente dentro de si quando o seu filho chora. Se os pais vão muito ansiosos deixar o filho na escola ele sente isso. As crianças são muito sensíveis e absorvem os nossos medos e ansiedades. Por isso, em primeiro lugar, certifique-se que não está, inconscientemente, a transmitir ao seu filho que a escola pode ser um lugar mau com a sua ansiedade ou o seu medo ao deixá-lo lá ficar.
É sempre difícil ver um filho chorar mas é preciso sabermos distinguir o choro de uma criança que está apenas a sair da sua zona de conforto e um choro de verdadeira angústia ou sofrimento.
Os pais são os maiores especialistas nos filhos, por isso o pai ou a mãe, melhor que ninguém saberão o que precisam de fazer para lidar com esse choro. Não deixe que os professores o desvalorizem ou o intimidem dizendo que só tem de se ir embora e de o deixar chorar um bocado. Porque se sair da escola ansioso ou inseguro é isso que irá transmitir ao seu filho no dia seguinte. Por isso fique o tempo que sentir que precisa de ficar para se sentir confortável. Às vezes não são só as crianças que precisam de lidar com os seus medos, os pais também, por isso tente encontrar formas de se sentir mais tranquilo nessa separação. 
Também é muito importante saber como é que lidam com o choro do seu filho. Eu gostei muito de ouvir o educador do meu filho dizer que, na sala dele, estão proibidas frases do tipo: "os outros meninos não estão a chorar, não vês que só tu é que choras'" ou "não és nenhum bebé para estar a chorar". Os sentimentos da criança não podem ser desvalorizados dessa forma e é muito importante que os adultos que vão passar o dia com ela os saibam acolher e respeitar.
Por último, não tenha medo de falar com o seu filho sobre o que ele está a sentir e de lhe mostrar que gosta dele e que quer o melhor para ele. Mostre-lhe que o compreende e que aceita o sofrimento dele e que fará tudo o que for possível para que as coisas se tornem mais fáceis. E, se chegar à conclusão que esse choro não é só de desconforto mas sim de verdadeiro sofrimento então não hesite em pensar noutra alternativa e esperar mais um pouco se vir que o seu filho ainda não está preparado para a escola. 


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Lançamento livro - Mindfulness Yoga - Atenção Plena para lidar com os Desafios

Este não é um livro sobre parentalidade mas o Mindfulness - Atenção Plena, em português - pode ser uma importante ferramenta para nos tornarmos pais mais equilibrados, mais empáticos e mais presentes. É um livro que em procuro explorar e explicar a utilidade deste estado para nos ajudar a lidar da melhor forma com todos os desafios da nossa vida e, ser pai ou mãe, é realmente um dos maiores desafios que podemos aceitar. 
Um dos autores que menciono no livro, Daniel Siegel, tem um trabalho muito interessante na área da neurologia em que explica que o mindfulness pode mesmo activar no nosso cérebro as mesmas áreas que são activadas quando desenvolvemos um padrão de apego seguro com os nossos pais (expliquei aqui o que é o apego seguro e a sua importância). Esta é uma das razões que podem contribuir para o facto do mindfulness ser uma ferramenta tão útil para qualquer pai ou mãe: porque nos pode ajudar a curar muitas feridas da nossa infância permitindo-nos construir uma forma de estar com os nossos filhos mais segura, mais empática e mais receptiva. Porque muitas vezes passamos uma vida a procurar fora de nós algumas respostas que só podem ser encontradas cá dentro. E, muitas vezes também, muitos dos desequilíbrios que vivenciamos nas nossas relações, sobretudo com os filhos, vêm justamente dessas feridas que, por vezes, nem sabemos que existem. Então o mindfulness pode ser uma boa ferramenta para nos ajudar a entrar em contacto com elas e a sarar essas feridas. E, através dessa tomada de consciência pode ser também uma boa forma de construirmos com os nossos filhos uma relação mais equilibrada e segura. 
Para sermos boas mães ou pais também é fundamental que sejamos capazes de nos nutrir. Para sermos capazes de estar verdadeiramente presentes na nossa relação com os filhos e para termos capacidade de lhes dar tudo o que eles merecem e precisam para serem felizes e crescerem saudáveis, precisamos de ser capazes de nos nutrir, de nos cuidar. E criar uma rotina de prática de meditação ou de yoga, como explico no livro, é um óptima forma de o fazermos. 
Na minha vida o mindfulness tem tido um papel muito importante ao longo dos últimos anos e sinto que é de facto uma pedra fundamental no meu equilíbrio como pessoa mas também como mãe. Sinto que é uma prática que me permite estar mais inteira, mais presente, mais empática na minha relação com o meu filho. E por isso não podia deixar de partilhar aqui o lançamento deste livro que acontecerá no final deste mês.
É um livro que explica os benefícios desta prática e também demonstra passo a passo como integrar essa rotina na nossa vida. Assim, deixo aqui o convite para que venha conhecer os benefícios do mindfulness, da meditação e para que use esta prática para enriquecer a sua vida e a dos seus filhos. 
E, porque é sempre bom conhecer quem nos lê, ficarei muito feliz se quiserem aparecer neste dia. 



terça-feira, 2 de setembro de 2014

Os Pais como Espelho dos Filhos

Nos últimos dias de férias uma das coisas que esteve mais presente para mim é a forma como nós, enquanto pais, somos realmente o espelho dos nossos filhos. E a forma como o nosso olhar se irá tornar o olhar que eles terão para eles próprios um dia. A forma como nós os vemos agora será, muito provavelmente, a forma como eles próprios se irão ver um dia. Isto é realmente uma grande responsabilidade e é importante estarmos bem cientes dela na forma como lidamos com os nossos filhos e, sobretudo, na forma como escolhemos gerir e lidar com as situações mais delicadas.


Memória Implícita e Memória Explícita 

Para percebermos como isto acontece é importante termos noção de que existem dois tipos de memórias: a memória implícita e a explícita. A memória explícita é aquela que usamos quando sabemos que estamos a lembrar-nos de algo. Por exemplo, se alguém me perguntar a data de nascimento do meu filho eu sei que preciso de me lembrar do dia e do ano e, mesmo que não saibamos exactamente como se processa a busca dessa informação no nosso cérebro, não é possível não estarmos conscientes de que estamos a levar a cabo essa busca. Então a memória explícita permite-nos armazenar vários tipos de informação sobre nós, sobre a nossa vida e sobre tudo o que nos rodeia e permite-nos também sermos capazes de ir buscar essa informação quando precisamos dela. 
A memória explícita inclui a memória autobiográfica e a memória semântica ou factual. Estes tipos de memória começam a desenvolver-se apenas depois do primeiro ano de vida da criança, sendo que a memória autobiográfica - que nos permite ter uma noção do nosso eu ao longo do tempo e do espaço - começa a estar presente apenas depois dos dois anos de vida. Esta é uma das razões pelas quais é muito difícil termos recordações da nossa vida anteriores a esse período.

A memória implícita é aquela que usamos quando estamos a conduzir, por exemplo. Se esse gesto já está totalmente mecanizado não precisamos de nos lembrar de forma consciente de como fazê-lo, porque ele já faz parte da nossa memória implícita. Enquanto que - se precisarmos de nos lembrar das direcções para o sítio onde queremos chegar - precisamos de ir buscar essas informações à nossa memória explícita interrompendo todos os outros pensamentos para pensarmos especificamente e de forma consciente nesta questão, para continuar a conduzir não precisamos sequer de estar conscientes de que o fazemos porque todos os procedimentos que o permitem já estão armazenados nesta memória implícita que activamos mesmo de forma inconsciente.

As estruturas que possibilitam a memória implícita estão presentes e formadas desde o nascimento, ao passo que aquelas que permitem a memória explícita começam a desenvolver-se apenas depois do primeiro ano de vida.

Isto quer dizer que a memória implícita é algo que está presente desde os primeiros momentos de vida da criança (há quem defenda que pode até estar presente desde o útero) e vai sendo consolidada através de todas as experiências que a criança vai vivendo e que vão, de algum modo, moldando a forma como o seu cérebro e o seu sistema nervoso se desenvolvem.  As experiências - sobretudo as dos primeiros dois anos de vida por ser uma fase de muita receptividade em que o cérebro está em grande transformação - são determinantes para moldar a estrutura cerebral da criança e isto acontece, em parte, através da memória implícita. Porque nesta memória ficam armazenadas todas as expectativas e associações que a criança faz e que se vão transformando em redes neuronais que formam padrões de funcionamento a que a criança pode facilmente aceder. Por exemplo, um bebé cujos pais respondem habitualmente de forma adequada ás suas necessidades cria a expectativa de que pode confiar neles e de as suas necessidades são válidas e costumam ser satisfeitas. Esta é muito provavelmente a razão pela qual estes bebés a partir dos três ou quatro meses de idade costumam ser bebés que choram menos em intensidade e frequência do que no caso dos bebés que não costumam ver as suas necessidades atendidas com regularidade e previsibilidade suficientes para formarem essa expectativa. Porque, se o bebé está habituado a ver as suas necessidades satisfeitas, a sua memória implícita leva-o a construir um determinado tipo de padrão mental mais descontraído que lhe permite lidar de melhor forma com a adversidade quando ela surge. Isto é visível em bebés logo desde os três ou quatro meses - altura em que já é possível verificar algumas diferenças de comportamento em função do tipo de cuidados que os bebés recebem - até à vida adulta em que, os bebés que foram submetidos a um maior grau de stress (com pais que não respondiam às suas necessidades) se tornam adultos com maior dificuldade em gerir o stress nas suas vidas.

Então este tipo de memória implícita forma a base para muitas das nossas convicções, expectativas e formas de nos relacionarmos com os outros, com a vida e connosco mesmos. É através destas primeiras experiências de vida com os os nossos pais que criamos os nossos primeiros modelos de funcionamento do mundo e das relações. E isto cria determinados esquemas mentais que irão moldar a forma como nos relacionamos com todas as pessoas importantes da nossa vida e as expectativas que criamos em relação ao que esperar delas, mesmo que não tenhamos noção disso. Por exemplo, um bebé cujos pais nunca foram capazes de satisfazer as suas necessidades de forma adequada pode crescer com a sensação de que, ou as suas necessidades não são importantes, ou não pode confiar nos outros para as satisfazerem. E, se isto não for trabalhado, este será um dos esquemas mentais que estará sempre presente na base de todos os relacionamentos importantes que a pessoa for vivenciando enquanto adulta.

Porque este tipo de memória não é consciente, não é fácil termos noção da forma como ela nos vai influenciando e, por isso mesmo, também não é um tipo de memória que seja fácil alterar. 
Então a relação que temos com os nossos pais ou com as pessoas que cuidam de nós, através deste tipo de memória implícita e não só, tem de facto um papel primordial no moldar da imagem que vamos criando de nós mesmos sobretudo nos primeiros anos de vida.

Os pais como Espelho 

Nos primeiros anos de vida os pais são as pessoas mais importantes da nossa vida. São aqueles de quem o bebé depende totalmente para sua sobrevivência biológica e afectiva. E são também as grandes referências e modelos que permitem à criança ir construindo o mundo através das memórias implícitas que vai gerando. E o olhar dos pais é também a primeira experiência que a criança tem de se ver a si mesma. Os pais são o primeiro e mais importante espelho das crianças. Porque nenhum de nós existe de forma isolada precisamos sempre de nos ver nos olhos dos outros. Ao longo dos anos, se tudo correr bem, vamos sendo capazes de construir uma auto-imagem mais estável e menos dependente da forma como os outros nos veêm e isto é importante para nos permitir lidar com situações de frustração e até de conflito sem perdermos o centro e a certeza de quem somos e daquilo de que precisamos. Mas, se nos nossos primeiros tempos de vida, não encontrarmos este espelho de forma adequada nos nossos pais, será muito mais difícil desenvolvermos esta capacidade de encontrar esse centro, de saber quem somos, para onde vamos e o que queremos mesmo nos momentos mais difíceis.

Então é fundamental que saibamos ser o espelho dos nossos filhos mas também é muito importante não esquecermos que precisamos de ser um espelho maioritariamente positivo. Porque, se é mau crescermos sem esse sentimento de confiança e de segurança que vem de saber quem somos, é igualmente mau crescermos com uma auto-imagem maioritariamente negativa, que não somos capazes, ou de que somos incompetentes, defeituosos ou maus de alguma forma. E quantos adultos não crescem com este sentimento de que, alguma parte de si, é profundamente defeituosa, negativa? Quantas vezes não crescemos com esta sensação de que, no nosso intimo, lá nas partes mais profundas e escondidas do nosso ser, para onde muitas vezes nem nos atrevemos a olhar, deve haver algo profundamente errado connosco. Quantas vezes não crescemos com esta sensação de que, mesmo lá no fundo no fundo, não merecemos ser amados?

A maior parte das vezes estas não são sensações conscientes. São apenas algo que faz parte da tal memória implícita e que já se tornou parte do nosso esquema mental que nos norteia e orienta mesmo quando não temos noção disso. E muitas vezes gera situações difíceis na nossa vida, nos nossos relacionamentos das quais nem sabemos como sair, nem percebemos porque acontecem. E acontecem simplesmente porque foi esse o espelho que recebemos na infância. Acontecem simplesmente porque interiorizámos o olhar que sentimos que nossos pais tinham sobre nós na altura. E claro que nenhum pai quer dar aos filhos um espelho mau, claro que nenhum pai, no fundo de si, pensa que os filhos são maus ou defeituosos. O que acontece é que, enquanto pais, podemos ter todos estes receios e sentimentos guardados na nossa memória implícita e, se estes nunca forem trabalhados, serão eles que irão guiar também a forma como lidamos com os nossos filhos. E, se eu tenho uma imagem negativa de mim mesma, como mãe, será muito difícil transmitir ao meu filho algo mais positivo.

Na verdade acredito que isto tem muito a ver com uma questão básica e fundamental que está sempre presente na forma como lidamos com os nossos filhos: a confiança. (sobre a qual já escrevi aqui). Se confiarmos em nós, enquanto pessoas, se confiarmos que somos fundamentalmente bons, capazes, competentes e dignos de amor, é mais fácil transmitirmos isso também aos nossos filhos. Mas, se em alguma parte de nós duvidarmos de tudo isto, também é muito fácil transmitir aos nossos filhos essa dúvida por muito que lhes queiramos bem.

Alguns autores defendem que, por razões evolutivas, todos temos alguma tendência para dar mais atenção ao que é negativo do que ao positivo. Porque precisamos de nos proteger dos perigos potenciais é como se o nosso cérebro estivesse programado para estar sempre mais atento a tudo o que possa ser negativo e para que o registe com  mais impacto. Isto quer dizer que, nas nossas interacções com os nossos filhos, tudo o que é negativo - até porque isto tende também a ser expresso com mais vigor e intensidade - tem maior probabilidade de ficar registado. É importante lembrarmos-nos disto para sabermos que, as vezes que transmitirmos, de algum modo, aos nossos filhos uma imagem mais negativa deles próprios precisam de ser sempre em menor número do que aquelas em que lhes transmitimos algo de bom.


Para educar é importante corrigir e temos mesmo que o fazer algumas vezes mas é fundamental que aprendamos a corrigir o erro sem corrigir a criança. Se a criança correu para o meio da estrada, por exemplo, temos mesmo de lhe dizer que não pode voltar a fazê-lo. Mas é importante que procuremos forma de lhe transmitir isso sem a fazer sentir-se desaquada e envergonhada pelo seu comportamento. Por vezes achamos que é envergonhando a criança que a impediremos de repetir algum tipo de comportamento. Mas isto não podia estar mais longe da verdade, uma criança envergonhada é uma criança que não recebe um bom espelho, que aprende que nem sempre é digna de amor e respeito e, com o tempo isto irá minar a sua auto-estima, dificultar o seu controlo dos impulsos e dar-lhe cada vez menos motivos para ter vontade de fazer o que é certo pelas razões certas. Uma criança que tem um bom espelho é uma criança que é capaz de aceitar o facto de ter cometido um erro sem que isso a faça sentir-se posta em causa. Isto dá-lhe a segurança necessária para poder pensar noutras formas de lidar com a situação.

Ser um bom Espelho 

E é importante também saber que ser um bom espelho passa não só por dar uma imagem positiva dos nossos filhos mas também e acima de tudo, dar-lhes espaço para que possam descobrir quem são. Um espelho não cria, não impõe, limita-se a reflectir. Um bom espelho permite que os nossos filhos se descubram no nosso olhar. 

Dar um bom espelho aos nossos filhos implica transmitir-lhes uma noção de aceitação incondicional, uma ideia de que serão amados sejam quais forem as suas escolhas e opções. Um bom espelho passa por não criticar demasiado a criança mas também passa por elogiar excessivamente. Porque, muitas vezes, caímos no erro de usar o elogio como uma espécie de bandeira de uma parentalidade mais positiva. Mas o elogio constante também torna a criança dependente da nossa apreciação e não lhe dá espaço para que possa descobrir-se e conhecer os seus gostos e preferências. Um bom espelho é aquele que reflecte o  nosso olhar de aceitação, de amor incondicional, é aquele em que a criança pode sentir-se sempre segura e digna do nosso amor sejam quais forem as suas escolhas ou comportamentos. É nesse espelho e só com esse espelho que os nossos filhos podem crescer seguros, confiantes e capazes de descobrirem a sua verdadeira natureza.

E este espelho não tem que passar necessariamente pelas palavras mas sim pelos gestos e atitudes. As crianças aprendem mais com o que veêm do que com o que ouvem. O lado esquerdo do cérebro, da linguagem, só começa a desenvolver-se durante o segundo ano de vida mas, antes disso já o direito está em pleno funcionamento. Isto quer dizer que as crianças estão muito mais atentas aos gestos, às emoções e a tudo o que não é dito do que às palavras.

Na prática isto quer dizer que podemos e devemos expressar de várias formas diferentes o nosso amor, o nosso afecto, através de gestos e de atitudes. Por exemplo, se precisamos de corrigir uma criança podemos simplesmente dizer-lhe que preferimos que faça as coisas de forma diferente, dar-lhe alternativas com as quais nos sentimos  mais confortáveis mas dando-lhe também espaço para se manifeste contra essas alternativas se for essa a sua vontade, para que demonstre frustração, para que possamos chegar a algum tipo de acordo, por exemplo. No caso dos elogios e, se estamos mesmo muito contentes com algo que a criança fez, ser um bom espelho passa mais por mostrarmos o nosso contentamento dizendo que estamos felizes, satisfeitos ou orgulhosos mas sem cairmos na facilidade de aplicar logo um rótulo ou adjectivo à criança, como és tão bonito, por exemplo.

As interacções em que o que lhes devolvermos é uma má imagem deles próprios são todas aquelas em que estamos com menos paciência, tolerância, em que tentamos corrigir algo que eles fizeram de forma um pouco mais agressiva ou menos assertiva, todas as vezes em que lhes mostramos que não estamos satisfeitos com eles. Sempre que olhamos para os nossos filhos com impaciência, eles vêem-se como sendo chatos, aborrecidos. Sempre que olhamos para eles zangados porque fizeram algo errado eles vêem-se como incapazes, ou como maus ou desajustados. E as crianças vêem muito mais os gestos e os afectos do que as palavras. As crianças são muito boas a ler mesmo as emoções que não são expressas. Por isso é muito importante que, quando olhamos para os nossos filhos, nos lembremos do amor que sentimos por eles. É importante que deixemos estar presente o amor, o orgulho a felicidade que sentimos cada vez que nos lembramos que aqueles seres fazem parte de nós, do nosso coração, das nossas vidas. É muito importante que os nossos filhos sejam capazes de ver diariamente o brilho no nosso olhar não porque fizeram algo de bom ou de certo mas simplesmente porque são nossos filhos, simplesmente porque os amamos.

É fundamental que os nossos filhos cresçam com um espelho que lhes mostra que são capazes, competentes e dignos de ser amados. E, para que esse espelho aconteça é fundamental que não nos esqueçamos disso mesmo nos momentos mais difíceis. É muito importante que as crianças leiam nos nossos olhos essa aceitação e amor incondicionais de forma constante.

E, sempre que houver algum tipo de interacção que nos faça sentir que não transmitimos um bom espelho aos nossos filhos também é importante sermos capazes de o corrigir. Se gritámos, por exemplo, ou dissemos algo que não queríamos ter dito é importante dizer à criança que o fizemos não por causa dela, mas por nossa causa. Porque não soubemos fazer melhor naquele momento, não porque ela o mereceu mas apenas porque nós não fomos capazes de fazer diferente.